PRESENTED TO
THE LIBRARY
BY
PROFESSOR MILTON A. BUCHANAN
OF THE
DEPARTMENT OF ITALIAN AND SPANISH
1906-1946
CAROLINA MICHAELIS DE VASCONCELLOS
ESTUDOS
SOBRE 0 ROMANCEIRO PENINSULAR
ROMANCES VELHOS EM PORTUGAL
^ÍP^
**>*
Publicados en la Revista
■ CULTURA ESP.A.£TOI_iA»
MADRID, 1907-1909
tTmprenta Ibérica. <le Kstanislao Maestro. Posas, 12, Madrid.
Aos
FUTUROS E DEFINITIVOS APURADORES
DO
ROMANCEIRO GERAL HISPANO-PORTUGUÊS
RAMÓN MENÉNDEZ PIDAL
MARIA GOYRI DE MENÉNDEZ PIDAL
E
JOSÉ LEITE DE VASCONCELLOS
ADVERTÊNCIA PRELIMINAR
No meu Escorço de Literatura Portuguesa (em Groèber'i
Grundriss IIb ), escrito ha quasi vinte anos, tratei naturalmen-
te dos romances tradicionaes d'este país. O parágrafo inteiro
(§ 21), mas sobretudo certa Nota, relativa a uns sessenta tre-
chos de romances velhos, citados em castelhano em obras li-
terárias portuguesas do século xvi, mio passou despercebida
ao ilustre letrado que, depois de haver lançado luz intensa —
em estudos relativos aos Infantes de Lara, Mio Cid, Fernan
Gonzalez, o Abade de Montemor — sobre a poesia épica na Pe-
nínsula, passou a preparar nova colecção de Romnnces primi-
tivos .
Na primavera de 1907 manifestou-me o desejo de conhecer
aqueles trechos, e franqueou-me para o respectivo artigo as
páginas da Cultura Espafiola, revista em que acabara de pu-
blicar o importante Catálogo dei romancero judio-espaflol.
Accedi de boa vontade, calculando que em poucas folhas
caberiam as minhas observações, bem desenvolvidas. Engano
grosso. Em Maio remetia ao meu excelente amigo a Parte
principal, precedida de breve Introdução, em que julguei de-
ver resumir as ideias hoje prevalecentes sobre o assunto: ao
todo cento e vinte páginas. A impressão foi morosa e mesmo
interrompida— estendendo-se de 1907 a 1909 pelos Nums. VII
a XV. — Por isso tive de acrescentar Notas complementares,
antes de tirar conclusões finaes.
O mérito de haver suscitado a palestra pertence pois a
D. Ramón Menéndez Pidal. A culpa de haver enfadado com
excessivas minuciosidades é minha, exclusivamente.
Pedindo perdão, consolo-me, pensando com Séneca, que
Doando discirnas. E também: Quis leget haec/ melancolica-
mente, como outro filósofo romano.
Carolina Michaelis de Vasconcellos.
Torto. Dezembro de T.)0í).
I2STDIOH3
Pàg*.
Dedicatória. ih
Advertência v
I Introdução. 5
II Referenciais a Romances Velhos em obras de autores por-
tugueses. 25
A Romances relativos á história e á tradição histórica
de Hespanha:
I El Rei Rodrigo (1). 25
II Bernardo do Cárpio (2). 31
III Fernão Gonzâlez (3-5). 35
IV Infantes de Lara (6 7). 39
V Cid Ruy Diaz de Vivar (8-27). 1 1
B Outros romances históricos:
VI Inês de Castro (28-29). 66
VII Alfonso V de Aragão (30). 71
C Romances fronteiriços e mouriscos:
VIII Caballeros de Moclin (31-32). 76
IX Moro Alcaide (33). 77
X Rei Chico de Granada (34). 7!»
XI Mestre de Calatrava (35-36). 80
XII Moriscote (37). 81
XIII Mis arreos son las armas (38-39) 81
D Romances de Cautivos e Forçados:
XIV Moriana e Galvan (40). !H
XV Zaide(41). <jl
XVI Mi padre era de Ronda (42). 92
XVII Dragut (43). 93
ÍNDICE
Paga.
E Romances do ciclo carolíngio:
XVILI Roncesvales.— Guarinos. — D. Beltrão
(44-51). 94
XIX D. Alda (52). 101
XX Gaiferos (53-57). 102
XXI Valdevinos (58). 10!)
XXII Marques de Mantua (50 60). 111
XXIII Oalainos (61-63). 115
XXIV Montesinos (64-65). 117
XXV Durandarte e Belerma (66-67). 118
XXVI Conde Claros (68-71). 125
F Romances do ciclo bretónico e de livros de cava-
larias:
XX Vil Lançarote (72). 133
XXVIII D. Duardos e Flerida (73-76). 133
G Romances de assunto clássico e bíblico:
XXIX Hero e Leandro (77). 155
XXX Troya (78). 155
XXXI Nero (79-80). 156
XXXII David (80 h e •). 160
H Romances novelescos:
XXXIII Conde Alarcos (81). 161
XXXIV Silvana (82). 163
XXXV Infantinha (83). 165
XXXVI Donzela- varão (84). 167
XXXVII Tiempo es, el caballero (85). 169
I Romances líricos:
XXXVIII O desastrado (86-87). 170
XXXIX A Rola-viuva (88-89). 173
XL O Prisioneiro (90). 177
XLI Maldita seas ventura (91). 181
XLII Ptacer no sabe de mi (92-94). 183
XUI1 Tiempô bueno, tiempo buenofâô). 183
XLIV La bétta vial-ma vidada (96). 188
J Romances em versos pareadosí
XLV Maldiyões de Salaya (97). 199
ÍNDICE
Págs.
K Romances não identificados:
XLV1 Os Xaboneros (98-100). 201
XLVII Varias citações, contidas em Cartas
(101-108). 203
XLVIII Outras, tiradas de dramas portugue-
ses (109-114). 205
XLIX Yo le daria, bel conde (115). 206
L Diversos, em redacção castelhana
(116-118). 207
LI Diversos, em redacção portuguesa
(119 12 IV 208
III Notas e observações complementares. 211
Referências a romances em geral (122-127). 220
Romances artísticos de autores portugueses (128 129). 228
D. João Manuel (130). 234
D. João de Meneses (131-132). 240
Autores das citações registadas nas Partes II e III:
Nuno Pereira (133). 249
Jorge da Silveira (134). 252
João da Silveira (136) 253
Pêro Moniz (137). 254
Garcia d' Albuquerque (137). 254
D. João de Sousa e Ruy de Sousa (138). 254
Pedro Homem (139). 255
Fernão da Silveira (140). 256
D. Pedro de Almeida (141). 257
D. João Rodríguez de Sá e Meneses (142). 258
Garcia de Resende (143). 259
Gregório Alfonso (144). 260
Bernardim Ribeiro (145). 261
Cristo vam Falcão (146). 265
Gil Vicente (147). 270
Jorge Ferreira de Vasconcellos (148). 271
Baltasar Diaz (149). 275
Alguns Seiscentistas (150-151). 277
Trovas de escárnio e maldizer (152). 281
IV Becapitulação e Conclusões. 285
Estatística (153-157 . 285
Cronologia (158-169). 291
Vias de transmissão (170-171). 305
4 ÍNDICE
Vkgfi.
O Problema musical (172). 306
O Problema linguistico (173). 318
O castelhano, linguagem épica dos Peninsulares (174-17!)). ML'l
Índice dos versos de romances. :;:>7
Índice alfabético dos romances citados. 341
índice de nomes e coisas. 351
Erratas essenciaes. 365
=5^2=
Estudos sobre o Romanceiro peninsular
(i)
Romances velhos em Portugal.
I
lXTKODUeãO
E colhendo da tradição oral as composições narrativas em
octonários (ou senáriosi duplos, assonantados, que ainda hoje
se cantara, mais como acompanhamento de fainas agrícolas
do que no ócio dos dias santos e de festa, nas diversas terras
onde se fala a suave língua de Camões, que os Portugueses
continuam a colaborar na reconstrução definitiva do admirá-
vel Romanceiro Hispânico,
Falta todavia uma coisa para lazer frutificar este labor:
• i solidariedade indispensável com os eruditos que em Hes
panha estáo trabalhando na magna empresa, com suma perí-
cia e grande felicidade, bom método scientítiro e critério ele-
vado e sagaz. Os progressos surprendentes (pie além das
fronteiras se fizeram, no último decénio, neste, ramo de estu-
dos, passaram quasi despercebidos (2)entre noa queixa a que
(i) Com o mesmo título publiquei, ha tempos, um ensaio na Revista Lusitana
(Vol. II, 1890), bipartido. Outro, também duplo, em alemão (Rotnanzenstudicn)
apareceu na Zeitschrift fúr Romanische Philologie (Vol. XVI, 1891).
(2) Claro está que T. Braga não desconhece a obra de Milá y Fontanals,
nem a de Menéndez y Pelnyo e dos irmãos Menéndez Pidal (I). Ramón e 1». Juan),
nem tao pouco os trabalhos de Caston Paris c Alfr. Jeanroy. Mas, acostumado
a caminhar só, sem dar ouvidos á critica, não lhes liga a importância devida nem
abandona o seu ponto de vista, estrictainente português. Acolhe, factos inne-
gáveis; regeita, porém, as consequências, sempre que elas suo contrárias ás
próprias ideias.
CAROLINA MICHAÈL18 DE VA8CONCELL08
03 Portugueses podiam, infelizmente, replicar, dizendo que
também os escritores castelhanos não estão ao facto de tudo
quanto aqui se passa (1).
As obras principaes em que os iniciadores do movimento
folklórico em Portugal e seus sucessores imediatos reuniram
de 1851 a 1883 as relíquias preciosas de um passado longín-
quo, ora com profundo sentimento artístico, sanando arbitra-
riamente defeitos de memoria, ora recolhendo com rigorosa
fidelidade sem pestanejar textos lastimosamente deturpados
durante a transmissão secular, sem o dispêndio suficiente de
esforços pertinazes para encontrar um relator mais bem do-
tado— os Romanceiros portanto de Aimeida-Garrett, Teófilo
Braga, Estácio da Veiga, Victor Hardung, Rodríguez de
Azevedo, Sílvio Romero, foram aproveitados modernamente
com generoso carinho pelo sapientíssimo reeditor da Prima-
vera y Flor de Romances (2), tanto nos Apêndices com que
augmentou consideravelmente a colecção fundamental de
Wolf, como no Tratado magistral que lhe serve de comen-
tário (3).
O genial continuador da obra crítica de Milá y Fontanals
não recorreu comtudo aos materiaes que, de 1883 em diante,
foram acumulados em cancioneiros musicaes (4) e em revis-
(i) No 8ustancial Tomo I da nova Biblioteca de Autores Espanoles.' Origenes
de la Novela (Madrid, 1905) notei com pesar, a insuficiência das relações entre os
letrados portugueses e 05 castelhanos. Seria bom, que a Cultura EspaSola
sanasse o mal, anunciando e extractando publicações portuguesas , dignas de
atenção.
(2) F. \Volf já dera, de resto, a devida atenção aos textos de Aimeida-Garrett,
tanto na Primavera como nas Proben portugiesischer und catalanischer Volksro-
manttn (Wien 1856).
(3) A edição de Wolf (Berlin, 1856) constava de dois volumes (I de 357 pá-
ginas, II de 432). Não posso verificar se a data é 1856 (como creio) ou 1850.
A de Menéndez y Pelayo consta de cinco volumes: três de textos, e os últimos dois,
do Tratado de los Romances viejos (Antologia de Poetas Líricos Castellanos voll.
VIII- XII, Madrid 1899- 1906). No volume III, composto de um suplemento de Ro-
mances Populares recoçidos de la Tradición Oral, e no Tratado ha referências cons-
tantes ás Colecções dos autores portugueses nomeados no texto, e a mais um
(F. A. Coelho) que publicou vários romances na Romania (II) e na Zeitschrift (III).
(4) V. Cancioneiro de Músicas Populares, publicado por Gualdino de Campos e
César das Neves. (Porto, 1891-1896).
ROMANCES VELHOS
tas folklóricas, literárias, e filológicas (1), ou já agrupados em
colecções restrictas, mas independentes (2).
Esta lacuna será, por certo, preenchida pelo seu conti-
nuador D. Ramón Menéndez Pidal, o futuro reconstructor e
historiador do Romanceiro Geral Hispânico, isto é: de todos os
textos, verdadeiramente antigos e dos tradicionaes sobrevi-
ventes que d'eles derivam, em tição castelhana, portuguesa,
catalã, ou híbrida, quer no continente ou nas ilhas oceânicas
e mediterrâneas, quer além-mar, nas terras descobertas, con-
quistadas e povoadas por Hespanhoes e Portugueses, quer
entre os Judeus de Levante e de Marrocos, expulsos da Pe-
nínsula na época da maior eflorescência dos romances.
Verdade é que temas velhos e profanos, ainda náo repre-
sentados na tradição oral, náo sáo frequentes nos aludidos
materiaes suplementares (3).
< ) apregoado sabor arcaico, e aquela pureza genuína que
a princípio surprendia e encantava os apreciadores estran-
geiros, iludidos pelos romances que Almeida Garrett havia re-
(i) Retiro-me aos volumes da Romaniá e da Zatschrift posteriores a 1883; mas
especialmente a publicações inteiramente portuguesas como a Revista Lusitana
lincyclopédia Republicana, Revista de (,'uimarães, Revista do Minho, Trádiçúo
Portugália, mas também á Revue Ilispaniqne. Bastará nomear como contribuintes
T. Braga, F. A. Coelho, Consiglieri-Pedroso, Leite de Vasconcellos, Reis Dâ-
maso, Tomas Pires, Pedro Fernández Thomaz, C. M. de Vasconcellos, [. J. Nunes ,
Athaide d'01iveira, Abade J. A. Tavares.
(2) Temos p. ex. o Romanceiro Portuguez de Leite de Vasconcellos (1886. No<
121 da Rildiotheca do Povo) com 43 composições; e o Romanceiro e Cancioneiro d«
Algarve (Lição de Loulé) de Athaide d'01iveira (Porto 1905) com trinta romances
em versão nova (na Parte I). O importante Romanceiro do Uemtejo àn Tomas Pi-
res por 01a não saiu em volume. — Em breve teremos ainda um pequeno mas va-
lioso Romanceiro de Bragança, coleccionado por José Daniel Rodríguez, que a
meu ver, se compõe de decalcos bastante Heis, embora abreviados, de textos as-
turianos, talvez de introdução recente, a não ser que no Romanceiro da Uali:a de
Victor Said Armesto, também anunciado, se encontrem limões ainda mais intima-
mente relacionadas com os de cá.
(3) Entre os de Bragança c os que o Abade José Augusto Tavares colheu em
Maçores, Ligares, Vinhacs e outro3 lugarejos transmontanos (Rev. Luí. VIU
diversos de que ainda não se conheciam representantes portugueses, p. ex.o dfl
rrana de la Vera, Entre os açorianos, o de Floresvento, descoberto também eru
Tras-os Montes por Leite de Vasconcellos, com o titulo de Cruehuuto (o qual con-
CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
tocado com gosto tão delicado, deixaram também de ser o ca-
racterístico real e privativo dos romances de cá: tantas b&o
versões e variantes incompletas e rebaixadas, descone
e deturpadas, quanto á forma e á essência; tantas e de tal
ordem são os vulgarismos modernos que se infiltraram nos
textos; tal é também a contaminação e fusão com assuntos
análogos. Tão perfeitas e abundantes são, pelo outro lado, as
versões castelhanas, recolhidas recentemente com arte e ha-
bilidade digna de aplauso, em regiões onde ninguém as suspei-
tava, em parte já publicadas integralmente (1), em parte só
catalogadas (2), em parte prometidas para breve (3),
Mas ainda assim, os textos suplementares de Portugal são
contribuições de grande valor, pois constituem mais de uma
vez o laço, procurado de balde, entre diversas redacções do
mesmo romance, e demonstram frequentemente ad óculos
como é que a gente-povo deteriora e vulgariza verdadeiras
sidero como descendente legítimo de Chlodovinc), ainda nào surgiu nos territórios
castelhanos — que eu saiba. — Talvez baste esta lembrança para ser descoberto
e acrescentado á lista dos Romances que cUben buicarse en la Tradición Oral,
elaborada com fins prácticos por D.a Maria Goyri de Menéndez Pidal (Madrid, 1907,
na Revista de Archivos). — Os romances sacros ainda não estão bem estu-
dados.
(1) Refiro-me á bela Colecciôn de los Viejos Romances que se canta n por los
. Isturianos en la Danza-Prima, Esfoyazas y Eilandones, recogidos directamente de
boca delpueblo, anotados y precedidos de un Prólogo, por Juan Menéndez Pidal (Ma-
drid, 1885). Ela entrou já, quasi inteira, nos Suplementos da Primavera.
(2) Vid. i.° Ramón Menéndez Pidal, Catálogo dei Romancero Judío-Espanol
(Madrid, 1907), publicado nesta Revista. Os textos, coleccionados com esmerado
bom-gosto por José Benoliel, são de importância excepcional, tanto pelo seu
grande número (143 romances diversos) como pelos assuntos, c em grande parte,
pelo seu estado de conservação. —2. ° Romances da América do Sul, colhidos por
K. Menéndez Pidal, e impressos no No. I da Cultura Espanola. — 3.0 Narciso
Alonso A. Cortes, Romances populares de Castilla (Valladolid, 1906), 93 composi-
ções, só das províncias de Burgos e Palencia.
(3) Além do Romanceiro da Galiza, mencionado a p. 769, nota 2, temos de
contar com mais um Romancero de Castela da gentil esposa de D. Ramón, a qual
ja deu provas do afinco e do excelente método com que trabalha neste campo, nas
Rtgrat a que aludi, assim como em amostras publicadas no Bulletin Hispanique
(Tomo VI, 1904). —P. S. do redactor: No publicará romancero especial de Cas-
tilla, sino que ambos seremos coautores dei Romancero general espanol.
ROMANCES VELHOS
obras de arte, sempre que imo haja circunstâncias peculiares
(|tie as preservem do estrago (1).
Dentro em breve será, comtudo, fácil para os estrangei-
ros, estudá-los comparativamente, visto que Teófilo Braga
acolhe todas as lições até hoje impressas, e mais algumas iné-
ditas, na nova edição do seu Romanceiro Geral Portugue
(duas vezes maior que a primeira). Um volume (2) já saiu.
Bom seria que todos os folkloristas aproveitassem este ensejo
para revistar os seus cadernos, e imprimissem as parcelas que
ainda sáo novidade (3), se p. ex. o Sr. José Daniel Rodríguez
náo tardasse em tornar público os romances brigantinos que
teve a bondade de me mandar mostrar, ha pouco (4), e se em
regiões ainda mal exploradas se procedesse a investigações
metódicas, para de vez se esgotar o assunto.
Xáo é de romances tradieionaes, tornados portugueses por
direito de conquista, e por ora desatendidos em Castela, que
(i) Entre os romances judeus e os da América do Sul ha também bastantes
que estão viciados.
(2) Lisboa, Manuel Gómez, 1906. — O volume abrange apenas 29 romances,
entre heróicos, novelescos e de aventuras, mas em 232 lições diversas. Eles apa-
recem ahi repartidos em quatro ciclos: odyssalco ou atlântico (as moças de cântaro
das fontes portuguesas são equiparadas á Nausicaa de Homero); scandinavo~ger-
mánico, car/ingio, arthuriano. -As refundições ou versões compósitas de Almeida-
Garrett, e as menos artísticas, mas não mais fidedignas de Estácio da Veiga, n&o
estão marcadas com qualquer distintivo. Nem se indica o nome do respectivo co-
leccionador. Os títulos, escolhidos com bastante Uberdade, não condizem cm to-
dos os casos com os usuaes. Quem procurará p. cx. sob o título de Tristes Movas o
romance relativo ao Duque de Alba, incorporado, de mais amais, num grupo
scandinavO-germánicQt
(3) Em 1886 Leite de Vasconcellos (Rom. p. 12) declarava possuir algumas
centenas de romances. A's minhas reiteradas i.istáncias de as publicar, respondeu
ultimamente: «Tenho efectivamente algumas centenas de romances, mas não s<- i
quando os poderei publicar, porque desejo refundir as Tradições Populares (tenho
já o dobro) e transformar o meu primitivo plano em outro. Só então saiu o os ro-
mances. Mas o que cu tenho são variantes dos já conhecia novo, creio que
não terei naila».
(4) 1'. S. A publicação começou agora mesmo no Instituto de Coimbra (Vol. 54'
fase. 6.) sob o título de Rontantas.
10 CAROLINA MICHAÉLIS DE VA8C0NCELL0S
vou oeupar-me agora, num como apêndice ás lúcidas obser-
vações compendiadas na Antologia. Nem falarei das numero-
sas frases-feitas, de origem épica que são neles empregadas a
miude, quási mecanicamente, como lugares-comuns (1). Nem
tão pouco tratarei dos motivos mais complexos, em regra de
carácter lírico, que caíram em graça e vaguearam e va-
gueiam soltos, desprendidos também de romances velhos, (a
que originariamente pertenceram, segundo opiniões autori-
zadas), sendo aplicados pela musa popular a casos afins ou
opostos, ora como parte integrante, ora como mero incidente
decorativo, e algumas vezes transformados em cantigas (2).
Tudo quanto se relaciona directamente com taes textos por-
tugueses de hoje fica de reserva.
Pequenos trechos de romances castelhanos, citados em cas-
telhano (mais ou menos castiço), ou traduzidos por autores
quinhentistas e seiscentistas de Portugal, que os intercalaram
como intermezzo musical em peças teatraes, ou os aproveita-
ram como enfeites, nessas e em outra3 obras literárias; alu-
sões singelas a assuntos, situações ou protagonistas determi-
nados; arremedos (contrafacões = contrahechuras) de alguns
romances muito sabidos; trovas e glosas de composições intei-
ras, ou de fragmentos de romances; paródias burlescas; o
emprego proverbial de nomes-proprios e de hemistíquios-
alocutivos; finalmente, algumas anecdotas que se ligam a esses
romances velhos — eis o tema de que me ocupo .
Encaro essas notas como outros tantos documentos do
gosto com que os Portugueses haviam acolhido, no século xv e
em princípios do imediato (não só por causa da música, com-
quanto a essa caiba seguramente parte muito considerável
na sua aceitação) as canções narrativas, chamadas castelha-
(i) Clemencín, nas Notas ao D. Quixote, Milá na sua obra nunca assaz louvada
sobre a Poesia Herolco-Popular Castellana (ed. 1874, p. 369-393), e resumida-
mente o autor da Antologia (XIÍ, 359 ss), já chamaram a atenção para essas repe-
tições. Restringiram-se todavia ao ciclo carolingio, onde são muito frequentes, e
aos textos castelhanos impressos.
(2) Em alguns casos póde-se admitir, porém, que são anteriores á eflorescên-
cia dos romances, e já faziam* parte do Cancioneiro nacional, antes de entrarem
ein cantares épicot,
ROMANCES VELHOS
nas por antonomásia, porque são a criação e manifestação
mais perfeita da heróícaalma peninsular. Da difusão que pala-
cianos ilustrados lhes deram nos reinados de D. João II, D.
Manuel, D. João III e D. Sebastião, tirarei no fim conclusões
sobre as fontes d'onde provinham, o modo provável como
transmigraram, e sua progressiva nacionalização. Quanto ás
conjecturas, nem sempre novas, que junto, sobre a parte que
os Portugueses teriam na elaboração, não de romances he-
róicos, mas dos épico-líricos sobre temas universaes, bem sei
que ainda precisam ser muito ponderadas e ventiladas, antes
de serem reconhecidas como plausíveis.
* *
O tema não é novo em absoluto.
Almeida-Garrett apontou três ou quatro referências a ro-
mances castelhanos (1). Comquanto não explorasse impressões
antigas (2), reconheceu a evidente derivação de alguns cantares
tradicionaes, como os de Roncesvales e Gaiferos. Ficou, po-
rém, em dúvida sobre as origens, sempre que a versão, por ele
apurada, lhe parecia superior á castelhana. E tinha em conta
de indígenas, inteiramente portuguesas e absolutamente popu-
lares todas aquelas de que então se ignoravam as correspon-
dentes castelhanas. Ilusão patriótica que não é estranhável
num poeta romântico da primeira metade do século xix, que
foi o primeiro descobridor d' essas riquezas populares, quando
o enorme fundo tradicional, desencantado agora no reino
vizinho e suas antigas colónias e dependências, estava longe
de ser revelado; nem estavam assentes as leis geraes, e fac-
tos principaes da história das literaturas românicas que ge-
rações de investigadores apuraram pouco a pouco, á força de
trabalho filológico persistente.
Teófilo Braga, que entrou na liça depois de Milá y Fonta-
nals, F. Wolf e Gaston Paris (3) haverem sondado o terreno, e
(1) V. Romanceiro. II, 105; III, 73 e 139. Cfr. F. Wolf Proben, p. 71.
(2) Os únicos Romanceros que cita, são os de Duran, Depping, Ochoa.
(3) Refiro-nie aqui exclusivamente á Histoire Poétitjue de Charlemagne (Pa-
ris 1865).
12 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
estudou o folklore português c a literatura pátria dé modo in
com paravel mente mais complexo, reparou, Dão de vez mas
gradualmente, conforme as suas leituras Be iam multipli-
cando, nas menos escondidas referências a romances ca
lhanos 'li. Repetidas vezes falou do fenómeno, de L867 em
diante. Nunca juntou, comtudo, sistematicamente, a docu-
mentação completa, com datas e pormenores, porque ao seu
génio, amigo de altos e desimpedidos voos, repugna atendei'
a minúcias e proceder a estudos demorados sobre pontos mi-
núsculos, rasteiros. E se a princípio, em rectificação cons-
ciente e conscienciosa das teses de G-arrett, pus as vezes
em realce a origem castelhana deste ou d' quell' outro ro-
mance, de modo que sugerisse ao leitor a conclusão geral, ago-
ra na i3.a edição, reescrita, da Historia da Poesia Popular Por-
tugueza, creio quede propósito nem sequer a enuncia clara-
mente, por se haver tornado muito mais nacionalista que p
predecessor.
No volume cujo sub-títulò é Os Cyclos Épicos* £), destinado,
por tanto, a servir de Introdução ao Romanceiro Geral, encon-
tra se, na verdade, uma lista ampliada de citas de romances
castelhanos (3). Das premissas eloquentes, nela contidas, não
(i) Eis as publicações mais importantes em que se ocupou do assunto:
1867 Historia da Poesia Popular Poriugueza (p. 23-36 e 137 ss).
1 867 Romanceiro Geral (Notas íinaes).
1868 Floresta de Vários Romances (p. XXXI ss e 21 1-2 12 ).
1870 Introducçào (p. 282-285).
1870 Vida de Gil Vicente c sua escola (passim).
1875 Manual {$. 212 ss).
1885 Curso (p. 203 e 214 ss).
1889 Círculo Camoniano (vol. I, p. 37-143-206 ss .
1898 Psclioln de (,il Vicente (2.a ed. passim).
1905 Historia du Poesia Popular Portweucza. (Vid. a nota imediata.)
(2) Especialmente nos capítulos sobrescritados: A Canção Narrativa (p. 377-
393) e A Canção Bailada (p. 411 e 415), subdivisões de uma secção entitulada
Século X\ '/.' A Corte e a influencia castelhana na Poesia Popular. Outros apon-
tamentos encontram-se em A Canção l.yrica (p. 319-376) e O Typo dos Roman-
ces I 'elhos '. p. 199-250).
(3) Nem todas as indicações foram transcritas com rigorosa exactidão. Na
sua grande laboriosidade, T. Braga evita recorrer sempre de novo ás fontes. Por
isso perpetua erros antigos, e incorre em outros novos.
ROMANCES VELHOS
se inferem todavia, como já disse, consequências lógicas.
Xa síntese total sáo esquecidas, como se a influência caste-
lhana fosse un factor tardio e insignificante, que em nada
elucida sobre as origens. O interesse superior que ao historia-
dor nacional inspiram os problemas antropológicos e socioló-
gicos; o modo como pensa a respeito das origens étnicas,
advogando una serie de arrojadas suposições: o excessivo
valor histórico, assim como a nimia idade, que atribuo á
poesia popular, supondo que os textos metrificados (de -que
temos vest ígios só do século xv para cá), persistem ha muitos
•óculos na tradição oral, inhibem-no de reconhecer em geral a
unidade da civilização portuguesa e hespanhoia. e em parti
cular a génese í\,>* romances castelhanos.
Ku também já toquei ao assunto, ocasionalmente.
Primeiro em 1890, ao ensaio acima mencionado'!'. Ex-
pondo as relações íntimas que ha entre alguns romances
colhidos na província de Tras-os-Montes, por Leite de Vas-
concellos, e os coligidos nas Astúrias, por Munthe e J. Me-
néndez Pidal. notei com pesar, quanto os de cá (reproduzi-
dos com rigorosa probidade, mas da boca de relatores muito
medíocres , sáo informes, barbaramente deturpados por meio
de omissóes. e introdução de elementos vulgares, e os de lá de
grande vigor poético e elevação moral, relativamente puros e
Completos, mais ainda do que os portugueses das Ilhas, ape-
sar da acção conservadora que a longa incomunicabilidade
geográfica ahi exerceu.
No ano imediato analisei o romance do Cíd que principia
Belo helo por do viene el moro por la cal zoila (2). Meu intuito
era mostrar (pie, sendo o mais popular entre todos os histori-
eis (pois anda na tradição oral da Catalunha, do Algarve, dos
(i) Revista Lusitana II 156-179 e 193034o: Estudos sobrt o Romanceiro Pe-
ninsular.
(2) Zeitschrift XVIp, 40-X9, Romantenstudien , /. Geschichte einer alten ( id-
r ornai
CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCÊLLUS
Açores, e da Ilha da Madeira) (1;, e ao mesmo tempo um doe
mais primitivos, qualificado até, em princípios do século xvi,
pelo glosador Francisco de Lora de «mais velho» de todos
quantos conhecia, não deriva ainda assim dos cantares de
gesta, nem tâo pouco das suas prosificaçôes em Crónicas anti-
gas (2). Composto de três composições avulsas, combinadas
por algum juglar ou cantor do povo, uma das quaes tem ca-
rácter fronteiriço, i.é bastante novelesco, briga com as teorias
de Milá.
Simultaneamente (3) esbocei a história de um motivo an-
tigo muito fecundo, de carácter lírico: o morrer de amor e
como consequência, poética comquanto nefasta, o enterro das
vítimas em terreno não- sagrado. Fazendo parte do romance
da Bella mal-maridada (4),decantadíssimo na segunda metade
do século xv, entrou posteriormente numa dúzia de roman-
ces diversos de aventuras novelescas e amatórias, que quási
todos ainda vivem na memória do povo, e anda avulso no
Cancioneiro Popular, ao qual talvez pertencesse de nas-
cença (õ).
Esses dois casos (e outros análogos que tinha era mente) (6)
julguei-os típicos para os processos da poesia tradicional. Por
isso atrevi-me a deduzir d'eles teses a respeito da prioridade
não só da arte lírica popular, mas também dos tomas nove-
lescos sobre os históricos, e a respeito da fusão frequente de
motivos curtos e soltos. E porque Portugal tem parte impor-
(1) Entre os romances que posteriormente vieram á luz não há nenhum que
conste das três partes em que julgo dever decompô-lo; o primeiro, isto é a queixa
do rei mouro sobre a perda de Valência, é memorado também entre os Judeus
de Tânger, conforme se verá mais abaixo.
(2) A última palavra será dita, provavelmente sem muita demora, pelo mais
abalizado conhecedor tanto das Crónicas como dos Cantares, o tantas vezes citado
director da Secção de filologia e historia literária d'esta Revista.
(3) Zeitschrijt XVI p . 397-421: Romanzenstudien II: Quem morre de mal de
amores — não se enterra em sagrado.
'4) Pelo meno9 no texto impresso por Sepúlveda em 1551.
(5) Na Nota relativa kBella mal-maridada apresentarei alguns materiaes novos,
(6) Ainda ha outro romance do Cid que parece constar de duas partes, de ín-
dole diversa. Mas como não existe senão numa lição, não se presta a servir de
material ilustrativo.
ROMANCES VELHOS IS
tante na evolução dos temas examinados, juntei conjecturas
sobre os elementos com que este país contribuiria para o Ro-
manceiro peninsular.
Não tardei, porém, em reconhecer que exemplificação
tão escassa equivale á apresentação de meras excepções á
regra. Insuficiente para invalidar a teoria tão solidamente
fundamentada de Milá sobre a derivação directa dos roman-
ces primitivos I históricos i dos cantares de gesta castelhanos,
Berve, quando muito, para modificã-la nos accessórios (1).
Pouco depois, ao traçar um quadro resumido da poesia tra-
dicional portuguesa, ainda segui a mesma orientação (2).
Dedicando interesse e simpatia igual a Hespanha, Portugal e
! 'atalunha — essa unidade tripartida, — familiarizada de um
lado com as ideias nacionalistas de T. Braga, e pelo outro
com as doutrinas castelhanas de Milá e seus discípulos, em-
penhei-me em determinar os elementos com que cada nação
concorreu para a formação da literatura, e em vindicar para
os descuidados e perdulários habitantes da praia occidental
tudo quanto de direito lhes pertence.
Naturalmente ti vede acentuar a precedência e supremacia
lírica dos galego-portugueses, e a épica dos castelhanos. Ca-
racterizando o romanceiro de cá como mera ramificação do
tronco plantado em Castela, dei a devida importância ao facto
de todos os cantares narrativos, citados desde o último quartel
do século xv por autores portugueses, o serem na linguados vi-
zinhos (com poucas excepções), e não em lição idiomática; e ao
outro de os tradicionaes haverem conservado até o dia de hoje
vestígios linguísticos da sua origem estrangeira. Apesar d'isso
tentei novamente segurar ao povo português, além daglóriade
haver nacionalizado numerosos textos alheios, uma parte na
(i) A minha análise que hoje julgo incompleta, impressionou ainda assim 01
entendidos. No Journal d,'s Savants (Mai-Juin 1898), num artigo crítico La Legende
■ nfants de Lara, Gaston Paris fez judiciosas observações. E Menéndez Pelayo
confessa (Antologia XI p. 360) que o romance Helo helo nâo tem explicação den-
tro da teoria de Milá, obrigando-nos a admitir a elaboração de romances soltos
dentro dos ciclos históricos.
(2 ■ Getchichte der portuçiesischen Literatur em Oroe/>er's Grtmdrisjt í/b, Vid.
p. 145-160.
CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
elaboração de romances ópico-lírieos sobro tomas novelos*
comuns aos povos cultos da Europa. Sc ha lindos romances
castelhanos de D. João Manuel, Gil Vicente, .Jorge de Monte-
mor, glosas de António López de Trancoso, Diogo Garcia de
Bragança, Gabriel de Saravia, etc; e se ha romances portu-
gueses, contemporâneos, do mesmo Gil Vicente, de Bernardim
Ribeiro, Jorge Ferreira de Vasconcellos, Francisco Rodrí-
guez Lobo, etc, etc, porquê mio ha de haver entre os mil
anónimos uma parte devida a Portugueses? Diminuta sim.
mas proporcional talvez á sua importância numérica?
De passagem mencionei as alusões significativas a
senta romances castelhanos de que então sabia, prometendo
publicar a lista (1). Mas apenas cheguei a dar amostras, ora em
diversos artigos acerca de poetas quinhentistas que emprega-
ram trechos em composições centónicas (2), ova em estudos
sobre Cancioneros castdlanos (3).
'Fardei, comtudo, cm cumprir essa promessa e outras (4),
por causa de trabalhos relativos á lírica medieval, próprios
o alheios (6), e também por causa dos progressos notabilissi-
mos realizados modernamente no campo épico peninsular.
Tenho en mente sobretudo os trabalhos incisivos e modela -
ros de MenéndezPidal < D.Ramón) sobro Crónicas Genèràleê 7
(i) Grundriss II b. p. 156, Nota.
(2 ) Zeitschrift VII 41 5 ss. e Revue llispanique VIII 1901. — Como logo se verá,
Wilhelm Storck apontou e explicou, nos seus comentários a textos camonianos
e pseudo-camoníanos, algumas referências a romances castelhanos, e a textos líri-
cos. SãmmtUche Gedichtêvon Luís de Camocns, Paderborn /8So-/SSj, 6 Voll.
\) 1'. ex. num estudo relativo ao Caneionero dei Siglo XV publicado por Hugo
.1. Retmert (. — Vid. Litciaturblatt 1897 X.° 4), e noutro sobre o Canci&ttero de
Modena (Rotnanische Forschungen, Hand XI, 1899).
(4) Na Zeitschrift aludi a estudos inéditos sobre motivos soltos, como p. ex.
descrições do iih"-s de maio, e o de S. João, o poder comovedor do bel-canto, mal-
diçõee, juramentos, feridas descomunaes, o martírio atroz de encarcerados, etc. etc.
(5) o Cancioneiro de Ajuda: investigações Bibliogrâphicas , Bioçràphicas t
ííistórico-LitteraritiSé — Ilalle, 1904 — 1 vol. de 1.001 páginas.
6) Alfir. Jeanroy, Origines de la poèsie lyrique eri France au Moyen-âge,V&-
1889 — e no estudo crítico de (iaston Paris (Journal des Savants) sobre esse
livro.
(7) Crânicai pafia, Madr. 18981
ROMANCES VELHOS 17
Cantares de gesta (1). e romances cíclicos de heroes nacio-
nae9 (2); nos de s<mi irmão D. Juan) que. depois de haver re-
suscitado os textos cantados nas Astúrias, investigou a fundo
as Lendas do último rei godo (3); e no Tratado suculentíssi-
mo, já citado, em que o mestre de ambos pôde remoçar, so-
bre as bases assim alargadas e alteadas, a teoria de Milá,
contírmando-a na essência, mas completando-n de modo muito
feliz (4 .
Graças a estes três representantes da, sciência castelhana
sabe-sc agora que não nouvtí uma única redacção da obra de
Alfonso o Sábio (c. L280). Esse grandioso monumento primor-
dial da historiografia vulgar, de que d'ora a vante nos é dado
ler o texto legítimo (5), prolificou com abundância. Existe
cm numerosas refundições, entre as quaes a impressa em
1.V1I por Floriáo do Campo é a Tercera, na ordem estabeleci-
da pelo erudito editor, que examinou dúzias de manuscritos.
E todas elas contém prosificaçôes variadas de cantares
épicos, que a idade-raedia considerava com razão como fontes
tradicional-históricas das façanhas ou gestas de caudilhos afa-
mados. Do confronto cuidadoso dos capítulos relativos ao úl-
timo rei godo, Bernardo dei Cárpio, Fernão González, Garci-
Femández, os Infantes de Lara (ou antes de Salas), o Cid, d
rei I). Fernando, etc. concluiu o investigador, quaes as len-
das que desabrocharam em poemas, e quaes os poemas que
passaram por sucessivas transformações.
A musa épica castelhana (acordada antes de princípios do
século xir. influída pelo exemplo da França <lo Norte, ao
( i) La Leyenda de los Infantes de Lara, Madr. i 896.— El Poema dei Cid v ias
Crónica:; Generales em Revue Hispanique 1898.
(2) Notas para el Romancero dei Conde Fernán Gonsález, Madr. 1899 em
f/omenaje á Menèndea y /'clavo, Madr. [899. VoL f. 429-507.
(3) Leyendas dei Ultimo Rey Godo, Madr. 1906.
(4) Na Antologia XI p, 325 ss. lia no Cap. relativo ao Cid, a prositicação do
Cantar que a'ir,en dei Rey l>. Fernando. Também lia materiaes importantes no Vol. I
da Nueva Biblioteca de Autores Espafloles: Oriqenes de Ia Novela e na ediçilo mo-
numental das Obras de Lope de Vega; pelo menos nos VOU. VIl-XIIÍ, 1898-1902,
que tratam de Crónicas y leyendas dramáticas en Espaila,
5) E também a R. Menénde/ Vidal que devem »a a publicação da Primem
irónica General, Madr. 1906. (Vol, \' da \ 11 va riihl. de Aut. J-'.s/>.)
CAHOLINA MICHAÈLIU UE V ASCUNCt LIOS
qual se cingiu formalmente, adoptando o yefsò largo bipar-
tido e o sistema das tiradas (laisses) assonantadas, de ta-
manho indefinido) foi portanto de productívidade minto maior
e muito mais prolongada do que se havia julgado pelos pou
monumentos poéticos que se conservaram. Embora a floi
eéneia Tosse curta (até meados do século xm . n refundição
dos cantares continuou até íins do Béculo xiv. pelo menos.
Mas, aristocrática a princípio, obra de poetasde ingénho e arte,
nas culmináncias do saber da época, foi-se democratizando
no período da decadência, quando cantores populares, muitas
vezes cegos, os recitavam aos pedaços em troca de um copo
de vinho.
Xos cantares contidos em prosa assonantada 1 1) na impor-
tante Crónica Central de L344 (2) e também na chamada Cró-
nica de Yeinte Reyes \2.n metade do século xrvi (3) alguns dos
quacs já foram restaurados parcialmente com método e saber
seguro (4). os jograes (além de renovarem um tanto a lingua-
gem e a versificação) acomodaram se ao gosto do vulgo, in-
troduzindo adições hiperbólicas, lugares-comuns novelescos.
episódios multiplicados, descrições ampliadas.
IVestas últimas refundiçóes (degeneradas) dos verdadeiros
(i) «Los asonantes de los cantos originales se conservan en las Crónicas; y es
verdad que nadie que tenga la más rudimentaria noción de las condiciones de la
prosa espanola (donde se rechazan los asonantes con extremado rigor) puede
imaginar que uri espaíiol había de escribir una página de asonantes en momentos
de distracción/>. Fitzmaurice Kelly na trad. de A. nonila y San Martin, Historia
ii,- li Literatura Espaflola, Madr. 1901 p. 56.
( 2 | E d'ela que se extraiu o Cantar dei ReiD. Fernando prositicado („ Xntologia XI
1. c.) c o de Fernan Conzález (Homcnaje I, 437), e principalmente um dos Infan-
tes de Lara (outro, foi reconstruído sobre os restos contidos na Prrmera Crónica
General) i assim como um Cantar dei Cid. Vid. a nota seg.
(3) Das duas gestas diversas, dedicadas ao Campeador, que subsistem fragmen-
tárias, o Poema (da virilidade e velhice do heroe) foi utilizado na Crónica Primera,
comquanto nfto fosse precisamente a redacção que Per Abbat nos transmitiu,
mas antes uma refundíçfto posterior, mais prolixa na segunda metade. - Na de
Veinte Reyes é que neste caso se conservou a prosificação fiel do texto mais an-
tigo. Quanto h outra gesta das Mocedades dei Cid, geralmente chamada Rodrigo,
está na Crónica de 1344, mas num estado anterior ao que possuímos no informe
cent&o (la Crónica Rimada.
1 1 Pelai notai anteriores se vê que SHo os Cantares dos lufa. ' tra.
ROMANCES VELHOS 19
poemas épicos, tâo sóbrios, singelos e graves, retemperadas
todavia, a meu ver, peto contacto com a vigorosa aíma do
povo e as suas expansões líricas, é que procedeu, dentro de
um período relativamente curto, a maravilhosa eflorescência
dos romances, tanto históricos como carolíngios. e de outros
novos: fronteiriços, novelescos, amatórios.
Os chamados primitivos, elaborados no século XV (quando
muito, um ou outro será de fins do século XIV) sáo trechos des-
ligados de cantares jograjescos — como está determinado com
exacçáo primorosa quanto aos dos Infantes </<' Lara, e do Bom-
Conde, e brevemente o será quanto aos do Çid (1)— -cada um
dos quaes equivale a uma das tiradas das gestas, cujo metro,
regularizado quanto ao número das sílabas (2), e cujo modo do
rimar repetem. Estes trechos fixaram-se na memória do povo,
por serem os mais impressivos e românticos (Bi, e ganharam
assim vida independente, lucrando em beleza poética e mo-
vimento dramático pelo processo de simplificação e encurta-
mento, a que a colaboração popular os submeteu, pois essa
tende em geral a memorar apenas traços geraes, novelescos
e humanos, minúcias pitorescas, apagando os elementos his-
tóricos, inclusive os nomes dos protagonistas, efe. (4;, quando
esses não sáo .geralmente conhecidos como o do Cid.
É pois certo serem os romances primitivos herdeiros di-
rectos e legítimos dos antigos cantares de gesta, como asseve-
i) Quanto á matéria carolíngia que entrou na península em princípios do
século xu, ou antes (a Chanson de Kolans é de 1080), e foi castelhanizada pouco
depois, não possuímos nas Crónicas Generales refundições, como dos temas aa-
cionaes. < >s romances do século xv mostram todavia tipos tão distanciados dos
originaes, que é forçoso supor uma longa serie de gestas perdidas.
1 \ 1 verso largo (ou completo), de dezaseis sílabas, é tratado de imaginai io, e
ironizado constantemente por T. líraga, que, segundo já notei, não se conforma
com a derivação dos metros românicos, dos versos silábicos latinos, procurando-
lhes origens muito mais vetustas, e acredita quanto aos romances, na precedên-
cia e supremacia dos versos de cinco e seis sílabas!
(3) «Iragmentos desengran/ados do colar épico», no dizer de Menéndc \
Pelayo.
(4) É um capítulo curioso, com regra9 e excepções, fusões e confusões. O
acrescento de pequenos prólogos, epílogos e versos de transição, estereotipieos.
também dá margem a observações interessantes.
CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
rara Milá y Fontanals; mas não herdeiros imediatos. Apon-
tando as sucessivas renovações, que alteraram o espírito e a
forma dos poemas, é que a crítica preencheu a lacuna enorme
que havia na tese dele, entre a maneira heroicamente rude do
século xn e o estilo culto e cortês do século xv.
Após essa demonstra cá o, comprende-se que os romances,
gerados no seio do povo pela decadência do criações aristo-
cráticas, fossem desprezados temporariamente por magnates
e eruditos que eram precursores da Renascença, como o Mar-
ques de Santillana. Mas comprende-se também, como. apesar
do divórcio por eles proclamado entre a nova poesia culta,
dantesca, boccaccesca e petrarquista, e a velha, lírico-épica
propagada por jograes cegos para recreio de «gente de servil
e baixa condição », o próprio Marques, nas suas serranilhaê,
e outros como Juan de Mena, Diego de Burgos. Alvarez Cato.
não se subtrahiram por inteiro á peregrina beleza d' esses
«destroços», c da flora silvestre que a semente largamente
espalhada produziu. Comprende-se que poetas como Rodrí-
guez da Câmara e Carvajales escrevessem romances novos
(comquanto se divulgassem em regra anónimos) aproveitando
todas as matérias úteis, escritas (como a bíblia, lendas sacras,
novelas bretónicas e carolíngias, livros de cavalaria, cróni-
cas, textos de origem latina e grega) ou oraes como os con-
tos e as tradições, mas principalmente acontecimentos do seu
tempo — romances que a um sabor de arte refinada aliam o
perfume agreste do campo e das florestas. Nem admira que os
históricos e carolíngios, sancionados pela sua idade e nobre
proveniência, fossem erguidos em modelos típicos. Nem tão
pouco que o centro da península, que fora berço dos poemas
épicos, fosse também a região onde os romances despontaram
primeiro e atingiram o mais alto grau de vitalidade, irra-
diando de ahi para todos os lados, divulgando as suas formas,
o seu espírito, as suas toadas.
E com elas a sua linguajem.
Este é o único ponto que náo foi tratado com o devido
desenvolvimento pelos investigadores castelhanos. A ele tor-
narei no lini d' este breve estudo, aludindo então de novo a
trabalhos sobre a primeira epóca,galego-portuguesa, da lírica
ROMANCES VELHOS 21
hispânica, e sobre o bilinguismo Literário da Península, afim de
tornar provável a tese que até fins do século xv a linguajem
épica era para todos — hespanhoes, galego-povtugueses e catalães
— a castelhana (e facultativamente continou a sé-lo nos séculos
xvi e xvii\ como a linguagem lírica tora até 1350 a galego-
portuguesa para Portugueses. (Galegos o Hespanhoes (e mesmo
para alguns trovadores liraosinos; (1), e continuou a sê-lo fa-
cultativamente até 1450. De onde resulta que romances es-
critos em castelhano nem por isso são necessariamente obra
de castelhanos. E torna-se provável que o povo que burilou
jóias tão finas como En el mes era de abril e Gritando va el
cahaUero fe contribuiu de 1450 em diante para o Cancioneiro e
Parnaso lírico com uma infinidade de composições valiosas,
enriquecendo também o pecúlio da nação vizinha com nove-
las de cavalaria, novelas pastoris, comedias, obras históri-
cas, etej. colaboraria igualmente na parte anónima do ro-
manceiro, e antes d' isso na refundiçào jogralesca das gestas
épicas.
Ha mais novidades todavia, as quaes para quem olha su-
perficialmente para as coisas, parecem invalidar de novo a
tese e a conjectura que defendo, mas na essência a confirmam.
A demonstração das refundições sucessivas e da decompo-
sição das gestas, democratizadas pelos cantores do povo, em
romances soltos, tão bem feita que parece definitiva, fez sur-
gir naturalmente na mente de quem a realizou uma conjec-
tura que de pressa se mudou em facto positivo.
Se na memória da gente-povo das Astúrias, da Catalunha,
de Portugal, e mesmo na Andaluzia se conservaram na tradi-
ção oral, através dos séculos, rapsódias, que pela sua vez de-
vemos acatar como herdeiras de romances velhos — mesmo
quando os protótipos se perderam, ou quando elas se apresen-
tam num estado de degeneração lastimosa — náo se percebe por
que razão taes ecos se haviam de apagar por completo exac-
tamente em Castela, terra-mâe da poesia «'pica peninsular (e
(i) Vid. C. M. de Vapconcellos, Randghssen tum altóoriugiesichen lÀtderbuck'.
N.°IXIm NordotUn der IlalHntet; X Dos ZwiespaltHtd dts Bonifatio Calvo; XII
Die Romanze von Don Fernando.
22 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
também em Leão. na Estremadura, em Murcía, etc<). Cum-
pria procurar. Procurou-se. Eo que se encontrou, ultrapa
toda a espectativa. comquanto a campanha de exploração,
ainda não esteja terminada (1). O argumento da falta de ro-
mances no centro de península, de que eu me servira como
outros que também não acreditavam nas suas origens exclusi-
vamente castelhanas, jã não vigora portanto.
Quasi todos os cantares narrativos de que ainda nau se
conheciam lições em castelhano, ou pelo menos nenhum
colhidas no centro (2); estão agora patentes em textos com-
pletos e bem conservados, quanto ao fundo e quanto ã forma.
Entre eles ha mesmo um dos poucos que 'passavam por ori-
ginariamente portugueses, por versarem sobre assunto local,
o de Santa Iria (Irene, Elena), padroeira de Santarém.
Repiico que ainda assim deve continuar a passar por origi
nariamente português, porque o facto de existir em Cáceres,
em Leào,e na Gah*za(3),e de haver transmigrado ao [JrUguay,
não prova de modo algum origem castelhana. Muito pelo con-
trário, a existência só nestas províncias limítrofes de Portu-
gal torna provável a origem occidental. Neste e em muitos
outros casos, como p. ex. com relação aos romances sobre o
Príncipe D. Affonso, são precisos estudos especiaes ulteriores,
realizados sem preocupação alguma.
i) J >. Juan Menéndez Pidal entregou a varinha de condão com que fizera
vir á flor da terra os romances tradicionaes das Astúrias, ao irmào e á sua gentil
esposa D. Maria Goyri. Estes iizeram brotar do solo de Castela minas d'aguas sa-
borosas e passaram-na depois a outros «vedores». Resta utilizá-la em Múrcia e nas
Canárias.
(2) Quanto aos textos, não dialectaes, mas puramente castelhanos, recolhidos
nas Astúrias, Menéndez y Pelayo tem razão em advertir na Antologia (X, p. 8)
corrigindo delicadamente um erro grave que me atribue, que por serem ahi tradi-
cionaes, ainda D&O s;'io indígenas d'aquela nobre regiào. Creio todavia que o pro-
blema ainda admite discussão no sentido que indico no texto.
(3) Vid. D. Maria Goyri, N.° 16:
Estando una mim bordando corhatas
< <•// aguja de oro y dedal de p/ato.
mais frequência em octonários:
En caso d, d rey mi padre un traidor pide posada,
mi padre, como era no/de inuy l nego se la mandaba.
ROMANCES VELHOS 23
Em todo o caso, creio que as ligeiras indicações que dou,
serão suficientes paia convencei Portugueses, Castelhanos e
estrangeiros da necessidade de se inteirarem do que passa
em ambos os reinos, reformando as suas ideias em harmonia
com os factos que a sciència imparcial vai apurando, e tam-
bém de continuarem com afan na coleccionação e investi-
gação.
As nótulas (pie seguem, pobres por motivos imperiosos que
nâo me é dado alterar, pertencem â categoria dos prelimina-
res. Apresento-as pela ordem dos assuntos estabelecida por
Wolf, adoptada por Bfilá, e conservada tanto pelo seu genial
discípulo como por Menéndez Pidal, posto que cada um d'eles,
eu também, modifiquemos um tanto a donosso predecessor. VÀ*
a que adoptei.
A. Romances relativos á historia e á tradição histórica de Hes=
panha.
I. El Hei Rodrigo.
II. Bernardo do Cárpio.
III. Fernão < ionzález.
IV. Os Infantes de Lara.
V. O (Md.
B. Outros romances históricos.
VI. Inês de Castro.
VII. I). Alfonso de Aragão e Nápoles.
C. Romances fronteiriços e mouriscos.
VIII. Càballeros de Moclin.
I X . Moro alcaide.
X. M Rei ('bico dr Granada.
XI. 0 Mestre de Calatrava.
XII. Víoriscote.
XIII. Mis arreos son las armas.
CAROLINA MICHAÉLIS DL VASCONCLLLOS
D. Romances de Cautivos e Forçados.
XIV. Moriana e Gralvão.
XV. Zaide.
XVI. Mi padre era de Ronda.
X\ II. Dragut.
E. Romances do ciclo carolingio.
XVIII. (a) Roncesvales; (b) Almirante Gruarinos; (c) D. Bel-
trão.
XIX. D. Alda.
XX. Gaiferos.
XXI. Valdevinos.
XXII. Marquês de Mantua.
XXIII. Calamos.
XXIV. Montesinos.
XXV. Durandarte.
XXVI. Conde Claros.
F. Romances do ciclo bretónico e de livros de cavalarias.
XXVII. Lançarote.
XXVIII. D. Duardos e Flérida.
G. Romances de assunto clássico, ou bíblico.
XXIX. Hero e Leandro.
XXX. Trova.
XXXI. Nero.
XXXII. David.
li. Romances novelcscos.
XXXIII. Conde Alarcos.
XXXIV. Silvana.
XXXV. A [nfantinha.
X XXVI. Donzela-varào.
XXXVII . Tiempo es, d cetoUlere,
ROMANCES VELHOS 25
I. Romances líricos.
KXXVUI. 0 desastrado.
XXXIX. A rola-viuva.
X L. Mês de Maio.
XLI. Maldita seàs ventura.
XLII. Placer no sabe de mi.
XLIII. Tieinpo-bneno, tiempo-btieno.
XLIV. La bella mal-maridada.
J. Romances en versos pareados.
XLY Maldições de Salaya.
K. Romances ainda não identificados.
XLV1.- LI.
II
Referências a Romances Velhos em obras de autores portuguesas.
Aj Romances relativos á história e á tradição histórica
de Hespanha.
I. El Rei Rodrigo
Comquanto haja náo só indícios, mas provas conjecturais
claríssimas, da existência de cantares de gesta relativos ao
último rei godo (1 1, as lendas que lhe dizem respeito entra-
ram na tradição por via erudita, ao que parece (2). Os ro-
(i) Vejam-se a este respeito as páj^s. 115-133 da obra magistral de investi-
gação e de crítica, entitulada Leyendas <iel último Rèy (iodo, a que já me referi,
assim como na .lnto/o:;in, XI as págs. 133-175 que servem de comentário aos
textos Impressos nos vol. VIII, p. 2-14; IX, p. 175-178; X, p. 27-32.
1 2) As prosificaçoeg «los cântaros supos'os, passaram por tantas e taes alte-
rações, perdendo-se a 'pie foi feita directamente sobre o original, que nfto e pos-
sível reconduzi-las A forma métrica.
CAROLINA MICHAELIS DE VASCONCELLOS
mances velhos sobre I). Rodrigo, ;i Cava e D. Julião 1 1 Foram
derivados por algum poeta letrado, com mais ou menos Fanta-
sia e habilidade, da novelesca Crónica Sarracinú Se Bedro
de Corral (c. 1434: (2). E comquanto o acto final da lenda
penitência, morte, sepultura — tosse localizado ea-initio e ex-
clusivamente em Portugal (Viseo, Pederneira), também se-
gundo tradições antiquíssimas (3), parece que nem mesmo os
que se referem a esse trágico assunto, se popularizaram n<
reino. Por ora, pelo menos, não se colheu nenhuma versão do
Romance do Penitente (4) que, transmitido oralmente, subsiste
nas Astúrias (õ) no Bierzo, na Galiza (6) e além-mar no Chi-
le (7), embora o protótipo, imortalizado pelas citações de < 'er-
vantes no I). Quixote (8), se perdesse totalmente.
Um romance isolado português, da çolçcçâo do Algarve
de Estácio da Veiga, que principia:
Dom Rodrigo, dom Rodrigo,— rei sem alma e sem palavra,
parece modernamente moldado, com liberdade poética, sobre
o texto castelhano:
(i) Primavera (que citarei pela abreviatura Pr.) Números 2-7, com mais três
adicionaes na, Antologia IX, 175-178. — Duran dera 25, por incluir no seu Roman-
cero as ampliações de poetas conhecidos do século xvi'.
(2) Teve numerosas edições no século xvi e entrou na literatura de cordel.
Mas, aparentemente, nào na dos portugueses.
í 3 V. Leyendas p. 142 s. e todo o Cap. III da Tercera Parte, dedicado ás Le-
yendas tradicionales en Portugal. — Claro está que o autor nào perde palavras
com o Poema da Cava, entre todos os apócrifos forjados no século xvn, talvez
o aborto mais monstruoso.
(4) Nem mesmo em Tras-os Montes.
(5) Recolhidos por Munthe e Pidal, conforme deixei exposto na Revista Lusi-
tana II 1 72.
(6) Recolhidos ha pouco por Said Armesto, e impressos, com os outros, nas
a p. 176.
(7) Assim o diz I ». Maria Goyri, nas Reeras N.° 10. Não o encontro todavia na
Cultura entre Los Romances tradicionales en América.
(8) Parte II. c. 26. Cfr. I. c. 27 e II c. ^ e 40.— Ò romance Despuès que el rey
a, ai Rodrigo- à Espafta perdido ha Ha (impresso num Pliego Suelto de 1550, assim
como nos < 'ancionétos de Romances do mesmo ano, e já anteriormente, naquele que
nfto tem data», é análogo. Mas não contém o verso
COmen,ya me comeu Por do mas pecado hahía.
ROMANCES VELHOS 27
En Ceuta está Don Rodrigo —en Ceuta la bien nombrada (Vi.
De um único romance velho posso assinalar um eco tardio,
cortesão, mas pxsitivo, pois foi registado por um historiador
grave o sincero. Eco curioso, por se relacionai- com aqueloutro
rei de Hespanha que, por culpas próprias, perdeu a coroa e a
vida, vencido por Mouros, sendo procurado em balde no campo
de batalha e continuou durante séculos vivo na memoria do
povo, cercadíssimo de lendas, cheias de avisos, preságios e
profecias.
Na última travessia de D. Sebastião á Africa, um dos
cantores predilectos da corte entoou a lamentação de Dom
Rodrigo. E Frei Bernardo da Cruz, eapeiâo-mór da armada.
e portanto testemunha ocular, que o narra na sua Crónica de
I). s<>bastiáo (2). Depois de haver falado de diversos prenún-
cios funestos da jornada de Alcácer-Quebir, diz: Outro cajá
significação não se engeitou, foi que, hindo pelo mar. Domingos
Madeira, músico de el-rei(S), cantando-lhe e tangendo cm uma
viola, començoude cantaram romance:
[I] Ayer fuiste r&y de hispana— liou no t ienes un castiUo;
tanto isto foi tomado de moo agoiro que logo Manuel Cores-
ma lhe disse, deixasse aquellã cantiga triste, e cantasse outra
mais alegre. *
O padre-capelão recordava imperfeitamente o teor de
texto. No romance, de que o trecho elegíaco faz parte, e prin-
cipia:
Las huestes d<- Don Rodrigo desmayaban y /miau (Pr. 5)
(4), é o próprio rei desbaratado que chora a sua desgraça:
Ayer era rey de EspaUa hoy no lo sou de "na villa
(i ) Como se vê, ambos tem a asaonáncia á-n. — <> coleccionador dos roman-
ces de Loulé confessa a p. 279) não haver encontrado ahi vestígio algum d'este
romance de /). Julião', nem tao pouco dos textos relativos ao Cid {Cavaleiro 5
<■ I). Rodrigo). Mas nem por isso é provável que Estãcio da Veiga os COBipOSesse
que lições tradicionaes, fragmentárias, o incitassem a fazè-lo.
(2) Ed. Herculano e Paiva, Porto 1837 (p. 308).
(3) Domingos Madeira nào se encontra mencionado nas listas de Sousa Vi-
terbo, Artes e Artistas em Portugal, Porto 1892.— Sei todavia que passou ao
serviço de Felipe II. — Vid. C. M.de Vasconcellos, Pedro de Andrade Caminha p. 56.
(4) O romance deriva da Crónica Sarracina, Cap. 207 e 208.
20 CAROLINA MICHA£LIS DE VA8C0NCELL08
(continua em-ia). E muito provável que esse pranto, que tem
vários paralelos, em prosa e em verso, fosse cantado inde-
pendentemente da parte narrativa (1); mas náo se percebe
por que motivo os músicos o transpuseram da l.a pessoa
para a 2.a, de mais a mais na presença de um rei.
A reminiscência mais notável, por estar efectivamente na
1.a pessoa, é a que ha num romance de outro destronado, o
Rei Chico de Granada:
Que ayer era rey famoso e hoy no tengo tona iam
Das paródias, propositadas ou não, em certas offenba<hiaclns
modernas, em que figuram reis em exílio, talvez valeria mais
nâo dizer nada. Mas soam-me nos ouvidos umas trovas com
dois sentidos, cantadas em Lisboa, em presença dei rei D. Luis
e sua esposa, e que diziam:
Hontem tinha uma coroa— e hoje não tenho nem meia.
*
* *
Em três ou quatro composições de poetas palacianos do
Cancioneiro Geral descobri reflexos das lendas de D. Rodrigo,
como já expliquei em outro lugar (3). E embora náo se reíi
rani directamente a romances conhecidos, volto a eles afim
de fazer algumas rectificações e adições. Tanto a alusáo ao
preságio de Dom Rodrigo (III, 381 ) (4) como a outra á penden-
(i) No Cancionero Musical, publicado por JJarbieri, ha outra canção fragmen-
tária do mesmo ciclo, relativa ao sepulcro do mayor v siu ventura Rey d' Espana
Dou Rodrigo (N.° 320).
(2) Também subjectivo, e em-áz. Começa:
El ano de cuatrocientos — que noventa y dos corria,
— Desconhecido até 1861, foi então reimpresso por Eduardo Porebowicz sobre
um PliegQ Suelto de Granada, de 1568, e repetido na Antologia IX 203. É o N.° 85
do opúsculo sobre Una colecciôn de plieços sueltos de Granada existente eu la Bi-
blioteca ( 'niversitaria de Cracóvia.
(3) Revista Lusitana, II, 174.
(\ Creio que Francisco López Pereira pensava nas fatídicas inscripçòes c
figuras árabes, contidas na arca cerrada da Casa dos Reis ou Cova de Hercules da
Lenda (Pr. 2). A interpretação que dei outr'ora, lembrada das figuras proféticas da
Kortuaa e da Morte nos romances respectivos {Pr. $.*), é menos plausível, porque
essas aparições não são privativas de romances de D. Rodrigo.
ROMANCES VELHOS
ca (=poenitentia) dei rei no moimento sepulcral, com a cobra
roedora (IIT, 196), podiam derivar da Crónica Sarracina. A
terceira, porém, relativa aos amores funestos com a filha de
D. Julião (II, 4), reconduz-nos a textos mais antigos, pois
apresenta o nome d 'ela na forma arcaica La- Taba (1). Mas
quaes seriam? As escrituras antigas de um convento de
Coimbra, citadas pelo arcipreste Kodríguez de Ahnela no
Sumario historial/ (2). A Crónica do Mouro Rasix, na tradução
de Mil Pérez, que ainda foi utilizada no século xvi por André
de Resende e Gaspar Barreiros? (3). Qualquer das traduções
galego-portuguesas da Crónica General, quer fosse a da Pri-
meira, do tempo de D. Denis (4), quer uma da refundição
de 1344 (5), do tempo de D. João I e seus ínclitos filhos? (6).
Ou antes a última, em partes ampliada, em outras partes
abreviada, de que sobrevive tira belo exemplar, proveniente
da livraria do Condestável D. Pedro (7), cujo brasão e mote
(i) O erro Letabla no Cancioneiro Geral (f. 64 f.) deve ser emendado para La~
taba, conforme disse Pidal; e não para La Caba, como eu julgara. — Na impres-
são fragmentária da Crónica de 145"/ (pelo Dr. Nunes de Carvalho), a filha de
D. Juliào chama -se ora Alataba Allataba, ora Lataba (165), ora Allacaba (p. 160),
por confusão entre ceí curto da antiga caligrafia, cfr. Leyendas, p. 122 8.
(2) O autor das Leyendas aventa a hipótese de essas escrituras terem sido
Antes do convento de LorvAo, ligando (na minha opinião) importância demasiada
ao facto que na trova burlesca sobre a queda do cavalo de João Gómez (1498) se
lala, no estribilho, do mosteiro de Lorvão, como do sitio em que o culpado havia
de purgar-se do crime de haver ocasionado a morte do seu rocinante. — O vocá-
bulo, imortalizado, uni século depois, por Cervantes, tem ahi a forma rocynam.
(3) Somente, se nas transcripçòes já andava interpolada a mesma prosificação
do cantar de gesta que figura na Crónica de 1344 (V. Antologia XI, 259). Creio
(pie realmente lá estaria. Além dos dois lusismos (esteo por pilar; o rei por el
rei) descobertos por Menéndez Pidal (Crónicas «enerales, p. 26-49), ha outros,
muito mais curiosos (p. ex. b estias, tradução errada de beestas—balistas) .
>4j V. Grundrifs, p. 211.— Os trabalhos de Menéndez Pidal impõem á nação
portuguesa o dever de finalmente trazer á luz o que resta d'essa historiografia, de-
rivada, de Portugal o Velho.
(5) No Livro de Linhagens do Conde de Barcelos (Tit. III, § 16) ha apenas
resumidíssimas noticias.
(6) V. Revista de Arckivos, Julho de 1903 e Leite de Vasconcellos, t '///</ caro-
nica de 1404, Lisboa 1903.
(7) Vid. C. M. de Vasconcellos, Uma obra inédita do Condestável em Homenaji
,i Menéndez y /'elayo. Vol. 1, p. 687. Pela edição fragmentada do Dr. Nunes de Car-
ÒAROLINA MICHAELIS DE VASCONOE LLOti
refulge no frontispício do MS. X." \ da parte portuguesa da Bi
blioteca Nacional <le Paris?
A última referência do Canci<>n<ir<- Geral (II, 283 é abso
lutamente incolor.
Quanto á cobra e ao castigo judicial (do empipar ou eneu-
bar, tão frequente nos Contos Populares, posso apontar duas
alusões, uma histórica, outra poética: esta última d<i Luis dê
Camões.
No Atito de FUodemo 'Acto III. Scena 3) um monteiro, la-
lando cm estilo joco-srrio. diz de uma rapariga formosa que-,
por meia-hora de sua conversação, se poderia sofrer pquc ha
de mais horroroso: huma pipa com cobra e galo 1 - e dmiinha,
como a parficidfy sob uma condiçfío: '■"//' tanto que o pregão
dissesse o porquê í2).
O trecho histórico c das Lendas da índia de Gaçpar Co-
rrêa. O cap. LXVI, relativo ao ano 1041». trata de um caso-
crime:
De huma nova justiça que se fez cm (loa. sendp <> Governa-
dor em ./>/<>, de huma molhev da terra <juc o/andou mala)' sen
marido por hum homem (ta terra quê comelta adulterava.
.... por sentença da rolaram foi/ levada ao cais da cidade
onde em hum panuo pequeno foi/ metida em huma pipa, e me-
terão dentro com ella hum cá<>, e hum gato, e hum gálio, e hum
valho vê-se que essa Crónica tardia (quanto a Portugal continua até 1457) é, ainda
assim, uni elo importante na série das C/onicas Generales. Dos capítulos dedica-
dos ás lendas de I). Rodrigo podem-se extrahir diversas emendas para o texto
castelhano (Mb. 2-I-2 da Bibl. Real de Madrid', além da que indiquei.
Aproveito o ensejo para aqui exarar uma rectificação. No opúsculo citado rehro-
me três vezes á Carta-Proémio do Marques de Santillana, tentando fixar-lhe a data,
aparentemente de modo contradicterio (p. 652, 654 e 685 1. Mas onde se ir- entre
Oi aunos ,lc 1 4jj e 1438, lia erro de imprensa. Leia-se 1445. Este ano marca o ter-
mo a (/ii<i, porque nele o Condestávcl, nascido em fins de 1429, e que já então ha-
via composto (tlçunas cesas gentiles, contava 15 a ió anos, não sendo provável
que o Marquês lhe dirigisse um Sumário de Literatura Geral em idade ainda mais
verde; 1458 é o termo ,/,/ quem (morte do Magnate castelhano). Mas este termo
podemos atrasá-lo até 1449 (data da batalha de Alfarrobeira), porque o Re
estava vivo quando se trocou a correspondência de que resultou o Proêmio.
(1) (julo, en vez àt gato pode ser erro de leitura, mas também variante, como
■ do trecho de Gaspar Corrêa.
( -' atou de interpretar este passo.
ROMANCES VELHOS 81
bugio, e huma cobra e fundarão a pipa com somente htms. bu-
racos de verruma abertos per que resfolgasse, e a puserão no
mar, vasando a mure. e a levou a justiça hum pedaço, ao. que
ella dava grandes brados dizendo que a cobra a picava e o bu-
gio a mordia, e dentro todos fazião peleja... E quitado a puserão
no mar derão hum pregão que dizia: Justiça que El ttey X. S.
manda fazer que esta molher moyra morte natural antre bru-
tos aniihaes por matar sen marido 1 .
II. Bf.RN Vlv' !>« > DO < ÍARPIO.
Das lendas sobre o campino, fabuloso, da independência
da pátria contra Carlos Magno e os seus paladinos, também
nâo posso apontar rastos literários antigos (2). Nem mesmo o
seu nome parece ter ganho foros de popularidade como oa dos
doze pares era geral (3) e em especial Roldão, Reinaldos, Oli-
veros, Valdevinos. Todavia ha romances tradicionaes (4) que
lhe dizem respeito, mas em transformação novelesca, muito
degenerada, relativos á libertação do pae preso, e que sáo
paralelos de textos cantados nas Astúrias (5). Bernardo, dege-
nerou em Dom Garfos (6) quando náo é simplesmente, «o so-
brinho do ('onde. - Tanto mais singular é o facto de as lendas
Be terem desenvolvido, no século xvni, por mero capricho de
um eclesiástico, num verdadeiro livro de cavalarias <7 .
(i) Vid. Ed. 1862; Vol. IV-2, p. 576.O Governador era D. Joio de Castro, o
heroe á antiga. — V. Lendas, IV-2-576.
(2) Como entidade puramente poética n&o t nomeado no Lino de Linhagens.
A respeito d'ele vid. Antologia X, 176-216.
Os que a uma mesa comem pão, donde veio a fórmula a tavola redonda dos
dose pares de França, muito usada em Portugal.
4 Almcida-Garrett U. 295; T. Praga, Nos. 24-26 da l.a impress&O. Na nova
ediçfto deve entrar no Vol. lt, visto faltar no ciclo carolíngio. — Cfr. Rev. Liis.
11. 201.
(5) Nos. 9 e 10. Cfr. Antologia X. Nos. 10, li e 12 (inédito).
to \s vogaes 0-./-0. em lugar de e-á-o.
(7 ./ verdadeira terceira parte da História de Carlos Magno, em </ne se tscr*-
vem as gloriosas acções e victorias dt Bernardo dei Carpia, do Presbítero de Chaves
32 CAROLINA MICHAltlS Of VA800NCELLi
Quanto a citações ha o Beguinte. 0 verso
|2] Mensajero eres, amigo,— do mereces culpa, no
contido no romance mais velho do ciclo:
Con cartas y mensajeros—d rey ai Carpi
foi memorado em Portugal. Alega-o ura poeta do Cancioneiro
(feral, o culto humanista João Itodríguez de Sá e .Meu.
num brinquinho satírico. Dirfgindo-se a uni Rifão ou Vilance
te, sem sal, que de Castela fora enviado a uma dama do paio
por um português namorado (creio que era 1498) e despertara
ii hilaridade dos cortesãos, diz, em frase pouco elegante, mas
portuguesa (2):
Passaareis grande pertguo
se noui fora esta rressaro
para aver de nós perda;»
serdes mesageyro , amigo,
que nom tendes ctilpa, r.am.
O que, transposto para ortografia e construção menos arre-
vesada significa: para haverdes de nós perdão, ferieis passado
grande perigo; isto é: dificilmente teríeis alcançado perdão
de nós, se não fosse a razão de serdes, etc. (3). ,
Posteriormente, foi Gil Vicente que, no ario de Í526, no
seu Templo cVApotto, o pós em boca de um embaixador, em
replica ao porteiro do santuário que não o queria deixar en-
trar, e por tamanha descortesia recebeu o título de majadero
(em troca de iuensaje.ro ou mandadero),
Majadero sois, amigo,— no mereceis culpa, no {X),
comquanto nHo tivesse responsabilidades*, por -cumprir or-
dens .
Alexandre Gomes, Flaviense.— Citada por Gayangos; p. LXIV b., e por Menéndez
y Pelayo, OHgeues, p. CXXVII, assim como na Antologia XI, p. 216 A obra n&o foi
catalogada por Inocêncio da Silva.
ií Ou non,
(2) Vol. Ill 302 (I. 182 e). O empresário da farça é Simão da Silveira; o incri-
minado autor do Vilancetc, certo I.opo Furtado.
(3) Para evitar tranecripções duplicadas, ou longas exp icações, farei o treslado
de testos nfto com servilismo, mas com critério, pondo sinaes de pontuação, intro-
duzindo entre [ | letras e palavras omissas, e pondo entre ( as supérflua.-.
(4 Ohms, Vol 11 para supor que majadero seja errata.
ROMANCES VELHOS 33
Náo é todavia certo que as duas citações derivem do ro-
mance indicado, pois o mesmo verso, proverbial, se encontra
em outro: num do Conde Fernão González, cuja maior antigui-
dade e grande popularidade, mesmo cm Portugal, logo mos-
trarei. Com leves variantes, cm metro antigo ou cm forma
francamente amétrica, aparece também em outros textos ar-
caicos, sempre que um vassalo recebe do seu rei e senhor car-
tas ou mensajerias que o embravecem, comquanto nâo demons-
tre a sua ira, lembrado da inviolabilidade dos embaixadores
(ou liberdades de messigeiro, como era costume dizer) (1).
Na Primeva Crónica General (cap. 831) é o Cid quem apli-
ca a si próprio a lei de protecção, quando D. Sancho o manda
a Zamora com ingrata missão a D. Urraca, â qual diz: Man-
dadero et carta mm deue mal prender.
Xa Crónica rimada (v. 509) é o portador de um cartel de
desafio que proclama:
Me nsaje.ro con cartas non deue tomar mal nin recebir dano.
No Poema de Alexandre (e. 741)) ouvimos o verso alexan-
drino:
( 'a nunca deuen mal prender los messageros (2).
No de Alfonso XI (c. 2.391):
Que carta ni mensagero — non devem mal rescebir.
Na Historia de Yespasiano (cap. 7) é Bárrabas que acon-
selha a Pilato, não prendesse o enviado do emperador: Sen-
tior, não <> faeaes, que lie messegeiro e nom tem culpa, nem de-
rc receber mal. Na versão castelhana temos a forma abrevia-
da: Ca mensajero no deue recebir mal (3).
Nas aplicações mais modernas do ditado, a forma alocu-
tiva dos romances é a única usada. No Cancionero general
p. c\. uma Carta de um competidor vai acompanhada da
desculpa:
Mensajera sois amiga — no mereceys culpa, no (4).
No D. Quixote, Sancho Panza o emprega, também na 2.a
(i) Vid. p. ex. Gaspar Corrêa, Lendas, Vol. III, p. 125.
(2) Texto O. No códice 488 de Paris ha a variante: Que nunca deveu prender
mal los mandaderos. (Estr. 776 da nova edição de Morcl-Fatio (Dresden, 1906).
(3) Bibl. Nueva de Aut. Esp. Vol. VII, p. 382.
(4) Nám. 270 da ed. moderna. Esparsa de Lope de Sosa.
B
CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
pessoa do plural (m.) (1). O mesmo dá-se numa comediu do
Cátderon: Mandadero sois, amigo; no mereceis culpa anu. (2 .
Um romance de Quevedo (XLV] da Musa VI» principia:
Mensagero soy, senora; nó tenéiè que me culpar...
E baste.
Se compararmos todas estas orações, directas e palacianas,
com a forma impessoal, didáctica e de realismo mais rude, de
verdadeiro provérbio popular: Quemé mensageiro, não merece
pancada — Quem é mensageiro, não merece pena — Quem traz
recado, não é culpado (3), forçoso é admitir que os auctores
citados, tanto portugueses como castelhanos, tinham era
mente versos octonários de romances. Talvez variantes dos
que subsistem.
Agora, se os provérbios nasceram dos romances ou dos
cantaras de gesta (como pensam Milá (4) e Pidal (5), porque
olharam exclusivamente para os textos épicos, e nao para os
rifões vulgares), ou se os jograes utilizaram adágios preexis-
tentes, cunhados pelo bom sengo antigo, que deu forma a
tantas coisas boas e bonitas, salomónicas, aperfeiçoando-os,
é problema que nao é possível resolver (6).
III. Fernão Gonzalez (7) *
O heroe que libertou o condado de Castela (da suserania
de Leão), é mencionado laconicamente no Livro de Linha-
(i) Parte II, c. 10: Mcnsajero sois amigo, no ineteceis culpa, tion.
(2) Ed. Rivadeneyra. Vol. IV, p. 467.
(3) Colhi-os na boca de lavradores de Aguas Santa?; já foram registados no
Adivjih io de Bento Pereira.
(4) Poesia llrroico-Popitlar, p. 192.
(5) Homenaje a Pelayo, I, 460, onde o leitor encontra quasi todos os exem-
plos que aqui juntei.
• Lusitana, II, 199, pronunciei-me muito decididamente a favor
da maior idade dos provérbios.
(7) Além do estudo de Menéndez Pidal acima mencionado, veja-se Antologia
XI, 217-264.
ROMANCES VELHOS
gens (1), cujo autor conhecia uma velha Estoria (2) do va-
lente que por antonomásia se chamava el Buen Condi' (3),
provavelmente o Poema composto no mosteiro de Arlança por
um Clérigo ilustrado. As Crónicas Geraes nas suas diversas
refundiçõeã tornaram -no conhecido entre os letrados. No
tempo do romantismo um colaborador do Panorama leni-
brou-se de refrescar a sua memória (4). Um folheto da Livra-
ria do Poro, que ainda hoje se reimprime (5), é versão de
um mezquinho Pliego de cordel castelhano, que deriva de
outro espalhado logo no primeiro tempo da imprensa (6). __
Em Portugal cantavam no século xvi pelo menos dois ou
três dos romances velhos que lhe di/sem respeito (7).
Do mais belo
Caslellanos y leoneses - tienen grandes divisiones (Pr. 16)
provém, além de uma serie de antíteses épicas, muito imita-
das em romances vulgares, o verso
[3] sobre el partir de las tierras— y el poner do los mojones
O primeiro hemistíquio foi empregado pelo poeta cómico An-
tónio Prestes no A ido dos dois irmãos. Os protagonistas — uni,
Confiado, e outro Cioso — de mal com o pae por se haverem
casado a furto, fazem diligências de reconciliação, com medo
de serem desherdados.
CiOSO. Acabaram nossas guerras,
tão crimes, tão contumazes.
Confiado. Agora, vidas sagazes!
sobre el partir de las tierras
saibamos conformar pazes! (h)
(i) Titulo III, $ 20: Port. J/ou. ffist., p. 249.
(2) Ih. Tít. X, § 1 (p. 261}: Este D. Gusto-Gomça ■ que morreo na lide
que u contde dom Fcrnam Gomçallvet ouue com Almançor, como ea deuisa,
(3) Poema de Al/ouso XI, estr. 145.
14) António de Oliveira Marreca O Conde soberano de Castella Fernão Gonçal-
ves, 1844 e 1853, e posteriormente num vol. impresso no Rio de Janeiro,
(5) Historia curiosa da Vida do Conde de Castella Fernão Gonçalves e das fa-
çanhas emort: dos sete Infantes de Lara. A ultima edição que conheço é de 1902
(Porto).
(6) A respeito d'essa Historia ou Crónica vid. La Leyenda de los Infantes de
Lara, p. 71 e confer Gallardo, Ensayo N.° 698 e ss.
(7) Pr. 15-18.
(8) Autos, p. 273 da deficiente reimpressão moderna (Porto, 1871).
CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Muito mais vulgarizado era o que principia
[4] Buen Conde FernánGonzález, cl rey envia por vos (Pr. 11.)
impresso nos mais velhos Gancioneros de romances, e na Silva;
glosado por Alcaudete numa Tolha volante gótica I ), <• enxer
tado na curiosa Ensaladilla de cantares viejos, de l'i;i
tancia 10. ingrediente 57), que terei de mencionar ,i miude
Falei mesmo agora do verso proverbial
Mensajero eres, amigo,— no mereces pena, no (v. 9)
dado em resposta ao enviado dei rey do Leão. Outros dois
ocorrem em quinhentistas portugueses. O hemistíquio inicial
é citado, como se fosse título de romance, na comedia Eufro
sina de Jorge Ferreira de Vasconcellos (3), que o trata de
antigualha (4).
É em Coimbra, numa palestra entre dois cortesãos, estu-
dantes do mosteiro de S. Cruz, que um deles, alegre e folga-
zão, increpa o outro, por ele andar pela via dos melancólicos,
sempre taciturno, bom para grosar Recuerde el alma dormi-
(i) Cerca de 1530. Vid. Salva N.° 1.
(2) F, Wolf, Ueber eine òammlung spaniscker Romanzen in Jlie^enden Bliittern
auf der Universitáts-Bibliothek zu Prag. — Wien 1850. (p. 17-22).
(3) Esta comédia em prosa, no género das Celestinas, sem a genialidade mas
também sem a licenciosidade da obra castelhana, foi a estreia do autor, que morreu
em 1567, e não em 1585, como é costume asseverar. No Proémio ao Príncipe
D. João (1537-1553) ela é designada expressamente como primícias de meu rústico
engenho...., primeiro fruito que d'elle colhi, inda bem tenro.TZ quando Jorge se resol-
veu a dedicá-la ao herdeiro de D. João III, talvez pouco antes de morrer, já ela co-
rria bastante tempo em treslados manuscritos deturpados. Innúmeras alusões a
coisas greco-latinas, raras, indicam que o autor mal sairá das aulas universitárias
quando a começou. Creio que isso foi entre 1527 e 1534.
(4) Como se verá de outras citações, os cortesãos italianizantes da Escola
Nova desprezavam romances veihos e glosas de romances. — De opinião diversa,
a respeito do exemplar de que tratamos, era, meio-século depois, quando a alu-
vi;t<> de romances artiticiosos, mouriscos e amatórios, hav'a de novo valorizado os
primitivos, o autor do romance Tanta Zaida y Adalifa — tanta Draguta y Daraja.
pois diz, no fim da sua reprimenda:
Puen Conde Femán Gonzâlcz,
Por el vai de las Estacas,
Ahiiío-vero, JVuno-vero
Viejos son, pêro no cansan. (Duran 244)
ROMANCES VELHOS 37
da. Insinnando-lhe que já náo ora moda fazer taes estremos de
amor, acrescenta: isso, senhor meu, passou já com a soberba
dos balandraos, e todas essas outras antigualhas de POfi aquel
POSTIGO VIKJO \e] 1)1' KN CONDE FeIíNAN GQNZALES (1).
* *
Nos Disparates da índia (2), de Luís de Camões, compostos
depois de 1553, mas cheios de reminiscências e recordações
que o glorioso expatriado levara de Portugal, o verso 11.°
[5] Villas y castillos tengo,— todos a mi mandar son (e)
serve para caracterizar ricaços fanfarrões.
Deixai a hum que se abone;
diz logo, de muito sengo:
Villas y caslillos tengo,
todos á mi viandar sone (3).
Então eu, qu'estou de molho,
com a lagrima no olho,
polo virar do envés,
digo-lhe tu ex Mis es
e por isso não te olho,
pois honra e proveito não cabem num sacco (estr. 2)
O verso parece ter tido aplicação proverbial, pois pro-
duziu variantes e imitações (4). Temos uma p. ex. num ro-
mance asturiano (No 12), relativo a D. Maria de Padilla. E o
Mestre de Santiago que ahi se louva proclamando:
Villas y cibdades tengo— e freires á mi mandado.
Confer Catálogo Judio Espaflol N.° 5:
Virias (sic) y castillos, Cide—me han dicho que hábeis gaitado.
*
* *
(i) Acto I, scena I (p. i<S da ed. de 1786): Carióphilo e Zclótypo.
(2) O verdadeiro título é Disparates seus, na Incha.
(3) A rima exige o-e paragógico. E muito possível, porém, que sempre se
cantasse assim.
(4) Storck Sâmmtlicke Gtdicktt /p, 375 apenas diz que os versos 13014 são:
spanische Romanzen-Vei st. Confer Zeitsclirijt VII p. 415.
CAROLINA MICHAELIS DE VASCONCELLOS
Por se referir ;i um passo camoniana, e indirectamente, ou
antes por linhas tortas, a Fernão Gonzalez, juntarei aqui mais
uma nota.
No Auto de FUodemo, Acto II. Scena *2.:|, temos conv<
entre o idealista Filodemo (amador pela passiva], e 0 mate-
rialista Duriano (? mador activo), tratado, segundo a moda do
tempo, de hereje de amor. Este confessa que não trocaria
«duas pescoçadas» da amada, «despois de [ela] ter feito a
tosquia a hum frasco, e fali arme por tu, e fingír-ee-me bê-
bada porque o náo pareça, por quantos sonetos estão escritos
pelos troncos das árvores de Valchiusa, nem por quantas
madamas Lauras vós idolatrais». Mas antes d'essa conclu-
são, moteja dos antagonistas, «nuns muito bem almofadados
que com dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezam de
brandos na conversação e de fallarem pouco e sempre coiu-
sigo, dizendo que não darão meia-hora de triste pelo tesouro
de Veneza; e gabam mais Garcilaso que Boscan — e ambos lhe
saem das mãos, virgens: e tudo isto por vos meterem em
consciência que se não achou para mais o Grão Capitão Gon-
çalo Fernandes . »
Storck, que tentou de balde traduzir e comentar essa prosa
arrebicada, confunde nas Notas o libertador de Castela com
o conquistador de Nápoles, Gronzalo Fernández de Aguilar y
de Córdoba (f 1513), cuja Crónica só saiu em 1559, mas que
antes d'es-e termo era geralmente conhecido (1), pelos seus
(i) Na Crónica rimada de Garcia de Resende, uma das décimas (a 152 a) é
dedicada ao Duque Dom Gonçalo Fernández d'Aguilar e seu valente coadjutor
Pedro Navarro. E diz:
Vimos o gram capitam
([iie tanto honrou Castella.
Que bondade! que razam!
em tudo que perfeiçam!
* iutro tal non vimos nella.
Que batalhas que venceo!
que senhores que prendeo!
Meresceo ter triumphal carro!
Vimos o Conde Navarro,
quem foi, e como se ergueo!
Francisco de Moraes e Damião de Góes também se ocuparam do Conde.
ROMANCES VELHOS 39
feitos heróicos e triunfos, mas também pelas lendárias (Jantas
grandes. Por mera distracção, bem se cê (1).
I V . Os Infantes de Lara
Mal se pôde duvidar que essa sombria tragédia fosse fa-
miliar aos Portugueses (2). Quem quiser demonstrar isso, não
encontra todavia materiaes abundantes. Uma página no
Livro de Linhagens (3); narrações mais desenvolvidas nas
Crónicas Qenerales nacionalizadas, mas por ora inéditas; o já
citado magríssimo folheto de cordel que costuma andar junto
ao de Fernão Qonzález (4); meia-duzia de alusões (5): eis tudo.
Quanto a romances, d'esta vez é (iil yicenteque por duas
v<zes atesta a popularidade de um d' eles- É o que principia
A Ccdatrava la Vieja—la combateu eastellanos (Pr. 19) (6)
ou pelo menos a última das três partes de que consta; isto é a
queixa de D. Lambra (7):
Yo me estaba en Barbadilto—en esa mi heredad (8).
Mais do que esse intróito, sáo todavia as rudes ameaças
dos sobrinhos, por ela repetidas (antigos destroços que saí-
ram da segunda desta, prosificada na Crónica de 1344) (9), que
(1) Sàmmtliche Gedichte, VI, 398, (1. 500).
(2) Além da obra de Menéndez Pidal, vid. Antologia, XI, 265-289.
(3) Título X (p. 261).
(4) Sete páginas (a duas colunas). — Num estilo sem grandeza nem poesia.
(5) Lembro uma de Fernão Rodriguez Lobo Soropita, o benemérito editor
das Rimas de Camões, porque mostra como o sentido histórico ficou reduzido e
transformado. Na sua muito metafórica Ilha da Poesia, povoada por parvos de di-
versa qualidade, fala de uns que ao domingo namoram do canto tia travessa, os
quaes, pela mor parte, não saem de obreiros de ojiciaes, que para este passo se almo-
fadam d,- maneira que vos parecerão uns Infantes de Iara. Isto i uns janotas fidal-
gos, só inferiores ao rei (pois este é o significado lato de Infantes e Infançães).
(6) Citado na Ensaladilla de Praga (Est. 3, Ingrediente 8).
(7) Lambra, Lhambra e Hambra, formas hespanholas de liammula; em por-
tuguês Chàmoa e Chama, lindo nome de varias ricas-donas citadas nos Livros de
Linhagens,
(8) Fste romance era tão sabido que foi contrafeito por Diego de S. Pedro,
Vid. Canc. General N.° 445: Yo me estaba en pensamiento.
(9) Vid Leyenda; p. 84-87.
40 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLÕS
se fixaram na memória do vulgo, a ponto tal que em Castela
entraram por nefas nas queixas de I). Kimena contra o juve-
nil Cid (Pr. 30a e 30b ).
Na farça de folgar de Inês Pereira, representada em L523,
é um pretendente mancebo, recomendado á protagonista por
dois judeus casamenteiros, que, sendo convidado a lazer ou-
vir a sua voz, entoa, em vez de lindas càhtadelás de namorar,
o romance arcaico
[6] Mal me quieren en Castilla (l) — los que me habian do. guardara (2)
O outro ccnsura-o então, achando a melodia tristonha, cm-
balantc, imprópria para o ensejo. E lembra a maneira como
certo Danaso (?) talvez algum músico de fama? cantava:
Pelo mar vai a vela vela vai pelo nu ir!
Latão. Dizei algua cantadella!
Namorai esta donzella!
E e9ta cantiga direis:
Canas do amor, cana-!
canas do amor!
Polo longo de hum rio
Cana[v~\ial está florido.
Canas do amor!
Canta o Escudeiro o romance de
Mal me quieren en Castilla] e diz.
Vidal. Latão, ja o somno he comigo
como oiço cantar guaiado
que não vai esfandangado.
Latão. E he o demo qu'eu digo.
Viste (sic) cantar Danaso:
Pelo mar vai a vela (3)
vela vai polo mar?
*
* *
(i) Castillejo serviu-se d'este hemistiquío. Vid. Bibl. de Aut. Esp, Vol. XXXII.
p. 1 6 1 .
(2) A respeito d'este octonárío, de que talvez houve a variante los que me
suelen guardar, veja-se o Apêndice N.° 12 d' este Estudo.
(3) Ver cantar por ouvir cantar é fórmula muito frequente nos Autos.— Obras,
Vol. III p. 143.
ROMANCES VELHOS 41
A segunda referência ocorre no Auto da Barca da Glória,
anterior ainda á farra 1519) (1). O arrais do Inferno convida
o Conde d'essa afamada Danza macabra a embarcar no seu
batel e a secundado no cantar guaiado:
[7] Los hijos de doiia Sancha (2)— mal amenazado me han (3).
A Morte chama o barqueiro e este diz ao nobre perso-
nagem (4 .
Sefior Conde y caballero,
dias ha que os espero
y estoy á vueso servido.
Todavia
entre vuesa seiíoria,
que bien larga esta la plancha,
y partamos con de dia.
Cantaremos á porfia
Los hijos de Dona (sic) Sancha (5).
V. O CID RUY DÍAZ DK VIVAR (6)
E sem contestação, entre os heroes peninsulares ou nacio-
naes — pois á data dos seus feitos históricos o Condado de Por-
tugal ainda náo existia — o mais conhecido e cantado, mencio-
nado como protótipo de valentia e lealdade, também neste
reino, cujo solo pisou, segundo a lenda, quando foi armado ca-
valeiro num altar de Santya-o. na própria Coimbra, recon-
(i) Ib. Vol. I p. 277.
(2) Num momento de distracção T. líraga julgou reconhecer nesse verso
o principio de un romance perdido (Cancioneiro da Vaticano p.
(3) Na Crónica burlesca de D. Jrancesi/lo (c. 4), este bobo de Carlos V ca-
racteriza gente de Alba de Liste, dizendo que pareciam do tempo de Teresa Xi-
ménez, bisavó de D. Ximena Gomez, mulher do Cid e filha de los hijos de D. San
cha que dizen mal amenazado me han. — Castillejo serviu-se do 2.° hemistíquio
(Líricos, p. 161).
(4) Claro está que estas ai,: escaparam ao autor da Leycnda (v. p. 86,
Nota 3).
(5) Ed j^eral n;\o altero os lusisnios, porque ifio característicos.
(6) Num estudo de Menéndez 1'idal, publicado na Revue Hispanique (1898), e
na Antologia XI p. 290-372, é que o leitor curioso encontra o resumo das investi-
gações mais modernas.
42 CAROLINA MICHAfLIS DE VASCONCELLOS
quistada por D. Fernando I, com as cerimónias significativas
que a Infanta D. Urraca rememora numas queias apai-
xonadas, de que logo falarei. Por causa (Testa popularidade
e por os romances correspondentes serem numeroso-, as cita-
ções multiplicam-se aqui.
Dos cantares sobre a sua mocidade, derivados da última
Gesta, o que mais se divulgou (1), é aquele tardio e extra-
vagante, em que Ximena Gómez renova os queixumes de
D. Lambra, atribuindo ao Campeador o propósito de a inju-
riar barbaramente.
Do texto que começa
Cada dia que amanece veo quien mato d mi padre (Pr. 30),
mais provavelmente do que dos cantares extensos sobre o
mesmo assunto,
En Burgos está el buen rey asentado á su yantar (Pr. 30a),
OU
Dia era de los rey es dia era senalado (30 b),
desprendeu-se em Portugal o provérbio
[8] Rey que non face justícia non debía de reinar (2).
Gaspar Corrêa, com quem o leitor já travou conhecimento,
conta nas Lendas da índia (3) como os Goenses, escandaliza-
dos pelo procedimento de Lopo Vaz de Sampaio, Governador
na ausência de Pêro de Mascarenhas, se assuaram, capita-
neados por Heitor da Silveira, e de noite lhe cantavam:
Rey que nom guarda justiça nom ha [via] de reynar (4).
(i) Ainda hoje é tradicional entre os Judeus de Marrocos. Vid. N.° 3 do Cat.
Jud. Esp. Segundo o coleccionador, não ha judia em Tânger que não o cante. —
Ha, de resto, nesse romance ainda outras reminiscências de textos mais antigos.
A enumeração de acções incompatíveis com um rei justiceiro, ou inadmissíveis nele,
provém do ciclo carolíngio.
(2) O verso faz parte da Ensaladilla (Est. 9, Ingr. 54). Como no caso do men-
sageiro, e em outros que o leitor verá, podia-se preguntar, se o romance encerra
um provérbio popular preexistente. Não o encontro todavia no Adagiàrio, nem
nunca o ouvi sair da boca do vulgo. — As variantes que conheço são: no hace, dc-
bría ou de/dera.
(3) Vol. III p. 150.
(4) Não conheço lição castelhana que lhe corresponda literalmente.
ROMANCES VELHOS 43
Em português, como se vê. O acrecento: e em outra cousa
nom deves confiar, parece-me estropiado (1).
Nas Décadas da Ásia, Diogo de Couto, continuador de
João de Barros, registou igualmente o terem os amotina-
dos ido em magotes ao paço do Governador interino, enun-
ciando alto e bom som, debaixo de sua janela, de sorte que
ele os ouvisse, os agravos e embargos que lhe punham. Mas,
como não fora testemunha ocular e auricular (2), não alega
as palavras textuaes (3).
*
* *
Outro romance do Cid, também d'aquele feitio extrava-
gante que agrada ao vulgo, é o que, principiando
Rey don Sancho, rey don Sancho cuando en Castilla reino,
corrió á Castilla la vieja de Burgos hasta León (Pr. 33),
narra a fabulosa expedição de um rei de Castela a Roma (4)
e uns tremendos desacatos que o Cid lá perpetrou, insultando
o rei de França, um duque de Sabóia, e o próprio papa. Nele
ha uma fórmula narrativa sobre o passo ou porto pirenáico
que as hostes peninsulares transpuseram (Portas Asperi), a qual
se tornou proverbial e foi repetida em Portugal, e que perten-
ceu evidentemente a um texto épico velho, quer fosse ro-
mance primitivo, hoje perdido, sobre o mesmo assunto, quer
o cantar de gesta de que esse derivara, quer a Crónica de
(i) A restituição é fácil, mas não tem utilidade.
(2) O acontecimento deu-se em 1527, no mês de Abril. — Couto (1542-1616)
foi á índia em 1556. A Década IV, em que refere o caso, foi impressa em 1602,
logo depois de estar escrita.
(3) Década VI, livro II, cap. 6. Depois de expor o motivo das queixas — que Lopo
Vaz trabalhava por Pêro Mascarenhas não vir a Goa... e que o mandava esperar
com tamanha armada como se quisesse buscar os Rumes— continua: «Isto e outras
cousas lhe hiam de noite em magotes dizer de baixo da sua janella onde o elle
ouvisse».
(4) Nos cantares de gesta e nas crónicas, o chefe da expedição transpire-
naica é el-rei D. Fernando o Magno, par de emperador. — A ideia, mais sugerida
do que enunciada por Menéndez y Pelayo, (Antologia XI, 349) que o romance que
transfere a jornada a Roma, impresso num Pliego suelto lá por voltas de 1 530
como última novidade, seja obra (refundição) de um soldado que tomara parte no
famoso saque de 1527, parece-me plausível.
44 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
1344, em que possuímos, como se sabe, dissolvido em prosa,
um cantar da divisão dos reinos pelo rei I). Peruando.
No romance indicado, desconhecido até F. Wolf o haver
descoberto num dos Pliegos sue/tos da Biblioteca de Praga 1 ,
o verso 5.° diz assim:
[9] Y á penar dei rey de Francia los puerio» de Aspa poso.
No Rodrigo o verso 769 diz com ligeira variante,
d pesar de [los] franceses los puertos de Aspa pasó (2).
Com a modificação que indico, transforma-se em verso cor-
recto. Na Crónica repete-se, com referencia directa á gesta
aproveitada: e por isto dixeron los cantares que pasó los puer-
tos de Aspa a pesar de los franceses (3).
Verdade é que a fórmula ocorre ainda, alterada somente
pela omissão da conjunção, em outro romance do mesmo ciclo,
sobre as discórdias entre os filhos de D. Fernando, a prisão
de D. Alfonso, e a sua libertação por D. Urraca. Começando
com a expedição fabulosa a França e o seu mallogro, tem
princípio idêntico:
Rey don Sancho, rey don Sancho citando en Castilla reino,
continua porém de modo diverso:
le salian las sus barbas y cuan poço las logro (Pr. 39), (4)
e afasta-se por completo, logo depois de haver falado no ver-
so 3.° dos decantados puertos. Como o carácter novelesco
que a figura da Infanta comunica a este romance o tornasse
muito divulgado (de sorte que, além de entrar em Cancionei-
ros e Silvas do século xvi, subsiste na tradição oral, tão
excepcionalmente rica dos Judeus hespanhoes), ainda hoje
continuam a cantá-lo em Tanger, repetindo com pequeníssi-
ma alteração o verso
á pesar de los franceses dentro de la Francia entro (5).
(i) N.° IX do Catálogo da Samtnlunt;.
(2) Confer ib. v. 723 desde Aspa fasta Santiago, e 755 desde los puertos de
Aspa fasta a Paris; Conquista de Ultramar II Cap. 43 los puertos de Espana que
llnman d' Aspa; Crónica General, Cap. 619 venien por el puerto d'Aspa.
(3) Antologia XI 322 e 324.
(4) Del Tiy don Sancho de como tckó en prisiòn á su //e/mano don Alonso.
(5) Catálogo Judio Espa&ol TH.9 4: Dou Sancho y dona Urraca.
ROMANCES VELHOS
Das diversas lições que deixo registadas é a do roman-
ce mais raro, com as peripécias ocorridas em Roma, que um
poeta áulico português acolheu: Pedro de Andrade Caminha,
camareiro do Infante D. Duarte, rival de Luis de Camões
na afeição de Natércia, autor de diversos epigramas, imi-
tados de Marcial, que muitos críticos julgam ofensivos do
cantor dos Lusíadas, e além d'isso músico apaixonado (1).
Numas estrofes despretenciosas, de ocasião, improvisadas em
castelhano, como resposta a quatro oitavas, em que o Pere-
grino Curioso Bartolomé Villalba y Estana, chegado a VUa-
viçosa no tempo de D. Sebastião (2), lhe solicitara uma
entrevista, é que o verso tradicional épico serve de remate
d'uma décima.
Reduzindo a significação específica ao sentido geral, que
aponta resistências vencidas, diz assim:
Y para gozar de vós
y bien provar vuestra lanza,
en el jardin, á las dos,
casa el duque de Braganza,
oy nos veamos los dos.
Cumplir quiero vuestra instancia,
que el veráo me traspasó,
porque fue tal su elegância
que a pesar dei rey de Francia
los puertos de Aspa pasó (estr. 5) (3).
*
* *
No melhor e mais antigo romance sobre a divisão dos
reinos, isto é, no que principia:
Doliente estaba, doliente ese buen rey don Fernando (Pr. 35), (4),
(i) Vid. C. M. de Vasconcellos, Pedro de Andrade Caminha, Paris, IQOI.
(2) A respeito d'este viajante hespanhol consulte-se a edição dos Bibliófilos
Espanoles (vol. XXIII e XXVI) e Serrano y Sanz, Autobiografias y Memorias, Ma-
drid 1905, p. LXXXVI.
(3) L. c. p. 108. — Os que lerem estas páginas, hão de encontrar outros qua-
tro versos inteiros de romances, citados nas mesmas trovas, pois cada uma das
cinco estrofes finda com octonários tradicionaes.
(4) No Rodrigo da Romanceiro do Algarve de Estácio da Veiga —reimpresso
na Antologia X 242 — este princípio de romance está baralhado com outro sobre a
doença mortal do Príncipe D. João, filho dos Reis Católicos (1497).
46 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASC0NCELL08
dcscreve-se com dois traços o último momento do monarca:
[10] los pies tiene cara oriente y la candeia en la mano.
Circumstáncia tão freqtiente como essa da vela nas mãos
de um moribundo, escusava evidentemente da ratificação em
cantares épicos para ser do domínio geral, e para chegar
a ter sentido derivado, metafórico. Mas afim de não ser ar-
guida de omissa, mencionarei alguns passos escolhidos, em que
autores portugueses se serviram da fórmula estar fou ir) com a
candeia na mão (1) — depois de haver observado que o verso
que citei impressionou o público e entrou, indevidamente, em
outros cantares relativos ao falecimento de reis castelhanos.
Veja-se p. ex. o muito sabido de D. Fernando IV, o que mor-
reu emprazado. Apesar de o cronista declarar que, por cas-
tigo de Deus, expirou inesperadamente en guisa que ningunos
le vieron morir (2), o autor (ou renovador) do romance sobre
o mando injusto executado nos Carvajales, introduz o porme-
nor aludido, tirando o verso inalterado do romance de D. Fer-
nando I (3). Sem razão figura também no romance artístico
de Frey Ambrósio de Montesino sobre a morte desastrosa do
Príncipe D. Alfonso (1491) de Portugal
Hablando estába la reina en cosas bien de notar. (Duran 1901) (4).
Em Portugal também se conta como um ou outro rei, sen-
tindo a sua hora chegar, pedira a candeia. Garcia de Resen-
de p. ex. assentou o facto com relação a D. João II. Segundo
ele, esse Homem que venerava, morreu com a candea na
mão (5).
No Pranto de Maria Parda, essa devota do Deus Baco
(i) Candeia no sentido arcaico de vela, círio, bujia, que tem nos cancionei-
ros galego-portugueses.
(2) Crónica de Fernando IV, cap. XX.
(3) Num Pliego suelto de Praga, citado na Primavera I, p. 204, o texto acaba
assim:
Antes de los trcinta dias maio está el rey don Fernando.
El cuerpo cara oriente y la candela kn la mano,
asi falleciô su Alteza de esta maneia citado. (Pr. 64)
(4) Vid. Resende, Vida e Feytos de D. João II, Cap. 132 e Ruy de Pina, Inédi-
tos II, p. 132.
(5) Vida e Feytos de D. João I, c. 212.
ROMANCES VELHOS 47
implora a caridade de uma sua comadre, taberneira, pedindo
vinho emprestado:
Oh senhora Biscainha,
fiae-me canada e meia,
ou me dai hua candeia
que se vai esta alma minha (1).
E na Farça de quem tem farelos, o protagonista, fidalgo pobre
e apaixonado, ao rememorar trovas (parodiadas) que escre-
veu por amor da sua dama, lê no seu Cancioneiro de mão
umas em que dissera:
Estou co'a candeia na mão (2),
senhora minha Isabel;
mando lá esse papel
que vos diga esta paixão (3)
Ha mais e melhor porém. Aquelas estraf alarias cartas
apócrifas que Egas Moniz, o primo, dirigiu á sua fiel-infiel Vio-
lante, segundo os impostores do século XVII: Bem satisfeita
ficades, Corpo de oiro — Fincarades bos embora, foram escritas
com a candêa numa mão, e na outra a penna. E o que conta
António Coelho G-asco, na sua Conquista da Cidade de Coim-
bra (4).
A segunda Carta em prosa que possuímos de Luis de Ca-
mões, verdadeira manta de girões, tecida de ditos alheios e
proverbiaes, naquele estilo joco-sério conceituosíssimo, em
que os intelectuaes da corte de D. João III (5) desbaratavam
a agudeza do seu espírito, começa recomendando que o seu
escrito não corresse de mão em mão.
Esta vai com a candeia na mão morrer na de V. M.; e se d'ahi passar
seja em cinza, porque não quero qu3 do meu pouco comam muitos. E ae
todavia quiserem meter mais mão á escudela, mande-lhe lavar o nome,
e valha sem cunhos (6).
(i) Gil Vicente, Obras, III, 368.
(2) Matthiii am letzten, como diríamos na Alemanha, com metáfora bíblica.
(3) Vol. III, p. 11.
(4) Lisboa, 1805 (p. 97).
(5) Fernão Cardoso, Simão da Silveira, João López Leitão etc. e posterior-
mente Fernão Kodriguez Soropita e D. Francisco de Portugal.
(6) Zeitschrift, VII, 438.
48 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Creio que basta de exemplos. Como nenhum deles dá á
expressão proverbial a forma métrica de octonário, nem tíio
pouco traje castelhano, não os considero citações derivadas
de romances.
*
* *
As incomparáveis rapsódias sobre o cerco de Zamora, de
beleza sombria mas nobre, não passaram desatendidas. O
nome Çamora figura em diversas frases proverbiaes, e com-
quanto haja uma vila do mesmo nome em Portugal (Çamora
Correia ou Çamora de Benavente), na Estremadura, citada
p. ex. por Gil Vicente, III, 340, essa não tem notoriedade
nenhuma. Nas formulas ique culpa vos tem Çamora? e Çamora
não se tomou numa hora, empregadas por Jorge Ferreira de
Vasconcellos e pelo Plauto Português (III, 206), assim como
em alusões ás pedras de Çamora (ib. III, 264), e na praga /Oh
renego de Çamora! (ib. III, 217 e 249) ha, a meu ver, referên-
cias ao repto antigo, muito embora os acontecimentos da in-
vasão afonsina e em particular o que Resende e Pina cha-
mam a traição da ponte de Çamora influissem nas recorda-
ções (1); principalmente na praga.
Várias locuções transformaram-se em versos alados, e
reminiscências muito notáveis sobrevivem no romance já ci-
tado do Algarve (em á-à)
Enfermo el rei de Castela em cama de prata estava
que é um amalgama singular de fragmentos (2).
Das recriminações da Infanta desherdada
Mor ir vos queredes, padre San Miguel vos haya el alma (Pr. 56)
(i) Confer Canc. Gera/l, 458.
(2) Confunde o Príncipe D. João, como já notei, e os doutores que lhe assistem,
com el rei de Castela D. Fernando que faz testamento; passa ás queixas da princesa
(D. Urraca); narra a outorga de Zamora e logo depois o cerco e as intimações de
defesa que a infanta desgraçada, com ciúmes de Ximena Gomes (filha do conde
Lousada!), dirige ao Cid. Este, transformado em Dom Ramiro, aparece na com-
panhia do almirante Dom Gaifeiros!
ROMANCES VELHOS 49
á qual o pae condoído outorga Zamora la bien cercada (1)
saiu a descrição da cidade forte
[H] de una parte la cerca el Duero de otra, pena tajada (2).
Ainda no século xvn ela estava presente a D. Francisco
Manuel de Mello, o das Guerras de Catalufia. Aplicando-a a
uma sua quinta, a respeito da qual precisava requerer junto
a D. João IV, traduziu o verso, dizendo
de húa parte a cerca o Douro da outra penha-talhada
e meteu-o em hum as quintilhas portuguesas, bem engraçadas
e recheadas de alusões a coisas populares, e que haviam de
servir de Prólogo á prosa tabelionática da petição (3).
i ) verso final do mesmo romance
[12] Todos diccn Amen Amen sino don Sancho que calla
foi citado pelo poeta bucólico Francisco Rodriguez Lobo (4).
Caracterizando concisamente a reserva do herdeiro da co-
roa em frente das concessões que, reconsiderando, o monar-
ca fizera ás Infantas, legando Çamora a D. Urraca, Toro
B D. Elvira, e maldizendo os que contrariariam essa sua der-
radeira vontade, o verso talvez desse origem ao provérbio
muito citado ai buen callar llaman Sancho. Mais provavel-
mente^ modifica todavia apenas o sentido e a forma do adágio
preexistente ai buen callar llaman Sancho (sanctius) ou xage
(sapius) (5).
(i) Confer A/ora la bien cercada, num romance famoso (Pr. 79), citado muito
cedo, nas Trecientas de Juan de Mena (Estr. 190) e Valência la bien cercada no
Catálogo Judio-Espaiíol . N.° 6.
(2) E não Pena-Tajada. Não se trata de um nome-próprio. Variante: De un
cabo la cerca el rey -dei otro el Gd la cercaba, no romance que principia Apenas
era el rey mueito e sirve de introdução a Afuera! af itera Rodi
(3) Vid. Viola de Talia, p. 209 da Parte II das Obra» Métricas! Memorial a El
Rey .Vosso Senhor, D. y (lo o Quarto, com húa petição sobre o negocio que refere. ..
(4) Obras, ed. 1723, p. I 23. —As primeiras publicações d'este corifeu entre os
epígonos camonianos, são de 1596.
(5) Confer Romania XI, 114. — Em português
Ao bom calar chamam <f Santo».
50 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Cronologicamente, temos logo depois as enérgicas invec-
tivas de D. Urraca contra o Cid, que veio transmitir-lhe a
dura mensagem já mencionada dei rei D. Sancho, o qual re-
solvera não respeitar a vontade do pae:
[13] Afuera, afuera, Rodrigo (1) el sobèrbio castellano (IV. .'57) (2;.
Este intróito exclamatório foi repetido tanta vez que também
chegou a perder o seu sabor histórico, sendo empregado, cada
vez que em algum escrito ou dito estilizado um peninsular
queria despedir ou impontar alguém, mandando-o embora,
onde em linguagem chã, de cotio, teria bastado uma simples
interjeição como fora! rua! vaia!
Andrado Caminha rematou com este verso a décima ini-
cial das trovas ao Peregrino, antepondo-lhe a declaração: á
la vaya doy de mano (3).
Camões contentou-se com o primeiro hemistíquio na Car-
ta 2.a em prosa, (da índia, ou talvez de Ceuta.) Querendo
afugentar ideias tristes que o arrastavam, disse:
AFUERA, AFUERA RODRIGO ! que se eu muito por este caminho
for, darei em enfadonho, ainda que me parece que, para o
deixar de ser, já me não livrarão privilégios de cidadão do
Porto. (4).
De ahí passaria talvez ás obras do seu imitador Fernão
Rodríguez Soropita a fórmula derivada:
Afuera, afuera, pensamientos mios!
com que principia uma sua sátira contra o Amor, proseguindo:
Começo logo entrar por castelhano,
A ver se o canivete tem bons fios (5).
Pelo contrário, julgo que nada têm com o romance do Cid
(i) Na lição do Algarve temos: Dom Ramiro avante, avante! e lesto, lesto, Dom
Ramiro!
(i) ( ) verso imediato
Acordarsele debría de aqttel buen tiempo f asado.
suscitou muitos paralelos, mas nenhuma imitação directa.
(3) Opúsculo citado, p. 107.— A respeito de vaya vid. aqui n.° 99.
(4) Zeitschrift VII, p. 451 e Storck II, p. 403.
(5) Poesias e Prosas Inéditas, p. 47.- Ha muitas mais cartas e poesias de So-
ropita, que conto publicar qualquer dia.
ROMANCES VELHOS 51
diversas cauções líricas, cm que autores antigos por volta
de 1500 tentaram livrar-se, com um singelo ou duplo Afuera,
ora de desejos pertinazes, ora de conselhos vãos. Uma é de
Nicolas Nufiez e anda no Caucione r o de Rennert (N.° 120): Afue-
ra, afuera deseo! Outra, em três décimas castelhanas encontra-
se no Cancioneiro de Évora (N.° 62): Afuera consejos vanos e
parece ser de um anónimo português. Esta agra dou muito. Os
primeiros cinco versos foram glosados por Luís de Camões (1).
Outra glosa da canção inteira ó de Andrade Caminha (2).
E este mesmo autor inseriu os versos iniciaes Afuera consejos
vanos, Que despertais mi dolor numa Elegia portuguesa, enti-
tulada Penas Amorosas, na qual cada estrofe remata centoni-
camente cora dois versos alheios, sempre líricos (3) e sempre
castelhanos. Cervantes é quem documenta que a canção tam-
bém era conhecidíssima em Hespanha. Na Comédia do Rufia n
Dichoso um pasteleiro canta a primeira quintilha e um seu
companheiro diz a este respeito:
Hola! cantando está el pastelerazo;
y j)or lo menos los consejos vanos (4).
Claro está que ha na literatura tão opulenta dos nossos
vizinhos e irmáos, numerosos documentos que atestam a popu-
laridade de todos ou quasi todos os versos de romances, de
que já tratei (5), embora era geral eu deixasse de dar exem-
plos. Com relação ao soberbo Castelhano notarei uma citação
num bailado de Câncer (o Orfeo, de 1575) (6) e duas nos Autos
cuja publicação esmerada se deve a Léo Rouanet (7). Nem
(i) A atribuição feita por Faria e Sousa não é segura. Pelo menos, ainda não
encontrei confirmação.
(2) N.° 455 da edição Priebsch: Poesias Inéditas (Ilalle, 1898).
(3) Poesias (Lisboa, 1791), p. 177.
(4) Vid J. Ilazaíías y la Rua, Los Rufianes de Cervantes, Sevilla, 1906 (p. 109
e 217).
(5) O Vocabulaiio de refranes y frases proverbiales de Gonzalo Correas, pu-
blicado ha pouco pela Academia Kspanola, no qual se encontram muitos versos
de romances populares usados no século xvii, por ora só o conheço pelo compte-
rendt: d'esta Revista. (Vol. II, p. 460.)
(6) Vid. Zeitschrift XXIII, p. 69.
(7) Bibliotheca Hispânica VI, 519 (La Resurreción de Christo. 142-3); VII, 457
(La Fuente de la Gracia, v. 279-1). — Quasi escusado é assentar que não falta na
Ensaladilla (v. Est. 13. Ingr. 71).
52 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
quero deixar de lado o curioso romance satírico sobre as aven-
turas quixotescas de um namorado português d), em que e
canta na sua linguajem (estropiadíssima, como sempn- cm
impressões hespanholas) os versos iniciaes das queixas ãe D.
Urraca (e posteriormente um cantarcillo sobre a forncira de
Aljubarrota). Emendadas, diriam:
Afora, afora Rodrigo! o soberbo casteíftano!
acordarse-te-deuéa (2) d' aquei tempo já passado
cuando te armei cavaleiro eno (3) altar de Santiago:
minha vaãi te deu as armas, meu pai te deu o cavalo;
CasteZftano mau o soberbo Castelhano (4).
A traição de Vellido Dolfos, previamente anunciada ao
sitiador de Çamora pelo velho Árias Gonzalo (aio comum do
Cid e de D. Urraca, segundo os Cantares e as Crónicas), co-
nheciam-na em Portugal pelo belo romance primitivo, que já
se cantava no tempo de Enrique IV (i. é antes de 1474) (5).
Rey don Sancho, rey don Sancho no digas que no te aviso (Pr. 45)
ou antes pela variante
[14] Rey don Sancho, rey don Sancho no digas que no te lo digo,
se esta lição não provier, por confusão, do verso 5.° de uma
redacção posterior (Pr. 44) (6).
No Comedia Ulysipo de Jorge Ferreira de Vasconcellos (7),
um conversador assaz prolixo e sentencioso é interrompido
por outro que, cheio de ironia, dissimulada em chistes ga-
lhofeiros, exclama:
«Senhor, senhor, fazei pausa! porque vos leva a corrente de vossas
premáticas ao pego deContemptus Mundi, donde (se sahir como outros
que vejo empegados nelle) não haverá fateixas de Tiempo bueno, tiempo
(i) Vendedor de panos de linho, e do afamado_/?0 de Portugal.
(2) Ou devria.
(3) Forma antiquada, mas necessária, por causa do metro.
(4) Confer, Duran No 1772. — No Romance do Algarve lê-se
minha mãe vos deu vestidos, meu pae dá-vos sua espada
e eu vos dou esporas de ouro, pendão de seda encarnada.
(5) Anda enxertado no Sumário de los Rey es (p. 25 da Ed. de Llaguno).
(6) Outra variante dizia Guarte, guarte Rey don Sancho; p. ex. no Libro de
Música de vihuela de Pisador. (Ensayo N.° 3.485.)
(7) Ulyripo f. 103.
ROMANCES VELHOS 53
bueiw nem arrepique de Iiay don Sancho rey don Sancho, no digas que
no te lo digo que vos tire a lume.»
Francisco Manuel de Mello repete o verso em uma das
suas Cartas Familiares. Na Ensaladilla é o troço primeiro.
*
* *
Muito mais familiarizados estavam todavia em Portugal
com outra scena: o repto de Diego Ordoíiez de Lara e seu
filho (Fernando ou Ordonho), cavaleiros do arraial dei rei
D. Sancho, aos Camoranos, narrado no romance
[15] Biberas de Duero arriba cabalgan dos zamoranos (Pr.41,42,43)(l).
No Auto de Rodrigo e Mendo, de um pouco conhecido poeta
da escola vicentina que se chamava Jorge Pinto, um dos per-
sonagens se oferece a cantá-lo (f. 46.°) (2).
Na Aulegraphia, terceira e última comédia de Jorge Fer-
reira de Vasconcellos, um rapaz emprega o octonário inicial
para completar pitorescamente a frase singela eu vou noutra
volta (f . 80) .
Na sua Carta I da índia, Luis de Camões, que certamente
sabia o romance de cor, caracteriza os valentões de Goa,
comparando as suas bravatas e fanfarronices aos clássicos
juramentos dos reptadores de Zamora. Neste empenho modi-
fica o teor, dizendo:
«Já estes que tomavam (3) esta opinião de valentes ás costas, crede
que nunca
[15] liiberas de Duero arriba cavalgaron zamoranos
que roncas de tal soberbia entre si fuesen hablando;
e quando vem ao effeito da obra, salvam-se com dizer que se não podem
fazer tamanhas doas cousas como he prometer e dar.»
O texto que o Poeta guardava na sua admirável memória,
(i) Sempre pensei que havia confusão neste romance e que os cavalgadores e
reptadores da Çainora leonesa eram castelhanos. A lição verdadeira creio que seria
hijosdalgo. Vid. Bonilla y San Martin. Anales, p. 37.
(2) Li-o na ed. única de 1587 (Autos e Comedias) na Biblioteca Nacional de
Lisboa, mas os meus extractos não me permitem ser mais explícita.
(3) Proponho: que tomam.
54 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
foi, parece, o de ura Pliego suelto, igual ao que se conserva
em Praga, visto que só neste ocorrem (no verso 15.") as pala
vras de tal soberbia, emquanto na versão da Silva se lê pa-
labras de gran soberbia.
*
Bem entrava ahi mesmo a principal d'essas roncas:
[16] que se matarem con três y lo mismo haran con cuatro (Pr. 42) (5).
Não é, porém, na própria Carta que surge, mas sim era outro
desabafo da mesma época e sobre o mesmo assunto. Nos Dis-
parates seus, na índia, o patriota indignado contra a cobardia
e vilania dos degenerados, traça o seguinte perfil:
Outros, em cada teatro
por oficio lhe[s] ouvires
que se mataran con três
y lo mismo harán con cuatro.
Prezam- se-de dar repostas
com palavras bem-compostas;
mas se lhes meteis a mão,
na paz mostram coração,
na guerra mostram as costas,
porque... aqui torce a porca o rabo (2).
*
* *
Aos reptos saem uns sete cavaleiros. Diego Ordonez mata
cuatro; seu filho, dois; o último escapa-se.
[17] Por aquel que se les iba las barbas se está mesando (Pr. 4) (3).
(i) Var. que con três se matarian y aun harian así con cuatro. Lição de Pr. 41 :
que se matarian con três y se matarian con cuatro. Var. de um PI. s.:y lo mismo ha-
rian c. c. Confer Ana/es p. 37.
(2) Como o leitor terá visto, pelos dois exemplos até aqui alegados, cada es-
trofe dos Disparates acaba com um provérbio em prosa.
(3) Var. se van. Lição de Pr. 52:
por uno que se les fuera las barbas se van pelando.
Var. mesando.
ROMANCES VELHOê 55
Este movimento de desespero, tantas vezes citado no direito
consuetudinário, gravou-se.na memória de Jorge Ferreira,
que já conhecemos como um dos mais versados em romances
primitivos, muito embora os. trate ás vezes de velhices esta-
fadas. Na novela de cavalaria a que deu o título de Sagramor
ou Segunda Távola Redonda, acha-se enxertada a descripção
minuciosa de um torneio histórico, afamado nos anaes da
corte portuguesa: o de Enxobregas (Xabregas) em que o juve-
nil príncipe D. Joáo (1) tomou armas a 15 de Agosto de 1552,
combatendo a pique e espada, contra alguns seus camaradas
como D. António de Noronha, o predilecto discípulo de Ca-
mões (2). Após um passo de armas, tão porfioso que os impar-
ciaes tiveram de departí-lo, um brioso mantedor mostrou-se
raivoso, por não poder satisfazer-se do seu contrário, acto de
que Jorge Ferreira tomou nota, explicando: Poder a dizer-se
por eUe:
Por el otro que se le iva las barbas se está messando (3).
A transposição para o singular deve ser intencional.
*
* *
Não é dos velhos, mas ainda assim merece atenção, outro
romance do cerco de Zamora, ou mais exactamente do repto
de Diego Ordóíiez, por haver despertado um eco em Portugal,
em fim do século xvx ou princípios do imediato. É o N.° 3 da
I /isto ria Zamorana que faz parte do Romancero Historiado
de Lucas Rodríguez (1579 ou 81) (4) e diz
Con el r ostro entristecido y el semblante demudado,
Este, ou antes só a segunda metade, a começar do verso
[18] Mirando va el crucifijo [y] d' esta manera hablando,
(i) A este filho de D. João III, foi dedicado não so a Eufrosina, mas também
o Saeramor.
° ■>
(2) Cap. 47, Do torneo que fez ho esclarecido Príncipe em idade de quinze annos.
(3) P- 341 da ed. de 1867, (lue> infelizmente, é muito defeituosa. A i.a é de
1567. (Évora).
(4) Ha ed. de Lisboa, 1584.
56 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
foi imitado por Miguel Leitão de Andrada, escritor tão com-
pletamente falto de critério que acolheu na sim aliás curiosa
MisceUánea (1), de mistura com versos admiráveis de Camfl
algumas das relíquias apócrifas literárias de Portugal, o velho.
Acusado de homicídio contra a própria esposa <2 •, e preso
no Limoeiro de Lisboa, Miguel Leitão lembrou-se de implorar
a misericórdia de Deus e a intercessão da Virgem em versos
de Lucas Rodriguez, transpostos ao divino (3):
Por isso me ia com tudo diante de hum crucifixo apresentando a
Deus a dor e angustia deste coração, com algumas palavras áquelle
modo do Romance de Diego Ordonhes de Lara, o Bravo, na morte dei
Rey D. Sancho sobre Çamora, que diz:
Hincado está de rodillas (4) con un crucifixo hablando,
las palabras que dizia son de hombre mui lastimado:
«Bien sabeis vos, seiior mio la verdad de aqueste caso,
que persiguen sin razon a aqueste aflicto Don Sancho (!),
mas si me dais vuestra ayuda, buen seiior, pienso mostrarle
la verdad de mi intención que es de coraçou honrado».
Estas palabras diciendo a vos, Virgen, rni amparo,
pido socorro y ayuda que salgais por mi ai campo.
Vuestro soy desde muy nino y me aveis siempre livrado,
ahora que es más tormenta más socorro es necesario».
*
* *
(i) Basta ler o título inteiro do livro impresso em Lisboa, 1629 e 1867, para
reconhecer o feitio d'essa «salada» como o autor a chama, ou «salsada» como hoje
diríamos: Miscellanea do sitio de Arossa Senhora da Luz do Pedrógão grande, appa-
recimento de sua sancta imagem, fundação do seu convento, e da see de Lisboa, ex-
pugnação d^ella, perda de el rei Sebastiam. E que seja Nobreza, Senhor, Senhorias,
Vassallo dei Rei, Rico homem, Infanção, Corte, Cortezia, Mezura, Reverencia, e Ti-
rar o chapeo, e prodígios. Com muitas curiosidades e poesias diversas.
rim todo o caso, o sr. Serrano y Sanz bem lhe podia ter dedicado algumas pa-
ginas nas interessantes Autobiografias y Afemorias. A prosa é portuguesa; entre
os versos ha muitos em castelhano.
(2) Vid. Braamcamp Freire, Brasões de Cintra, I p. 371-383 e II 520; Aichivo
Histórico II p. 1 5; e Júlio de Castilho Lisboa Antiga, vol. I, cap. X.
(3) Dialogo X, p. 203 da ed. de 1867.
(4) Nem mesmo este hemistíquio é de Miguel Leitão; pelo menos, é idêntico a
um de Bernardo dei Carpio (Duran 657).
ROMANCES VELHOS ST
Das peripécias do combate entre os dois Ordofiez e os fi-
lhos de Árias Gonzalo, história portentosa que com veneração
e assombro lemos na Crónica Geral, e que mesmo despojada
do solene metro épico, guarda intacta a sua sombria beleza,
não igualada talvez em nenhum outro poema dos tempos rae-
dievaes (1), não ha vestígios nos romances.
Não falta todavia o relato conciso do saimento fúnebre de
um dos filhos do velho Zamorano; nem tão pouco o ténue eco
português que costuma perdurar. O romance
[19] Por aquel postigo viejo que nunca fuera cerrado (Pr. 50)
foi tratado de antigualha na Eufrosina, conforme mostrei (2).
Também entrou numa Carta em trovas, escrita na Africa,
antes de 1549, relativa ao desconcerto dos costumes guerrei-
ros, mas muito mais âs saudades do namorado e pouco bélico
autor (3). Camoniana ou pseudo-camoniana, tem importância
para nós, porque cada estrofe remata com versos proverbiaes,
tirados de cantigas e, mais vezes, de romances. A que aqui
nos respeita, diz:
Da guerra novas mais certas
brevemente são contadas:
no verão portas fechadas,
(i) Faço meus estes dizeres de Menéndez y Pelayo (Antologia, XI, 353), porque
admiro, como ele, as belezas do enérgico cantar.
(2) Vid. N.° 4 d'estes apontamentos.
(3) Esta Carta em trovas, da Africa — (e mais outra do mesmo autor, e de fei-
tio igual) foi introduzida nas Obras de Camões pelo Visconde de Juromenha, que as
encontrou ambas num ms. do século xvill, não sei se realmente com o nome do
grande Português (Vol. IV, 147 e 154). Da sua edição passaram para a de T. Bra-
ga (Redondilhas p. 207 e 215) e para a tradução de Storck. Este verificou algu-
mas citações, e corrigiu vários erros. Eu fiz outras emendas num artigo crítico, já
citado repetidamente (Zeitschrift, VII, p. 415 ss). Lá explico que no único ms. em
que vi as cartas, na Biblioteca de Évora, elas são atribuídas a Ml Pira de sem —
nome que li Manuel Pereira de Santarém, em harmonia com outros passos. -- Um
dos bibliotecários interpretou d'Ocem, e T. Braga aceitou e propagou a leitura,
melhorando a ortografia para d'Ossem. Posteriormente vieram-me dúvidas novas
sobre a justeza da abjudicação, ao conferir todas as trovas e cartas frívolas, com*
postas pelo cantor dos Lusíadas no seu período de Sturm-und-Drang, e também
as elegias e odas artísticas do período palaciano. — A Carta Ia hum amifO princi-
pia: Por usar costume antigo; a // em recosta á de hum amigo: MandastefsJ-me
pedir novas.
CULTURA 5
59 CAROLINA tílCHAÉLIS DE VASC0NCELL0S
no inverno pouco abertas!
Qualquer Mouro desmandado
nos comete sem nium pejo:
por aquelle postigo vejo (.sic)
que sempre esteve fechado (Estr. I.)
Proponho que se leia á castelhana por aquel postigo viejo 1 )
que nunca fuera cerrado, porque os restantes centórs estão
(com poucas excepções) em castelhano, mais ou menos desfi-
gurado, embora eu não desconheça que ha muita vez divergên-
cias intencionaes nessas transcrições, e outras vezes lapsos de
memória. Na maioria dos casos as alterações sâo evidente-
mente obra dos copistas e editores ignorantes, que não reco-
nheceram as alusões e as trataram por isso como roupa de
franceses (2).
* *
Outro verso do romance encontra-se na Carta II da Africa
do mesmo, e diz:
Andando só, como digo,
apartado da manada,
fazendo contas comigo
que em fim não fundem nada,
querendo buscar atalho
para vir ao que desejo (3)
vi venir penclon bermejo (4)
[20] con tres[c]ientos de caballo (E-tr. 12). (5).
(i) As rimas pejo viejo, e desejo vermejo na Carta II completam a lista, já bas-
tante extensa, de casos parecidos. (Vid. Gil Vicente, III 258 viejo desejo cran-
guejo, indicadoras da pronúncia antiga do castelhano.)
(2) Na Coleccion de Autos, Farsas y Colóquios dei Siglo XVI, publicada por Léo
Rouanet, notei três referências ao Postigo viejo: I 177 (Auto dei Magtia 249); II
517: (Resurreción de Christo v. 80; III 14 id. 377). Todas saem da boca do Bobo.
(3) Talvez antes: para ver o q. d.f
(4) No ms. bremejo.
(5) Ha um remedo amatório d'este romance que o editor moderno (Duran
1402) não reconheceu como tal. E diz:
Por un valle de tristura, — de placer mtty alejado
vi venir pendones negros — entre muchos de ã caballo.
São estes taes remedos a que os quinhentistas davam o titulo de romance
trovado.
ROMANCES VELHOS è&
Note-se que o autor das duas Cartas confessa na pri-
meira, em harmonia com as observações de Jorge Ferreira,
que a moda dos romances trovados, das trovas com girões de
romances, e das glosas, ja não estava em vigor:
— ê[m] que esta arte de trovar
se vá desacostumando. — (1)
*
* *
Os cantares sobre a jura de S. Gadea (Águeda) e sobre o
desterro com que D. Alfonso, sucessor de D. Sancho, casti-
gou a ousadia do Campeador, parece que também se espalha-
ram no occidente. Creio pelo menos que o verso
[21] Mucho me plaze, el buen rey, de cumplir vuestro mandado,
empregado por Andrade Caminha na Cartinha ao Peregri-
no, pertence a uma redacção perdida do romance
En sancta Gadea de Burgos do juran los hijos dalgo (Pr. 52),
sendo mera variante de
Placeme, dijo el buen Cid, placeme, dijo, de grado
por ser la primera cosa que mandas en tu reinado.
Ou então o teor confundiu-se na lembrança do poeta português
com o de outros taes rípios, muito usados nos cantares de ges-
ta (2); como p. ex.
placeme, dijo, seíwr cumpla-se vuest? o mandado (3)
ou:
ou:
placeme, dijo, senor por cumplir vuestro mandado (4)
placenos, el almirante, por cumplir el su mandado (5)
*
* *
(i) A quadra final do romance velho (No muriô por las tabernas, et.), parecida
àquela com que remata o das almenas de Toro (Pr. 54: que no ias gane liolgando
ni bebienáo en la taberna) foi padrão muito imitado. Mas isso não pertence ao
meu assunto.
(2) Vid. Crónica Rimada v-101, 1 14, 150, 594, 838, 1.091.
(3) Romance de Amadis, Duran 1871.
(4) Pr. 60.
(5) ^r. 64.
ÒQ CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Estamos chegados ao Romance dei rey more <jtt<' perdia á
Valência, ura dos mais velhos, c certamente o mais dramático
e mais cantado de todos, a ponto tal que troços notáveis d'ele
se conservam na tradição oral da Catalunha, dos Açores, da
Ilha da Madeira, e também entre os Judeus de Tanger, (1)
como já disse na Introdução.
O intróito vivo e impressivo
[22] Helo helo por do viene el moro por la calzada ( Pr. 55)
muito citado (2) e muito imitado (3), postoque, pela sua vez,
seja tirado de outro cantar mais antigo (4), ocorre em Portu-
gal no Auto de Rodrigo e Mendo de Jorge Pinto (5). No Auto
da Ciosa de António Prestes, o primeiro octonário completado
por outro, livremente inventado ad hoc, tem o valor de um
simples ei-lo aqui (6). Em outro Auto do mesmo, chamado dos
Cantarinhos (sem que se perceba por quê), ha uma paródia,
em que el moro é substituido por el saio, com alusão a um
roupão que o seu dono desejava levar ao penhorista (7).
* *
(i) Aos textos de que me ocupei em Zeitschrift, XVI, temos de juntar agora
o N.° 6 do Catalogo Judio- Esp ano/ e outro de Tras-os-Montes impresso na Re-
vista Lusitana, IX, 305. — Confer Antologia, XI, 360.
(2) P. ex. na Ensaladilla (Est. 4, Ingr. 15), e em duas comedias de Moreto:
De fuera vendrã (III, 14) e Como se vengan los Nobles (III 6).
(3) Aos exemplos que outrora citei, junte-se a parodia de Quevedo:
helas, helas por do vienen
la Corruja y la Carrasca,
{Musa V, Baile II, da vida airada), citada no Orfeo de Câncer (Zschr. XXIII, 70).
(4) Pr. 1 50. Romance dei inf atite vengador.
(5) Vid. T. Braga, Poesia Popular Portugueza, p. 380.
(6) Autos p. 339:
O barbero é já chegado
ELO, ELO POR DO VXENE
DE CAPUZ ENCADERNADO.
(7) Ib. p. 440:
e logo depois:
Elo, elo por do viene
EL SAIO POR LA CALZADA,
ATo era el saio tan viejo,
ijue inda nelle saia havia.
ROMANCES VELHOS 61
Outro verso com a descrição do Mouro,
[23] una adarga ante los pechos [y en su mano una azagaya] ,
perfaz o remate de uma estrofe da Carta II da África em que
o autor começa a fazer o seu próprio retrato:
E pois que já comecei,
dar-vos-hei conta comprida
de como passo a vida
nesta vida que tomei:
vou me ao longo da praia
sem outros ricos petrechos,
una adarga a[ri]te [los] pechos
y en la mano una azagaia (Estr. 4).
*
* *
As exclamações sentidas do mouro
[24J Guay Valência, guay Valência (1), de mal fuego seas queimada
(mas sem as ameaças, malcabidas, contra o Cid, que provém
de romances fronteiriços) (2), foram cantadas em 1532, era pre-
sença dos reis, como parte do Auto da Lusitânia de Gil Vi-
cente, em redacção fragmentada e desconexa; vestidas á
portuguesa, mas com remendos castelhanos. Dois judeus al-
faiates, pae e filho, sentados na sua banca, cantam cosendo:
Ai Valença, guai Valença de fogo sejas queimada!
primeiro foste de moiros que de christianos (3) tomada!
(alfaleme na cabeça (I) en la mano una azagaia) (5)
Guai Valença, gual Valença como estás bem assentada!
antes que sejam três dias de moiros serás cercada (ti).
e ainda:
Quando la hermosa infanta
mi ama ya lo DESFIA,
com um pé á portuguesa, para realçar o efeito cómico d'essas citações, arbitra-
riamente mascaradas,
(i) Var Ay e Oh.
(2) Pr. 71 e 71a.
(3) A forma bissilábica christãvs encurtaria o verso.
(4) Este hemistiquio impar não se encontra em nenhuma versão conhecida.—
Pertence a outro romance fronteiriço, o de Antequera (Pr. 74, v. 8.)
(5) Este hemistiquio par faz parte do verso 4.0, agora mesmo citado (23).—
Ambos estão aqui fora do seu lugar.
(6) Obras III, p. 270.
62 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASC0NCELL08
Eassi o foi, afirma o pae. Segue um dialogo engenhoso. A mãe
Hecer Beacar confessa preferir cantigas, e faz ouvir uma
cTaquelas poesias arcaicas, mulheris, paralelísticas, que encan-
tam sempre de novo: Donde vindes, filha Blanca e colorida.
O pae, pelo contrário, Dom Juda, tipo perfeito dos medrosos
inconscientes que se deleitam com fantasias heróicas, brava-
teia de valente e de altercador, dizendo entre outras coisas:
Se a cantiga não fallar
em guerra, de cutiladas
e de espadas desnudadas,
lançadas e encontradas
e coisas de peleijar,
nâo-nas quero ver (1) cantar!
nem-nas posso ouvir cantadas!
E possível que o Plauto português quisesse frisar nessa
scena de família não só o caracter dos Judeus perseguidos
e o género musical guaiado (2) que preferiam, mas também
o modo como tratavam textos tradicionaes, abreviando-os e
confundindo-os, e na linguagem (porventura até no sotaque da
pronúncia) dos que vieram de Hespanha. Mas, como o leitor
já viu, e ainda verá em diversos exemplos, mistura igual
de castelhano e português se nota em quasi todos os tre-
chos— e é naturalíssima em pessoas que, falando um dos idio-
mas peninsulares como lingua materna, têm todavia de ser-
vir-se do outro.
Como as lamentações sobre Valência também se aplicaram
a Alfama, na versão oral da Ilha da Madeira (3), embora sejam
ilógicas num Romance do Cid, a exclamação minha Alfama
como título burlesco, antitético, de ternura, dado a uma ra-
(i) Talvez: não-nas quero eu cantar?
(2) Guai, guaias guaiado é muito frequente em boca dos Judeus de Gil Vi-
cente. Vid. Ill, 143, 266, 271.
(3) Eis o passo:
Ai Aljama, mi/th ''Alfama que m 'stavas mal guardada!
Ainda hontem de moiros, hoje dos christões ganhada!
Ai Alfama, minh\[tfama afogo sejas queimada,
s 'amanhã o sol raiar sem de moiros ser croada!
Confer Antologia, X, 243.
ROMANCES VELHOS 63
pariga no Auto dos Cantarinhos (1), podia ter o seu lugar
aqui. Talvez porém, mais abaixo, no parágrafo 33 e 34 sobre
o Mouro-alcaide que perdeu a Alfama (Altiama).
Certamente o tem o emprego de guay Valença, em vez de
um mero jay! ou ;ay Jesus! nesse mesmo Auto (p. 446) e no
do Desembargador (p. 232). No primeiro, a scena passa-se en-
tre uma moça de recados e um criado, com ofício de gracioso:
Marquesa. Vae dar lá de mim recado.
Duarte. &A quem?
Marquesa. ;A tua senhora!
Dize que estou aqui, lesma!
agouro !praga de povo!
Duarte. Ora eu tenho isso por novo:
f;vens dar recado a ti mesma?
Marquesa. <<;Que falas, rosto de estiovo?
A' tua senhora! ouves agora?
Duarte. jGuay Valença, guay Valença!
<>E eu tenho agora esfora
quem seja minha senhora
mais que essa gentil pessoa?
No segundo, um moço, da mesma laia, dá as boas vindas á
sua ama nova, recem-casada, cantando-lhe ironicamente uma
endecha, como saudação. Com medo de ela ser tá o sovina e
tão avessa a cumprir os seus deveres como o amo, diz, á es-
pera do vestido e da ceia que lhe haviam sido prometidos:
y se vucstra mercê piensa
ser tal qual é seu marido,
queda -os á Dios, vestido!
que la cena... guay Valença! (2).
*
* *
Maia outro verso parece haver-se desligado de uma re-
dacção perdida d'este romance (3), relativo a Babieca, esse ca-
(i) Autos, p. 444. — No § 34, transcrevo o passo.
(2) Sempre em português.
(3) Perdida, mas semelhante á da Ilha da Madeira. O verso
Se o cavalo bem corria a égua melhor voava,
entrava na perfeição no texto impresso na Antologia X, 275, depois do que diz
IC o moiro lá se vae de carreira desfechada.
64 CAROLINA MICHAÈLI8 DE VASC0NCELL08
valo que bem anda (1), e sua mãe, a égua ligeiríssima do rei
mouro (2). Creio que o teor era em castelhano
[25] Si el caballo bien corria la yegua mejor volaba
e corresponde á lição comum:
Do la yegua pone el pie Babieca pone la pata.
Encontrei o verso na Ulysipo (f. 155); e julgo haver desco-
berto uma parodia numa esparsa insignificante do Cancio-
neiro Geral, sobre um barrete e uma carapuça, cujos últimos
versos dizem, invertendo os octonários e baralhando as duas
línguas, como é usual em citações:
.s-'o barrete bem valava la hegoa mijor corria;
Ao que parece, o poeta quis dar a entender que sempre a ca-
rapuça valia mais (3) ou era de beleza superior.
*
* *
No Auto dos Amphitriões do Poeta, Sósia cantarola o prin-
cípio de um cantar castelhano
[26] Amphitrion esforzado bravo va por la batalla,
siete cabezas llevaba de las mejores que ha hallado.
O segundo octonário pertence a um romance sobre a fugida
do rei Bucar
Ese buen Cid Campeador bravo vapor la batalla (4).
que é variante de
Encontrado se ha el buen Cid en médio de la batalla (Pr. 56).
(i) Poema dei Cid. 2415, 2418, 2420.
(2) Com relação a Diego OrdoSez e seu filho, o romance diz: padre y hijo los
caballos. (Pr. 7.) Casos parecidos se repetem em outros cantares.
(3) Canc. Ger. II, 428 (f. 124 b.) Trova que mandou D. Pedro d1 Almeida a Joam
Rroiz de Saa, vyndo d'Azamor... porque trazia huma carapuça de veludo. — Num
romance tradicional entre os Judeus de Levante (Antologia, X, 305), em que ha
fusão do motivo de Brancaflor e Filomena com o da Má sogra, notei um verso
parecido (mas com assonáncia diferente) quanto mas corre el caballo — mas muc/10
corria ella (a mula, mencionada no verso 2.0 do romance). — Na resposta de João
Rodriguez, poios consoantes, os versos correspondentes contem o provérbio a porfia
mata caça.
(4) N.° 1 5 1 do meu Romanceio dei Cid.
ROMANCES VELHOS 65
As sete cabezas lembram os Infantes de Lara, mas a con-
tinuação parece burlesca.
*
* *
O último romance cTeste ciclo
Por Guadalquivir arriba cábalgan caminadores (Pr. 58),
conhecido apenas por um Plieyo suelto, posterior a 1535, náo
me parece primordial, na forma em que o possuímos, mas
antes composto de dois troços independentes (de assonáncia
diversa), dos quaes apenas o segundo trata do Cid (1). Do pri-
meiro (que julgo fronteiriço) o verso
[27] ricas aljubas vestidas y encima sus albornoces
passou para a Carta II da Africa, onde se liga directamente
ao episódio dos trezentos a cavalo:
Vinham d'e?poras douradas
o vestidos de alegria,
com adargns embrazadas,
la flor de la Berbéria.
Com gritos e altas vozes
vinham a rédeas tendidas,
ricas aljubas vestidas,
encima sus albornozes (Estr. 13.) (2).
No Comédia dos Vilhal pandos do Francisco de Sá de Miranda
(Acto III, scena VIII), um dos dois soldados nomeados no
título, indignado contra os eclesiásticos de Roma, diz:
hia cuidando nestes clérigos per fumados, que ricas aljubas réstia m,
lembrado provavelmente do cantar de que trato. Inclino-me
a crê-lo, porque ha nessa comédia bastantes alusões a cantos
tradicionaes e a matérias folklórieas.
(i) Não é estranhavel encontrar o conquistador de Valência na ribeira do
Guadalquivir? Quem é esse seu companheiro? e porque é que vai ás cortes de modo
tão singular? A quaes: Burgos? Leon? ou Toledo?
(2) O quadro deve ser fiel. Os historiadores descrevem innúmeras batalhas e si-
mulacros de batalha, em que os combatentes entram com as adargas embraçadas,
com grande grita como mouros. Vid. p. ex. Resende, Vida e Feytos, cap. 131.
CAROLINA MICHAELIS DE VASCONCELLOS
B. Outros romances históricos.
VI. Inês de Castro
Dois casos, que se referem ao episódio mais conhecido da
história de Portugal, ambos eles um tanto complicados, reque-
rem a nossa atenção.
a) Na Farsa dos Almocreves, que já tive de mencionar,
composta e representada no ano de 1526 a 1527 quando a cor-
te, fugida da peste, se encontrava em Coimbra, uma das figu-
ras principaes é o capelão de um d'aqueles fidalgos pobres què
o fundador do teatro português pintou com tanta graça 6 do-
naire: de pouca renda e muito estado, tão orgulhosos como se
fossem parentes dei rei. Incapaz de o pagar bem e de o sus-
tentar condignamente, o fidalgo que de típico nem nome tem,
fartade promessas fantásticas o padre que, nobre também, pelo
seu lado, «jâ fora do infante» e pudera ser que dei rei. (1)
Esfarrapado e sem nada de seu passeia no areal do Mondego,
dizendo mal da sua miséria.
Pois que não posso rezar
por me ver tão esquipado,
por aqui por este arnado
quero hum pouco passear
por espaçar meu cuidado.
E grosarei o romance
de Yo me estaba en Coimbra,
pois Coimbra assim nos cimbra
que não ha quem preto alcance (2).
E acto contínuo improvisa a seguinte «Grosa» (de Disparates?):
[28] Yo me estaba (3) em Coimbra cidade bem assentada;
pelos campos de Mondego não vi palha nem cevada:
Quando aquillo vi mesquinho entendi que era celada
(i) Claro está que na literatura hespanhola o fidalgo português, muito parente
dei rei, aparece frequentes vezes. Vid. p. ex. Rouanet, Autos, Vol. I, p. 262 s ; Canc.
Mus. N.° 425; Cortes de la Muerte (Rivadeneyra XXXV, p. 56).
(2) Não atino com o significado d'estas duas linhas, Obras III, p. 202.
(3) Em castelhano, afim de chamar a atenção para o modelo.
ROMANCES VELHOS 67
contra os cavallos da corte e minha mula pellada.
Logo tive a mao sinal tanta milhan apa[n]hada
e a peso de dinheiro a mída desemparada.
Vi vir ao longo do rio hua batalha ordenada,
não de gente, mas de mus, com muita raiva pisada.
A carne está em Bretanha e as couves em Biscaia.
Sam capellão d'um fidalgo qiie não tem renda nem nada,
quer ter muitos apparatos e a casa anda esfaimada;
toma ratinhos (l) por pagens anda já a cousa danada.
Quero lhe pedir licença, pague-me minha soldada.
Grosar tem aqui (e em outras partes) o sentido derivado de
remedar, contrafazer, fazer trovas decalcadas sobre um ro-
mance velho. Temos portanto de procurar o modelo, na su-
posição que, além da toada e do primeiro verso, a assonáncia
ha de ser a do padrão (2), mas também na esperança que do
confronto se desentranhe a graça e o chiste que, sem ele, não
sei descobrir no texto transcrito. Nao o encontro todavia. Ha,
de facto, um romance de princípio igual, mas tendo a asso-
náncia do, continua de modo diverso:
Yo me estaba allá cn Coimbra que yo me la hube ganado (Pr. 65.) (3).
De mais a mais neste Romance de D. Fadrique, maestre de
Santiago, y de como lo mando matar el rey D. Pedro 8U her-
mano, o nome de Coimbra c contrabando, pois está por Ju-
milla (4) (na Márcia^, onde se passou a tragédia histórica (5).
Entre os restantes que começam de modo parecido:
(i) Ratinho, indivíduo pobre, vindo á corte para de aldeão se transformar em
pagem de fidalgos pobres; um dos tipos mais explorados pelos poetas cómicos
do século XVI.
(2) Estas três qualidades sào obrigatórias nos remedos. Quanto ao resto, ha
liberdade quasi absoluta: em alguns casos a imitação continua, de modo que a
cada construção gramatical, responde outra, idêntica de sentido novo.
(3) Confer. Antologia, XII, 124.
(4) Mais um caso em que nomes histórico-geográficos, pouco familiares ao
povo, foram substituídos em romances tradicionaes por outros, muito conhecidos,
de vocalização semelhante fu-í-a).
(5) Vid. Mérimée, Histuire de D. Pèdrt I*\ p. 540, e Antologia XIÍ, 124.— Não
precisamos de uma guerra castelhano-portuguesa para explicar a introdução do
nome de Coimbra. Além dos romances de D. Fernando I e do Cid, e um de D.
Inês de Castro, em que o nome da cidade do Mondego não destoa, ha outro em
que entrou por ne/as (v. Antologia, XII, 544).
68 CAfíOLlHA MICHAÍLIS DE VASCONCELLOS
Yo me estàba en Barbadillo en esa mi heredad (Pr. 19) ('
Yo me estaba en Valência en Valenciala mayor (Pr. 60)
Yo me estando en Giromena (2) d mi placer y holgar (Pr. 104)
Yo me estando en Tordesillas por mi placer y holgar (Pr. 103),
não ha nenhum que sirva.
Trata-se portanto de um texto perdido, cujo início influiu
tanto no romance do Mestre de Santiago como na paródia de
Gil Vicente. E não repugna a conjectura que o tema fosse a
tragédia dei rei D. Pedro de Portugal, cruel justiceiro como o
castelhano: a morte de D. Inês de Castro, que positivamente
se passou na cidade do Mondego. Talvez na própria sala em
que se representava a Farsa dos Almocreves (3). Note-se que
ambos os sucessos suscitaram lendas locaes que se semelham
pelo menos num ponto. Nos lagedos da Fonte das Lágrimas se
mostram gotas do sangue de Inês; e gotas do sangue de D. Fa-
drique mostram-se no Alcázar de Sevilha.
Mas, caso estranho, no riquíssimo Romanceiro peninsular
não ha um único cantar velho que trate manifestamente do caso
lastimoso da que depois de morta foi rainha. É todavia opinião
corrente, e agora energicamente defendida e lucidamente ex-
posta pelo autor do Tratado, que eles existiram, e que, além
do veráo To me estaba en Coimbra, possuímos mais um, desli-
gado do mesmo romance tradicional, ou de outro parecido (4).
Antes de falar d'ele, cumpre-me dar parte ao leitor de que
(i) Contrahecho em Yo me estaba en pensamiento, como já indiquei.
(2) Giromena é Juromenha, e está também em lugar de Coimbra, não se
adivinha por quê.
(3) Já enunciei esta hipótese em outra parte, firmando-me no facto seguinte.
Na Comédia sobre a divisa da Cidade de Coimbra, composta e representada ahi mes-
mo como a dos Almocreves, durante a estada da corte, ha uma meia-octava que diz
(Obr\s, II, p. 133):
As mulheres de Crasto são de pouca fala
fermosas e firmes, como saberes
pola triste morte de Dona Inês,
a cual de constante morreo nesta sala.
A sala pertencia, na minha opinião, ao chamado Paço da Rainha (no aCulgo»),
(4) O que o P. D. Marcos de S. Lourenço (■{* 1645) diz nos seus Lusíadas Co-
mentados (inéditos) a respeito das cantigas e dos romances de dona Inês que as
moças de cântaro e lavandeiras de Coimbra cantavam, é vago e tardio de mais para
servir de prova. (Vid. Obras de Camões, ed. Juromenha, I, 325.)
HOMANCES VELHOS 69
o magnífico romance da morte do Mestre subsiste não só nas
Astúrias (1), mas também entre os Judeus de Tanger (2). E
entre estes últimos numa versão que muito se parece com a
velha (Pr. 65) (3). Começando
Yo estando en Guadalupe (!) en silla de oro sentado (4)
anda confundida, segundo o informador, com outra assonan-
tada em-áií, como o texto de Gil Vicente. Como por ora ape-
nas se publicaram os primeiros quatro versos, nada mais posso
adiantar.
b) Mas então, ha ou não ha cantares velhos de D. Inês?
dirá surprendido o leitor português, lembrado de algumas
Exclamações e Lamentações arcaicas, impressas e reimpres-
sas, e de diversos romances que andam nas publicações de
T. Braga. Sem falar das Lamentações, em estilo antigo, que
são meras mistificações (5), baste dizer o seguinte, quanto
aos textos publicados pelo incansável historiador da litera-
tura pátria (6). O romance português, provindo do espólio de
um cidadão do Porto (7), é evidentemente moderno, inspiração
sentimental de algum admirador e emulo de Almeida-Garrett,
a modo de Estácio da Veiga. Dos textos castelhanos, incluídos
na Floresta de vários romances, dois são de autor conhecido,
(i) Viejos Romances, N.° 12. Antologia, X, p. 53.
(2) Catálogo Judio Espaãol, N.° 7.
(3) Este achado deve modificar um tanto certas dúvidas enunciadas na Antolo-
gia, XII, a. p. 127.
(4) O segundo hemistíquio encontra-se no romance humorístico do mal de
amor do Senhor D. Gato, e provém provavelmente de outro (desconhecido) primi-
tivo e histórico que lhe serviu de modelo, e também inspirou o autor do cantar
alegórico, impresso poi Duran N.° 1.400, e anteriormente na Flor de enamorados.
(5) Já tratei d'essas Lamentações apócrifas, e das cantigas atribuídas a El Rei
D. Pedro I no Grundriss, § 75, sem todavia me despedir do assunto. Numa da9
minhas Xotas marjinaes aos Cancioneiros Galego- Portugueses (Rand-GlossenJ ten-
ciono voltar ao assunto.
(6) Infelizmente, ele não regeita com bastante hombridade os textos apócrifos.
Das Lamentações tratou nas Questões p. 140-143, como se vô no § 75 do meu Bos-
quejo de literatura portuguesa. Ahi digo que o primeiro editor, A. Lourenço Ca-
minha, foi provavelmente o inventor. Inéditos de Perestrello è Galvão. Lisboa, 1 79 r •
(7) Vid. Archipèlago Açoriano, N.° 59, p. 345 e 456.
70 CAROLINA MlCHAÉLIS DE VASC0NCELL08
de fins do século xvi (1); um, anónimo, é do mesmo período e
de gosto igual (2); o derradeiro (N.° 7) pertence á literatura
de cordel. Dos velhos e belos cantares castelhanos que arbi-
trária e enigmaticamente substituiram o nome de D. Inês pelo
de D. Isabel de Liar, logo falarei. 0 que figura á frente da
Floresta, em que a heroina entra com as palavras
Eu era moça menina per nome dona Ynes,
narrando e lamentando a sua desgraça, impresso em renglones
seguidos, como se realmente fosse uma tirada única de octoná-
rios duplos assonantados, e sobrescritado, também arbitraria-
mente, Trovas á maneira de romance (3),é antigo(fins do sécu-
lo xv ou princípios do xvi) mas não é romance(A). E' obra ar-
tística de Garcia de Resende, dirigida ás damas da corte, em
cincoenta e oito quintilhas ou vinte e nove décimas (5).
(i) Gabriel Lobo Laso de la Vega, cujo Romancero se publicou em 1587
(N.os 4 e 5 de Braga.)
(2) Ib. N.° 6.
(3) Confer Cantar â maneira de solao, título que Bernardim Ribeiro deu a um
dos seus romances em versos pareados, dissonantes.
(4) T. Braga dá-lhe sempre esse nome de romance (romance culto; único roman-
ce contido na vasta coleçao de Resende), p. ex. no Arch. Açor, p. 456. O engano de
Braga passou ao Tratado. Vid. Antologia XII, 284. O título original que a obra do
benemérito coleccionador do Cancioneiro Geral tem, é Trovas, a seco com a ex-
tensa explicação seguinte: Trouas que Garcia de Rresende fez a a morte de dona
Inês de Castro, que el rrey dom Alfonso o quarto de Portugal matou em Coimbra,
por o príncipe dom Pedro, seu filho, a ter como mulher e polo bem que lhe queria
nem queria casar; enderençadas has damas.
(5) Quintilhas em teoria, pois as rimas seguem o esquema ababa ccddc ou
abaab edeed, mas Décimas na prática, visto que vão distribuídas em estrofes de
dez versos.
T. Braga apresenta apenas vinte e duas. Suprimiu, as primeiras duas em que
fala D. Inês, além da dedicatória A's Senhoras e das últimas seis A's mesmas, que
são uma espécie de moralidade com alusões importantes á coração, á vingança
e ao monumento sepulcral no cruzeii o d^Alcobaça. Porquê? porque são líricas e,
como segredarei aos curiosos, porque correm soltas como Exclamações ou Lamen-
tações arcaicas, e porque a pregunta:
Qual será o coraçam
tam cru e sem piadade
que lhe nam cause paixam
ROMANCES VELHOS 71
Garcia de Resende considerava a sua obra como trovas e
não como romance. Desprezando o género popular, nâo escre-
veu nenhuma composição assim chamada, nem meteu nenhu-
ma alheia entre as obras líricas e de folgar, cultivadas e apre-
ciadas pelos seus colegas palacianos. Nem mesmo se serviu do
vocábulo (1).
Ainda assim, é certo que conhecia o género e o nome, e
que outros cortesãos estavam no mesmo caso . Já aleguei
um verso de romance utilizado por um d'elcs (em 1498), e ain-
da terei de alegar mais alguns, contando que um d'eles fala
de um cantar romance. Quanto a Resende, no Prólogo ao Prín-
cipe Nosso Senhor (2) menciona vagamente rimances (como se
dizia em algumas partes de Portugal, desde o tempo de D.
Duarte (f 1438) e como ainda hoje se diz em Tras-os-Montes)
e torna a empregar o termo, ao comunicar uma glosa sua de
um cantar lírico castelhano, de que conto ocupar-me (3).
Pôde ser portanto verdadeira a opinião de Menéndez y Pe-
layo, que julga reconhecer nas Trovas de D. Inês um verso
tradicional, resto, como já indiquei, de um romance perdido
castelhano, comquanto vá longe demais ao dizer que Gar-
cia de Resende se inspirou nele (4). Como fonte de inspi-
ração bem bastavam as crónicas e as lendas, intimamente li-
gadas aos expressivos sarcófagos em Alcobaça e á fonte das
lágrimas (ou dos amores) em Coimbra. Isso, se náo houve
até 1516 trovas nenhumas portuguesas, 2, ela dedicadas, o que
custa a crer.
huma tam grani crueldade
e morte tam sem rrezam!
com o mais que segue não seria bom início de romance, como o é a fórmula
Eu era moça menina.
(i) Na Parte Terceira d 'este Estudo direi quem foram os primeiros Portugueses
que escreveram romances literários, conhecidos.
(2) Vol. I, p. XXX. E assy miiytos emperadores, reys, pessoas de memoria, po-
ios rrymançes e trouas sabemos suas estorias.
(3) Vid. N.° 95 e Parte III N.° 123-126.
(4) Qualquer Português que deseje ocupar-se dos problemas relativos á lenda
histórica de D. Inês deve estudar a lúcida exposição contida nas pág. 284-288 da
Antologia, Vol. XII.
72 CAROLINA MICHAÈLIS-DE VASC0NCELL0S
Sem entrar qm discussões a este respeito, vejamos os fac-
tos com que o ilustre investigador argumenta.
Primeiro os versos indigitados de Garcia de Resende. Sao
os finaes da estrofe que diz:
Estava muy acatada,
como princesa servida
era meus paços muy honrrada,
de tudo muy abastada,
de meu seuhor muy querida.
Estaudo muy de vaguar,
bem fora de ta! cuidar
em Coymbra d'aseseguo,
poios campos de Mondeguo
Caualeyros vi somar (Estr. 7). (1).
[29] Poios campos de Mondeguo Caualeyros vi 'somar
Ha, pelo menos, três redacções castelhanas d'este octo-
nário duplo. A primeira faz parte do curioso romance (II),
belo comquanto extravagante, sobre a desconhecida portu-
guesa D. Isabel de Liar a que já aludi, como, porque el rey
tenía hijos de ella, la reina la mando matar, dama que evi-
dentemente tomou o lugar de Inês de Castro na mentalidade
completamente desprovida de conhecimentos históricos de
algum vate popular (2). Longe de Portugal, bem se vê. E o
que principia:
Yo me estando en Giromena á mi placer e holgar (Pr. 104), (3)
subiera-me á vn mirador por mas descanso tomar.
Como além de muitos pormenores, todos os nomes-próprios
(i) Não e verdade que, assim isolada, a décima parece ser glosa verdadeira?
— A ilusão desaparece todavia, quando se lê a composição inteira.
(2) Milá, Duran, Braga, Pelayo, concordam na identidade origináriadas du as
heroinas, comquanto também não atinem com o motivo que pode ter provocado
tão singular alteração.
(3) O que principia Yo me estando en Tordesillas A mi placer e holgar (Pr. 103)
foi considerado por Wolf como Acto I da tragedia de D. Isabel de Liar, porque,
de assunto parecido, também trata de uma D. Isabel, e nomeia de mais a mais
Coimbra e um convento de a par de Coimbra (como o de Santa Clara). Milá e Pelayo
preferem comtudo relacionar esse com D. Leonor Télez, protagonista de outro
drama histórico e de um importante romance tradicional (o de João Lourenço, el
de los Cuernos de oro).
ROMANCES VELHOS f3
estão nele fantasiosamente alterados (1), o verso imediato em
vez de nomear os campos de Mondego, diz:
Por los campos de Monvela caballeros vi asomar.
A segunda e a terceira pertencem em verdadeiros romances
de D. Inês, não acolhidos a romanceiros, nem conservados
pela tradição oral, mas intercalados, aos bocados, em comé-
dias castelhanas do século xvn. Na Tragédia Famosa de D.
Inês de Castro, Reina de Portugal, do licenciado Mexia de la
Cerda a protagonista, postada também num mirante, exclama:
Por los campos de Mondego caballeros veo asomar,
en el talle muestran ser mas de guerra que de paz (2).
Na afamadíssima obra de Luis Velez de Gruevara Reinar
despues de morir, ha identidade completa com o verso de Re-
sende:
Por los campos de Mondego caballeros vi asomar
y segun he reparado se van acercando acd;
armada gente los sigue valgame Dios! que será/ (3).
(i) Mondego, transformado em Monvela, Mombela, passou a ser apelido de um
dos assassinos no romance aproveitado por Mexia de Lacerda. Depois, foi mudada
em Chavela, Chaveda no romance II. Em ambas as fontes acrecentam a fórmula
que llaman dei Marichal (ou Marchai) - à quien dicen dei Marchai talvez porque
num texto português primitivo se tocasse nos marichues ou marachões construídos
para regulamento das águas do Mondego?
(2) Ha uma redacção tradicional, que ainda se cantava em Catalunha no tempo
de Milá (N.° 253), mais castelhana do que catalã, em que a heroina é denomi-
nada simplezmente D. Isabel (como a Rainha Santa, a mais conhecida entre as
mártires da historia portuguesa) e o actor principal é D. Rodrigo (irmão carnal da
Rainha ciumenta). E diz:
Dona Isabel se pasea — en su palácio real;
mirando sus campos verdes -romeritos ve pasar.
No van a pié los romeros, — en buenos caballos van,
los rosários que ellos traen — son cabezas de metal,
las calabazas dei vino — llenas de pólvora vau.
Ainda tornarei a falar d'ele.
(3) Acto III, scena II. — O resto não tem carácter de romance. Ha particu-
laridades nmito curiosas nesta formosa comédia. Note-se o cantar velho portu-
guês Saudade minha, estropiado, pois diz saúde mina, c>m unia volta, tirada de
Camões (deturpada também). E note-se o sobrenome castelhano Cuello de gtff*a
transformado num apelido (Coello de OarzaJ, assim como uma reminiscência do ro-
mance poético da A'ola I iuva . (Vid. N.° 38 d'este Catálogo.)
74 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
Todos era-íí-. Nâo sendo provável que dois poetas dramáticos e
um juglar recorressem ás Trovas de Resende, e escolhessem
nelas um mesmo verso de feitio popular, entre os vários que
contém (1), é quasi certo que todos os quatro utilizaram um
modelo comum, perdido.
Largando o assunto, nâo o dou por liquidado, esperando,
pelo contrário, poder reatar o fio qualquer dia.
VII. Alfonso V de Aragão e Nápoles
O romance antigo e popular em que o rei de Aragão D.
Alfonso V surge, repensando os vinte e dois anos que gastou
na conquista de Nápoles:
Miraba de Campo Viejo el rey de Aragón un dia (Pr. 101a)
estava profundamente impresso na memória do soldado afri-
cano ao qual devemos as duas Cartas em trovas, quer fosse Luis
de Camões, quer Manuel Pereira de Santarém, ou d'Ossem.
Tanto na Carta I como na II empregou, cheio de saudades
da pátria e da amada, o verso 2.°:
[30] Miraba la mar de Espana como menguava y crescia,
substituindo todavia o imperfeito pelo particípio presente,
para o ligar á oração antecedente.
Eis aqui ambas as estrofes. A primeira refere- se á dissolu-
ção dos costumes militares antes do abandono de Arzila (1549)
Isto não é praguejar;
mas toda a culpa é da fome,
porque gente que não come
mal poderá pelejar.
Assi(m) estão muitos no dia
co(m) os olhos na tramontana
mirando la mar tfEspana
como menguabay crecia (I, Estr. 20).
A outra é toda subjectiva:
Vejo o mar embravecer,
vejo que depois melhora;
mil cousa3 vejo cada ora
(i) Tenho em conta de popular o verso Eu era moça menina. Confer. Bernardim
Ribeiro; e Eu me era Dona Giralda, princípio de um cantar do repertório da ama
de Rubena, como o leitor já sabe.
ROMANCES VELHOS 75
huma só imo posso ver.
Assim vou passando o dia
nesta saudade tamanha,
mirando la mar d' Espana,
como menguaba y crecia (TI, Estr 9). (1).
C. Romances fronteiriços
Os cantares épicos, avulsos, que em regra brotaram direc-
tamente de feitos guerreiros, praticados na guerra contra o
Mouro (2), em peculiar na fronteira granadina e principal-
mente em Jaén e Múrcia, em século e meio de guerrilhas me-
dievaes que precederam a última acção de 1490, com que abre
a idade moderna, são preciosíssimos pela sua beleza varonil e
vivaz, nobremente cavalheirescos, quer falem de refregas, em-
boscadas, correrias, assaltos e cercos, quer de traições e apos-
tasias. É mesmo de crer que os primitivos, relativos a Ubeda,
Jaén, Baeza, influíssem em alguns históricos sobre o conquis-
tador de Valência, como os já citados Helo lielo e Por Guadçtl-
quibir arriba.
E comquanto o Algarve tivesse sido reconquistado muito
cedo (1233-63), género tão especificamente peninsular não
podia deixar de repercutir-se num reino cujas hostes toma-
ram parte activa nas principaes empresas subsequentes, pelo
menos até a batalha do Salado, e que de 1415 em diante me-
diram as suas forças com os Mouros no Algarve d'além-mar.
Xáo pôde surprender por isso, se é exactamente nas Cartas
d' África que encontramos reflexos de romances fronteiriços.
Numa estrofe jâ tresladada, da Càrtã //"ha, no meio, um he-
mistíquio que tenho em conta de citação, por ser remendo
castelhano em pano português.
[31] La flor de la Berbéria.
(i) De uni remedo castelhano d'este romance, composto por I.uis I hirtado de
Toledo, antes de 1547, trato num meu estudo novo sobre o Palmeirim de Ingla-
terra.
(2) O mais velho, datado de 1430 pelos actos a que alude, é
Albuquerque, Albuquerque merecias ser honrado
(Canc. Musical^.0 321).
76 CAROLINA MICHAÉLIS DE VA8C0NCELL0S
Com a variante Moveria (1), ele ocorre no roraam ■<•
De Antequera sale el moro três horas antes dei dia (Pr. 74)
(v. 18), mas também num do Rey Chico de Granada que já
tive de mencionar (2), ao falar dei rei D. Rodrigo. Como do
cantar sobre Antequera saisse o octonário alhaleme en su cabe-
za, intercalado na lamentação acerca da perda de Valência, c
como talvez d'ele derive ainda outra citação (na mesma Carta
africana), modificada igualmente, segundo as circumstáncia.s
do poeta e as exigências da rima (3), não sei decidir o caso.
VIII
Cópia rigorosamente exacta de um romance sobre Mouros
de Moclin que fizeram uma correria pelas terras de Alcalá,
a Real, o qual começa:
Caballeros de Moclin peones de Colomera (Pr. 77),
forma o remate de uma estrofe da Carta II:
[32] Caballeros de Alcalá no os alabareis d^aquesta (v. 16).
Tudo anda[va] de levanto,
era o campo todo cheo;
em tudo punham espanto,
de nada tinham receo.
Com grandes vocês e festa(s)
vinham bradando de lá:
Cavalleros de Alcalá
no os alabareis d^aquesta (Est. 15).
(i) Claro está que Berbéria ocorre também em romances castelhanos, com
respeito á Africa, p. ex. nos do Conde D. Julian e no de D. Alonso X (Pr. 63). —
Com relação á península o termo preferido é todavia Morería.
(2) Cracóvia N.° 85: El aão de quatrocientos que noventa y dos corria. Vid.
Antologia, IX, 203.
(3) Veja-se no Apêndice N.° 102 o verso Y que nuevas tne traedes?
ROMANCES VELHOS 77
Parece que este se cantava nas cortes peninsulares com me-
lodia de arte. No Cancionero Musical do tempo dos Reis Cató-
licos, publicado por Francisco Asenjo Barbieri, ha pelo menos,
um fragmento com assonancia é-a (nos versos 2 e 4) que toca
no mesmo assunto (1), salvo erro.
IX
A acusação e a desculpa do Mouro alcaide, relativas á to-
mada do castelo de Alhama pelo marquês de Cadiz, D. Ro-
drigo de Leon, narrada no romance:
[33] Moro alcaide, moro alcaide el de la barba vellida (Pr. 84),
el rey os manda prender porque Alhama era perdida (2)
entrou no alegórico Auto da Ave-María de António Prestes (3).
Para afirmar que sem os conselhos e sem o auxílio de Sa-
tanás não conseguiria os seus intentos, a Sensualidade em-
prega o circumlóquio:
Moro alcayde, moro alcayde
el de la barba vellida,
se eu por vós não for metida
nel castillo de Belsayde,
dou Alfama por perdida.
Como se vê, sempre o mesmo baralhar dos dois idiomas.
(i) N.°3i8:
Caballeros de Alcalà entrastes à facer presa,
y /aliastes un morillo entre Estepona y Marbella.
Tem aspecto de ser irónico, como o romance dos Caballeros de Mcclin.
(2) Conservou-se entre os Judeus de Tanger. Vid. Catálogo Judio Espanai.
N.° 9: redacção em ãa como Pr. 84.*
(3) P< 55 da reimpressão de 1 87 1 . — Confer T. Braga, Gil Vicente e a sua lis-
chola p. 255-265. A nota que se refere á tradução das Medidas de Serlio por
Vilhalpando precisa de retoque. A primeira edição não é de 1563, mas sim de
1552, conforme ficou estabelecido por Pérez Pastor, La imprenta en Toledo, Nú-
mero 262.
78 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Quanto á menção do castello de Afcalá-Ben-Zaide, podo ser
que se refira a uma lição que desconheço; e pôde ser também
capricho do poeta cómico, que necessitava de rima em aide{l).
A figura do rei mouro de Granada, despeitadíssimo por
essa perda, conforme no'lo apresenta o romance
Paseabase el rey moro por la ciudad de Granada;
cartas le fueran vertidas como Alhama era ganada (Pr. 85),
ou antes a celebérrima variante elegíaca, originariamente
árabe, segundo Grinês Pérez de Hita, e em todo o caso muito
divulgada (2):
[34] Paseaba el rey moro por la ciudad de Granada
desde la puerta de Elvira hasta la de Vivarambla (Pr. 85a),
com o estribilho Ay de mi Alfama! surge em meados do século
xvi nos autos vulgares d'este país. Talvez fosse a música de
Pisador (3) que contribuiu para a sua popularidade, atestada
também pela tantas vezes citada Ensaladilla (4).
António Prestes cita uma vez o primeiro hemistíquio e
outra vez o estribilho (como já ficou exposto). Ambos os frag-
mentos estão em redacção portuguesa, incorporados comple-
tamente nas falas de gente-povo. É numa troca de impreca-
ções picarescas, lançadas pelo criado Duarte e a moça Mar-
quesa, que já apresentei ao leitor, no Auto sobre a sujeição da
mulher, chamado Os Cantarinhos, que vejo equiparadas as
(i) Acerca de Alcalá de Ben Zaide, no Guadajoz, onde as hostes de Alfonso, X
tiveram de combater os Ginetes ein 1264, vid. Randglosse VI em Zeitschrift,
XXV, p. 318.
(2) Vid. Antologia, XII, 210.
(3) Libro de música de vihuela (1552). — Vid. Ensayo, N.° 3485.
(4) Estr. 6; Ingr. 32.
ROMANCES VELHOS
79
palavras ou as músicas de minha Alfama e Passeava-se el rey
mouro a outras coisas boas, que o leitor curioso verá, queren-
do, nas linhas seguintes (1). Elas constituem o princípio da
scena, de que já extractei um irónico Guay Valença!
Marquesa diz batendo á porta:
Duarte.
Marquesa.
Duarte.
Marquesa.
Duarte.
Marquesa.
Duarte.
Marquesa.
Duarte.
Ó de casa!
Ó da rua!
Quem está ahi?
E Marquesa.
Não! senão «minha duquesa»,
rosto em mim «d'espada nua»,
e «limão» de gentileza.
Ha lá mais d'essa linguagem?
Boa sombra e casa chea,
meu tronco, minha cadea,
meu livro de carceragem,
minha toda, minha estrea!
Ha mais?
Minha relação,
meu feito, minha audiência,
meu libelo, minha aução,
minha réprica, meu não,
meu sim, minha consequência!
Ora três vale: meu sebolo, (sic)
meu marmanjo chocalheiro!
meu basbaque meu João tolo,
meu sem-nem-um-miolo
meu madraço de sequeiro!
Quatro vale: minha Alfama!
meu passeava-se el rei mouro!
meu Orlando, minha trama,
que me lanças com tão(?) dama
por capa em cornos de touro (2).
A contraprova de que o romance pertencia realmente á
«manada» dos que o povo cantava cá, aparentemente em lição
portuguesa, temo'-la no Auto anónimo do Duque de Florença,
(i) Vid. T. Braga Gil Vicente e a sua esc/iola, p. 280. — Uma das melhorei modi-
ficações introduzidas nesta nova edição, são o» indiculog dos Autos.
(2) P. 444. — Talvez: poi tal dama?
BO CAROLINA MICHAÍLI8 DE VASC0NCELL08
composto no reinado de D. Sebastião (i). Dois vilãos, era ca-
minho para uma boda, cantam várias cantigas e discutem
sobre o seu valor. Um d'eles propõe
Poia se eu agora digsesse:
Passeava -se el rey mouro?
E a indicação scénica explica:
Aqui cantam: Passeava-se el rey mouro.
Note-se ainda que em Mimnua-do-Douro, subsiste um tex-
to, cantado como acompanhamento de um dos Laços da Dan-
ça dos paulitos (2), que diz:
Passeaba-se 7 rei moro
pu'-les mes de Granada;
cíi l resplandor de V sol
le relhumbraba la spada.
XI
Bem diversa é a aplicação de dois passos do Romance re-
lativo à quelle Maestre de Calatrava, D. Rodrigo Velez de
Giron, que teve parte nas guerras de sucessão entre Hespa-
nha e Portugal, e se distinguiu posteriormente nas guerras de
Granada:
[35] Por la Vega de Granada (3) un cáballero pasea (Pr. 87).
A designação geográfica chegou a significar um campo largo
(i) Prohibido em 1624; impresso em folha volante de 1620 sob o título de
Fidalgo de Florença por João de Escovar; e em outra de 1632, se as indicações,
dadas em Fschola de Gil Vicente p. 171, forem exactas.
(2) Chama-se Le Moro. Vid. Albino J. de Moraes Ferreira, O Dialecto Miran-
dês. Lisboa, 1898 (p. 28).
(3) Temos a mesma entrada no romance de Ruy Cid, tradicional na Ilha da
Madeira. Vae acompanhada do hemistíquio impar do N.° 84:
Pola veiga de Granada el rei moiro passeava,
e seguida de uma scena de caça que ainda não encontrei em outro cantar. Em
composições de arte ha versos que casualmente coincidem; p. ex. no Canc. Ger. I,
266: Da Veiga lá de Granada (sic).
ROMANCES VELHOS 81
e desimpedido para evoluções cavalheirescos tanto tísicas
como espirituaes. No último sentido vejo-a empregada na co-
média Eufrosina. Carióphilo ensina a Zelótypo como é que se
estilizam cartas de amores. Quer que depois de uma entrada
comedida se façam «comprimentos mais prolixos e mais soltos
que os de um castelhano».... e tomada a rédea por estes
termos, que são elementos d' esta sciência (mais incerta que as-
trologia), podeis escaramuçar pola vega (sic) de Granada, com
todas vossas obrigações, a modo de petição... (1).
Dissertando longamente a respeito de reverências e mesu-
ras, no Diálogo XVIII da Miscellánea, e depois de nos haver
endoutrinado sobre aquelas que se fazem ao maior, abaixan-
do um pouco o cabeça como os frades; e ao igual, requebran-
do um pouco o corpo para a esquerda, Miguel Leitão con-
tinua (2):
Por onde se diz no Cancioneiro (3), que aparecendo o Mestre de Ca-
latrava armado a cavalo na veiga de Granada, buscando quem lhe saísse,
saiu a uma varanda a Rainha e damas a vê-lo,
[36] Y el maestre la conoce y abaxara la cabeza,
la reina le hace mesura y las damas reverencia.
Um romance que serve de código do bom tom! Referência
tão puramente literária que não tem grande valor para os
fins d'este artigo.
XII. Alas armas, Moriscote,
XIII. Mis arreos son las armas.
Se prefiro pôr logo aqui as referências a esses dois roman-
ces (ou troços de um mesmo romance afamado^, perdidos na
tradição oral e nunca recolhidos nos romanceiros antigos, é
(i) Acto III, Scena 2 (p. 183).
(2) P. 402.
(3) Qual Cancionero? E somente na Rosa Espanola de Tiinoneda (1577) que o
romance se conservou com ligeira variante, pois diz bajado le ha la cabeza.
82 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
porque creio que o nome ou titulo ú.q Moriscote on Mouriscote (1)
nos obriga a tê-los em conta, não de novelescos de assunto in-
ternacional, mas sim de novelescos peninsulares í. <'■. de mou-
riscos. E como nele são actores, na qualidade de inimigos com-
batidos, Franceses disfarçados em romeiros, que surgem em
portos dos Pirineos, parece-me bem colocá-lo perto de Ronces-
vales, dos portos d'Aspa, do rei Marsílio e do imperador «da
barba florida» que fez a sua Entrée d'Espagne, esteve em To-
ledo nos famosos paçosde Galiana,e peregrinou a Santiago(2),
Durante séculos conheciam-se apenas três versos, aparen-
temente iniciaes:
[37] A' las armas Moriscote si las has en volunlad!
los Franceses son entrados! los que en romería van!
entran en Fuenterrabia salen por San Sebastián.
E estes, unicamente porque haviam sido incorporados,
como letra de músicas, no Libro de vihuela de Miguel de
Fuenllana (3). No de Pisador, ha apenas os dois primeiros
hemistíquios (4). Agora está patente uma «contrahechura tro-
vada» ou «glosada ao divino», tirada de um Pliego suelto,
raro ou único, a qual parece estreitamente cingida ao original
e deixa entrever o que seria o romance original. Para mim,
prova outro facto importante: que o segundo fragmento, muito
mais sabido e cantado, fazia parte do romance de Moriscote,
facto que, de resto, já me parecera provável, por causa de
uma paródia burlesca, extrahida por Duran de um códice do
século xvii (5). Mas ninguém lhe ligou importância.
(i) È um derivado de morisco, usado nos romances, ora como subs., (Vid. p. ex.
Duran, 1040 e 1068), ora como adj., (Gil Vicente, I 162.)
(2) Wolf, Milá e os sucessores separam os dois troços, e colocam-nos entre
os Romances novelescos y caballerescos sueltos. Menéndez y Pelayo julga histórico o
assunto de Moriscote.
(3) Vid. Salva, Catálogo N.° 2515. Pela junção do texto com o do romance de
Antequera, que ahí se faz, parece que os dois tinham a mesma, toada. Confer Milá,
Poesia Heroico-Popular, p. 313; Amador de los Rios, II 615 (621, 627, 628); Ga-
Uardo, Ensayo, N.° 3485; Antologia, IX, 211.
(4) Antologia, IX, 212.
(5) N.° i670.Duran chama-o contrahecho de Mis arreos e remete-nos aoN.°300,
isto é ao romance La Constância, de que trato no texto.
ROMANCES VELHOS 83
A variante ao divino, reimpressa na Antologia IX, p. 211),
diz:
A las armas, rey dei cielo, pues las has en voluntad!
los traidores son enti ados los que enganaron á Adam,
entraran por su pecado y por la tu muerte saldran.
A paródia, propositadamente disparatada, reza:
A las armas, el buen Conde, si lo has en voluntad (1)!
los amores son entrados en espanol y áleman;
entran por el Don Garcia y salen por Pernestan (sic).
Em Portugal conheço uns quatro trechos com valor de do-
cumentos, dois com a notável variante si en ellas quereis en-
trar, que ainda não vi confirmada em textos castelhanos (2).
Um é da Carta II de Africa, onde remata a estrofe imediata
á dos Cavalleros de Alcalá:
Comigo mesmo fallando
como s'a outrem fallasse,
dizia «quem me lembrasse
do em que andava cuidando» (3)!
E pois que tamanho dote
não se alcança por cuidar,
A las armas Mo(u)riscote (4)
si' 71 ellas quereis entrar! (Estr. 16).
Contar feitos esquecidos
he muito contra minh'arte:
houve mortos e feridos,
houve mal de parte a parte.
Houve homem que dizia
na força do mor receo:
donde estás que no te veof
quês de ti esperança mia? (5).
Outro é da Carta I da índia onde, depois de amargas con-
(i) Esta lição repete-se na Ensaladilla de Praga (mas referida ao Moitriscotc),
Est. 9, Ingr. 53.
(2) No Cortesano, onde Milan cita Mis arreos a p. 16 e A' las armas moriseote
a p. 1 62, ha a variante que bien menester seran.
(3) Não concordo com a emenda proposta por Storck.
(4) A' portuguesa, provavelmente por lapso do copista, que como já vimos,
estragou muito as duas Cartas.
(5) Junto esta, para facilitar a comprensão.
84 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
sideraçõo9 sobre essa mãe de vilões ruins e madrasta de ho-
mens honrados, o Poeta continua:
porque os que se cá lançam a buscar dinheiro, sempre se sustentam sobre
agua como bexigas. Mas os que sua opinião deita â las arma» Moiu^riseote,
como maré mortos á praia, sabei que antes que amadureçam, se seccam
E passa a caracterizar os valentões ou matantes com os
ditos que jà citei (sob N.° 15) e outros que ainda terei de
alegar (N.° 55).
Na Aulegraphia (f. 47), diz-se d'alguem, creio que para o
chamar valente:
he uma atalaya da fortuna com um epitáfio (1) que diz: A las armas,
Moriscote, si en ellas quereis entrar.
Num dos Autos de António Prestes ha mais um daqueles
remedos grotescos e vulgares que são a especialidade d'este
quinhentista. Um moço finge ter medo do génio de sua ama
nova:
se ô mansa, se é brava,
que não haja aqui de cote
ás pancadas, mo(u)riscote,
que ellas são pêro que trava (2).
A fórmula proverbial, meio traduzida, equivale aqui, por-
tanto a um mero ás pancadas! como na Carta da Índia a um
mero ás armas!
De citações castelhanas lembro a do músico e poeta Luis
Milan, que frequentou a corte de D. João III e dedicou a este
monarca o seu Libro de vihuela (3). No Cortesano (Jornada III)
numa Farsa entre Turcos e Comendadores, um d'eles cita (4)
numa esparsa o 1.° hemistíquio, emquanto outro aproveita
a primeira metade da devisa: Mis arreos (5), da qual passo
a tratar, dividindo-a em dois, porque ora é o primeiro octò-
nário duplo, ora o segundo que se cita, ora são ambos.
(i) Kpitàphio no sentido vago de inscrição, dístico, rótulo.
(2) Auto do Desembargador (p. 190).
(3) Salva, Catálogo N.° 2528. No seu Cortesano ha numerosas anecdotas rela-
tivas a Portugueses.
(4; P. 162.
(5) P- 163.
ROMANCES VELHOS 85
[38] Mis arreos sou las armas, mi descanso el pelear,
[39] Mi cama las duras penas, mi dormir siempre velar.
Começarei por apontar os ecos portugueses, não menos nu-
merosos do que os do Mouriscote, e colhidos nos mesmos auto-
res: Luis de Camões, Jorge Ferreira de Vasconcellos, An-
tónio Prestes (novamente em paródia).
No Auto de Filodemo (Acto III, Scena III), é o criado Vi-
lardo (com ares de gracioso) que, para caracterizar pitores-
camente a penúria do seu amo, diz, entre outras coisas, num
monólogo em que imagina estar a fazer um sermão á amada
e pretendida do fidalgo pobretão:
Havia-lhe perguntar:
«Senhora, de que comeis?
Se comeis cTouvir cantar,
de falar bem, de trovar
em boa hora casareis!
Porém, se vós comeis pão,
tende, senhora, resguardo;
que eis aqui está Vil ardo
que é como um camaleão.
E se vós sois das gamenhas (1)
e houverdes de atentar
por mais que por manducar,
mi cama son duras peitas,
mi dormir siempre es velar.
Do mesmo poeta ha uma terceira Carta em prosa, dada à
luz ha pouco por Xavier da Cunha (2) (de cuja autenticidade
nao se pôde duvidar), repleta de citações e alusões, e de mo-
dos de dizer bem camonianos. Escrita em Lisboa, a meu ver
pouco antes de o exaltado e irritado vate haver incorrido na
(i) Isto é das que gostam de luxo.
(2) No Boletim das Bibliothecas <• Arcliivos jVacionaes, Coimbra, 1904(11.39
e 46). — Foi tirada de uma Miscelânea manuscrita (N.° 8571), outr'ora da Casa Vi-
mieiro, adquirida pela Biblioteca Nacional em 1903. Nela tem por título Carta de
Luis Camões a hu seu amigo.
86 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASC0NCELL08
pena de prisão que o levou á índia (1), trata dos pagodes,
celebrados em certas tascas da capital poios ralenti i
matadores, matistas, matar ins e inalantes e outro* nomes derivados do
mesaio verbo (2), porque sempre os achareis com cascos e rodolas... cum
gladiis et fustibus... Estes na práctica dir vos ão que
sus arreos son las armas su descanso el pelear,
mas sei vos dizer que, se na paz mostra a corarão, na guerra mostram as
costas, porque... aqui troce a porca o rabo (8).
Reflexão e anexim que o leitor já conhece doa Disparates
na índia.
Na Aulegraphia (f. 165), uma das finuras propõe simplez-
mente: Cantay por desvio
Mis arreos son las armas mi descanso el peleare;
e outra replica, depreciando, como de costume, os cantares
narrativos: Não vos darei hua palha por hum romance velho.
Finalmente vem a paródia. Numa Introdução, ou Repre-
sentação, em prosa muito picaresca, que precede como prólogo
o Auto dos dois irmãos, recentemente publicada (4), um dos
interlocutores aproveita a quadra inteira, modificando-a com
o intuito de dar ideia do atraso das terras em que vivia,
(baralhando as duas línguas, também como de costume):
Mis leiras son bstala.tbns y pulgas mi estudiar;
mi cama, no de las buenas, mi dormir conta y pagar!
Como apêndice vou apontar d'esta vez uma remodelação
moderna portuguesa:
Minhas galas são as armas, meu descanso pelejar,
e no S. João d noite meu dormir só é velar.
(i) A prisão foi ensejo e não causa da expatrisção, premeditada e realizada
afim de poder escrever a epopeia nacional, conforme expliquei na Introducção da
edição Triibner (Bibliotheca Românica, fascículo N.° 10).
(2) Talvez matachins, que o próprio Camões emprega no Prólogo dei rei Se-
leuco.
(3) O benemérito editor e comentador d'esta Carta reconheceu que havia aqui
uma citação, mas não soube explicá-la.
(4) Representaçam feyta ao Auto que se seçue.' interlocutores hum licenceado e o
Autor do Auto. Omitido na reimpressão de 1871, foi aproveitada por T. Braga no
volume Eschoia de Gil Vicente, Porto 1 898 (p. 24"). Infelizmente, não a dá todavia
por inteiro.
ROMANCES VELHOS 87
Assim restringida e rebaixada, porque sae como cantiga
popular da boca de um pastor, é obra de A. Robello da Silva,
ura dos melhores discípulos de Herculano, que como seu mes-
tre (e como agora Menéndez y Pelayo) gostava de pôr em
evidência lendas e tradições arquivadas nos Livros de linha-
gem, assim como cantares trovadorescos. Com algum anacro-
nismo lá incluiu este na bem feita novela dos amores da Ribei-
rinha, amante decantada de Sancho 1, o Velho (f 1211) (1).
Dito isto, devo acrescentar que no reino vizinho o texto
anda em Cancioneros modernos populares (2), inalterado, e
subsiste remedado, em diversas Coplas, mais ou menos vul-
gares (3).
Nem deixarei de lembrar que em todos os paises cultos es-
tes versos castelhanos tem conquistado fama, como se fossem
a devisa airosa de algum heroe gigantesco: Hagen ou Siegfried
meridional que do alto de uma atalaia, erguida em qualquer
píncaro dos Pireneos, velasse pela liberdade da pátria, com
receio de alguma invasão de forasteiros. Quantas vezes tive
de recitá-los, sendo menina e moça (em casa de meu pae, e
na de meu mestre, de saudosa memoria, Karl Goldbeck) apli-
(i) Ódio velho não cansa: Romance histórico, Vol. I, Cap. XI (p. 162 da ed.
de 1848).
(2) P. ex. no de Segarra (Leipzig, 1862, p. 37).
(3) Ha p. ex. umas Coplas dialogadas do século xvii entre uma donzela, um
pastor e um selvagem (ou eremita) em que este diz, sem graça nem bom-gosto:
Nuestro comer es morir,
nuestro beber es llorar,
nuestro dormir es penar,
nuestro penar es vivir,
nuestro calzar y vestir
el mas pobre que podemos.
(Gallardo, Rnsayo I, c. 107). Na Vida de la galera ha o trecho:
Mi regoeijo es llorar,
mi reir, gemir contino,
mi placer es lamentar
y mi descanso pensar,
E continua: tanto mal, como me vino? porque a obra consta de quintilhas.
«8 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
cando-a sempre ao cavaleiro de la Mancha (1), de boa l
persuadida que realmente se tratava de uma quadra solta
que fora mote e de visa do heroe de Cervantes (2)!
Não é todavia da Novela que o dístico tomou o voo (como
aconteceu em vários casos). É de folhetos góticos, como o ates-
tam os testemunhos de quinhentistas. Já disse que ele parece
ter feito parte do romance de Mourisc.ofc Assim o indica de um
lado a citada transformação ao divino, e do outro lado a dis-
paratada paródia de que falei.
Com aplicação inadequada ao Salvador diz-se na primeira:
Las armas son mis arreos, mi descanso el pelear,
mi cama el duro pesebre, mi dormir siempre velar. (3)
No segundo, o Mouriscote, transformado em buen Conde,
acorda com os brados do vigiador, e acto-contínuo faz profi-
ssão de fé, exclamando á patusca:
Mis arreos son muchos cuentos (A), mi descanso es el burlar;
mi cama blanda y mullida, mi dormir siempre engordar. (5)
O caso complica-se, porém. O dístico encontra-se em outro
romance, verdadeiramente belo e antigo (com a mesma asso-
nancia-á): o novelesco de Moriana e Galvan, N.° I do pequeno
ciclo que principia
Moriana en un castillo juega con el moro Galvan (Pr. 121),
tão diversamente interpretado (6). E ocorre também no frag-
mento de Julianesa:
Arriba, canes, arriba, que rabia mala os mate (Pr. 124),
(i) Como lema de Don Quixote inscrevi-a com letra Infantil no frontispício do
primeiro exemplar que me deram em 1866 como presente de Natal.
(2) Agora, querendo verificar a origem do erro que cometi, notei quão difícil
é descobrir o respectivo trecho, e também, que em nenhum Romancero ha declara-
ções exactas a este respeito. — E na Parte II, cap. 64 que Cervantes diz:/ una ma-
naria, saliendo D. Quixote ã pasearse por la playa, armado de todas sus armas,
porque como mucAas veces decía, ellas eran sus arreos y su descanso el pelear, etc.
( 3 ) Antologia IX, 212.
(4) Contos, no sentido de petas.
(5) Durán, N.° 1670.
(6) Wolf intercalou-o entre os novelescos soltos; Duran, entre os mouriscos;
Pelayo, guiándo-se pelo nome Galvan, agrupa-o, pelo contrário, entre os carolíngios
ROMANCES VELHOS 89
o qual fornia um todo com o bizarro fragmento epigrafado La
Constância (1), na opinião do autor do Tratado (2), que refere
ambos os troços a dois personagens do ciclo carolíngio: Gaife-
ros e Melisendra.
Segundo o meu sentir, o clangor bélico dos versos (3) não
condiz com os melancólicos queixumes do desventurado aman-
te peregrino (4), nem tão pouco fica bem no romance de Mo-
riana. Se nele o cortamos, a ligação das partes sae mais
perfeita, e o conjunto mais harmónico, a pesar de G ai vau,
raptador de uma filha do Emperador, mais tarde libertada
pelo primeiro esposo, ser caracterizado como mouro, obriga-
do pelos ciúmes a bem vigiar do alto da sua torre.
O fragmento de Julianesa começa MU arreos. Julgo por
de Gaiferos e Melisendra, como digo no texto. (Vid. Antologia XII, 387), e junta-
-Ihe o de Julianesa. Mas se a substituição de Melisendra por Julianesa se com-
prende, é difícil imaginar a razão porque qualquer dos dois nomes seria trocado
por Moriana fMuliana). Vid. Catálogo Judio -Espanol, N.° 61.
(1) Por causa dos sete anos que o esposo-amante gasta em procurar a raptada.
(2) Antologia XII, 388. A assonância de Arriba, c á-e; a de Mis arreos — á. O-e
paragógico, atestado por Jorge Ferreira de Vasconcellos (em peleare) e por Pisa-
flor quanto ao Mouriscote (los que en romeria vanej e ainda em outro romance de
que falarei no Apêndice, podia remover esta pequena dificuldade. Assim removesse
as outras! - Confessarei, a medo, a herética opinião que o romance Arriba canes
não é senão a junção arbitrária de diversos retalhos, realizada por algum hábil
cantor do povo, que os agrupou como letra de uma mesma soada, cujo texto
ignorava.
(3) Eu, pelo menos, não lhe dava som lastimoso. — Seria útil comparar as com-
posições musicaes do Mouiiscote de Fuenllana e Pisador com o de Mis arreos^ de
Milan.
(4) Os que chamam enérgico ao fragmento (como Milá, 1. c. 390), olham exclu-
sivamente para Mis arreos, esquecendo o re*to; ou então (como Pelayoí para os
pés descalços e unhas ensanguentadas do peregrino. O verso pites como las car-
nes crudas y bebu la roja sangre não é tilo postiço como faz presumir o final ga-
lante pêro por vos mi se flor a, todo se ha de comportar, pois se encontra num texto
tradicional em Tanger: N.° 61 comieudo la verba crttda, — bebieudo agua de 1111
eharcale. Creio que ambas as lições são mera variante de pites tràigo los pies des-
'..•— las unas corriendo sangre. (Cfr. Pr. 121, verso 7, donde lia esse ultimo
hemistíquio) e que o final galante é acrescento tardio.
(5) Podia ser que exactamente esta circunstância, levasse os jograes ou os
editores a intercalarem o célebre dístico.
CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
isso que foi esse que serviu de tema ao glosador Luis Pe-
ralta, cuja paráfrase se publicou em vários PUegoê suelto*
antigos (1), (c. 1526,) mas nunca foi reimpressa,, que eu saiba.
No Libro de música de vihuela de Luis Milan L536) vai, pelo
contrário, precedido do verso
Con pavor recordo el moro y empezó de gritos dar,
que corresponde ao que na paiódia diz
Recordado habia el conde, bien oireis lo que dirá,
e nos reconduz ao Mouriscote, acordado pelo velador, confor-
me temos entrevisto.
Verdade é que o texto de Milan continua con uma metá-
fora (como as imitações seiscentistas que citei):
Mis vestidos son pesares que no se pueden rasgar, (2)
que está mais em harmonia com o espírito do fragmento de
Constância (impresso nos Cancioneros de romances e na Silva
de 1550).
Na impossibilidade de determinar, de qual dos textos os
quinhentistas portugueses se serviram, suponhamos que a
música de Milan, dedicada a D. João III, foi o vehículo que
divulgou em Portugal a devisa avulsa (3).
D. Romances de mouriscos, de cautivos e de forçados.
Não tiveram grande voga em Portugal. De cada género
resta uma única e vaga reminiscência.
(i) Salva, Catálogo 69 (ou Heredia 1744,) Sammluns; XXI. — O mesmo Luis
Peralta glosou Jugando estaba el rey Moro e Moricos, los mis moricos (Fajardo é
Florlseo). Ignoro, se se trata do autor de algumas canciones do Cancionero Gene-
ral de ijii.
(2) Salva N.° 2528.
(3) T. Braga refere Mis arreos a um romance de Bernardo dei Cárpio {Flo-
resta, p. XXXIV). Na nova edição da Poesia Popular Portuguesa (p. 388), remete
o leitor correctamente aos textos contidos no Romancero de Duran sob N.° 7 e
300, isto é ao Romance de Mariana e Galvan e ao de Julianesa ou La Constância;
mas por lapso essas indicações estão por baixo dos versos su comer las carnes
crudas su beber la viva sangre (que são semelhantes, mas não idênticos aos Julia-
nesa), supra citados na Nota 2 da p. anterior.
ROMANCES VELHOS 01
XIV
Entre os romances e cantares castelhanos c portugueses,
com que a ama da Comédia de Rubena contava embalar a
criancinha, confiada aos seus cuidados, ha um que princi-
piava:
[40] Muliana, Muliana... (1)
Como falta o segundo hemistíquio, é impossível dizer se real-
mente se trata de um cantar do pequeno ciclo já mencio-
nado de Moriana e Galvan, como é costume afirmar, desde
que o Marquês de Pidal chamou a atenção para essas refe-
rências no Discurso de la Poesia CastelLina que precede o
Cancionero de Baena, ou pelo menos, desde que Wolf o repe-
tiu nas Proben (p. 11).
Naquele que principia:
Al pie de una verde haya estaba el moro Galvan (Pr. 123),
a parte dialogada (v. 7) começa de facto
Moriana, Moriana principio y fin de mi mal.
E bem possível seria que esta, cm vista do seu carác-
ter lírico, e música correspondente, fosse cantada em sepa-
rado. Mas carecendo de outras provas, quer da popularidade
do romance em Portugal, quer da alteração do nome, deve-
mos deixar a questão em aberto (2).
XV
Zaide e Zaida eram tipos muito familiares aos seiscen-
tistas D. Francisco Manuel de Mello (3), D. Francisco de
Portugal, autor da Arte de Galanteria, e Francisco Rodríguez
(i) Gil Vicente, Obras II, p. 27.
(2) Ha uma planta moliana ou boliana (da família das volerianas\ a que
gain superstições e que suscitou rimas populares, Vid. T. Braga, O /'ovo Portuguet,
Vol. II, 72 ss. - Cantar a molitina quer dizer dar u/na reprens&o, ou entaboadela.
(3) Veja-se nas Obras Métricas II, 99 unia frase relativa ás prisões do mouro
Zaide.
d2 CAROLINA MICHAÈLI8 DE VASCONCELLOS
Lobo. O romance que teve fama em Portugal, nâo é comfcudoo
mesmo que continua a ser popular na And; luzia e em Tân-
ger (1), mas antes aquele que principia:
[41] Mira Zaiãe que te aviso que no pases por mi calle (2).
O primeiro hemistíquio, tornado proverbial, sen ia para quaes-
quer avisos. E assim que o empregou o jovial mas infeliz Ju-
deu António Serrão de Crasto (1610-1664). No i oema jocoso
dos Ratos da Inquisição , com que se entreteve durante os
ócios do cárcere, dirigia-se aos pequenos roedores que o im-
portunavam atrozmente, reforçando o verso aladj com um
rifão muito conhecido:
não bulais vós nos baús
(na canastra ia dizer),
porque o dano que tiver
me haveis de pagar de ciso!
Mira Zaida (3) que te aviso!
quem te avisa bem te quer (4).
XVI
[42] Mi padre era de Ronda y mi madre de Antequera (Pr. 131),
esse mais antigo e popular entre os romances de cristãos cau-
tivos na mouraria, com a singela descrição dos trabalhos de
um d'esses desgraçados e o seu libertamento pela mulher
do amo, é o que vingou em Portugal.
Luis de Camões aproveitou o verso, transposto para a
terceira pessoa, nos Disparates seus, na índia, para caracte-
rizar os fumos de Indiáticos de baixa origem.
(i) Catálogo Judio- Espanol, N.° 19 c. Duran 54 e 53:
Por la calle de su dama se pasea el moro Salde.
(2) Duran 56, (VI do ciclo); Pérez de Ilita, Guerras Civiles de Grane da, Cap. VI.
(3) Variante por Zaide. — O dirigido a Zaida (VII; começa:
Mira, Zaida que te digo que andas cerca de olvidarme.
(4) Cap. IV, Estr. 2; p. 189 da ed. de Camillo Castello-Branco, 1 orto, 1883.
ROMANCES VELHOS 93
Achareis rafeiro velho
que se quer vender por galgo.
Diz que o dinheiro é fidalgo,
que o sangre todo é vermelho.
Se elle mais alto o dissera,
este pelote pusera (1)
que o seu eco lhe responda
que su padre era de Ronda,
y su madre de Antequera. . .
E quer cobrir o ceo com huma joeira. (Estr. 6.)
Mais uma vez a introdução narrativa que se encontra nas
impressões (2), foi omitida pelo povo.
XVII
O romance
[43] Amarrado ai duro banco de una galera turca (3),
isto é o primeiro entre oito cantares, tardios e artísticos,
que um anónimo dedicou ás vítimas de Dragut, o famoso cor-
sa rio turco (impressos no Romancero General) foi aproveitado
por D. Francisco Manuel de Mello, num d'aqueles aborreci-
dos e ridículos brinquedos académicos joco-sérios em que tan-
ta vez malbaratou centelhas do seu espírito rico e valente.
Nas quadras 13 a 14 de um romance em ú, ás Ruínas de um
castelo, feito durante a sua longa detenção na Torre de Be-
lém (4), graceja do modo seguinte:
Porque a um preso num castelo mandar-lhe agora «ora sus
faze-lhe a um castelo uns versos e deita-lhe mil debruns»
é como em cas do enforcado falar-lhe em baraço nú,
que, inda que seja entre amigos, é falar muito fortum.
Se ha dez anos que amarrado qual forçado de Dragut
(i) Isto é: eu apostava este pelote.
(2) Pr eg untando está Florida a su esposo placentera.
(3) Duran, 268.
(4) Ridículo Vexame a alguns sogeitos da Academia, dando-se ao Autor por
assunto as Ruinas de hum Castello.
94 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
ando a torres como a cepos [n]os bogios de Tolú,
<jque quereis vós que lhe diga a este castello marfus
se não que em cair fez mal, se cair sem dizer bum? (1)
E. Romances do ciclo carolinglo
Da grande popularidade do emperador dos Francos neste
reino são testemunho os romances que o povo fez seus, por di-
reito de conquista, nacionalizando-os por inteiro, assim como
alguns nomes-próprios cora valor proverbial como Roldão (2)
(valentão arruaceiro e arrancador), Valdevinos (vagabundo,
tunante, vadio), e os doze pares. Também não faltam citações
e referências.
Começo com a batalha de Roncesvales (3).
XVIII
a) Roncesvales. — b) Guarinos. — c) D. Beltrão.
a) O cantar que principia
Domingo era de ramos la pasión quieren decir (Pr. 183),
eco longínquo da Chanson de Roland, desfigurado estranha-
mente ao passar das gestas dos jograes para a boca do povo,
foi seguramente um dos mais sabidos. Cantava-se todavia sem
esse entróito postiço; despido mesmo, segundo as aparências,
dos dois versos imediatos (4) com o grito exhortativo
[44] Vuelta, vuelta, los franceses! con corazón á la lid!
(i) Obras Métricas, Vol. II, p. 215: Romance XXVIII. Trinta e duas rimas
em-ú, eis o que o desculpa! — Como os textos estão sobrecarregados de erros de
imprensa, emendo os nào-duvidosos.
(2) A respeito tanto da época em que o nome Roldão aparece em Portugal,
como das diversas formas em que se usou, vid. Cancioneiro da Ajuda, Investigações
(Ilalle 1904) p. 403 e 684.
(3) Na Aulegraphia f. v. 92 um personagem diz: eu sempre vou topar em Ronces-
vales; ignoro, por quê. Conferindo a locução com a castelhana ser un Roncesvalles,
imagino todavia que o nome-próprio tem o sentido de luçar de batalha, contenda
e barulho.
(4) Troços d'e!e andam na tradição oral dos Judeus de Levante. Vid. Catálogo
Judio- Espaúol N.° 2. O teor do grito é: Atrás, atrás, los franceses.
ROMANCES VELHOS 95
Atribuído na redacção mais extensa ao arcebispo Turpim, e
nas mais curtas a ese Roldán paladín, veino'-lo empregado
por Gil Vicente no Auto da Barca da Gloria. 0 Arrais do In-
ferno intima o Cardeal, por meio do primeiro hemistíquio, a
virar costas e não se chegar ao batel dos anjos (1).
Na Aulegraphia (f. 161°) tem uso igualmente pedestre.
A continuação
[45] Mas vale morir con honra que deshonrados vivir, (2)
é um lugar-comum heróico de que ha numerosas variantes, e
que fora provérbio antes de entrar neste romance e em outros.
Em Portugal é um dos centões da Carta I de Africa. Ahi
aparece transposto para o singular, por assim ser preciso na
economia do verso, com um pé á portuguesa e outro à castelha-
na, não sei se por descuido do autor, se por lapso dos copistas:
A gente é peor em dobro,
as vergonhas são perdidas;
falam das alhoias vidas
e põe as suas em cobro!
Poucos hão medo á vergonha,
e a mui poucos se ha de ouvir:
mais vale morrer com honra
que deshonrado bivir. (Estr. 7)
(i) Obras, Vol. I. 298. — A lição está deturpada, pois diz vuelta, vuelta â los
Franceses. - No Oriente português o grito correspondente de Volta, volta! era
naturalmente muito usado. Vid. Barros, Década II. Libro IV, Cap. 1.
(2) Na lição divulgada pelos Cancioneros de romances ha
Más vale morir por bnenos que deshonrados vivi 7 .
A que vai no texto pertence a um pliego suelto gótico da Biblioteca Nacional
de Madrid, publicado na Antologia 1X275. Confet X 272 (e Milá, Romanctrillo,
p. 22y) M. v. m. c, h., que no vivir deshom ada e 303: Más vale morir con honra
que ttott vevir disfamada. — Num de Çamora (Pr. 42) ha que no vivir deshonrado.
No Cortesa7io de Miiau (p. 186) leio Más vai á rey buena muerte que mal bevir
deso7irado e no Cancionero de Baena, N.° 558, numa cantiga galega de Garci Fe-
rrans de Jerena: Más 7ne valria morrer que vivir 7/ial deso7irado.
CAROLINA MICHAÈLIS DE VASC0NCELL08
Dos brados de desespero do rei Marsíro (Marsilio) se des-
prendeu o verso
[46] Las vocês que iba dando ai cielo quieren subir. (1)
Entrou na Carta II de Africa, onde o autor o aplica ás
próprias mágoas suas de amador ausente, como já sabemos:
Fujo da conversação,
anoja-me a companhia,
e trago os olhos no chão
e mui alta a fantesia.
Desque [me] vou alongando,
que me não podem ouvir,
las vozes que iva dando (2)
ai cielo quieren subir. (Estr. 6)
As maldições que el rei desbaratado profere:
[47] Reniego de ti Mahoma y de cuanto hice en ti,
tiveram diversas aplicações, e provocaram imitações e rerae-
dos (3). Somente o primeiro hemistíquio é citado no Auto por-
(i) Com a assonância mudada para á (llegar) entrou no romance de Gaiferos
(Pr. 173) e em vários outros (Pr. 109, 149, 179).
(2) Aqui a modificação que me voy dando seria melhor.
(3) N° romance fronteiriço do Mestre de Calatrava temos
Reniego de ti Mahoma y de tu secta malvada,
(Duran 1102J; variante de Pr. 889:
Oh mal hubicse Mahoma allà do dicen que estaba.
Confer Juan dei Encina, com relação ao Rey de Granada
Reniega ya de Mahoma e de su seta malvada.
em um romance do Canc. Mus. (31 5).
Un remedo lírico principia:
Renieço de ti, amor, y de cuanto te servi.
Iinran 1415, e em redacção mais extensa no Ensayo /, p. 502'. Além d'isso, ha
frases como renegar como um mouro e blasfemar de Mahoma (Pr. 28) que derivam
dos mesmos factos históricos.
ROMANCES VELHOS 97
tuguês da Cena Policiana (1), de Anrique López, impresso cm
1587 na collecção de Alfonso Lopez. A peça termina com uma
chacota cuja letra dizia
Arrenego de ti Mafoma (2);
portuguesa, ao que parece. Se não derivar directamente do
romance carolíngio, talvez derive de uma longa série de im-
precações que principiando com a quadra
Arrenego de ti, Mafoma,
e de quantos orem em ti.
Arrenego de quem toma
o alheo pêra si!
mudam logo para versos pareados dissonantes, os quaes era
costume empregar em Maldições, Porquês, Avisos para guardar,
Nuncas e outras sátiras parecidas. Essa obra de Gregório Af-
fonso, criado do bispo de Évora (3), influiu numas pragas que o
Arrais do Inferno roga na Barca 7 de Gil Vicente (4), as quaes
ulteriormente foram ampliadas e saíram avulsas em folhas vo-
lantes. Mas nessas não ha referência a Mafoma.
b) Muita voga teve também o cantar de Guarinos, a I mi-
rante dr la mar, a ponto tal que ainda hoje anda na tradição
oral entre os Judeus de Tânger (5). Do seu enérgico início
[48] Mala la vistes ((3). Franceses, la caza de Eoncesvalles,
sairam dois reflexos.
(i) Cena, no sentido de scena, como na Celestina, nas continuações e imitações
da genial tragicomédia, e também nos Autos de Gil Vicente.
(2) Vid. Eschola de Gil Vicente p. 237. Segundo T. Braga o Auto è de 1539.
(3) Cancioneiro Geral, II, 534, (f. 1 37e).
(4) Obras, I, 249.
(5) Vid. T. Braga, Questões p. 225-237, e Gil Vicente (ed. 1898) p. 438
Cat. Jud. Esp. N.° 22.
(6) Além da lição mala la -ristes (empregada no Corte sano de Milan, p. 115
128, 179) ha mala la visteis (Caminha); e com troca do verbo, mala la hubistes ou
mala la huôisteis, mas também mal ovisteis, los franceses. Essa alteração, nascida
CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
Andrade Caminha rematou com ele a estrofe 3." da sua
resposta ao Peregrino Curioso (1).
Jorge Ferreira de Vasconcellos já havia recomendado,
decénios antes, a um escudeiro de fraca veia poética que se
metesse a parafrasear o romance de Guarinos, longe de Por-
tugal:
Bi-vos a Castella... poreis tenda em Medina dei Campo, e ganhareis
vosso pão peado (2) em grozar Romances velhos, que são apascíveis. K pôr-
lhe-eis por título: Glosa famosa de un famoso y nuevo autor sobre Mal
ovistes (sic\ los franceses, la caza de Roncesvalles (3).
Outro verso do mesmo cantar entrou, modificado, numa
composição castelhana de autor português: um romance de
girões de D. Francisco de Portugal, ao qual terei de recorrer
mais algumas vezes (4). Dirigindo-se ao seu pensamento, que
involuntariamente tomava sempre o caminho da pátria, diz
num conceito antitético enfadonho:
Dieron ai agua memórias que vós a las llamas dais;
[49] no siendo Infante Guarinos peligrastes en la mar (coprfe 4).
Ignoro se esta lição existe, isto é, se o poeta se lembrava im-
perfeitamente da que diz:
cativaron a Guarinos almirante de los mares.
ou se a alterou á sua vontade (5).
por ventura de má interpretação de grafias defeituosas, é todavia antiga. Não foi
Cervantes quem a introduziu, pois já se encontra na Ensaladilla (Est. 7, Ingr. 38).
Também prevaleceu em remedos tardios como o de 1638, aplicada ao sitio de Fuen-
terabía (Zeitschrift II, 586, e Studij di Filologia Romanza XV, p. 41) e o de 1646,
aplicada ao sitio de Lérida (Salva N.° 83).
(1) Pedro de Andrade Caminha, p. 108.
(2) Peado-escassamente (peado de pena)? ou seguramente (de pea-pedicaj?
(3) Eufrosina p. 175.
(4) Divinos y humanos versos, Lisboa, 1652. Romance X\'l: Pues que a Portu-
gal partis, pensamiettto, preçuntad (imitação de: Caballero, si a Francia ides).
(5) Confer Cautivaron a Rondales — almirante de la mar, na variante tradicio-
nal de Tânger ('Catálogo Judio-Espafíol N.° 22).
ROMANCES VELHOS 99
c) Outra quadra (ou outro dístico) da mesma artificiosa
composição tem o teor seguinte:
No hay que buscaros dichoso: sabed que os haveis de hallar
[50] en polvaredas de ausência perdido por Don Beltrán (copla 3).
O facto a que se alude, a perda do p iladim D. Beltrão (1)
sem que os companheiros reparassem nela, é narrado em ro-
mances artísticos, impressos tardiamente, no Romancero Ge-
neral. Um, em quintilhas, rimadas em parte e em parte asso-
nantadas, cheio de conceitos e anacronismos, começa:
Un gallardo paladin aunque invencible, vencido
e acaba:
Y asl con la polvareda perdimos a Don Beltrane (2)
Outro, menos arrebicado, começa:
Citando de Francia partimos, hicimos pleito homcnaje
que d que en la guerra muriese en Francia se enterrase.
V como los espanoles prosiguicron el alcance,
con la mucha polvareda perdimos á don Beltrane. (3)
Ambos estão em relações intimas com um vigoroso roman-
ce velho, muito glosado, contrafeito, posto em música, can-
tado (4), traduzido, e ainda hoje popular em Tras-os-Montes,
-essenta anos depois de Almeida-Oarrett haver colhido e
(i) Entenda-se: do seu cadáver!
(2) Duran N.° 396.
(3) Ib. N.° 397.
(4) Ha composições musicaes de Valderrábano ( 1547), de Salinas (1577), de
Millan; essa no Cancionero Musical publicado por Barbieri (N.° 344). — Com rela-
ção á variante Reinalte, por Beltrane, que ha no texto da última, lembro que num
romance tradicional português, o heroe se chama Valdevinos, e que esse é tratado
de compadre de T). Beltran num texto castelhano. Houve por tanto confusão
entre os trcs paladinos.
(5) Uma, de Vinhaes, publicada na Revista Lusitana VIII 76, já entrou no Ro-
manceiro Geral de T. Braga; outra, inédita é de Bragança. As suspeitas de Menén-
dez y Pelayo (Antologia AY/373), motivadas pelos retoques evidentes de Almei-
da-* Garrett, vão longe demais.
100 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
retocado primorosamente uma versão que então andava nessa
província (1). É a que principia
En los campos de Alventosa mataron a D. Bdtran;
nunca lo echaron menos hasta los puertos pasar (Pr. 185a)
ou, sem a introdução:
Por la matanza va el viejo por la matanza adelante;
[51] los brazos lleva cansados de los muertos rodear\e\ (Pr. 185) (2).
O vocábulo polvareda, não se encontra em nenhum dos
dois, nem tão pouco nas derivações portuguesas. É todavia
provável que se encontrasse num intróito perdido, na lição
Con la grande polvareda perderan a Don Beltrane (3)
Assim principia, pelo menos, um romance, contido na co-
média Casamiento en la muerte de Lope de Vega, cujo heroe
é Bernardo dei Cárpio (4), comédia que não seria desconhecida
ao discreto autor da Arte de Galanteria (5).
(i) Quanto ao cavalo morto, que se ergue e fala, pôde ser que o investigador
castelhano tenha razão. Note-se todavia que esse pormenor maravilhoso (frequente
em contos populares, como o de Fallada), ocorre igualmente não só num romance
velho do Cid, mas num tradicional asturiano do Conde Olinos (N.° 25) e noutro de
Moriana y Galvan, cantado entre os Judeus de Levante (N.° 62). E note-se tam-
bém, que nos textos trasmontanos logo no princípio se fala do cavalo:
Quietos, quietos cavaleiros que el rei vos manda contar!
falta aqui Valdovinos e o seu cavallo real.
No outro, o cavallo cha.ma.-se-/rmedar (mero lapso de imprensa por tremedar
tremedal).
(2) Confer Salva Catálogo N.° 99. — Ha um remedo cómico Por la dolência va
el viejo, Duran 1669 e Ensayo N.° 585, a f . 102 do Cuaderno descrito. Este foi glo-
sado por Castillejo (Líricos I, p. 174). O primeiro dístico também entrou num
Chiste de Argiiello (Salva N.° 4).
(3) Polveria, polvaría ocorre num romance dos Judeos de Levante (Antolo-
gia X j/S e J/ç); polvorinho, no mesmo sentido, em versões trasmontanas do Pal-
meiro ou da Aparición.
(4) Na comédia citada ha a variante: de tanto los rodeare.
(5) Do emprego proverbial d'esse verso ha mais provas. Certo Francisco Go-
doy, ao tratar de estilos literários, lembra aos que gostam de modos de dizer subli-
mados, crespos e floridos, que «na demasiada elegância ficam ás vezes ofuscados os
afectos e a razão, como D. Beltran entre la polvareda.» Ensayo N.° 2345. Do
ROMANCES VELHOS 101
No Pranto de Marta Parda, a velha devota de Baeo, fati-
gada de chorar e gritar, exclama:
Os braços trago cansados
de carpir estas queixadas,
as orelhas engelhadas
de me ouvir tantos brados (1).
Não creio que Gil Vicente se lembrasse do hemistíquio
sublinhado, nem os demais que empregaram locuções idênti-
cas ou parecidas; mas como pôde haver opinião oposta, aqui
fica registada a lembrança.
*
* *
Na Egloga (II) Basto de Francisco de Sá de Miranda, o
pastor Gil diz com relação aos palradores fanfarrões e me-
xeriqueiros da aldeia que contam patranhas:
Crea[-o~] o baboso d'aldea
que traz sempre a boca chea
das filhas de Dom Beltrane (2).
Como T. Braga (3), julguei outr'ora que haveria ahi alusão a
um romance antigo. Mas não o encontrando, pregunto, se
Dom Beltrane terá o sentido de beltrão, preparado pelo adá-
gio Quem ama Beltrão, ama o seu cão: isto é, de fulano e cl
crano?
XIX
0 formoso e delicado cantar de D. Alda (também inspi-
rado indirectamente na Chanson de Roland), hoje popular em
Tânger e Salonica (4), pertencia em 1521 ao repertório da
mesmo modo ha alusão no Diablo Cojuelo, Tranco VII: una polvareda espantosa...
que fué mucho que no se perdiera el Sol con la grande polvareda como don Beltran
de los Planetas.
(i) Gil Vicente, III, 368.
(2) Poesias Ed. C. M. de Vasconcellos, N.° 103, 428-430.
(3) Floresta, p. 212.
(4) Catálogo Judio-Espanol, N.° 21,
102 CAROLINA MICHAÈLIS-DE VASCONCÊLLÒS
ama de leite, introduzida no palco d,i corte pelo fundador do
teatro português. No texto, acolhido em L&60 qo Cancionero de
romances, temos
[52] En Pariu está dona Alda la esposa de don Roldan. (Pr. 181) (1).
Na comédia de Iiubena note-se, além do traje português, a
variante estava (2). Para evitar repetições transcrevo o tre-
cho relativo ás cantigas e aos cantares que essa figura popu-
lar sabia de cor, parte no idioma pátrio, parte em castelhano.
Feiticeira. E que cantigas cantais?
Ama. A criancinha despida —
Eu me sam dona Giralda—
e também Val-me Lianor—
e De pequena matais Amor —
e EM PARIS ESTAVA DON'ALDA.—
*Z>í-me tú, senora, di — (3)
*Vámonos, dijo mi tio. —
e *Llevad-me por el rio —
e também Calbiorabi —
e *Llevantéme un dia
lunes de mariana. —
e Muliana, Muliana—
e Não venhais, alegria.
E outras muitas (Testas taes. (4)
XX
Ao ciclo jogralesco de Melisendra, Galvan e Gaiferos,
parcelas do qual são tradicionaes nas Astúrias (õ), em Tras-
os Montes (b), em Catalunha (7) e entre os Judeus de Levan-
(i) O sonho da garça ou do açor lembra o do falcão de Krimhilde nos Xibe-
lungen, além dos outros, mencionados na Antologia.
(2) Na lição conservada pelos Judeus temos também um imperfeito: En Paris
era dona Alda — la esposica de Roldane.
13) Marco com asterisco os francamente castelhanos.
(4) Vol. II p. 27. O cantar que a Ama entoa em seguida é Llevantème un dia.
Mas, como de costume, só o primeiro verso serve-nos de guia. Guia que ainda
não levou ao fim desejado.
(5) V. Pidal, N.° 21 e Antologia X 66.
(6) Vid. p. 57. Nota 2.
(7) Milá, Romancerillo Catalan, p. 228 (redacção muito interessante).
kOMANCES VELHOS 103
te (1), pertence um dos poucos cantares do repertório da Ama
que são romances velhos. E o que diz:
[53] Vdmonos, dijo mi tio (2) a Paris esa ciudad (3)
[54] e/t figura de romeros, (\) no nos conozea Galvan. (Pr. 172) (5)
Empregado proverbialmente, onde um símplez Vamo^nos
chegava (6), encontrei-o no Auto do Procurador de António
Prestes, no fim de uma scena entre dois escudeiros amigos, um
dos quaes resolve documentar praticamente a sua gratidão
pelos bons conselhos que o outro lhe dera a respeito dos seus
projectos de casamento:
Brás. Quero ver que me peitais,
que presente me mandais.
Ambrósio. Vamonos, dixo mi tio,
que cedo tereis pitança
como duque de Bragança (p. 124).
O romance é d'aqueles que os capitães e soldados da ín-
dia levavam comsigo na memória, com mais ou menos fide-
lidade. Atesta-o uma aneedota, pausadamente contada por
Diogo do Couto. (7) Cuando D. António de Noronha foi,
no ano de 1560, a Surate, o verso inicial e o imediato serviram
(i) Catálogo Judio-Espanoí, N.° 27.
(2) Esse tio é o paladim Roldão (pelo menos em algumas versões).
(3) E fórmula estereotípica com diversas variantes que tornaremos a encontrar
mais abaixo.
(4) Dos bordones que taes romeiros costumavam levar, ainda terei a dizer duas
palavras.
(5) Quevedo aproveitou este verso no Romance 46 da Musa VI: En figura de
ronuro — no le conozea Galvan.
(6) Ao mesmo fim familiar tende uma citação no Cortesano de Luis Milan, no
fim da Jornada I (p. 131), onde da boca de Francisco Fenollet sae a quadra im-
provisada:
Amen amen! dixo [mi] tio,
vá/nonos luego ã cenar,
que diez horas ya son dadas,
y es bien imos acostar,
(7) Década VII, Livro 9, cap. 12.
104 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
para ele comunicar, divertida e discretamente, as suaa ordena
a um companheiro.
e foi correndo a armada a dar-lho, avisos do que haviam de fazer.
E perpassando a galeota de D. Jorge de Meneses, chamando por elle lhe
disse aquellas palavras do Romance velho:
Vamonos, dixe mi tio a Paris essa ciudad,
dando-a entender que estava assentado passar avante pam a fortaleza.
E D. Jorge de Meneses respondeu com o mesmo romance:
No en trajos de romero porque no os conozra (Jah-an.
E mettendo-se com elle na galeota o foi acompanhando até a sua.»
A variante pôde ser adaptação aos fins do momento, ou
mero lapso de memória da parte do historiador.
O terceiro acto-da composição jogralesca:
Asentado está Gaiferos en el palácio real,
asentado ai tablero para las tablas jugar (1).
deixou rasto em Portugal, muito mais profundo do que o an-
terior (2). O trecho pitoresco em que o esposo, á procura da
mulher raptada, descreve, com os mesmos traços épicos do ro-
mance de Julianesa (ou de Moriscote) (3), as canseiras da sua
(i) Na Ensaladiha (Est. 6, Ingr. 27) a lição é reduzida (Asentado está Gai-
feros—para las tablas jugar), como nos textos tradicionaes. Na memória de um
Trasmontano inculto o verso transformou-se em
Sentado estava Galfeiro em taboleiro real (!).
Vid. Revista Lusitana, VIII, p. 74.
(2) Não posso crer na legitimidade da extensa lição publicada por Almeida-
Garrett (II, 261), e repartida em duas metades por T. Braga, que as simplificou um
pouco. Mas de modo algum se deve negar que haja lições tradicionaes em Tras-os-
Montes. — Uma muito reduzida e degenerada, já mencionada na Nota supra, mas
ainda assim preciosa, acha-se no Romanceiro trasmontano, do Abbade y Augusto
Tavares ("Revista Lusitana, VIII, 74). O heroe chama-se Galfero, a heroina Meli-
srnde. Em lugar de Sansueíia, desconhecido aos modernos, ha Salselas, isto é o
nome de um lugarejo trasmontano (comarca e concelho de Macedo de Cavaleiros).
(3) Ay (jue hoy hace los siete anos que ando por este valle
pues truigo los pies descalzos, las tinas corriendo sangre,
pues como las carnes crudas y bebo la roja san°re.
ROMANCES VELHOS 105
vida de cavaleiro andante, impressionou o povo. Dos versos:
três anos anduve triste por los montes y los valles
[55] comiendo la carne cruda bebiendo la roja sangre (1),
trayendo los pies descalzos, las unas corriendo sangre,
o do meio surgiu oportunamente na memória de Luis de Ca-
mões, quando estava a retratar a vida dos guapos e matan-
tes de Goa. Depois dos trechos já transcritos (sob N.° 15 e 37)
continua na Carta I da índia:
Informado d'isto veio a esta terra João Toscano (2) que,
como (3) se achava em algum magusto de rufiões, verdadeira-
mente que ali era
su comer las carnes crudas su beber la viva sangre (4)
Em muitos outros romances ha repetição ou imitação das
cruas frases (5) que, evidentemente, provém de cantares de
gesta medievaes (6).
(i) Quem utilizar as indicações de T. Braga (quer sejam as da Floresta,
p. XXXIV), quer as da Poesia Popular Portuçueza, p. 388, lembre-se do que eu
disse a respeito de Mis arreos.
(2) Diogo do Couto conhecia esse rufião. Vid. Década VII, Livro X, cap. 9.
(3) O sentido é: cada vez que se achisse.
(4) As divergências podem ser, também d'esta vez, variantes ou desvios arbi-
trários.
(5) Quanto ao mísero estado dos cavaleiros viandantes
trayendo los pies descalzos, las unas corriendo sangre,
apontarei, além do esposo cristão de Mariana (Pr. 121) e o de Julianesa (Pr. 124),
o conde Grimaltos (Pr. 176), o Palm eiró de Aferida (Pr. 195) e o Escudeiro a/fado,
de um romance (em-aí, talvez relacionado com o de Julianesa) que só se con-
serva no Cancionero Musical N.° 325. — No Gaiferos da tradição portuguesa a
fórmula foi mitigada,
sangue vertiam os pes cansados de tanto andar.
Com relação a tormentos de fome e sede, impostos a prisioneiros ou peregri-
nos, ha mais variantes, ora reforçadas, ora abrandadas. No texto de Garrett lê se:
o comer de carne crua no sanjue a sede matar;
no de Tânger: comiendo la yerba cruda— bebiendo agua de un ckarcalt (61). — Nos
romances de Silvaninha ha carne crua e agua salgada (Açor. 5 e 6) ou carne salada
e sumo de laranja (Astur 74, 75, 76). — carne salada e hiel de retama (Pires 12) —
pan por onza e agua de charco (Astur.) — pão por onça, aeua por medida (Leite 30);
assim mesmo em aguns cantares de Gerineldo; — herbas ama/gantas e aygua dela
mar salada (Milá p. 249, Conde Claros).
(6) Na Crónica rimada é Pêro Mudo, sobrinho do Cid, que declara: Por las
8
106 CAROLINA MICHAÈL18 DE VASCONCELLÔS
O quarto acto, ligado na redacção da Primavera ao ante-
rior (exactamente como na tradução livre de Garrett) (1),
principia com os brados de Melisendra que, postada numa
janela ou veranda do paço de Galvão, apostrofa o cavaleiro
de armas brancas (2) que passa:
[56] Caballero, si a Francia ides por Gai feros preguntad (Pr. 173 p. 238),
scena essa que, representada pelo titereiro maese Pedro, ga-
nhou fama em todas as partes do mundo e talvez se tornasse
conhecida neste reino pelo mesmo processo de dramatização
infantil.
D'esta vez ha glosa e paródia, contrafacção ao divino,
mera citação (no século xvn), e introdução do verso inicial
num romance de girões.
A glosa é de Diogo Bernardes , rival de Luis de Camòos,
pelo menos no género idílico. Encontra-se nas Flores do
Lima (3), e reproduz o diálogo entre Melisendra (8 versos) e
Gaiferos (2 versos), encurtado do modo seguinte (4):
«Caballero, si a Francia ides por Gaiferos preguntad
y dezidle que su esposa se le embia encomendar.
Dezidle que no m' olvide por los amores d'allá,
que sus justas y torneos, bien los supiínos acá.
Dezidle que ya es tiempo de me venir á sacar
crietas de los pies corrente sangre clara (v. 856). Na novela do Abade D. João de
Montemor (prosificação de um cantar jogralesco da época de transição, na opinião
de Menéndez Pidal) se fala de hervas e aguas como sustento de Bernardo Martí-
nez (vid. p. XXVI da Introdução de La Leyenda dei Abad D. yuan de Montema-
yor, Dresden 1903).
(1) Entre os Judeus de Salonica anda na tradição oral uma versão que ante-
põe ao diálogo uma introdução narrativa de quatro versos.
(2) Como numa das numerosas lições do romance se especializem as senhas
do marido, não admira ver que o de Gaiferos fornecesse versos para o das Sen/ias.
Vid. Pr. 155.
(3) P. 195 da ed. de 1770.
(4) A redacção que serviu de letra para uma composição musical de sala
(Canc Mus. N.° 323), consta de apenas sete versos. Começa com um que trans-
forma o inicio em quadra aconsonantada:
.S7 d' amor pena sentis por mesura y por bondad,
Caballeros, si â Francia is por Gaiferos preguntad.
HOMANCES VELHOS 107
d' esta prision tan esquiva do muero con soledad.
Dezidle que venga presto si biva me quiere hallar
que, si presto no viniere mora me harán tornar.»
«Essas nuevas, mi seiiora vos misma las podeis dar,
que allá en Francia la bella Gaiferos me suelen llamar».
A glosa, em castelhano puro, em dez vezes dez versos, é das
melhores do género.
A paródia é do já muito nosso conhecido António Prestes,
chocarreiro e dizedor. No Auto dos Cantarinhos, na scena em
que o protagonista anuncia ao criado que, falto de dinheiro,
está resolvido a empenhar uma saia (ou um saio) de sua mu-
lher, recomendando-lhe que como terceiro facilitasse a reali-
zar fio do plano, esse procede ao seu modo, proferindo constan-
temente alusões encobertas, as quaes reveste de ouropéis lite-
rários, para no fim de contas em presença da mulher inven-
tar coisas do arco da velha sobre as qualidades fataes do saio.
Primeiro choraminga ilm cantar velho, contrafeito:
Ah Pélayo (1) que desmayo
d'um saio, que ha de ir d' aqui!
Depois vem a paródia de Helo helo, que já figura nesta lista.
Em seguida, outra de D. Duardos e Flérida. Afinal recita o
romance seguinte, nâo sem tapar com vários remendos por-
tugueses os rasgões que, na sua lembrança, havia no pano
castelhano.
Sa\o, se aljabebes ides por dineros perguntade,
dizile que el sefior mi amo os vende para jogar.
Dizile que era mas tie-npo de outro, que no de 03 llevare
y que queda acá la saia muriendo con soledad.
Dizile que, ya que os vende, que traga algo de cenar,
que yo y la su esposa le tenemos voluntad (2).
A dona da saia, espécie de Griselda em paciência e sujei-
ção, livra o marido do cárcere, trocando com ele os vestidos.
No tribunal conta aos juizes a história das mulheres de Weins-
berg; e quando resolvem soltá-la e mandam chamar o homem,
(1) Na edição de 1 87 1 (p. 439) imprimiram Apelae o:
(2) P. 443. — Braga juntou esse te\to ao romance português de (Jaiferos (p. 220
do Romanceiros Geral, 2.a ed.)
708 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELL08
para também ser perdoado, ela entoa versos | bilingues) de Me-
lisendra:
[57J Dizei-lhe queja é tempo de me venir d sacar
d"esta prisión tan esquiva do muero con soledad (1).
Como se vê, a quadra é idêntica á terceira das que foram
parafraseadas por Diogo Bernardes, o que leva a supor que
ambos os quinhentistas conheceram um e mesmo texto, diver-
so dos representados nos Cancioneros de Romances (2).
Mudado ao divino saiu da boca de uma freira de uobn
cendência, Sor Micaela Margarida de Sant' Ana (1581-166
fundadora do Convento de Carnide, que era filha bastarda do
arquiduque e futuro Emperíidor Matthias, e fora educada em
Portugal. Esta, dizem, que repetia hymnos e formava ex-tem-
pore romances e coplas, inspirada pela veia fecunda da pie-
dade. E dizem mais que, poucos momentos antes de expirar,
cantou com voz suave a copla: r
Angeles, si ai cielo ide[s]
por mi esposo perguntade.
e dizedle que su esposa (3)
se le enbia encomendar.
Mas tal inspiração não passa de mera recordação, pois
concorda em absoluto com o Romance ai Esposo Ausente, de
Valdivielso (4), o qual naturalmente continua, remedando o
(i) No Auto (p. 502) não se diz que os ha de cantar.
(2) Na imitação já citada das Senhas do marido o teor diverge também:
que ya me parece tiempo de venirme á libertar
d'esta prision en que vivo muriendo con soledad.
(3) V. Retratos e Elo°ios dos Varões e Donas que illustram a Nação Portu-
guesa, Lisboa, 181 7 (p. 362).
(4) Cancionero Espiritual. Entre os meus apontamentos encontro ainda:
Sospiros que ai cielo ides pot Dios hombre preguntad
(Padilla); e Angeles si ai cielo ides por mi esposo preguntad (Ubeda), sem expli-
cações ulteriores. - Com relação á circunstância de a mesma poesia ser atribuída
a Ubeda e a Valdivielso, notarei, de passagem, que o caso se dá também com a
Serranilla de la zarzuela tão superiormente restaurada por Menéndez Pidal: Yo
nuyva mi madre — a Villa Reale, (Studi Medievali, 1907, p. 197).
ROMANCES VELHOS 109
de Gaiferos, e não tem as falhas linguísticas que assinalo no
texto.
A mera citação ocorre num romance (capricho filosófico
moral), em que D. Francisco Manuel de Mello afirma que
quem procurasse a virtude, não a encontraria na corte hes-
panhola. Alhures a buscade! recomenda em verso, tal qual re-
comendara um velho trovador, que na era de D. Denis pere-
grinava de convento em convento, á busca da verdade.
Perguntad allá en la corte por la virtud, y os diran (1):
si is a Francia, el cavallero, por Gaiferos perguntad!
Resta-me repetir a quadra inicial do Romance de girões
de D. Francisco de Portugal, de que já tirei duas parcelas.
Ediz:
Pues que a Portugal partis pensamiento, perguntad
por aqtcel mudable dueno que amais más, y olvida más ^2).
XXI
Valdovinos , Baldovinos ,Baldoínos (3), do francês Baldouins
(4) Baudouin, é, como jâ indiquei, outro personagem carolín-
gio, de popularidade tal que o seu nome passou a ser apelati-
vo. Repito que valdevinos denomina em Portugal o vagabun-
do ou tunante, geralmente devasso e estróina; talvez por causa
da semelhança que vald... tem com os adjectivos valdio valdei-
ro (de valão, que se perdeu) e vadio (por vaadio de vagativus)
in fluido por outro idêntico de origem arábica (baladio de balad
hiilal (6). Nomen omen.
A grande popularidade d'este par e paladino, no qual se
(i) Cithara de Euterpe, Romance XXII (vol. II, p. 97 das Obras métricas).
(2) Divinos y humanos versos, p. 74.
(3) Luis Milan emprega esta forma arcaica no seu Cortes ano, p. 169.
(4) A respeito de nomes-próprios em -s, vindos de França, como Carlos, Rei-
naldos, Oliveros, frequentes em gestas, novelas, romances, veja-se Anto/o-
giaXll, 391.
(5) Esta etimologia, proposta por Gonçalvez Viana, foi aplaudida por Cornu,
CAROLINA MICHAÉLI8 DE VASCONCELLOS
fundiram dois nobres diversos das Gestas francesas, uni dos
quaes era sobrinho do emperador e irmão de Roldão, provém,
no meu entender, níío dos poucos romances soltos que se can-
tavam a princípio do século xvi, mas antes de um extenso
poema jogralesco, um pouco posterior, muito propagado entre
o vulgo e ainda oje reimpresso, em que o cego da Ilha da
Madeira narra a dramática história de Valdovinos, amigo ou
marido de uma infanta paga, Sibila, bebila, de nome, viuva
de um rei de Alemanha (Saxónia Sansuefia), transformada na
península em infanta moura (1). Falarei d'esse opúsculo no
parágrafo imediato.
Vejamos primeiro ó único d'esses romances que deixou té-
nues rastos literários neste pais. É o que começa
Tan claro hacia la luna como el sol á médio dia (2)
citando sale Valdovinos de los canos de Sevilla (3).
(i) Sevilha em alguns romances castelhanos por confusão como nome geo-
gráfico. Km outros, e no livrinho de cordel, ela conserva o nome de Sebila.
(2) Este princípio de romance provém de um cantar diverso, novelesco: o do
Conde d' Alemanha:
Atan alta va la luna como el sol á mediodía
cuando el buen conde alemàn ya con la reina dormia. (Pr. 1 70).
A lição comum em Portugal
Jà o sol nasce na serra já lá vem o claro dia,
inda o Conde de Alemanha com a rainha dormia,
parece preferível. — A outra encabeça romances diferentes de Tras-os-Montes,coni
mais ou menos propiedade. P. ex. uma Oração do Dia do Juizo (Leite N.° 23),
e a Historia vulgar da freira que, antes de entrar no convento, se despede do seu
jardim, imitando a Flérida de D. Duardos:
Alta vae a lua, alta mais que o sol ao meio dia
Revista Lusitana, VIII, p. 78. O verdadeiro princípio do romance de Valdovinos
conforme se encontra num manuscrito de meados do século xvi é: Por los canos
de Carmona por do va el agua a Sevilha, como terei de repetir sob N.° 109. — Vid.
Bonilla y San Martin, Anales p. 31 e confer Ensayo N.° 3619.
Tan clara hacia la luna como el sol a mediodia.
(3) Não é esse nome, mas sim o de Canos de Carmona, que é costume dar ao
aquedueto que d'essa atalaya de Andaluzia conduz agua a Sevilha. — O texto da
Primavera, incomp'eto e remodelado, não é o primitivo. Esse encontra se no já
citado Manuscrito (F. 18 da Bibl. Nac. de Madrid), explorado pelo douto e agudo
autor dos Anales,
ROMANCES VELHOS
A moura (ou morica garrida), com a qual o Franco vivera
sete anos, e que fora ao seu encontro, ouve-o suspirar, e in-
terpela-o resolutamente:
[58] Sospirastes Valdovinos, amigo que yo más queria (1).
O vos hábeis miedo á moros ó adamades otra amiga (2).
E esse suspiro, tornado proverbial, é lembrado na Ulysipo na
frase: Suspirem embora, como Valdevinos (f. 215). Como o ro-
mance fosse posto em música por Luis Milan (3) e entrasse no
livro que dedicou ao rei de Portugal, é de supor que se can-
tasse com frequência na corte e voasse nas asas do bel-canto
dos paços ás ruas, e da capital ás aldeias (4).
XXII
O livro de cordel, por meio do qual se conservou viva a
memória de Valdevinos, o amador arrependido da moura
paga Sibila, é um Auto, chamado ás vezes de Valdevinos (5),
(i) Considero como original a linda variante la cosa (ou las cousas) que más
queria. É um lugar-comum poético que já era familiar aos trovadores galaico-por-
tugueses na forma a rem do mundo que eu mais queria, a rem do mundo que eu
mais amava, e foi repetido em diversos romances, p. ex. em En Castilla está tcn
castillo (Pr. 179). Nos mais modernos, transformou-se em la prenda que más que-
ria. Vid. Duran, 304, Triste estada el caballero; e nos textos asturianos La Gayarda,
eD. Alda, (AntoloçiaX, 112 e 123).
(2) O verso que ocorre na variante
O teneis miedo ã los moros ó en Francia teneis amiga
também foi muito imitado. Como todavia ha paralelos em outros romances, não
menos antigos, como no de Rosaflorida (O tenedes mal de amores — o estais loca
sandia), não é possível determinar, qual d'eles serviu de padrão.
(3) Vid. Salva, Catálogo N.° 2528.— Como é costume nos antigos Livros de
Musica, apenas se transcrevem fragmentos do texto.
(4) Da sua popularidade em Hespanha ha numerosos testemunhos. Lembro-me
de quatro citações no Cortesano do próprio Milan (p. 143, 169, 176, 247); de uma
na Ficara Justino II 2; e mais outra num conto picaresco do Alivio de Cambiantes
de Timoneda (LXI).
(5) No Folheto de ambas Lisboas de 1 130 ha referências ao Auto de Valdevinos.
112 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
mas em geral do Marquês de Mántua, ou mais pomposa-
mente Tragédia do Marquez de Mántua e do Imperador Cat
loto (sic) Magno, a qual tracta como o Marquez de Mántua.. an-
dando perdido na caçada, achou a Valdevinos, ferido de //">/ te;
e da justiça que por sua morte foi feita a D. Cãrloto, filho do
Imperador (1). O autor, cujo nome é suprimido em algumas
edições, chama va-se Baltasar Diaz; era natural da Ilha da
Madeira e cego, mas de incontestável talento. Durante muito
tempo julgou-se que a sua actividade poética abrangera os
anos 1578 a 1612 (2). Mas essas datas são falsas, .lá antes de
1537 esse jogral do povo havia composto, submetido á aprova-
ção oficial, e publicado várias obras em prosa e verso, que
tanto agradaram que sem licença eram reproduzidas. E por
ser homem pobre e não ter outra indústria pêra viver , por
causa do carecimento de sua vista corporal, senão vender as
ditas obras, fez um requerimento que el rei deferiu, outor-
gando-lhe um alvará de privilégio, a 20 de fevereiro (3).
Como dos seus Autos e das suas Trovas não sobreviveram edi-
ções quinhentistas (4), ignoramos por completo a cronologia d'
essas publicações (5). Sabemos comtudo por um trecho da
Aulegraphia (cujo autor já náo vivia em 1563) que o Auto do
Marquês de Mántua, era representado (e não por títeres),
pois ahi se fala de uma pessoa que
lee pelo Conde Partinuplês, sabe de cor as trovas de Maria
(i) P. ex. na edição de Évora 1686, e nado Porto, 1885.
(2) Baseando-se no que T. Braga dissera em 1897 na floresta de vários Ro-
mances, é que Menéndez y Pelayo introduziu essas datas erróneas na Antologia
XII, 396.
(3) Foi impresso em 1882 na. Historia da Typographia Portuguesa nos sécu-
los xvi e xvii de Deslandes (Vol. II, p. 3). Confer N.° XXXIII.
(4) A concluir do número elevado das edições posteriores, isso é devido á
grande extracção que tiveram e ao tamanho diminuto e papel inferior das folhas
volantes. Ainda tornarei a falar de Baltasar Diaz.
(5) A bibliografia mais completa encontra-se na obra tantas vezes citada de
T. Braga, Eschola de Gil Vicente, p. 132 ss. Mas não é definitiva. Em 1548 Baltasar
escreveu Trovas á Morte de D. João de Castro. Na livraria do Conde de Sabu-
gosa ha uma edição do Auto da Paixão de 1 592. A mais antiga impressão da Tra-
gedia que gubsiste é de 1665. (Eu possuo uma de Évora 1686.)
ROMANCES VELHOS 113
Parda, e entra por fegura no auto do Marquês de Mántua(f. 12).
Não ha pois dúvida possível.
Baltasar Diaz não recorreu a originaes franceses. Inspi-
rou-se nos três extensos romances castelhanos que narram
aquela poética história, sabida de los niiios, no ignorada de los
mozos, celebrada y aun creída de los viejos, y con todo esto no
mas verdadera que los milagros de Malioma (1). Foi portanto
um humilde predecessor de Lope de Vega, e como ele incrus-
tou na sua obra, com pouca ou nenhuma alteração, nume-
rosos versos d 'essas cantilenas jogralescas ( 2) que hacen
llorar los nihos y á las mujeres.
Da extensa trilogia que feiamente começa:
De Mantua salió el marques danes Urgel el leal (Pr. 165)
ha todavia um só verso épico que entrou em circulação e sus-
citou variantes e imitações. É o que se refere ás feridas:
[59] Veinte y dos heridas tengo que cada una es mortal.
No romance centónico de D. Francisco de Portugal figura na
copla 6.a Mas o segundo octónario lá diz la mas pequena
mortal (3).
Como a morte patética de Baldovinos se confundisse na
memória do povo com a do paladino D. Beltrão, as vinte e
(i) Don Quixote II, c. 38.
(2) Parece que são obra de Jerónimo TremiSo (Trevi&o ou Temifio) de Cala-
tayud, e foram compostas no primeiro terço do século xvi. Fernando Colón com-
prou um exemplar a 19 de Novembro de 1524 (Vid. Registium,^.0 4043). Os
princípios e finaes correspondem aos que constam da Primavera N.os 165, 166,
167. Só no último dos três romances faltava a fórmula inicial:
En el nombre de Jesus que todo el mundo ha formado
y de la Virgen su madre que de nino lo ha criado.
A indicação de nuevo aúadido dos Pliegos sueltos de Burgos. 1562 e 1563, relativa
ao romance III, talvez se possa explicar como repetição literal de impressões an-
teriores a 1524.
(3) Variantes das imitações: todas de mortal herida todas el cuerpo le pasan
todas três de homem mortal a qual será mais mortal.
114 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASC0NCELL08
duas feridas do primeiro baralharara-se naturalmente com as
duas ou três do outro, tão descomunaes que
por uma lhe entra o sol, por outra entra o luar,
pela mais pequena (Telas entrava a águia real (1)
com suas asas abertas e sem as ensanguentar (2).
E essas senhas passaram a poetizar diversos outros desgra-
çados, mortos á traição (3), transformadas de lançadas, em
tocadas, punhaladas, facadas. Entre duas e veinte e ires. Mui-
ta vez o poeta vulgar prefere o fatídico número sete. Ha mes-
mo uma infeliz, D. Inês de Castro, que se enfileira neste grupo.
Nas lastimosas queixas do Franco, extendido na floresta,
ha comtudo um verso lírico que não mais se extinguiu. Suspi-
rando com saudades da amada, Valdovinos pregunta:
Donde estás que no te veo que no te pena mi mal?
ou, no teor da variante propagada por Cervantes:
[60] Donde estás que no te veo que no te duele mi mal?
Esta última entrou no romance de D. Francisco (quadra 5.a ).
Suprimo a demonstração de como ambas as lições, e mais
outra que diz
Donde estás que no te veo? qu' es de ti, esperanza mia?
se repetem em diversas composições líricas, algumas das
quaes perduram na tradição oral. Mas não suprimo a pregun-
ta, se não existiriam no Cancioneiro Popular, antes de sur-
girem no romance jogralesco de Tremifio (4)?
(i) Variante: um gavião a voar.
(2) Vid. Revista Lusitana II 81 e 213; VIII 77; Catáloço yudio-Espaiíol,
N.° 124; Archipèlago Açoriano, N.° 91 e 298; Leite de Vasconcellos, N.° 2.
(3) Vid. Antologia X 318 e XII 323 (Duque de Gandía; ib. 239, D. Alonso de
Aguilar).
(4) Vid. C. M. de Vasconcellos em Zeitschrift VII, 419; e Pedro de Andrade
Caminha, p. 32 (Números 254 e'457). Aos exemplos que lá dei, tenho de juntar
uma citação de Quevedo, Musa VI, Romance 46.
ROMANCES VELHOS
XXIII
A infanta Sybilla, Sibila ou Sevilla (donzela de sangre real
ou quási real), ainda figura em outro romance: o de Calai-
nos, o mouro gigantesco que parece tirado de um livro de ca-
valarias. Namorado d'ela, promete-lhe as cabeças de fcres pa-
res de França, vai a Paris desafiá-los; leva o melhor de Val-
dovinos, a quem trata de pagem e francesico, mas é vencido e
morto por Roldão. O romance jogralesco:
[61] Ya cabalga Calainos á la sombra de una oliva (Pr. 193),
um tanto prolixo e cheio de anacronismos, mas interessante,
não era inteiramente desconhecido em Portuga] (1).
Na Ulysipo (f. 253) alude-se ao verso (31.°)
[62] Calainos soy, senora, Calainos el de Arábia
na locução:
Ora vos digo que vós e Calainos de Arábia fizéreis vida estremada.
Vida de façanhas cavalheirescas, penso eu, e talvez também
de servidor destemido.
O gracioso Sancho de uma das comédias de Luis de Ca-
mões, serve-se do principio do cantar, para evitar a frase pe-
destre: já vou; bem se vê, depois de seu amo lhe haver orde-
nado: ora ensilla! (em lugar de vai-te embora!). E Sancho sai,
bolindo com a almofaça, como se estivesse estregando uma
cavalgadura (2). Se cantarolava a melodia fixada por Valde-
rrabano, é pormenor que não se indica (3).
(i) Não se comprende, por que razões foi prohibido no Index Expurgatôrio de
1624 (p. 174 O Romance do Moro Calaynos y de la Infanta Sybilla).
(2) A indicação scénica continua expondo que o príncipe acordou com esse
ruido. Havemos de supor portanto que o palco era bipartido: de um lado o quarto
do príncipe no paço dei rei Seleuco; do outro, o do médico,
(3) Rei Seleuco, Scena IX,
110 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Ao mesmo romance que, após trinta versos em -ia, passa
para a assonáncia -áa, pertence a frase
[63] Por amor de vós, senora, passe yo la mar salada,
embora na redacção dos Cancioneros, em vez de seflora esteja
o nome Sevilla. Com essa, remata uma estrofe da Carta li
de Africarem que o autor se refere á causado sua expatriaçAo:
Crede-me quanto mais falo,
pois vos falo como amigo;
e crede que o que calo
é muito mais que o que digo.
Ando com [a] alma cansada
suspirando cada hora:
por el tu amor, senora (1)
passe yo la mar salada (Estr. 11).
Além d' isso serviu de letra a uma d'essas devisas significati-
vas que os mancebos quinhentistas desenhavam nas suas car-
tas de amor, e que as raparigas do povo ainda hoje bordam
nos lenços com que mimoseiam os conversados. Na Eufrosina,
na scena em que Carióphilo ensina a Zelotypo como é que se
forgicam as taes cartinhas, lemos o seguinte:
Começay por palavras meigas, graves, e de crédito, poucas e certas...
não seria muito mao pôr-lhe copra no cabo, com alguns gatimanhos que
declarem vossa tenção, convém a saber coração asetado, ou nas unhas de
um leão... com húa letra que diga
por amor de vós, senora, passe yo la mar salada (2).
Verdade é que havia versos análogos em outros romances,
(i) Na impressão de Juromenha o vocábulo aparece deturpado (sen ti ora por
senhora).
(2) Como as duas citas concordam, é provável que essa variante existisse. —
O parceiro replica, preguntando: Sangrastes vós jâ bostella? ou feristes dedo, poi
escrever com sangue? (que he caso de grande piedade; e setia o intróito:
Coração de carne crua
vê-lo teu amor aqui!
A frase é princípio de uma trova (paródia), empregada por Luis de Camões nos
Amphitriões (I. 6.) numa conversa que igualmente se passa entre dois mancebos.
ROMANCES VELHOS 117
p. ex. num de Tristan (i) e noutro de Reinaldos de Montal-
ban (2), mas esses discordam mais (3).
XXIV
Montesinos, o desditoso mas galhardo Francês, o da fami-
gerada Cueva, cantado em vários romances jogralescos que
inspiraram a Cervantes um dos melhores episódios da sua
obra-prima (4), surgiu na fantasia do autor seiscentista do
Romance centónico, postado naquela maravilhosa montanha,
do alto da qual o Conde Grimaltos, seu tio e companheiro,
lhe mostrava, com saudade vingativa, a capital da Franca, e
ao mesmo tempo os nossos lindos subúrbios S. João da Foz e
Vilanova de Gaia, exclamando:
[64] Cata Fr anciã, Montesinos, cata Paris la ciudad;
cata las aguas dei Duero do van a dar en la mar. (Pr. 176.)
Na segunda quadra, D. Francisco de Portugal, conti-
nuando a falar ao seu pensamento, diz, não sei com que
fim oculto :
No lamenteis que sois mio porque sin duda os dirá:
Cata Francia, pensamiento, cata Paris la ciudad,
acena que já fora antecipada em L519, no México, por Fer-
não Cortês e um seu companheiro, conforme nos foi contado
outro dia nesta Revista (5).
(i) Que por ver os, mi senora, pasè yo la mar salada.
A este, perdido, se referia Lula Milan no Cmtesano (p. 314), pois dissera pouco
antes (p. 313): o no sois mi Don Tristan que pasó la mar salada'
(2) Por tus amores, senora vine de allende la mar. (Pr. 1 88).
(3) Ainda ha outros paralelos p. ex. no romance de Lanzarote (Pr. 147); 110 do
Palmeiro 1 75; no do Conde A'ilo (Astur. N.° 25).
(4) Don Quixote II, c. 22 e 34.
(5) CuliuraI, p. 73.
118 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLÔS
No terceiro acto, que se ocupa do desafio de Montesinos a
01iveros,por amores de Aliarda,
En las salas de Paris en un Palácio sagrado (Pr. 177) (1),
ha o verso
[65] Los ojos puestos en el cielo juramento iba echando,
que foi empregado na Carta II de Africa como remate de es-
trofa (2).
Cuido no que é já passado
e no que está por passar;
porém nunca o meu cuidado
se muda d'um só lugar.
Quando em mim torno, cuidando
que de mi mesmo me velo,
los ojos puestos nel cielo,
juramento iba echando (Estr. 8).
XXV
Intimamente ligados aos romances de D. Beltrão, Valdevi-
nos, Montesinos e os demais heroes de Roncesvales, estão os de
um personagem de pura fantasia: Durandarte, personificação
curiosa da espada de Roldão, de nome Durendarte Durindarte
de Durendat (3), Durandat (Durandal).
Nos romances (4), ele aparece ferido mortalmente. Mon-
(i) Ensaladilla, Est. 6, Ingr. 26.
(2) Estropeado, bem se vê (Jurando iva hechando).
(3) Na Gran Conquista de Ultramar Cl, cap. 95 e 151), conta-se que a espada
Durendarte foi forjada em Toledo por Galan, o bom forjador CWieland, der
Schmied). Da posse do rei de Zaragoza (Abrahus, Ib. II, cap. 43; Bramante na Cró-
nica General, cap. 597 e 598) passou ás mãos de Carlos Magno (Maims ou Mainete);
quando este defendia Toledo, por instigação de Galiana-Sevilha, filha do rei (Ga-
lafre) d'essa cidade. Nas Gestas francesas é sempre espada de Roldão. Confer Gil
Vicente, II, 416: o precioso terçado — que foi no campo tomado - depois de morto
Roldão.
(4) Ignora-se quem realizou essa personificação, para a qual deram pé fórmu-
las como Durandarte, espada nunca vencida {Primavera, 181). Na Normandia, o
povo chama Durandal Durandat a um homem duro e sem entranhas.
ROMANCES VELHOS 119
tesinos assiste ao seu fim, no alto dos Pirineos, ao pé de uma
verde faia, exactamente como o Marquês de Mantua assistiu
ao último suspiro de Valdevinos. E recebe do seu companhei-
ro de armas o encargo patético de levar o seu coração á sem-
vontura Belerma. Por este acto foi proclamado flor y espejo de
los caballeros enamorados y valientes de su tiempo (1), gloria
que, como se sabe, vale muito em Portugal. Não admira por-
tanto, que também o seu nome se tornasse proverbial, desig-
nando o amante fiel e mártir do amor mais verdadeiro .
António Prestes gostava muito do tipo. No Auto do Procu-
rador, certo Narciso é apellidado treslado de Durandarte,
traduzido ao natural (2). No da Ave-Maria um personagem
alegórico diz a outro: Sereis vós meu Durandarte (3); não
comprendo com que fim. No dos Dois irmãos, ha outra alusão
mais escura: pois entrado Durandarte é por seu bem (4). No
dos Cantarinhos, uma moça é tratada de donzela Durandar-
te (5).
D. Francisco de Portugal comparou-se a si próprio em
certa situação dolorosa, a dois heroes:
por lo monte, Montesinos,
Durandarte por Ic más (6).
*
* *
O cantar em que Belerma se queixa de abandono e é acu-
sada de preferir a Gaiferos
[66] Durandarte, Durandarte, buen caballero probado (Pr. 180) (7)
foi levado ao Oriente por capitães e soldados lusitanos.
(i) Don Quixote, II, cap. 22.
(2) Autos, p. 135.
(3) Ib., p. 48.
(4) Ib., p. 271.
(5) Ib., p. 453.
(6) Prisões e Solturas, p. 25.
(7) Faz parte da Rnsaladilla (Est. 3, Ingr. 11); foi glosado por Soria e outros
(Canc. Kennert, 162; Canc. General, N.° 465); posto em musica (Cano. Musica/,
N-° 343) e citado numerosas vezes, p. ex. no Cortesano (p. 113, 115, 123, 336, 337).
120 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Numa questão violenta que houve em 1558 sobre a capi-
tania de Malaca, entre António Pereira Brandão e Duarte
Deça, o primeiro, julgando-se vexado e vilipendiado pelo úl-
timo, homem sem entranhas que praticava acções indignas
de ânimo cristão, conservando p. ex. preso o rei de Ternate,
sem motivo razoável,
de magoado lhe contrafez aquelle Romance velho de Durandarte em
Dom Duarte [dom Duarte] mal cavalhero (sic) provado (1).
*
* *
No solilóquio do malferido, que antes de expirar perora
Oh Belerma, oh Belerma por mi mal fiaste engendrada (Pr. 181),
ou antes no troço em que Durandarte se dirige a seu primo:
Montesinos, Montesinos mal me aqueja esta lanzada,
ha um verso impressionante na sua singeleza.
[67] Ojos que nos vieron ir nunca nos verán en Francia.
Este entrou na Eufrosina (2), modificado segundo as exigên-
cias do ensejo. Na longa discussão sobre a arte de namorar,
de que já citei mais de um passo, o Senhor Carióphilo, ten-
do exposto os seus estratagemas, ajunta com respeito á dama
cobiçada
não vos ha-de sentir, salvo quando lhe levantardes a bandeira no
muro; porque, se voh entendem d'antemâo, escandalizam-se e levantam-
se, como pássaras de tela (3), donde ojos que las vieron ir, etc. (4).
Antes d'ele, outros dois poetas já haviam utilizado o dita-
do lírico, nacionalizando-o.
De Crisfal, o namorado infeliz de D.a Maria Brandão,
(i ) Década VII, Libro VII, Cap. 3 (p. 368).
(2) Aclo III, Scena II, p. 184.
(3) Tela é uma armadilha de três laços, de prender perdigotos.
(4) Em citações de provérbios, os autores seguiam o costume (desagradável
para todos nós) de indicar apenas as primeiras palavras, exactamente como em
cantigas e romances que serviam de intermezzos musicaes.
ROMANCES VELHOS 121
aquela que de saudosa deixava cair o fuso (1), como ele nos
conta no suavíssimo idílio serranil
Antre Sintra a mui prezada e a serra de Ribatejo (2)
ha, íjo meio das obras miúdas que se publicaram em seu no-
me (3), uma cantiga sobre esse tema. E diz
Quem me vos levou, senhora,
tão longas terras morar?
Olhos que vos virom hír
nunca vos verão tornar. (4)
De Duarte Brito, um dos melhores trovadores do Can-
(i) Na estrofe 41 da mui nomeada e agradável Egloga chamada Crisfal, Chris-
tóvam Falcão, introduz
uma serrana queixosa,
(cercada de umas cordeiras,
sendo cordeira fermosa)
como ali teem por uso
em uma roca fiando;
mas como que ia cuidosa,
cahia-se-lhe o fuso
da mão de quando em quando
Citei o trecho, para juntar a observação que D. Francisco Manuel de Mello o re-
lacionou, por defeito de memória, com outro escritor português. No N.° 234 das
Cartas Familiares diz: cuido que vos chamais D. Simão que fazia cahir o fuso á
outra que cuidava nelle, segundo afirma o Auto de António Prestes, meu amigo. E
juntarei além d'isso que, aplicado ao sexo forte, a mesma ideia tem a forma: dei-
xar cahir (respectivamente fazer cahir) a pena da mãe.
(2) O verso sugere-me a ideia de lembrar ao eminente autor da Serranilla de
la Zarzuela os artigos em que tratei de Yo me iba la mi madre, A Santa Alaria
dei Pino e de Menga la dei Bustar. Vid. Revista Lusitana III, 347-362 e Kritischer
Jahresberiht IV-2-218.
(3) Não podendo tratar aqui das dúvidas que a respeito da atribuição d'essas
obras miudas se tem levantado, remeto o leitor á edição de Epifânio Diaz (Re-
vista Lusitana IV 142 179), e a Kritischer Jahresbericht IV-214-219.
(4) As voltas que seguem (tanto na ed. de T. Braga, Obras de Christóvam Fal-
. 1871, p. 18, como na de Ep. Diaz 1. c. p. 147) talvez não estejam no seu lugar;
e pertençam ao Mote 3b dos Olhos quebrados. Chamo a atenção para um Vilan-
cete de Gil Vicente III 299, que é semelhante, pois diz:
Vanse mis amores, madre,
luengas tierras van morar'.
Quién me los harà tornar:
722 CAROLINA MICHAÈLI8 DE VASCONCELLOS
cioneiro Geral, tambcm existem umas trovas de despedida,
em cujo Fim se repete o mesmo conceito.
E assi será meu mal
d'e8te bem galardoado,
e aqui será acabado
meu tormento desigual.
E aqui donde partir,
partindo com gram pesar,
Olhos que me viram ir
nunca me verão tornar. (1)
No século xvii ainda não cairá em olvido. O autor dos Ra-
tos da Inquisição aplicou-o a um d'esses immundos animalejos,
porque soubera escapulir-se destramente, depois de engulido
inteiro por um gato,
Antes de o gato o sentir,
ojos que lo vieron ir
no lo veran más en Francia. (2) (Cap. IV, estr. 9)
Mesmo hoje continua vivo, pois entrou {por nefas e deturpado)
num romance abreviado de Gaiferos que cantam em Tras-os
Montes (3).
Falemos das G-losas.
Uma castelhana, de Oh Belerma, é atribuída a Bernardim
Ribeiro (4), desde que em 1852 as suas obras (Menina e Moça-
(i) Vol. I, p. 366 (f. 47d).
(2) O verso no le veran mas en Francia repete-se em outro romance de Du-
randarte: Muerto yace Durandarte. (Anales p. 30.)
(3) Começando, como já contei,
Sentado estaba Galfeiro em taboleiro real,
o romance (introduzido talvez modernamente) termina:
Pegãralhe pela mão pusera-a no cavalgar.
Olha (sic) que a vedes ir não -na vereis cá voltar.
(Reinsta Lusitana VIII, p. 74). — Em Hespanha a fórmula também se havia tornado
provervial. Pelo menos é das que Câncer meteu no seu Oi'feo. Vid. Zeitschrift
XXIII, 69.
(4) P. ex. pelo historiador da literatura nacional, desde que publicou a Floresta
(p, XXXVI) até á nova edição do seu estudo sobre Bernardim Ribeiro e o Buco-
lismo (1897, p. 90). Mas também por Garcia Pérez, no Catalogo Razonado, p. 493.
ROMANCES VELHOS 123
Eglogas — Poesias avulsas) foram reeditadas por Mendes Leal
e F. J. Pinheiro (1). Estes, juntaram aos textos conhecidos,
portugueses, três composições castelhanas, pelo motivo de
elas andarem num mesmo Pliego Suelto gótico, juntamente
com a linda Egloga III de Silvestre e Amador (2).
Esta razão exterior é insuficiente. Já demonstrei (3) que
uma d'elas, a glosa de Justa fue mi perdicion, é de Boscan (4);
outra é um soneto de Garcilaso (para o qual ha música de Pi-
sador) (5), o que torna quasi certa a suposição de a terceira
ser também obra alheia. — As doze insulsas décimas de que
consta (6), não dáo direito portanto ao portuguesíssimo Ber-
nardim Ribeiro a um lugar no Catalogo Razonado de Autores
Portugueses que escribieron en castellano (7). O suave autor de
Ao longo de uma ribeira, Pola ribeira de um rio e Pensando-
vos estou, filha, nunca se serviu de outro idioma que não fosse
o pátrio; nem mesmo quando alegava versos castelhanos, pois
tinha o cuidado de os traduzir, como se verá sob N.° 71.
(i) Bibliotheca Portugueza, Lisboa, 1852, p. 315 e 356.
(2) Num, ou por ventura em diversos. O que conheço (Lisboa, Bibl. Nacional,
Reservados, 126), não tem data. O que os reeditores das Obras utilizaram, tinha,
dizem, a data 1536. O titulo é idêntico em ambos: Trovas de dous pastores s. Sil-
vestre e Amador: Peitas por Bernaldim Ribeiro. Novamente emprimidas, com outros
dois romances com suas grosas que dizem <fO Be/erma» e «Justa fue mi perdicion»
e «Passando el mar Leandro».
(3) Vid. Círculo Camoniano I, p. 29.
(4) Claro está que o tema (uma quintilha) não merece o título de romance,
nem tão pouco a Glosa (cinco décimas).
(5) Vid. Kritischer Jahresbericht I, p. 589.
(6) A glosa principia Citando está con la razón. E diversa portanto das de
Bartolomé de Santiago (Con mi mal no soy pagado; vid. Duran Catálogo N.° 89),
Marquina {En los tiempos que en la Frauda,' vid. Ensayo, N.° 3874); Alberto Gó-
niez {Oyendo como salieron, Salva N.° 60 e 84), e também da anónima em dispara-
tes (El Conde Partinuplês, vid. Ensayo N.° 757). De contrahechuras, como a de
Bernardino de Ayala. O Borgona, o Borgona, não me ocupo agora..
(7) Garcia Pérez incorporou-o no seu Catálogo, p. 493.
724 CAROLINA MICHAÈLI8 DE VASC0NCELL08
Outra glosa, também castelhana, mas essa do romance Du-
randarte Durandarte, talvez seja realmente obra de um poeta
português. Faz parte do Cancionero publicado por Hugo
Rennert, onde é atribuído a um autor designado pela alcunha
de El grande Africano. Principia El pensamiento penado e
consta de seis décimas, relativas ás queixas de Belerraa, e
mais duas com a resposta lacónica de Durandarte (1).
Já em outra parte expliquei a quem competia, na minha;
opinião, esse honroso titulo: o afamado D. João de Meneses,
cujos feitos militares, praticados de 1490 a 1514 em Aljezur,
Arzila, Alcacer-Quebir, Azamor, foram enaltecidos pelos
cronistas de D. João II e D. Manuel (2), e cujos ditos foram
acolhidos em Memórias e Miscelâneas manuscritas (3). As
suas poesias andam no Cancioneiro Geral de Garcia de Re-
sende, mas também em outros castelhanos, impressos (4) e iné-
ditos (5), serviram de motes e de centões a diversos quinhen-
tistas, e foram gabados entusiasticamente por Sá de Miran-
da, Ferreira de Vasconcellos, João de Barros e Bernardim
Ribeiro (6).
O tema, habilmente abreviado, como era praxe em pará-
frases, oferece algumas variantes.
«Durandarte, Durandarte, buen caballero esforçado,
yo te ruego que hablemos en aquel tiempo pasado
quando yo era tu amiga y tú, senor, mi enamorado,
quando en galas y ynbençiones publicabas tu cuidado,
quando veaçiste los moros en campo por mi agrado.
Di, traidor, desconoçido cipor qué causa me as negado?»
«Palabras son lisonjeras sefiora, de vuestro grado ,
porque amastes á Gayferos mientra yo fue desterrado».
(i) N.° 162 Glosa de romance («Durandarte»); N.° 103 Respuesta dei: La causa
que vos tubistes .
(2) Falei d' ele nas Poesias de Sá de Miranda (p. 812 s. p. 883) e no Litera-
turblatt 1897, N.° 4 p. 4 e 9, mas só de passagem. Nas conclusões finaes direi
mais alguma cousa.
(3) Confer N.°s 98, 99, 100.
(4) No Cancionero General.
(5) P. ex. Paris, MS. 600.
(6) Na Écloga IV, onde aparece com o sobrenome (AfricanoJ,
ROMANCES VELHOS 125
XXVI
Os romances do Conde Claros de Montalban e dos seus
amores com a infanta Claraniíia, filha do Emperador, talvez
sejam, entre os que dizem respeito a personagens cárolíngios,
os mais sabidos e cantados em Portugal. Não sei, se em vir-
tude do assunto, naturalmente simpático a essa nação de apai-
xonados (1), ou porque as toadas eram superiores ás dos outros
romances. No reinado de D. Manuel e D. João III, as diver-
sas composições musicaes, de Encina (2), Salinas (3), Pisador
(4), eram o encanto das salas, onde as tangiam na viola, na
harpa ou no cravo. Relevemos em Jorge Ferreira de Vascon-
cellos as fórmulas tanger tudo sobre Conde Claros (5); harpar
um Conde Claros, que elles logo dizem que não ha tal música
(6); numa Carta do Chiado, tão metafórica que nenhum co-
mentador será hoje capaz de a elucidar por completo, a locu-
ção um só Conde Claros, para significar uma única melodia,
uma única amarra (7). No Auto de D. André, atribuído a Gil
Vicente de Almeida, neto do fundador do teatro português,
temos un Ratinho, vestido como pagem de arte, que toca o
Conde Claros na guitarra (8).
(i) Dechado de grada viva y espontânea, de lijereza y alborozo juvenil, de ga-
lanteria algo pecaminosa, pêro redimida por cierto género de nativo candor que
puede desarmar á los mas severos jueces, eis os termos com que o autor do Tra-
tado qualifica os romances do Conde Claros. Eu estou longe de levantar objecções
Mas não valerá a pena notar o facto de Cervantes, que cita com entusiasmo o
Marquês de Mantua, Valdevinos, Montesinos e Durandarte, Gaiferos e mesmo o
Conde Dirlos, não haver gastado uma palavra com o Conde Claros? Evidentemente
porque não praticou feitos cavalheirescos.
(2) Canc. Musical, N.° 329.
(3) Amador de los Rios, VII 458, Etisayo 4565.
(4) Só d'esse compositor ha 37 variações.
(5) Eufrosina III, 2 (p. 189).
(6) Ib. I, 1 (p. 19). Cfr. Aulegraphia f '*■$.
(7) Vid. Edição Pimentel, Lisboa 1889, p. 236: alguém cuidará que com um só
Conde Claros hão de espantar os francezes da costa.
(8) Vid. Eschola de Gil Vicente, p. 229.
120 CAROLINA M1CHAÊLIS DE VASC0NCELL08
Passando ás ruas é que o Conde Claros passara ás guita-
rras, como o documentam também com relação á Hespanha
certos versos muito conhecidos:
Sepan que los Condes Claros que de amor no repóêaban,
de los amantes dei uso se han pasado á las guitarras (l).
Finalmente, segundo outro testemunho de Quevedo, desceu
ainda mais :
El Conde Claros que fué título de las guitar -as
se quedo en las barberias con rhaconas de la gala
As versões do texto também ciam numerosas. Ainda hoje
ha neste pais tantas como talvez de nenhum outro romance
(exceptuando a enfadonha SUvaninha) (3), reduções em ge-
ral muito simplificadas, mas com nomes melhor ou pior con-
servados (4).
Do primeiro romance que «junta ao alinho de uma com-
posição artística o impetuoso arranque da canção popular»:
Medianoche era por filo (5) los gallos querian cantar (Pr. 190.)
desligou-se um só verso; e este, mais curioso do que belo, tem
para o meu gosto urn ligeiro resaibo humorístico:
[68] Salto diera de la cama que parece un gavilán (6)
(i) Quevedo, Musa VII, Romance (5) burlesco.
(2) Musa VI, Romance 82.
(3) No Romanceiro Geral de T. Braga ha 25 versões, se abatermos o frag-
mento o que di% o roixinol, que não está no seu lugar.
(4) Quanto a glosas também houve bastantes, geralmente só de uma das sce-
nas diversas de que os romances constam. Os preferidos eram:
Conde Claros con amores no podia reposar...
Pesame de vos el Conde porque así os quieren matar...
Máss envidia he de vos Conde que mancilla ni pesar...
Vid. Soria, López de Sosa, Francisco de León, António Pansac.
(5) Este primeiro hemistíquio repetiu-se innúmeras vezes em prosa e em ver-
so, tanto em textos onde a intercalação de versos alados é verosímil, como em
outros onde é improvável. Baste remeter o leitor ao D. Quixote II, cap. 9.
(6) O gavião, ave nobre do sbort medieval, é mencionado a miude tanto no ro-
manceiro como no cancioneiro. Pelas figuras retóricas que sobre ele se formaram,
póde-se dizer que é entre as aves de rapina o que o galgo é entre as diversas ra-
ças caninas: esbelto, elegante, e rápido nos seus movimentos. Vid. correr como un
çavilan — subtendo que parece un çavilan.
ROMANCES VELHOS 127
Camões sabia-o de cór, e serviu-se cTele no Auto dei rey Seleu-
co, escrito antes de 1553 para uma festa de família. Na scena
cómica (ix), cujo final já conhecemos, o médico, resolvido a
visitar o príncipe, acorda o criado. Este, picado de gracio-
so, sae (pausadamente? ou presto, presto? de um só pulo?) do
quarto, embrulhado no lençol, ou na manta.
Physico. Dí, como vienes asl
con Ia manta? y para què?
Sancho. Yo, sefior, se lo diré;
por venir presto, vesti
lo que más presto hallé.
Porque viendo que 61 me llama,
dormiendo yo siu afan,
salte presto de la cama (1)
que parezco un gavilan,
hermoso como una dama.
D. Francisco de Portugal também insertou no Romance
centónico o segundo octonário, alterado na forma, e talvez
também quanto â ideia.
Satisfecho de desdichas catorce anos h% que amais',
muerte que tanto acredita vida se puede llamar.
De mu ger prendada y noble gquien no havia de confiar?
Bolóos, mintió y dexóos qual si fuera gavilan (Estr. 8.)
Ambos foram por ele aplicados, nâo seibem se a um amante
que dando vueltas á los sentidos y a las sabanas, devia de pa-
rècelle el blando lecho campo de batallas, ou a um capelão que
o desvelado acordara repentinamente (2).
(i) Não deixa de ser curiosa, ou mesmo típica a evolução da frase. O salto
ligeiro do leito abaixo transforma-se em pulos dados na cama: e dava pulos na
cama nem gavião a pular (Madeira, 94). Depois o gavião, já pouco familiar ao
povo, transforma-se em galtão, com troca completa de sentido, más pouca no som:
salta pinotes na cama que nem galâeo real (ib. 89) sempre a dar voltas e voltas —
que nem galeão real (ib.). Por associação de ideias, o galeão veio a s^r substi-
tuído por nadadores diversos: dando saltinhos na cama como baleia no mar (Hra-
sil 19), dá tantas voltas na cama — como o peixe na acua fria (Galiza), vueltas daba
en la su cama — como un pez vivo en la maré. (Catálogo Judio- Espanol, N.° 28.)
(2) Prisões e Solturas p. 49.
128 CAROLINA MICHAÈLIS DE VA8C0NCELL08
O verso imediato, tratado frequentemente como verdadei-
ro princípio (1):
[69] Conde Claros con amores no podia reposar
lá está no romance, ainda agora alegado, arbitrariamente
mudado em:
Conde Claros de firmezas como podeis reposar? (Estr. 12),
Também enfeita um passo do Auto de Desembargador. Em casa
d'esse Justiça entram duas figuras alegóricas, Formosura e
Dinheiro, cada uma com o propósito de interceder a favor de
um dos pleiteantes cujo feito ia decidir-se. O porteiro refle-
xiona então:
por terceiros vem os senhores;
também nossa casa está
terceira; a feito vae já
Conde Claros con amores (2)
Se o juiz é tratado de Conde Claros, devemos entender que
ia com preconceitos e parcialidade ao feito. Mas outras inter-
pretações sâo possíveis.
*
* *
[70] Más envidia he de vós, Conde, que mancilla ni pesar (v. 134.)
figura na Ca rta I d' Africa, como circunlóquio pitoresco da
ideia: tenho-vos enveja.
Gabais esta vida cá
e desgabais-me Lisboa!
Eu dera esta vida boa
a troco d' ess' outra má!
Quem de estas lá se queixar,
meu desejo lhe responde
más [envidia] he de vos, Conde (3)
que manzilla ni pesar (4). (Estr. 23.)
(i) P. ex. na Ensaladilla, Estr. 7 Ins>r. 40.
(2) P. 206.
(3) Tão deturpado está no texto de Juromenha e Braga {Mas he de nos Conde)
que Wilhelm Storck não o reconheceu, apesar do segundo octonário. Vid. Zeit-
schrift VII, 416.
(4) No Cortesano ha um remedo que principia: Mas pesar he de vos, Conde, —
pues no sois de envidiar (p. i8j>.
ROMANCES VELHOS 129
Creio que ha neste verso ura provérbio antigo, mas desconhe-
ço lições em que entram os vocábulos envidia e mancilla (1),
* *
Outro adágio, d'esta vez de origem bíblica, muito citado
pelo bom sengo antigo, que o interpretou ao seu modo (2),
estava por certo na mente do autor do romance, quando fez
sair da boca do arcebispo (Turpim) os versos:
Pesatne de vos, el Conde porque así os quieren matar,
porque el yerro que hezistes non fué mucho de culpar,
[71] que los yerros por amores dignos son de perdonar.
Cada vez que este ditado surje, no ritmo dos romances, em
autores que costumam citar textos velhos, de mais a mais fa-
zendo-o em castelhano, entremetido num texto português, é
de supor que se lembravam do Romance do Conde Claros (3).
A conjectura é certa, com relação a D. Francisco de Por-
tugal, com quanto também d'esta feita o conceituoso cortesão
transforme intencionalmente o sentido o altere o teor, afir-
mando que
yerros son solo en amores indignou de perdonar. (Opl. 10.)
(i) Quanto ao sentido, compare- se p. ex Mais vai ser invejado t/ue compade-
cido ou lastimado. — Mais V ile mal de inveja que bem de piedade. — E note-se que o
autor do romance (mesmo na opiniào de Pelayo, talvez um trovador da corte de
D. Juan II, e nenhum indouto juglar) era bastante sentencioso, e gostava de en-
doutrinar os ouvintes.
(2) Confer Revista Lusitana, II 198.
(3) O provérbio passou, na sua forma métrica, ao romance de FloHseo (Uuran
287) à Segunda Celestina (p. 333), á Comedia Selvàgia (p. 294), á de Lisandro
(p. 185), e também a diversas comedias de capa y espada. Ocorre no Orfeo de
Câncer (Zeitsc/iri/t XXIII) 69 e seguramente n o ha de faltar no Vocabulário de
refranes y frases prorerbiales de Gonza'o Correas.
Segundo T. Braga, Eschola de Gil Vicente, p. 236, o verso-duplo encontra-se tam-
bém, em português, no Auto do Phisico, de Jerónymo Ribeiro Soaria:
que os erros por amores
são dignos de perdoar.
130 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Certa é também com respeito a Jorge Ferreira de Vas-
concellos; pois é um personagem português que cantarola na
Ulysipo (f . 99 v.)
y los erros por amor dignos son de perdonare.
O mesmo vale de António Prestes que lhe dá forma nacio-
nal, e d'uma vez o reparte entre dois personagens. No Auto
do Procurador, um amador confessa erros seus, mas trata logo
de os desculpar:
dirão que erros por amores
são dmos de perdoar (p. 168.)
No mesmo Auto um pagem, mal-criado, entra sem cere-
mónia onde não fora chamado; leva uma ensinadela, e replica:
Não se perdoam erros mores?
A que o procurador responde, e bem:
—Senhor, fi-lo por amores, (p. 128.)
No Auto de Rodrigo é Mendo de Jorge Pinto, também não
falta a eterna desculpa. Mas no sentido, virado ao envés, de
D. Francisco de Portugal:
Já se sabe: erros de amor
sam duros de perdoar,
a não ser que se trate de um símplez erro de imprensa (1).
Agora os casos em que a referência ao romance é vaga.
No Prólogo dei rei Seleuco, o Moço emprega termos incon-
venientes. Reprendido pelo Mordomo diz, rindo-se se como o
pagem no Auto de Prestes:
— Senhor, não faz ao caso, que os erros por amores, tem privilegio.
Mas não diz privilégio de cidadão do Porto, como naCarta II
em prosa (2). Cheio de ironia, diz privilégio de moedeiro, pen-
sando, salvo erro, nos moedeiros falsos que eram condenados
a baraço e pregão (3).
(i) Vid. T. Braga, Eschola de Gil Vicente p. 236. — Não posso recorrer á
edição única de 1587, a qual, de resto, também é pouco correcta.
(2) Sob. No 13 Afuera, afuera Rodrigo, tive de transcrever o passo.
(3) Na Carta I em prosa ha o trecho seguinte: Despois que d'essa terra parti,
como quem o faria para o outro mundo, mandei enforcar a quantas esperanças dera
de comer até então, com pregão publico por falsificadores de moeda.
ROMANCES VELHOS 737
Numas Trovas redigidas em 1498, João Rodríguez de Sá e
Meneses, o Velho, pedindo perdão de erros seus a certa for-
mosa, concluía:
Agora, depois (Tachar
em meus erros o que neles
nom podes dissimular,
nisto m'avês de salvar:
em serem próprios aqueles
que sam pêra perdonar (sie) (1).
Bernardim Ribeiro, que não costumava lavrar com gado
alheio, contentando-se com o trop-plein da sua alma de poeta,
ainda assim diz numa das suas Eglogas:
Se não te pude falar,
sê certo que minhas dores
me não deram este vagar.
Deves-me de perdoar,
pois que foi erro de amores (2).
E na Segunda parte da Menina e Moça — cuja autenticidade
não é incontestável, mas cujo texto em todo o caso é anterior a
1557, o mesmo pensamento tem a forma singela de provérbio
em prosa: Erros de amor são dinos de perdoar. (3).
Quanto á Hespanha, onde ha igualmente citações e refe-
rências numerosas, restrinjo-me a uma nótula.
Barahona de Soto, tão magistralmente comentado por
(1) Cancioneiro Geral, vol II, p. 423-4 (f. 123 d): Trovas que mandou Joam
Krois de Saa a senora dona Joana Manuel, em rreposta doestes motos que lhe man-
daram a tila huns senores de Castella que nos motos zxlo nomeados. São o Condes-
tabre, o Duque de Segorbe, o Conde de Haro, D. António de Velasco, o Conde
d'Onate, e D. Luis l.adron. E entre os Motes ha o tantas vezes citado:
Pues non se //alia en Castilla
el remédio de mi mal,
venga ya de Portugal!
(2) Eçloga V: Agrestes (Jorge de Montemor) fala a Florisendo (Feliciano da
Silva; ou Reinoso).
(3) Capítulo XXII.
132 CAROLINA MICHAÉLI8 DE VASC0NCELL08
F. Rodríguez Marín, alude no seu Acteon (Estr. 11) (1;, nas
preces a Diana, a um refram que náo enuncia por inteiro, e
que seu admirador não quis adcvinhar. A meu vér, é o dos
Yerros por amores. O leitor que julgue:
Aunque dicen, y es verdad,
que de vos son remitidos
con raeno3 difleultad
los pecados cometidos
contra vuestra castidad,
yo, que menos mal pense,
más parece que peque;
aunque si no me estorbaras,
yo sé que me perdonaras
silhay en los refranes fe .
F. Romances do ciclo bretónlco e de livros de Cavalarias.
XXVII
f
Como a matéria de Bretanha não se vulgarizasse muito em
Hespanha, estando escassamente representada no Roman-
ceiro, quàsi não deixou vestígios em Portugal na poesia po-
pular, apesar de a predilecção, com que os heroes da Távola
Redonda foram acolhidos, quando a era dos trovadores ia
findar, se haver manifestado posteriormente de várias ma-
neiras.
Temas soltos, quer de lais, quer de narrações novelescas
entraram todavia em tradições históricas como a de Inês de
Castro, e em alguns romances do Conde Nilo.
Quanto a citações conheço uma só do muito poético roman-
ce de Lançarote, tão habilmente divulgado por Cervantes (2).
(i) Luis Francisco Rodríguez Marín, Luis Barahona de Soto (Madrid, 1903),
p. 667.
Na Sátira — Contra algunas necedades, o poeta diz Cuan propio es...
ai caballero y aun ai estudiante
componer y taner un Conde Claros (p. 72S)*
(2) Don Quixote I. cap. 13.
ROMANCES VELHOS 133
É no Auto de Rodrigo e Mendo (f. 55) que se menciona o verso
[72] Nunca fuera cahallero de damas tan bien servido. (Pr. 148) (1).
Também estava presente na memória do autor da Segunda
Tavola Redonda, quando compôs o primeiro dos sete roman-
ces que intercalou na sua prosa sustancial, relativo á morte
de Artur e á traição de Morderet. Enumerando, em alocuções
seguidas, heroes bretónicos falecidos, diz:
Tu Lançarote do Lago— que as glorias d'amor ouveste,
de damas servido, amado— da dona a quem mais quiseste (2).
XXVIII
Ha um único romance conhecido em Portugal que seja deri-
vação de um livro de cavalarias: o de D. Duardos e Fléri-
da, — delicioso poema de inspiração quasi popular (3), com-
quanto conheçamos o autor, a data aproximada da criação,
e a fonte directa— circumstâncias que, ligadas á de ser obra
de um Português, lhe dão importância capital.
Para contentar o espírito delicado do juvenil D. João III, é
que o Plauto lusitano tentou uma grande novidade entre 1522
e 1525, isto é: depois da aclamação do monarca (4), mas an-
tes de sua protectora principal, D. Leonor, a nobre viuva de
D. João II, haver falecido (5).
Deixando por algum tempo as figuras baixas da vida real
que apresentara nas suas farsas, comédias e moralidades
começou a escrever com retórica mais altiloqíiente e mais
doce estilo, Tragicomedias em que preponderassem em-
(i) Cap. III., p. 12 da ed. de 1867. — No Cortesano p. 1 1 5 ha a variante: mas
bien querido.
(2) Vid. Eschola de Gil Vicente p. 233. A lição do romance, comunicada por
Bonilla nos Anates, p. 29, tem variantes notáveis.
(3) Com vivo prazer chamo a atenção para os louvores sentidos que um crí-
tico tão abalisado como Menéndez y Pelayo lhe tributou nos Tomos VII (p. 201).
e XII (171) da Antologia, assim como nas Origenes de la Novela p. 266.
(4) A 19 de Dez. de 1521.
(5) A 17 de Nov. de 1525.
CAROLINA MICHAÉLI8 DE VASC0NCELL08
peradores, reis, infantes (1). E escolheu para estreia (2) um
tema cavalheiresco: os amores de D. Duardos, o mais intere-
ssante dos três heroes, cujos feitos, narrados na então mais
moderna novela de aventuras, o Libro segundo de Palmerin,
encantavam o publico hespanhol desde 1512 (3).
Em substituição das chacotas, dos bailados e das folias po-
pulares, com que até então havia rematado as suas represen-
tações, inventou d'esta vez um romance que, cantado em coro,
por despedida, enunciava a ideia dominante da fatalidade do
amor:
ou
que contra la muerte y amor
nadie no tiene valia.
ai Amor y d la Fortuna
no hay defension ninguna (4),
(i) É o que consta do Prólogo, ou seja Carta Dedicatória, a D. João III, que
acompanhara a edição príncipe do Auto. E começa: Como quiera, excelente príncipe
y rey mui poderoso que las comédias, farças y moralidades que he compuesto en ser-
vido de la reina vuestra tia, cuanto en caso de amores, fueran figuras baxas, en las
quales no havia conveniente rethorica que pudiesse satisfazer ai delicado espirito de
V, A., conoci que me complia meter mais velas à mi pobre fusta. — Claro está que
depois de Nov. de 1525 era indispensável acrecentar a tia, a fórmula consagrada
que Deus tem - - que santa gloria haja — cuja alma Deus haja, ou outra seme-
lhante.
(2) Do Prólogo em si, do seu teor, e da primazia dada na Compilação ao Don
Duardos, parece resultar que ela foi cronologicamente a primeira das dez Tragico-
medias que constituem o Libio III das Obras. Com estes factos não condizem
todavia as datas das Cortes de yúpiter, que são de 1519, e da Exhortação agueira,
que é de 15 13. Como conciliar essas contradições? Com o expediente que aqueles
dois Autos receberiam postfestutn o título de Tragicomedias, quando o Poeta orde-
nava e rubricava as suas geniaes criações, ás vezes bem difíceis de classificar, e
nem sempre bem classificadas e ordenadas.
(3) As edições primeiras do Primaléon, de Francisco Vázquez de Ciudadro-
drigo, ou de sua mãe, são de 151 2, 1516, 1524. Pode ser que um ou outro exem-
plar da edição-príncipe passasse a Portugal, entrando na livraria de D. Manuel e
na de literatos de alta categoria. As provas da sua popularidade começam todavia
com o Auto de D. Duardos. No Cancioneiro de Resende (concluído em 15 16) ha
alusões ao Amadis e Esplandian, mas nenhuma aos Palmerines.
(4) Vol. II, p. 248— Confer Duran, 1882: Al Amor y à la Fortuna no hay de-
fensa ninguna.
ROMANCES VELHOS 135
ideia que posteriormente o havia de tornar suspeito ao faná-
tico Cardeal-Infante e seus delatores.
Desligado, o romance propagou-se todavia rapidamente
em folhas volantes (1) e nas asas do bel-canto, tendo em 1550
a honra de ser acolhido no Cancionero de romances. Em am-
bos os paises agradou mesmo a ponto tal que, ao cabo de três
séculos e meio, ainda se conserva na tradição oral, abreviado,
mas não alterado na essência.
Além da versão portuguesa, publicada por Almeida-Ga-
rrett, que afirma havê-la encontrado nos manuscritos do Ca-
valheiro de Oliveira (2), conhecia-se uma da Ilha de S. Jor-
ge (3). Agora juntou-se lhe, felizmente, outra castelhana, can-
tada pelos Judeus de Tânger (4) .
Da popularidade que no longo intervalo gozou, dão prova
uma glosa, e numerosas referências, não só de quinhen-
tistas, mas também de seiscentistas e de Académicos Singula-
res do século xviii .
Foi um Português, estudante de Salamanca, chamado An-
tónio López, que publicou num Pliego suelto s. 1. n. a., o Ko-
(i) Vid. Duran , Catálogo. No 137 e 144; Gallardo , Ensayo. N.° 2709
e 1121.
(2) Quer seja de Garrett, quer do Cavalheiro de Cristo Francisco Xavier de
Oliveira (1702- 1738), o texto português é tradução primorosa do castelhano, tal
qual foi incorporado em 1562 nas Obras de Gil Vicente, sem alteração de peso.
Basta esta circunstância para provar que não passou pela boca do vulgo. Pelo me-
nos, o caso seria único. Também de 1850 para cá nenhum folklorista a encontrou
no continente, em redacção portuguesa abreviada, comquanto se deva aceitar
como seguro que antes de passar aos Açores e a Tânger andou na península
na tradição oral, simplificando-se pouco a pouco, e nacionalizando- se neste
pais.
(3) Ar eh. Açoriano, N.'° 56 (e 57), onde figuram como Romances Históricos;
e p. 442-45 do Romanceiro Geral, onde se acham no ciclo carolíngio, juntamente
com outras redacções vulgares da Filha do Emperador de Roma; Hortelão das
Flores,' Duque de Lombardia, Cei/ão, Amores de D. Lisarda (p. 424-441) que são
versificações iie contos, de assunto parecido, enfeitados com o motivo da despe-
dida— mas não se podem chamar variantes da obra inspirada de Gil Vicente. —
D. Maria Goyri rubrica-os com o titulo: Princesa enamorada de un Secador
(No 42).
(4) Catálogo Judio-Espafíol, No 105.
136 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASC0NCELL08
mance sacado de la «Farsa de Don Duardos», nuevamente glo-
sado, y un testamento de amores. A glosa principia
En el tiempo que el amor(í).
Os octonários iniciaes
[73] En el mes era de abril, de maio antes un dia (2).
aparecem no Auto de Rodrigo e Mendo (f. 49. v.) com uma le-
ve variante, bem-vinda, porque confirma a propagação oral
e a interpretação que sempre dei a essa fórmula (3).
E diz:
pois, cantar lhe-ão a las mil:
En el mes era de abril,
de maio antes da festa.
A continuação (indirecta nos textos literários, imediata só
nas abreviações populares):
[74] Quando la hermosa infanta Flerida ya se partia
figura no episódio do saio empenhado, de António Prestes,
(i) Vid. Duran, Catálogo N.° 144 e Garcia Pêrez, Catálogo Razonado, p. 328
e 638.
(2) Gil Vicente, Obras II 249; Duran, N.° 288; Antologia 1. c— F. Wolf não
o incluiu na Primavera por ser de autor conhecido.
(3) E singular que a inversão poética da preposição antes não fosse familiar
a um traductor tão abalizado como Storck, tanto mais que o seu predecessor
Bellermann já havia dito, sem arte e engenho, mas literalmente bem:
In dem Monat des April vor des Maien erstem Taçe.
Como se conhece das palavras
War im schõnem Mond April Nein i/n Mai an einem Tage,
Storck (Aus Portugal und Brasilien, Paderborn 1892. No 5) julgou que antes
era advérbio e significava pelo contrario, para melhor dizer. Não se lembrava das
lindas e antiquíssimas festas tradicionaes da véspera do primeiro dia de Maio (San-
tiago, o Verde), que persistem em tantos cantos e recantos do mundo europeu
(especialmente na Galiza). Curioso é que os Judeus de Tanger também não per-
cebessem o sentido da frase, pois a deturpam, dizendo:
Entrar quiere el mes de mayo y el de abril antes de un dia (!)
Confer: Salir quiere el mes de marzo entrar quiere el de abril
(ib. N.° 152) e Entra mayo y sale abril (Cancionei o Espiritual de Valdivielsot
p. 227).
ROMANCES VELHOS 137
onde o hemistíquio impar é completado parodisticamente
pela oração mi ama ya lo despia (sic; como sempre em boca
de poetas cómicos, cora um pé á castelhana e outro á portu-
guesa) (1).
A' despedida de Flérida pertence o verso:
[75] Voyme d las tierras estranis adó ventura me guia (2)
cantarolado por Brómia nos Amphitriões (Acto I, Scena III)
em resposta á Feliseo, que preguntára: Porém, is-vos to-
davia? (3).
O ditado final do romance que tem ares de adágio po-
pular (4):
[76] Que contra la muerte y amor nadie no tiene valia,
reaparece, mudado, no Auto de D. André, de Gil Vicente de
Almeida. O neto do fundador do teatro nacional diz:
porém sempre ouvi dizer
que contra fortuna e amor nam ha força nem poder.
Não só a horta de Flérida se tornou proverbial, mas tam-
bém o haver-se o namorado príncipe disfarçado em jor-
naleiro. Vejo-o citado no Auto de Desembargador (5), na
Arte de Galanteria, de D. Francisco de Portugal (p. 67) (6) e
(1) Auto dos Cantarinhos, p. 440.
(2) Esta lição encontra-se no Cancionero de Romances de 1550. Mas como a
comédia de Camões seja (provavelmente) anterior a esta data, é de supor que o
poeta utilizasse impressões avulsas, do Auto inteiro ou só do romance, ou sim-
plezmente a tradição palaciana.
(3) O motivo da despedida entrou em romances vulgares. Além dos já citados
vejam Revista Lusitana VIII, N." 20; e Leite de Vasconcellos, No IO.
(4) Conheço alguns que expressam ideias iguaes, como Contra a morte não ha
remédio.— O amor não tem lei. — O que tem de j.v, tem muita força — , mas não me
recordo de nenhum que lhe corresponda formalmente.
(5) P. 485. Aqui não me pranteis horta— com D. Duardos e IHérida -porque
isso não me conforta.
(6) Comquanto D. Francisco fosse muito amigo de citações de conceitos
alheios, diz ahi mal d'elas, exceptuando todavia o Auto de D. Duardos, do qual
transcreve quatro trechos diversos^
138
CAROLINA MICHAÉLIS DE VASC0NCELL08
ainda no Folheto de Ambas Lisboas de 1739 (N.° 14), numa pa-
ródia das sessões usuaes da Academia (1).
Quanto á discussão sobre os méritos de D. Duardos e I*ri-
maleão como finos namorados, intercalada por Jorge Ferreira
no seu Sagramor (2), lá pelas voltas de l.V>0, ela baseia-se no
livro de cavalarias, e não na tragi comédia derivada de GUI
Vicente, comquanto naturalmente nâo lhe fosse desconhecida.
A essa se refere, declaradamente, o autor desconhecido do
Auto popular de Guiomar do Porto. Uma velha Celestina tece
louvores interessados a vários livros de amor, de autores cas-
telhanos. Entre eles dois Portugueses, Gil Vicente e Bernar-
dim Ribeiro. Eis o trecho curioso:
Alcoviteira. Não sois devota de ler
cantigas? cartas de amores?
livros de bons amadores?
Guiomar. Alguns tenho em meu poder
de mui famosos autores.
Alcoviteira. Muito gosto eu, senhora,
de Amadis; Carcel (V amor,
hum Sermão do mesmo autor;
e a Donzella Theodora;
e mais Silvestre e Amador.
E dos Autos Aquilano,
Dom Duardos com sus flores; (sic)
e o Tormento d' amores,
e o Cancioneiro castelhano,
e Boscan. com^eus primores.
Guiomar. Todos esses tenho eu
e outros que não nomeaes.
Alcoviteira. D' aqueles papeis gostaes;
e aqueste papel meu,
por ser meu o engeitaes? (3).
(1) Quando o secretario pos fitn á tempestade de parvoíces de que constava a sua
oração. . feita pausa... nomeou o primeiro assumpto que foy a heróica acção do
Príncipe D. Duardos se fingir hortelão para ver e f aliar ã Princeza Flêrida, como
consta do Auto do mesmo D. Duardos, logo na 2? folha. — A façanhosa acção foi
assunto para quatro sonetos em versos de arte maior, e para outras composições,
(2) Cap. XIII.
(3) Nunca vi o exemplar único de 1649 (com licença de 1619) que se conserva
em Lisboa na livraria Minhava. Tenho que louvar me aqui, como em todos os trechos
de Autos nunca reeditados, em T. Braga, Eschola de Gil Vicente. Vid. p. 184 e 565.
HúM.IVCES VELHOS 139
Quanto ao texto do romance, peço vénia para ser um pou-
co extensa (1). Os que até hoje se ocuparam d' ele, recorre-
ram naturalmente de preferência ás Obras de Gil Vicente, na
accessível impressão de Hamburgo que se cinge á edição-
príncipe. Não me parece todavia que a Copilacão on Compi-
lação encerre neste caso o texto melhor.
Antes de o Plauto português se haver abalançado nos úl-
timos anos da sua vida, por órdeni de D. João III (2), a colec-
cionar as suas obras — trabalho que não havia realizado
por inteiro quando cerrou os olhos em 1540 (3) e que seus
filhos Luis e Paula terminaram após vinte e dois anos (4) —
muitas comédias e diversas trovas haviam saido avulsas,
empremidas pelo metido, como se diz no Privilégio de 1561, ou
fora do corpo grande, segundo se explica nos índices expurga-
Wrioa de 1581 e 1642 (5).
(i) Ha muito que preparo a edição crítica das Obras de Gil Vicente, come-
çando com as três Barcas & o D. Duardos. Mas como ainda me faltem materiaes
indispensáveis para boa realização do plano, aproveito este ensejo de apelar para
os letrados que generosamente queiram auxiliar-me com as raridades que possuam.
(a) Num Preâmbulo que Gil Vicente deixou escrito, destinado a acompanhar
as Obras e dirigido ao monarca, ele confessa que nunca pensara em publicar essa
colecção. Pelo contrário estava mesmo ditei minado a leixar suas miseriimas
obras por imprimir e só por serviço de S. A. trabalhou a copilacão delias com
muita pena de sua velhice (III, 389).
(3) No Prologo do filho a D. Sebastião, Luis Vicente declara que o pae escre-
veu por sua mão e ajuntou em hum livro muito grande parte delias (falta vírgula
depois de grande, mas talvez esse adjetivo qualifique também parte). E ajuntara
todas, se a morte o não consumira
(4) Em continuação do trecho que tresladei na nota anterior lê-seM este livro
ajuntei as mais obras que faltavam e de que pude ter noticia. Mas também: tomei a
minhas costas o trabalho de as apurar e fazer imprimir. Por uma rubrica relativa
ao Livro V confirma-se que não encontrou todas as Obras Varias: vae muito care-
cido das obras metidas porque as mais das que o autor fez d'esta calidade se per-
deram. São d'ele também diversas Notas explicativas. P. ex a final do Li-
vro II, em que declara que a Comedia Floresta de Enganos fora a derradeira que
Gil Vicente fez em seus dias.
(5) A respeito dos índices portugueses veja-se o Catalogo da Livraria de
J. M. Nepomuceno (Lisboa, 1897), N.°s 882-886, mas principalmente o Dicciona-
rio Bibliogrâphico de Inocêncio da Silva, nas continuações que devemos a Brito
Aranha, vol. X, p. 387.
140 CAROLINA MICHAÈLI8 DE VA8C0NCELL0S
Essas edições avulsas foram utilizadas p. ex. por Fernflo
de Oliveira na sua Grammática, impressa em 1639; por Jofto de
Barros na que publicou em 1540; por Jorge Ferreira de \
concellos (que faleceu em 1568), nas suas Comédias; pelo glo*
sador António Lópcz, e pelos numerosos poetas dramáticos da
Escola Vicentina, incluindo Luis de Camões. Sairiam portanto
em edições-príncipes logo depois da sua composição 8 re-
presentação, isto é entre 1502 e 1530, e portanto sem serem su-
jeitas á censura que começou a funcionar ne-ssa data, irregu-
larmente embora, até a publicação dos índices e a instituição
das Mesas em conformidade com as ordens vindas de Roma
desde 1543 e especialmente com as resoluções do Concílio
Tridentino.
D. Duardos pertence ao número das peças publicadas
em vida do autor. Comquanto nenhuma impressão quinhen-
tista se conservasse, o figurar no Rol dos livrou defezos de 1551
e no de 1561 o Auto de D. Duardos que non tiver cen-
sura como foi emendado (e também no castelhano de 1559),
fala com suficiente clareza. Além d'isso ha confirmação no
Prólogo- Dedicatória a D. João III, escrito, segundo já disse,
antes do falecimento da Rainha D.a Leonor (1525). Não
menos o confirmam reimpressões posteriores que repetem
o titulo original Auto nuevamente liecho e se afastam em
bastantes pormenores da impressão de 1562, não só com re-
lação a emendas ordenadas em 1581 e 1624 pelos Deputados
da Santa Inquisição. Uma, muito tardia (de 1720) que parece
ser reprodução de outra de 1647 (1), contém o Prólogo-Dedi-
catôria da perdida impressão-príncipe, o qual não entrara na
Compilação de 1562, mas sim na mutiladíssima de 1586 (aug-
mentada unicamente nesse Auto, que constitue o maior mere-
cimento d'ela). Parece evidente que o privilegiado moço da
capela real, incumbido d'essa edição (2), se valeu de um texto
avulso, guardado por ventura no paço e que o editor do folheto
(i) Conheço a de I720;masade 1647 só pelas descriçàes dadas por Gallardo
(Ensayo 4575) e outros bibliógrafos.
(2) Afonso López, editor também da colecção de Autos de 1587.
ROMANCES VELHOS 141
de 1720 recorreu a outro, não idêntico, mas quasi igual. Seja
porém como fôr, o texto de 1586 e o dos folhetos avulsos deve
ser consultado. For diversos motivos: Io) Porque os impresso-
res de 1561 procederam com lastimável incúria. 2o) Porque ig-
noramos se a tragicomédia de D.Duardos pertence como creio
ao numero dos textos que Gil Vicente preparou pessoalmente
para a Compilação, ou se foi o filho que a apurou (1). 3.° Por-
que ignoramos igualmente se o pae ou o filho retocou a re-
dacção original, procedimento que quanto ao pae seria muito
natural, e pôde ser provado com relação a outros Autos por
alusões a acontecimentos posteriores á data da elaboração
primeira.
No texto de 1720, que pelo de 1647 parece derivar de uma
das impressões anteriores á 1562, a que o Rol do Cardeal-
Infante se referia em 1551 e 1561, notam-se emendas ordena-
das pelos Censores como p. ex. a substituição constante de
diesa por reina; mas também variantes de valor. Especial-
mente no Romance. Algumas lições são confirmadas pela tra-
dição oral e por um folheto gótico hespanhol.
Pelo confronto das lições que faculto ao leitor, reconhece-
se em primeiro lugar, que a do folheto de 1720 e a de 1586,
embora lhes faltem dois hemistíquios, é mais perfeita e mais
desenvolvida que a de 1562; em segundo lugar que foi essa a
que se divulgou em Castela antes de 1550; em terceiro lugar
que não foi a redacção primitiva, mas, pelo contrario, a das
Obras que serviu de modelo a Almeida-Uarrett.
Quanto ás abreviações populares, tão reduzidas estão que
não é fácil dizer de qual das duas derivam. Alguns indícios
ha comtudo que falam a favor da lição que tenho em conta
de mais antiga (2) . *
Certas divergências explicam-se, de resto, pelo duplo des-
(i) A edição de 1562 foi vista também pelos Deputados da Mesa Censória
mas tratada com grande benignidade e tolerância, talvez pelo favor dispensado
por D. João III e D. Manuel a Gil Vicente e por D. Sebastião a seus descen-
dentes.
(2) Reparem nas concordâncias siguintes: v. 11 preguntar pelo bem que m<
queria — v. 13 venceu.
742 CAROLINA MICHAÉLI8 DE VA8CONCELL08
tino do romance, como parte integrante de uma obra maior,
e como cantar independente. No Auto, Gil Vicente apresen-
tou-o logo era ambas as formas, i. é recitado, aos bocados,
por três personagens diversos: Artada, incumbida das parce-
las narrativas (1), Flérida, com os queixumes de despedi-
da (2), Dom Duardos, com as promessas consoladoras. Logo
depois foi repetido, cantado como remate da festa, em coro,
atrás da scena, pelos marinheiros da galeota real em que os
dois iam embarcar, e talvez no palco por Artada (3). Com
música de Gil Vicente, como é provável (4). É o que se infere
tanto das indicações scénicas como dos verso9 de introdução
e dos finaes da peça que se seguem ao romance. O texto não
foi, porém, repetido na impressão. Apenas se explica: Este ro-
mance se disse representado, e depois tornado a cantar por des-
pedida.
(i) O seu nome precede (indireitamente) os cinco primeiros versos. Repete-
se diante do hemistíquio Alli habla don Duardos, e dos sete versos finaes, de Sus
lágrimas em diante. Também é Artada quem explica previamente ao público a mo-
ralidade (já transcrita) do drama, que se cifra no fatalismo do amor:
Cantando quiero decir
la conclusiòn:
Al amor y à la Fortuna
no hay defensión ninguna (p. 248).
E é ela quem profere o prefácio:
Cantemos nuevo romance
á la nueva despedida
peligrosa.
(2) O nome de Flerida falta nas . Obras antes do verso 6.° Quedá-os á Dias
mis flores. Por descuido, evidentemente.
(3) Já mostrei que ela emprega duas vezes o verbo cantar. Ainda assim o
modo como trataram o romance na representação teatral não é bem claro. Depois
das palavras de Artada é o patrão da galera que diz a frase final:
Lo mismo iremos cantando
por ese mar adelante,
á las sirenas rogando
y vuestra Alteza mandando
que en la mar también se cante.
Podia-se entender que o romance já fora anteriormente cantado (por Artada)
Creio, porém, que essa interpretação seria errónea.
(4) Falta a respectiva explicação.
ROMANCES VELHOS 143
Eis agora os textos acompanhados de algumas miseelas
críticas.
I. Folha votante portuguesa de 1720.
En el mes era de abril de mayo antes un dia
cuando los lírios y rosas mnestran más su alegria,
en la noche mas serena que el cielo hazer podia,
cuando la hermosa infanta Fiérida ya se partia.
5 En la huerta de su padre á las árboles decia:
«Ya mas en cuanto viviere os veré tan solo un dia,
ni cantar los ruisefiores con suave melodia (1).
Quédate á di os, agua clara, quédate á dio.j, agua fria,
quedáos d dios, mis flores (2), mi gloria que ser solia.
10 Voyme d tierras estraiias pues ventura allá me guia.
Si mi padre os perguntare que tanto bien me queria,
dezid que el amor me lleva que no f ue la culpa mia;
tal tema tomo conmigo que me vencia su porfia.
Triste no sé donde voy ' ni nadie me lo decia.»
15 Alli habló Don Duardos (falta)
(falta) (3) no lloreis mi alegria,
que en los reinos dê Inglatierra más claras aguas habia
y más hermosos jardines y huertas, senora mia.
Tendreis trescientas doncellas de alta genealogia;
20 de plata son los palácios para vuestra senoria;
de esmeraldas y jacintos (falta) ;
las câmaras ladrilladas de oro fino de Turquia,
con letreros esmaltados que cuentan la vida mia,
cuentan los vivos dolores que me distes aquel dia
25 cuando con Primaleon fuertemente combatia.
Senora, vos me matastes, que yo a él no lo temia. »
Sus lágrimas consolaba Fiérida que esto oia;
fuéranse á las galeras que Don Duardos tenia;
cincuenta eran por cuenta (4), todas vau en compania.
30 Al son de sus dulces remos la Infanta se adormecia.
en brazos de Don Duardos que bien le pertenecia.
Sepan todos los nacidos aquesta sentencia mia:
•que contra muerte y amor nadie no tiene valia.»
144
CAROLINA MICHAÈLIS DE VA8C0NCELL08
II. Ed. 1586.
5 los
biv[i]ere
con dios
10
preguntare que grande bien m. q.
diria que el amor
comigo
15 (falta)
(falta)
de Inglaterra
temeis. . .doncellaa
20
25
(falta)
.consolava
no le temia
30
.nascidos
pertencia.
nadia
ROMANCES VELHOS H5
III. Folha volante hespanhola s. I. n. a.
5 los
Jamas
en los ramos
10
me buscase (5) que grande bien m. q
decidle que Amor me lleva
comigo q. m. forzó s. p
donde vo
15 . . bien oireis lo que decia:
Pues vuestro mal me quebranta no 11., seúora infanta (6).
Inglaterra
y vuestros s. m. (7)
temeis
20
toda la tapecerla
cuenta[n]
contando v. d
25
fueronse á las galeas
por todas
30
s. cuantos son n
la Muerte y Amor
140 CAROLINA MICHA£LIS DE VASCONCELLOS
IV. Cancionero de Romances 1550.
podria
5 los
Jamás
eu los ramos
y quedad con dios m. f.
10 .... á las tierras estranas (8)
me buscare q. grande bien m. q.
digan que el amor m. 11
q. in. forzó s. p
15 (falta) • • •
(falta) ••
Inglaterra
y vuestros, s. m. . .
temeis
20
toda la tapecerla
contando vivos d que me distedes (9) un dia
25
(1<0
y fuéronse á las galeras que D. D. habia
por todas
30
s. cuantos çon n.
ROMANCES VELHOS
V. Obras de Gil Vicente, 1562. (11)
Artada
q. lyrios y r
qu'el
5 los
Flkrida
6, 7, 8 faltam (12).
10 á tierras estrangeras
me buscare q. grande b. m. q
digau que amor m. 11
comigo profia
adó vo
15 Artada habla (fàfta)
D. Duardos. (falta) Hallareis
d'Inglaterra
y vuesos, s. m
temeis genelosia
20 d'esmeraldas ... p. vuesa s
(falta)
(falta) d'orO
25 Primalion
no temia
Artada
. Fueronse á las yaleras
30 la princesa se adormía
s. cuantos sou u. .
la m. y a.
148 CAROLINA MlCHAÈLIS DE VASC0NCELL08
VI. Tanger: ti adição oral.
Entrar quiere el mes de mayo y el de abril ante3 un dia (13)
cuando las rosas y flores muestran su alegria
(3 falta) "•
cuando la seriora Infanta Flérida ya se partia.
5 De los sus ojos lloraba, de la su boca decia (14):
(6 e 7 faltam)
Adios, adios, aguas claras, adios, adios, aguas frias,
adios mis rica3 doncellas (15), las que conmigo yacian.
10
Si mis padres preguntaren los que á mi tanto querian
decildos que a. m. 11. que la culpa non es mia,
tanto porfio el amor que a mi vencerme podia.
15
20
(15-27 faltam) .
25
En treinta y cinco navios Flérida se embarcara
30 Al s. d. 1 . d. r el sueno la venceria
porque ai amor y a la muerte nadie los pone á porfia (16).
ROMANCES VELHOS 149
VII. Ilha de S. Jorge: tradição oral. (17)
Era pelo mes d'abril de maio antes um dia
(2 e 3 faltam)
quando a bella Infanta já da frota se espedia (18)
5 Fora ao jardim de seu pae, ella chorava e dizia
(6 passou á ser 101
(7 falta) •
Fica-te (19) embora, milflores meus jardios d'agoa fria
(9 falta)
10 qu'eu te não torno a ver senão hoje neste dia.
Se meu pae te perguntar pelo bem que me queria
diz-lhe que o amor me ieva (falta)
(falta) que me venceu uma porfia
não sei pr'a onde me leva nem que ventura é a minha.
15 Responde eu-[lhe] Dom Duardos que escutava o que dizia.
Calai-vos, bela Infanta, (20) calai-vos, pérola minha.
Em portos de Inglaterra mais claras aguas havia,
mais jardins e arvoredos para vossa senhoria,
também. . . (21) donzela[s] para vossa companhia.
20
25
. (20-27 faltam) •
Chegados são ás galeras que Dom Duardos trazia.
A mar lhe catava honra e as ondas cortesia (22).
30 ao doce remar dos remos a menina adormecia
no colo do seu amor pois assi lhe convenia (23)
(32 e 33 faltam).
150 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
VIII. Almeida-Garrett, Vol. III p. 14» (24)
Era pelo mes de abril de maio antes um dia
quando lírios o rosas mostram mais sua alegria,
era a noite mais serena que fazer no ceo podia,
quando a formosa infanta Flórida já se partia;
5 e na horta de seu padre entre as árvores dizia:
(8, 7. 8, faltam).
Com deus vos ficado, flores, que éreis a minha alegria:
10 voi-me a terras estrangeiras pois lá ventura me guia.
E se meu pae me buscare pae que tanto me queria,
digatn-lhe que amor me leva, que eu por vontade não ia,
mas tato atimou comigo (25) que me venceu coa porfia.
jTriste! não sei onde vou, e ninguém não m'o dizia.
15 Ali fala Dom Duardos;
«Não choreis, minha alegria,
que nos reinos de Inglaterra mais claras aguas havia
e mais formosos jardins e flores de mais valia.
Tereis trezentas donzelas de alta genealogia;
20 de prata são os palácios para vossa senhoria;
de esmeraldas e jacintos
e oiro fino de Turquia,
com letreiros esmaltados, que a minha vida se lia,
contando das vivas dores que me destes nesse dia
25 quando com Primalião fortemente combatia.
Matastes me vós, senhora, que eu a ele o não temia»
Suas lágrimas inchugava Flórida que isto ouvia.
Já se foram ás galeras que Dom Duardos havia;
Cincuenta eram por conta; todas vão em companhia.
30 Ao som do doce remar a princeza adormecia
.aios braços de Dom Duardos que tam bem a merecia.
Saibam quantos são nacidos sentença que aâo varia,
contra a morte e contra amor que ningum nõo tem valia.
ROMANCES VELHOS
IX. Lição restituída.
En el mes era de abril de mayo antes un dia,
(cuando los lírios y rosas muestran más sn alegria)
en la noche más serena que el cielo hacer podia,
cuando la hermosa infanta Flérida ya se partia.
5 En la huerta de su padre á los árboles decia:
«Jamas eu cuanto viviere os veré tan solo un dia
ni cantar los ruisenores con suave melodia.
Quédate á dios, agua clara, quédate á dios, agua fria,
quedáos á dios, mis tlores, mi gloria que ser solia.
10 Voyme á tierras estranas pues ventura allá me guia.
Si mi padre os preguntare, que tanto bien me queria,
decid que el amor me lleva, que no fue la culpa mia;
tal tema tomo comigo que me venció su porfia.
jTriste! no sé donde voy, ni que ventura es la mia.»
15 Alll habló Don Duardos, bien oireis lo que decia:
«No lloreis, seiiora infanta, no lloreis, mi alegria,
que en los reinos de Inglaterra más claras aguas había
y más hermosos jardines, y huertas, seiiora mia.
Tendreis trescientas doncellas de alta genealogia;
20 de plata son los palácios para vuestra senoria,
de esmeraldas y jacintos toda la tapeceria;
las camarás ladrilladas de oro fino de Turquia,
con letreros esmaltados que cuentan la vida mia;
cuentan los vivos dolores que me distes aquel dia
25 cuando con Primalion fuertemento combatia.
Seiiora, vos me malaste3, que á él no le temia.»
Sus lágrimas consolaba Flérida que esto oia;
fueronse á las galeras que Don Duardos tenía,
cincuenta eran por cuenta, todas van en compania.
30 Al son de sus dulces remos la Infanta se adormecia
en brazos de Don Duardos, que bien le pertenecía.
Sepan todos los nacidos aquesta sentencia mia:
«que contra muerte y amor nadie no tiene valia.»
CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
NOTAS AOS TEXTOS
(i) I. 7.— A lição não satisfaz completamente. Mas a variante en los ramos
não é melhor. Em ambas as redacções é a omissão do verbo (oiré) que se torna
notada, comquanto seja frequente em textos populares, depois de ver. — Confer
ver cantar, ver dizer, etc.
(2) I. 9. — Mi jardin seria preferível, por causa da resposta de D. Duardos, em
que se repetem as coisas enumeradas por Flérida, e por causa de solia, no sin-
gular.— A fórmula mil flores, no texto açoriano, fala todavia a favor de mis fiares.
(3) I. 15-16.— As divergências que se notam aqui, podem provir, como já in-
diquei, da forma representada, da cual se afastava a cantada. — Aqui habla Don
Duardos talvez fosse originariamente mera indicação scénica. Metida no ro-
mance avulso pelo próprio Gil Vicente, ou espontaneamente pelos cantores, exigia
um hemistíquio complementar. Ocorre o bordão tantas vezes usado: bien oireis
lo que decia; ou então omissão das primeiras palavras da réplica, que provavel-
mente equivaliam a Ao lloreis, mi alegria. Creio que as possuímos no verso i6bdo
texto de António Lopez: No lloreis, senora infanta. São as que introduzi na lição
restituída.
(4) I.29. — A fórmula por cueuta foi substituída em Hespanha por outra {por
todas), por causa da consonância com cincuenta , O defeito passara despercebido
em Portugal, talvez porque a Gil Vicente escapara por conta, á portuguesa. Em
outras lições modificariam o algarismo para remediar o mal. Os treinta y cinco do
texto judeu-hespanhol não servem, porém, ritmicamente.
(5) III. 1 1. —Buscase talvez seja errata por buscare.
(6) III. 16. —O artificioso hemistíquio Pues vuestro mal me quebranta, que rima
com o octonário imediato deve ser postiço. Colocando em primeiro lugar o verso
no lloreis senora infanta e completando-o por meio de no lloreis mi alegria, temos
lição análoga á açoriana' Calai vos, bela Infanta —calai-vos, pérola minha.
(7) III. 18. — Esta variante huertas (nascida talvez por erro de leitura) entrou
no texto que serviu de padrão á nacionalização açoriana.
(8) IV. 10. — Las é retoque, de quem aborrecia o hiato. Luis de Camões uti-
lizou o verso emendado, como mostrei. E como os Ampkitriòes são provavelmente
anteriores a i 550, conhecia-o de qualquer Pliego suelto perdido, ou da tradição pa-
laciana. Claro está que também é possível que espontaneamente melhorasse o texto.
(9) IV. 24. — Bellermann, traductor do romance Portugiesisc/ie Volkslieder und
Romanzen (Leipzig 1864), não encarava o problema com saber suficiente. Basean-
do-se em Duran que o publicara como obra anónima no Romancero (Madr. 1828-
32, vol. IV, p. 4), imaginava que Gil Vicente se havia apoderado de um romance
velho, castelhano, modernizando-o arbitrariamente. Creio que dístedes era a prin-
cipal entre as formas arcaicas em que se estribava a sua ideia.
(10) IV. 27. — Bellermann imprimiu via, em lugar de oia.
(n) V. Este texto, reproduzido como autêntico, pelos historiadores modernos
das literaturas peninsulares (p. ex. na Antologia VII-, 203 e XII, 477) foi traduzido
por Storck, 11 à o sem que de vez em quando ele desse a preferência aos retoques
de Alnieida-darrett.
ROMANCES VELHOS 153
(12) V. 6-8. — Bellermann reconheceu que estes versos (assim como 15 b -16 a
e 21 b-22 a) eram primitivos, e faziam falta no texto da tragicomédia.
(13) VI. 1. — Já disse que o verso está deturpado. Houve evidentemente con-
fusão com outros princípios de romances, de assonáncia diversa p. ex.:
Entrar qtdert el mes de Mayo salir quiere el mes de Abril,
Salir quiere el mes de Marzo entrar quiere el mes de Abril .
fConfer Catálogo Judio Espafiol N.° 142.)
(14) VI. 5. — Verso estereotípico, que se repete em muitos textos tradicionaes.
(15) VI. 9. — Embora falte em todos os restantes textos, pôde ser primitivo.
Na sua réplica, D. Duardos refere-se pelo menos, ás donzelas de Flérida.
(16) VI. 12-13 ou 33.— No texto, impresso no Catálogo dei Romancero Judio-
Espaãol, esse verso faca entre o 12 e o 13o É deturpação da sentença final, que
se baralhou na memória do povo com a porfia de amor mencionada no sítio in-
dicado.
(17) VII. Foi publicado por T. Braga no Rom. de Arch. Açoriano N.° 56 e na 2.a
ed. do Romanceiro Geral p. 442. A sua derivação de um texto que se parecia com
ode 1562, prova-se pelos vocábulos perguntar (1 1) e pela existência dos versos 6,
(10) e 15 h e 16a Cdizia-infantaJ.
(18) VII. 4. — Já da frota equivale a estando já embarcada na galera real?
(19) VII. 9. — Fica-te em lugar à&Jicade, fornia arcaica e popular, não despre-
zada por Almeida-Garrett.
(20) VII. 1 5 b _ 1 6 a Vid. Nota 3 e 6.
(21) VII. 19. — Também isto quero donzelas, lição estragada. Proponho: também
tereis donzelas.
(22) VII. 29. Este verso (estereotípico) provém de um Romance chamado de
D. Maria (Açor. 43).
(23) VII. 31. — Braga imprimiu convencia; talvez seja convenia, castelhanismo;
proveniente de alguma lição perdida. Convém recolher mais redacções de diversas
cantadeiras, a ver se apuramos um texto mais completo e perfeito.
(24) VIII. — Lição ms. do século XVII, do Cavalheiro de Oliveira, segundo
Almeida Garrett. T. Braga acredita no facto de aquele ilustradíssimo Português
haver recolhido entre os Judeus de Holanda romances, trovas e cantigas popu-
lares (Vid. Poesia Popular Portugueza, p 481 e 200). Pelayo tem -no em conta de
supercheria inocente; e eu concordo, quanto á este caso, porque o D. Duardos que
os dois apresentam é tradução do texto vicentino (ed. de 1562), aferido pelo do
Cancionero de romances, e em seguida retocado com fino sentimento artístico. Pro-
vas d'isso são a omissão dos versos 6, 7, 8, a dos hemistlquios 15 b e 16 a, 2i*>
e 22 a, assim como 09 vocábulos: estrangeiras (v. 10), buscare (v. 11), por conta
(29), a princesa (30).
Nas impressões de Braga ha alterações por descuido: no v. 2 falta sua; no 13o
ha ateimou (talvez de propósito); no v. 14 falta não, no 26 ° ha mataste; no 27 °
enchuga.
(25) VIII. 20. — Atimar (por atentar, derivado de tema no sentido de teima) é
um dos vocábulos favoritos dos falsificadores do século xvu,
154 CAROLINA MICHAClIS DE VASCONCELLOS
G. Romances de assunto clássico ou bíblico.
Os cantares velhos sobre essas matérias não são numeio-
sos. Por isso só poucos alcançaram voga popular. Fazem ex-
cepção: o lindo conto de Here e Leandro, tratado com predilec-
ção pelos quinhentistas peninsulares, tanto em longos poemas
narrativos, como em sonetos, madrigaea e epigramas, mas
também por jograes semi-artistas; o cerco de Troya, familiar a
todos os que liam; a megalomania criminosa do Nero, o incen-
diário de Roma, que não se apagou na recordação dos povos.
Ha também muitíssimas alusões a Dido e Eneas, Aquiles e
Polixena, Paris e Helena, Orfeo e Euridice, mas o seu teor
não permite que as derivemos de romances (1).
XXIX
No pequeno ciclo de Hero e Leandro ha um, impresso na
Flor de Enamorados, que principia:
Por el brazo d'Elesponto (2) Leandro va navegando.
Outro, num Pliego suelto de Cracóvia (N.° 101), começa:
Al pie dei mar d'Elesponto estava el fuerte Leandro.
O quinhentista português Pedro de Andrade Caminha conhe-
cia outro, divergente, mas também com a assonância a-o,
talvez mera variante dos dois. Na resposta centónica ao Pe-
legrino hespanhol, a estrofe 2.a termina:
[77] Camino dei Elesponto caulina el triste Leandro (3).
Outros três, um de forma esmerada que se imprimiu na Ter-
(i) O mesmo vale das alusões a Hero e Leandro, muito frequentes nos auto-
res apresentados ao leitor; especialmente nos poetas cómicos da escola vicentina.
(2) Del Esponto em Duran 466.
(3) CM. de Vasconcellos, Pedro de Andrade Caminha, f, 108.
ROMANCES VELHOS
cera Silva, mais um da Flor de Enamorados (ambos em -ia) (1)
e o muito interessante que se conservou tradicional entre os
Judeus de Tanger, em ó e em senários, divergem por com-
pleto (2).
XXX
O único cantar relativo á guerra de Tróia, de que posso
assinalar uru rasto, é narrativo e de origem literária (3). Com
quanto não possua qualidades superiores, e seja extenso de-
mais para se tornar tradicional, propagou-se em Pliegos suel-
tos, de 1547 a 1570 (4); teve a honra de entrar tanto no Can-
ciónero de Romances (5) como na Ensaladilla (6); foi glosado
(7) e levado á índia por capitães e soldados portugueses, tal-
vez em lição reduzida (8).
Conta Diogo do Conto a seguinte anecdota, bem caracte-
(i) El cielo estada nublado la luna SU luz perdia
Antologia IX 21 j.
Aguardando estaba Hero ai amante que solia,
Diiran 467.
(2) Catálogo Jud. Esp. N.° 41:
Três her/nai/icas era// ires hermanicas son.
(3) Luis Hurtado, a quem é atribuído num Pliego Suelto de Praga, é provavel-
mente o mesmo Hurtado que publicara glosas de alguns romances em outro
folheto da mesma colecção. E ambos s.-rào idênticos àquele padre-cura de Toledo
que ganhou renome pela parte que teve na publicação do Palmerin castelhano, e
por diversas outras proezas literárias, das quaes me ocupo num tratado extenso
relativo á Francisco de Moraes.
4) Vid. Wolf, Sammlung p. 8, 13, lia, 124. N.° LXIV Romance nue
hechu por Luys H/irtado.
(5) Duran N.° 474.
(6) Estr. 1 Ingr. 2.
(7) Sammlung N.° LXV: corregido. y glosado par Gutietre Velatçutt de Mo/i-
dragon.
(8) Não é de crer que alguém tivesse ânimo de glosar em décimas 08 300
versos da obra preparada por Hurtado! Creio já haver dicto que de poqui-
ssimas glosas se podem extraer romances completos: os parafrascadores seguiam
a praxe popular de encurtar os textos, reduzindo-os ao mais essencial e patético,
CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
rística, Da ida do Visorrey D. Luiz de Ataíde a Barcelor, que
se realizou era 1571.
Feito isto, partio-se o Viso-Bey pêra Barcellor; e chegando á sua ba-
rra, commetteo logo a entrada com todos os navios de remo, indo elle
diante todos na sua manchua, sentado em numa cadeira de brocado, ar-
mado de plumas, e perto delle o Veiga, tangendo em huma arpa e can-
tando aquelle Romance velho que diz:
Entrem los Griegos en Troya três a três y quatro a quatro.
E chegando perto da fortaleza, começaram a vir zunindo por cima das
embarcações algumas bombardadas, com que o Veiga que hia cantando,
se embaraçou; ao que oViso-Rey muito seguro lhedisse: «Oh idepor diante,
não vos estorve nada». Luiz de Mello da Silva hia junto do Viso-Rey,
e alguns outros Fidalgos e Capilâes perto de Luiz de Silva, os quaes,
vendo as bombardadas, disseram a L. da M. da S. que o Viso-Rey nâo
hia bem, que aquillo era muito arriscar; ao que lhe respondeo: «Deixai-o,
senhores ir; e se o matarem, aqui vou eu que governarei a índia; e se me
matarem a mi, ahi vam vossas mercêa.» O Viso-Rey, ouvindo f aliar sem
perceber o que, perguntou a L. de M. o que era; e elle lhe disse tudo o
que respondera; o que elle festejou e celebrou muito (1).
O texto usual diz:
[78] En Troya entran los Griegos três a três y quatro a quatro.
XXXI
Com o célebre romance antigo,
[79J Mira Nero de Tarpeya a Roma como se ardia:
[80] gritos dan nifios y viejos y él de nada se dolia (2)
impresso muita vez, avulso e em colecções, glosado (3), me-
morado constantemente em livros castelhanos como a Celesti-
na, o Orfeo de Câncer, o Diáblo Cojuelo (4); citado por Lope na
Roma abrasada, e por Alarcon na Comedia Mudarse por me-
(i) Década VII Cap. 32.
(2) Duran 571, cingindo-se ao Cancionero de romances, á Silva; e á glosa de
Mondragon.
(3) P. ex. por Velazquez de Mondragon (Crislobal), segundo se diz no Ensayo
sob N.° 4248 (IV c. 999).— Confer Sammlung, N.° LXXVI.
(4) Tranco V, $l,\.
ROMANCES VELHOS 157
jorarse{\) e parodiado no Don Quixote (2), deram -se igual-
mente casos anecdóticos, na era das conquistas.
O leitor náo esqueceu, por certo, aquele que foi narrado
outro dia aqui mesmo (3).
Na índia, os Portugueses, nâo menos dispostos a motejarem
de tudo e de todos do que na pátria, serviram-se do texto, e
certamente também da sonada, para censurar de desapiedado
a D. Constantino de Bragança, por causa de uma ocorrência
de pouco peso.
...todo este inverno (lõGO -61) gastou em acabar huma náo que fez de-
fronte dos seus Paços, pêra se ir nella pêra o Reyno, por esperar em Se-
tembro por suecessor, a que pos nome as chagas, pela devoção que tinha
ás de Christo, que foi a cousa que assim na índia como em Portugal lhe
remorderam mais que todas. E tanto que lhe contrafizeram aquelle Ro-
mance velho que diz:
Mira Nero de Tarpeya a Roma como se ardia
em
Mira Nero da janella (!) la nave como se hazia.
«
No que nào tiveram nenhuma razão, porque nem a elle lhe cabia tal
nome, por ser muito alheio e differente da sua natureza, nem a sua nao
foi feita com encargos com que outras depois se fizeram por alguns capi-
tães, nem com os apparelhos e madeiras das ribeiras de El Rej-, como al-
guns falsamente disseram, nem os Officiaes ficaram clamando que lhes
não pagara seus jornaes; mas foi feita com o que poupou de seus ordena-
dos e com empréstimos de amigos que depois pagou mui bem, e com tão
poucos embaraços e com tantas bênçãos como se pode conjecturar do
muito que durou, e das prósperas viajens que sempre fez (4).
Para que se comprenda a indisposição dos Coenses, que se
dirigia mais contra a janela que servia de atalaia ao Yiso-
Rey do que contra a nao, será bom ter em consideração, além
do trecho transcrito, o que o historiador, panegirista e admi-
rador sincero das suas virtudes, acrescenta no mesmo capí-
tulo, como moralidade da fábula, chamando a l>. Constantino
(i) Acto II Seena XIV.
(2) Parte II. Cap. 44 e 5».— Cfr. Ensayo I c. 86 e 1284; IV 861 .
(3) Cultura I y. 74
(4) Década VII, Livro IX, Cap. 1 7.
CAROLINA MICHAÈLIS DE VASC0NCELL08
muito grande olhador e poupador da fazenda dei rey, tanto que
por saber que havia desordens na Alfândega a mandou passar
pêra onde hoje está a ribeira das galés, pêra das suas janeUãS
ver tudo.
Inde irae.
Antes cTisso o dizedor António Prestea havia metido uma
paródia no Auto do Procurador. Num engraçado louvor da
vida de casado, um tipo popular diz mal da vida murciana (1)
e das estroinices livianas da rapaziada assim corno das fan-
farronices dos escudeiros mat antes, ou. como ele se expressa,
dos feros (não do fero do escudeiro de João d' Acha) e continua:
não me fala, faz me cacha
en Roma (que arde ella) Nero (p. 112) (2).
O Auto do Desembargador termina com um diálogo entre
o amo (avarento) e o moço (guloso e cobiçoso ), na ocasião
indignado (como o leitor atento já sabe), por não ter havi-
do a sua parte na ceia de casamento, nem recebido o fato
que lhe tinham prometido. Desculpando se com as enormes
despesas que tivera, o amo diz: como podes ter a vileza de
exigir prendas, num dia que me arruina?
Como estais hoje este dia
vilão, vendo de despejos
a Roma como se ardia?
E o moço continua a cantarolar:
Gritos dão niíios e viejos,
seiior, de la cena mia (p. 234) (8).
Nas suas Cartas Familiares, que são excelentes minas de
curiosidades, o grande D. Francisco Manuel de Mello disse
(i) Murciano é termo castelhano, de gíria, equivalente a vadio, pândego,
devasso. Em Portugal só conheço a boa couve murciana. Em ambos os empregos,
temos derivados de Murcia,
(2) Enjoam-me, repugnam-me os .Veros, por culpa dos quaes sempre qualquer
Roma está a arder; eis o que esses dois octonários mal construidos talvez quei-
ram dizer.
(3) Note-se mais uma vez a rima: despejos (port.) e viejos (cast.).
ROMANCES VELHOS 159
uma vez p< ra inculpar o correspondente, de o esquecer sem
dó nem piedade:
estaes peor que Nero de Tarpea, porqiie nem por semelhança sabeis de
meus successos, pois a memória nu no* <'■ que lástima (1).
Nos cárceres da Inquisição, o pobre mas engraçado Judeu
António Serrão de Castro expressou desejos de ser o Nero
das ratasanas que de dia e de noite o atormentavam. Plane-
ava mesmo juntar um exército de todos os entes armados de
garras e unhas (animaes e gente).
E com tal gente serei
de ratos Nero cruel,
que a nenhum darei quartel
e a nenhum perdoarei.
Tantos males vos farei
que se diga nesse dia,
vendo com tal tirania
dar vos morte triste e feia:
Mira Nero da Tarpea
como Romalá se ardia fp. 184, Parte 111, Estr. 39).
Aportuguesado, como se vê.
O octonário
[80 a] Quando lloma cum/uistava,
citado na Ulysipo í. SA v |, nau é início de romance, mas
sim de umas trovas sentenciosas em que o autor, o nobre ca-
valeiro Gómez Manrique (a. 1412 c. 1490), põe em contraste
as virtudes antigas e os vícios do seu tempo (2). Por isso nao
o metto em conta. Na comédia é, como de costume, um escu-
deiro que ostenta o seu saber o gosto literário dizendo a
outro:
Vós, como vos tirarem de •AfuHas y pàêriónei mias» e Quando lioma
conquistaca, logo perdeis a concorrente».
(ij Centúria II, Carta rç.
(2) Dezir (ou Exclaiiiaciôn) e querella. - Vid. Canc. General N.° 7'' * Cainio-
nero de Gómez Manri<jue I 188. (Variantes de cotujuistava são prosperava e gover-
nava; ib. II 234.) Também andavam em 1'liegos Sueltos no meio de romances (v.
Durán, Catálogo^.0 11).
160 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
XXXII
Entre as citações sobre assuntos bíblicos que juntei, nào
ha nenhuma em que, com segurança, se possa reconhecer de-
rivação de romances (1). Por isso darei um único exemplo:
também, sem o meter em conta.
No romance que trata do desespero do Psalmista pela mor-
te de seu filho:
Con rabia está el rei David rasgando su corazon (2)
ha os versos cantados em tantos motetes:
[80 b] oh fili mihi, fili mihi oh fili mihi Absalon! (sic)
[80 c] qu'es de la tu hermosura tu estremada perfecion?
As palavras latinas serviram de modelo a Frey António de
Portalegre (autor de uma Meditação da sacratiscima morte e
paixão de N. S. (1548) com diversos romances espirituaes em
castelhano, numas Trovas que dizem:
Fili mi Jesu Jesu o mi Jesu, fili mi,
quem me matasse por ti porque não morresses tu!
A continuação castelhana reaparece no Auto do Juízo final,
onde sae da boca do próprio Absalão que exclama:
qu'é de minha formosura*}
Mas como a semelhança não vae mais longe, concluo que a
coincidência é fortuita, resultante natural da igualdade dos
assuntos.
(i) Entre os Judeus de Tânger e do Oriente, a espécie está muito bem repre-
sentada. Vid. Catálogo N.os 29-40.
(2) Duran (N.° 453) segue o Canc. de Rom.
ROMANCES VELHOS
H. Romances novelescos.
XXXIII
O romance commovente do Conde Alárcos e da Infanta
Solisa
[81] Retraída está la Infanta bien asi como solía (Pr. 163), (1)
obra que parece saida da inspiração pessoal de um poeta po-
pular (2) -os folhetos do século x*vi indicam o nome Pedro de
Riafio -passou a Portugal antes de 1550. O cego madeirense
Baltasar Diaz, jâ nosso conhecido como introdutor do Marquês
de Mántua na literatura portuguesa, (3) e protótipo dos cegos
que nacionalizaram poesias e histórias populares já tratadas
no reino vizinho (4), glosou-o, antes ou depois de 1537 (5) pro-
vavelmente em quintilhas. E o assunto patético que entusias-
mou tantos autores de tragédias, de Lope até Schlegel, vul-
garizou-se de tal modo que hoje é um dos mais propagados em
todas as províncias do continente, nas Ilhas, no Brasil e mes^
mo em Goa (6). 'Estendeu-SQ pari })assu (ou a par e passo como
(i) Na América do Sul (N.° 8) dizem:
Retirada está la Infanta que no está como solía.
(2) Vid. Antologia XII 535-540. Não se descobriu por ora novela nenhuma
sobre o assunto, que por ventura servisse para a metrificação de Pedro de Riafio.
(3) Vid. N.° XXII.
(4) A lista não é extensa como em Castela. A maior parte dos cegos de cá
preferia vender folhas volantes, rezar orações pelas portas, e recitar contos, e can-
tigas ao som da guitarra. Conf. p. Nota 7.
(5) Na petição deferida por D. João III em janeiro de 1537, Baltasar Diaz,
cego da Ilha da Madeira diz: que tem feitas algiias obras assy em prosa como em
meti o, as quacs foram ja vistas e aprovadas e alguas delias ymprimidas... e... que*
na mandar ymptitnir as ditas obras que tem feitas, e outras que espera defaser.
(6) No Romanceiro Geral de T. Braga ha 18 versões (p. 488-566). E a colec-
ção ainda não está completa. Vid. Rcvue Hispanique IX 466. Uuasi todas são
consideravelmente abreviadas com excepção do texto retocado por Almeida-da-
rrett. Muitas têm introdução narrativa, que provém do Romance de Silvaninha;
algumas apresentam um desfecho postiço; e todas são inoportunamente enfeita-
das con trechos líricos e pormenores romântico?.
11
CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
prefiro dizer com o povo) com o original castelhano, que
igualmente se perpetuou nas Astúrias (1), na América (2),entre
os Judeus expatriados (3), na Catalunha (4), e na Galiza [6 .
Resta estabelecer, se em todas essas regiões se canta pela
música fixada por Salinas, o cego catedrático de Salamanca,
ou com sonadas diversas.
Mas tal popularidade (6) ao avesso do que aconteceria
em outras partes, não levou á multiplicação das impressões.
Para os analfabetos a transmissão oral foi julgada suficiente!
Ou tornar-se-hia obrigatória a supressão desde que os Depu-
tados da Santa Inquisição,, rigorosíssimos também com os
Autos sacros de Baltasar Diaz, prohibiram: A sua glosa com o
Romance que começa: Eetrahida está a Infanteí (7) Das edi-
ções anteriores a 1624 nenhuma subsiste (8), de sorte que essa
prohibição (e talvez outra no índice castelhano de 1583) é o
único sinal que resta da primeira redaeoão portuguesa (9).
É pena realmente. Seria interessante conferi-la com a versão
artística de Almeida -Garrett.
Provável é que pelos anos de 1530 corressem ainda outras
(i) Rom. Astur. N.° 78. Antologia X p. 116.
(2) Rom. Amer. N.° 8. De Chile. (Vid. D. Maria Goyri N.° 24.) '
(3) Cat. Jud. Esp. N.° 64.
(4) Milá, Romancerillo p. 237; (lição bilingue).
(5) Romania VI p. 68.
(6) Claro está que não falta na Ensaladilla. (Estr. 3 Ingr. 20.)
(7) F. 98. Vid. Poesia Popular Portuguesa, i.a ed. p. 192S, 202-2 10; e Eschola
de Gil Vicente 132 s e 144.
(8) Também dos Autos, nem um só exemplar quinhentista se tem conservado.
(9) Todas as obras d'esse bardo madeirense con arte de ciego juçlar que canta
viejas fazanas são escritas em português, porque era homem do povo e escrevia
para o povo. Tanto os Autos sacros (S. Aleixo; S. Caterina, Nascimento de Christo,
Paixão} Salomão} como a. Feira da Ladra; Os Conselhos pai a bem casar; Malícia
das Mulheres e a importante Historia da Emperatriz P01 cina que é um longo ro-
mance jugralesco em-w), Vid. T. Braga, Floresta p. 104-149 e Romania II 132.
Quanto a esse romance, ainda hoje reproduzido como folheto de cordel, ouçamos
D. Francisco Manuel de Mello que numa das suas Cartas Familiares trata de uma
regateira que em troca de trinta reis mensaes ajustara um cego para lhe rezar pe-
los mortos. Este não deixava Testamento de Pilato, Despedida ou apartamento da
alma e Imperatriz Porcina que entoada lhe não rezasse.
ROMANCES VELHOS
glosas. Pelo menos, Jorge Ferreira de Vasconcellos alude a
várias na sua Ulyqipp. (Acto V, Scena 7, f. 256 v). Como de
costume, é da boca de um escudeiro que sae a seguinte apre-
cia ção irónica e grosseira do talento de um seu camarada:
Que dizeis agora, monseor de la capa roxa? Este meço não he de uns
porretas que grosara Retrahida está la Infanta? e Pêra qué pariste, ma-
dre?
António Prestes aproveitou o primeiro octonário á sua ma-
neira, a fim de dar um tom grotesco a uma banalidade. A um
moço que não lhe abre a porta logo logo, é lançada a pre-
gunta:
Tão fechado?
tão Retraída está la Infanta? (p. 230).
XXXIV
Não muito menos divulgado é modernamente (1), e pare-
ce tê-lo sido já em 1640, o romance de Silvaninha (2); de te-
ma antipático, mas impressivo: o amor incestuoso de um pae
brutal e tirano, e o cruel martírio da filha, presa numa torre,
e morta a fome e sede (3),*sem que nenhum dos irmãos, nem
a própria mãe lhe possa valer. Mas nenhuma redacção antiga
castelhana se encontra. Nem ha (que eu saiba) referência al-
guma que ateste a sua existência além das fronteiras. A mais
antiga menção do verso inicial:
[82] Passeaoa-se Silvana por um corredor um dia,
(i) No Romanceiro Geral de T. Braga (p. 447-488) ha doze versões. Ena terri-
tórios castelhanos colheram-se: três nas Astúrias (N.°s 74-76. Antologia X \>. 126);
várias na Catalunha (Milá N.° 272 p. 261); duas em Tânger (98-98 ); uma na Amé-
rica do Sul (Montevideo; N.° 20). E na própria Castela (Burgos: vid. D. Maria
(joyri, N.° 26) também já se encontrou. Creio que também na Galiza.
(2) Vid. Antologia X 131, metrificação de uma novela?
(3) Pào por onça e agua salgada (ou: çumo de laranja).
CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLUS
encontra-se, á portuguesa, no Auto do Fidalgo Aprendiz | I .
de D. Francisco ManueL-de Mello (2), numa das scenas
tereotípicas desde a Rubena de Gil Vicente), em que se enu-
meram cantigas e romances tradicionaes ou da moda. D <
vez é a donzela que incita o pretendente a tanger viola e a
cantar.
Buitks. Entoai por meu prazer
qualquer cousa.
D. Gil. Sem guitarra?
Ei-Ia! Tomai \(Dú-lhe huma vio-
la, tange como que quer can-
ta?').
D. Gil. Pois que não posso ai fazer...
Brites. Ai! que canta e não escarra!
D. Gil. Ora,ei-lova.V. (Canta D. Gil o me-
lhor que pode o que se segue).
Passeava-se Silvana
por hum corredor hum dia...
Brites. Ai senhoi! en não queria
senão letra castelhana!
(i) Menéndez Pelayo afirma repetidas vezes que o autor português citava um
texto castelhano, e imprime em conformidade
Paseahase Silvana por un corredor un dia
(Antologia X 130 2 236; XII 5 14). Certamente não recorreu á edição original {Obras
Métricas 1665, Vol. II 247). Aliás, teria reparado nos pequeninos traços que dis-
tinguem o idioma Occidental, e nns ditos da protagonista que, descontente com o
cantar escolhido, declara expressamente:
Ai, senhor, eu não queria
senão letta castelhana,
documentando assim que as que ouvira até então foram letras portuguesas. Vid.
Almeida-Garrett (II 105), que já havia elucidado este ponto.
(2) Vale a pena lembrar que D. Francisco Manuel foi também um dos primeiros
letrados portugueses que registaram o assunto de contos populares. Nas Cartas
Familiares (V, 7) dizia em 1649: Eu cuido que virei a ser aquela dona atrevida doce
na morte, agra na vida que nos contam quando pequenos. Era outro lugar (II, 63),
refere-se á Historia do Salsinha que não havia de dizer sim nem não. Faria e
Sousa, seu coevo, mencionou a História das três cidras do amor (nas Rimas de
Camões, Vol. V p. 246) e antes d'ele Simão Machado citara a mesma (na Comedia
de Diu, impressa em 1631 em 2.a ed.).
ROMANCES VELHOS
D. Gil. Cantarei algaravia,
se mandais. Pois que quereis?
Brites. Uma letra nova quero.
D. Gil. Acazar va cl caballero... (Canta).
Brites. Ai mãe! acinte o fazeis!
por isso eu me desespero.
D. Gil. Ora estai! que já entendo!
Quereis romances trovados!
Mis amorosos cuidados
como se estaran durmiendo .
Brites. Isto foram meus pecados!
Vós cuido que estais zombando!
Ora dizei!
D. Gil. Já me estanco!
Gavião, gavião pranco
vai ferido e vai voando...
Brites. Huy jpelo pássaro manco!
Sabeis algiia ao divino?
D. Gil. Sei.
Brites. Dizei.
D. Gil. Pois 6 famosa:
Andorinha gloriosa...
Brites. Tendei cousas de menino...
D. Gil. Sou todo amor, minha ro3a! (1).
XXXV
O romance velho, entoado em castelhano pelo fidalgo
aprendiz, como acabamos de ver, e ridicularizado pela dama
como coisa de menino:
[83] A cazar va cl caballero á caza como solia (Pr. 159),
é o da Infantiriha enfeitiçada e do cavaleiro burlado, lindj
conto ou fabliau francês, que é costume considerar como de
origem céltica (2), por causa das fadas-feiticeiras e mais
(i) Na nova edição, revista por Méndcz dos Ilemedios (Coimbra, 1878), n&o
ha notas sobre as diversas poesias, apontadas nesta scena,
(2) Vid Antologia XII 520 ss.
108 CAROLINA MICHAELI8 DE VASCONCELLOS
traços sobrenaturacs que o caracterizam (1). Metrificado tal-
vez por un poeta distinto (Rodrigo de Reinosa?) andou em
folhetos, entrou no Cancionero de romances, e existe hoje tan-
to era regiões portuguesas (2), como castelhanas (3), em re-
dações em parte puras, era parte confundido com <> romance
análogo, da mal ata fingida (4).
XXXVI
O tema da donzela que vai á guerra em traje de varão,
comum á poesia de várias- nações, também passou, provavel-
mente de França, á península ibérica, tomando nela a forma
de romance (5). Verdade é que não figura nas compilações
antigas, nem se encontra em folhetos góticos ou livros de
música; nem tão pouco sei de menção alguma d'ele em obras
castelhanas. Nem sequer na Ensaladilla ha prova da sua
existência (6).
Os mais antigos e principaes testemunhos da sua populari-
dade encontram-se nas comédias do quinhentista português
(i) Braga colocou-o resolutamente no Cyclo Arthuriano.
(2) No Romanceiro Geral p. 230-263 ha quinze versões: oito da infeitiçada e
sete da que se finge ma/ata, algumas com notáveis castelhanismos na dição. — A de
Almeida-Garrett contém palavras e locuções (como /rima por grima', e enzinha)
que documentam a derivação directa dos textos contidos no Cancionero de Ro-
mances, y reproduzidos por Duran, Depping, Ochoa.
(3) Ainda hoje se canta en Tânger e na Bósnia. Vid. Cat. /ud. Esp. No 1 14.
(4) Na Ensaladilla é só o romance da málata que figura:
De Francia salió la nina de Fr anciã la bien guarnida
(Estr. 10 Ingr. 61).
(5) Feitos bélicos de heroinas históricas (como Louise Labé, a donzela de
Lutzelburg, ou a Monja Alférez, Catalina Erauso, Antónia Rodríguez) são poste-
riores ao romance. Mas quantos casos, hoje esquecidos , não se dariam na idade-
media e fructificariam na fantasia dos cantores do povo. Vid Antologia XII 512, x
40 1 19 e 269.
(6) O cantar perdido Pregonadas sou las cortes en los reinos comarcanos (Estr. 7.
Ingr' 35) f°i aparentemente diverso. Note-se todavia que a assonáncia é idên-
tica (-ao).
ROMANCES VELHOS 167
Jorge Ferreira de Vasconcellos. Mas, como na maioria dos
exemplos,, a língua em que ele produz o romance, é a caste-
lhana dos romances épicos.
[84] Pregonadas son las guerras de Francia contra Aragón. (1)
Como las haria, triste viejo, cano y pecador?
Na Ulijsipo, o verso inicial vai precedido de uns ditos burles-
camente conceituosos. É um poeta que afirma:
Congelaram-se os desejos de meus pensameutos... e pêra os fazer co-
rrldios, íiz-lhe hum emplastro de sândalo e óleo de Pregonadas son las
gucrras-de Francia contra Aragone. (f . 117 v .) (2).
Na Aulegraphia (f . 84 v ), a cita vai acompanhada de uma
indicação digna de nota. Dois galanes do paço (Dinardo Pe-
reira e (írasidel de Abreu) conversara, emquanto não lhes ser-
vem o jantar, discorrendo com agudeza requintada sobre os
acepipes literários de então. E os criados dos dois (Rocha e
Cardoso, escudeiros, bem se vê) motejam, era apartes chisto-
sos e ás vezes mordentes, das falas alambicadas dos amos. Fi-
nalmente Dinardo canta com gentil voz o romance, interrom-
pondo-se por se lhe quebrar a prima da guitarra. A princípio,
emquanto vai afinando o instrumento, declara que irá tocar
O Rapaz do Conde Daros, como se tal fosse o título com que o
cantar era conhecido. Não ha porém outros trechos que confir-
mem este pormenor (3). Eis a parcela da conversa que impor-
ta para o caso:
(i) Kste intróito também se encontra em várias lições do Romance do Conde
.W.-Vid. Rom Ilist. N.°5
Grandes guerras se puhlican entre Espana y Portugal,
Vid. Antologia X 38, 165 e 166 Romancerillo Catalan p. 221 Las guerras son pu-
blicadas, las de Pransa y Portugal (var. se son cri da das por P. y A Portugal ou El
Rey n' ha f et fé unas cridas per Espanya y Portugal).
(2) A ideia de procurar no Conde Daros o Conde Claros, entendendo o rapaz
do C. CL, e de supor que anunciando um romance, Dinardo cantaria outro, lie
pode merecer aplausos.
(3) Ignoramos por isso o sentido em que devemos tomar o título. Quem é
Conde? e quem rapaz? A concluir de uma versão catalã, o Conde seria o velho
pae; e o rapaz, a donzela disfraçada.
CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Dinardo (a Grasidel).— Ora pois que assi te tocarei O rapaz do Condi
D ar os.
Rocha (a Cardoso).— De prazei vem vosso amo! Algum passarinho
novo viu lá!
Cardoso. — Veria muito má ventura, que sempre anda após estes...
Dinardo.— {Canta.)
Pregonadas son las guerras de Francia contra AragoneJ
Rocha. -O que elle tem para seu remédio é gentil voz.
Dinardo. -(Continuando a cantar).
Como las haria, triste viejo, cano y pecador?
Ah pesar de Mafoma! (1) (Quebrou-se lhe uma corda).
Cardoso.— Quebrou-lhe a prima! Inda bem!
Dinardo. — Vedes, este pesar tem a música: quando estais no melhor,
deixa-vos em branco uma prima falsa (2).
Os nomes com que a Donzela que vai á guerra (3), figura
nos modernos textos portugueses, aparentemente muito bem
conservados, são D. Martinho (4), D. Marcos, D. Carlos, ou
simplezmente D. Varão, D. Barão (5).
Quanto á Hespanha, Mílà y Fontanals encontrou na Ca-
talunha algumas versões, bilingues, em que a Xina-yuerrera
se chama D. Aíarcos (6). Muito mais tarde Munthe (I b) e
Juan Menéndez Pidal (N.° 50) recolheram versões nas Astú-
rias, em uma das quaes a heroina é apelidada donzella de Por-
(i) Mais um passo que prova, quão motivada era a frase quinhentista: renegar
como os mouros (ou como uns motiros) , em castelhano renegar como unos moros
(p. ex., na Crónica de Don Francesillo cap. 21).
(2) Acto III, Scena I. — Confer Almeida-Garrett III p. 71 ss; F. Wolf, Proben
p. 12 e 99; Braga, Poesia Popular Portuguesa p. 382.
(3) Guerra que, nas lições do Algarve, se fez nos .campos de Mazagão. De
uma Nota anterior se vê que em diversas partes França e Aragão são substituí-
dos por Espanha e Portugal.
(4) A's vezes: D. Martinho de Azevedo, mudado por etimologia popular em
O Avisado.
(5) O primeiro letrado peninsular que colheu o romance na tradição oral, foi
Costa e Silva. Vejam-se as Notas do poema Isabel ou a Heroina de Aragão^ Lisboa
1832, composto sobre o tema romântico. Depois entrou no Romanceiro de Al-
meida-Garrett e nas colecções de Braga. Hoje lá figura com 14 lições (p. 95-148 do
Romanceiro Geral). No Cyclo Scandinavo-germano.
(6) Publicadas em 1863.N.0 245 da nova edição de 1883, p. 223.— Confer An-
tologia X 269.
ROMANCES VELHOS 189
tugal (1). Ha pouco descobriu-se entre os Judeus hespanhoes
tanto do Levante como do Oriente uma redacção, bastante
deturpada e assaz divergente nos pormenores, mas ainda
assim de muito valor. Começa com os versos:
Reventada seas, Alda, por mitad dei corazón!
siete hijas me jiariste y entre ellas ningun varon (2)
muito parecidos aos de Catalunha:
Maldita seas, comtesa y la teva generacio,
de siete Jiijas q'has parida no has parit ua varo!
XXXVII
O romance desenvolto de uma Infantinha, muito diversa
da bem-fadada, pois enganada polo filho dei rei de França,
teve de confessar:
[85J Tiempo es, el caballero tienipo es de andar de aqui (Pr. 158),
era cantado em Portugal no tempo de D. Manuel; por ven-
tura com a música conservada no Caucione ro palaciano, pu-
blicado por Barbieri (3).
Na comédia, também bastante licenciosa, de Rubena, com-
posta e representada em 1521 no paço real, como já contei, a
moça, enviada a buscar a benzedeira (como as interessad-ts
dizem eufemistica mente), cantarola primeiro, num aparto
travesso, o primeiro octónario do romance, afim de patentear
que níio se deixava iludir. E pira a cita sor bem clara, salta
do primeiro octónario, para o quarío, mudando a conjunção
para que. Cantando diz
Tiempo es, el caballero! que se me acarta el vestir (1).
Muitas vezc3 impresso em folhetos avulsos (5), c acolhido
(i) Antologia X 40 e 1 19 ss.
(2) Catálogo Judio -JíspauoT^i.0 121.
(3) Canc. Musical, N.° 333: Tiempo es, til txcudero.
(4) Gil Vicente, Obias II p. 11: Defa-mt cantar primero —'Tiempo, etc.
(5) Vid. Duran, Romanccro, N.° 307, e Catálogo 41; Salva, Catálogo 55 e 99
(Ileredia, 1769 é 1770).
770 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASC0NCELL0S
no Cancwnero de romances (1), glosado sentimentaliiiente por
Francisco do Lora, antes de 15'24 (2), B ruflanescamente por
un anónimo (8), contrafeito a sério por Castillejo (4), citado
a miude (p., ex. por Castillejo (5), por Góngor.i 6 . e Ofl ( ró-
nica de D. Francesillo) (7), reescrito por Duran (8), o roman-
ce parece ter desaparecido da península, Só entre os Jude-
us do Oriente, era Viena de Áustria, é que se conserva uma
lição:
Hora es el cáballero hora es do, andar aqui (9).
/ Romances líricos.
XXXVIII
Principiemos com o que contém a pregunta melancólica
[86] Para qué pariste, madre, un hijo tau desdichadof
Por força foi repetido muita vez, até causar enfado nos in-
telectuaes, de sentidos delicados. Sem isso, não se compren-
dia o enjoo cora que Jorge Ferreira de Vasconcellos diz mal
dos que o cantavam e glosavam. Primeiro na Ulysipo, no tre-
cho já transcrito sob N.° XXXIII. Depois, na mesma comé-
(i) Duran, Romancero, N.° 306.
(2) Vid Registrum 41 1 1 (Ensayo II c. 550).
(3) Talvez Rodrigo de Reinosa? — Ensayo N.° 4490: Glosa hecha á modo de
disparates de Ti empo es el cáballero, nueva y de pasatiempo. Confer Duran, Catá-
logo N.° 50.
(4) Duran 1359: Tiempo es ya, Castillejo, tiempo es de andar aqui (aqui por
de aqui, como em Duran 307 e no Cat. Jud. ksp.).
(5) Obras, p. 161.
(6) Duran 334.
(7) Cap. 31, fim.
(8) N.° 308-316; vid. especialmente N.° 313.
(<)) Catálogo Judio-Espanol, N.° 103.
ROMANCES VELHOS 171
dia, onde moteja da semsaboriã dos temas líricos que estavam
em voga, e espalhavam
alegrias tristes, tristezas contentes, cuidados desesperados, desejos
impossíveis com suas magoas de cada hora, delido tudo cm:
Pêra que pariste, madre un hijo tan desdichado?
Continuando assenta rindo que esse verso era a estopada
com que de presente socorrem as suas desgraças os sadios que
topareis, sem errar passada Entre Tejo e Guadiana. (1)
E pela terceira vez, na scena II do Acto III da Eufro.sina;
isto é naquela palestra entre os escudeiros Zelótipo e Cariófilo,
da qual já extractei referências a Mala la vistes, Conde Cla-
ros, Calainos de Arábia, etc.
Depois de haverem censurado os poetas que entendem di-
zer tudo em duas palavras, e estas prenhes (2), e de haver
motejado do seu estilo forgicado, composto de breves sentenças
com desprezo da cópia, passam a cortar e morder nos de laia
mais plebeia, que cuidam que põe a sua no fito, se arregaça-
rem os pulsos (3), tomando ares feros
mas o seu frásis tem mais salitre que o romance:
Paru que, pariste, madre, un hijo fan desdiehadof I .
Evidentemente houve um texto que, cantado, começava
assim. Deseoiiheço-o, todavia. Posso apenas apontar um. cm
que o verso citado ocupava o 8° lugar.
É o que principia:
Descubra se el pensamiento de mi secreto cuidado. (5)
não na lição impresa no Cancionero de Romances, que ó in-
completa, mas na que serviu de tema a uma glosa de Fran-
cÍ8co Marquina, perto de 1530, e foi transcrita por Salva 6).
(i) P. 260.
(2) D' estes dizem que são tio bando da brevidade.
(3) Os punhos das mangas.
(4) Eufrosina, p. 189.
(5) Duran 1457.
(6) Salva, Catálogo N.° óo. Dos dizeres do erudito bibliófilo devemos inferir
que o texto tão pouco está completo no Pliego Suelto.
772 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Confira-se o verso (oposto):
Para quê venistes, hijo, á madre tan dèsdtchãdáf
o qual faz parte de um cantar de Bernardo dei Carpio, na li-
ção tradicional de Tânger (1).
XXXIX
Não menos popular era outro romance, de subjectivismo
igualmente pessimista; mas esse no traje típico das endechas.
É o que principia:
[97] Parióme mi madre una noche escura,
quando não vai precedido do intróito:
Quando yo naci, nació la tristura!
Com ele, se canta uma variante entre os Judeus de Tânger (2).
Sem ele, entrou na Flor de Enamorados de Linares (f. 63), (3)
de onde o Dr. J. Priebsch o passou para os seus Comentários
ás Poesias Inéditas de Andrade Caminha (p. 551), porque esse
quinhentista nos deixou outras Endechas ao mesmo som de
Parióme mi madre (4).
António Prestes menciona-o como cantar soturno dos mal-
fadados. Na jà citada Representação em prosa dialogada que
precede o Auto dos Dois Irmãos, cuja publicação elevemos a
T. Braga (5), um dos interlocutores expõe que, a seu ver,
Autos de Natal devem ser muito alegres e prazenteiros.
Hão de ter letra que esmeche, feguras que escachem entremeses,
pacso3 novos alagados em riso, vivos por «saudade por fio de mel*. Se não,
(i) Cat. Jud. Esp.^.° i.
(2) Ibid,N.°i4i.
(3) Sem ele estão também na Comedia das Famosas Asturianas de Lope
de Vega.
(4) N.° 387.— E muito possível que umas Endechas de Camões (Do la mi ven-
tura) e outras de Diego Bernárdez eram cantadas com a mesma música. Vid. C. M.
de Vasconcellos, Pedro Andrade Caminha, p. 38 ss.
(5) Eschola de Gil Vicente, p. 246. 1'cna c que não a publicasse integralmente.
aCX.I.VCES VELHOS 173
fazei autos a rolas veuvas que não riem nem põe pee em ramo verde,
nem bebem agua crara, e tudo são:
Parióme mi madre huma noche oscara! (1)
Lembro ainda que o verso figura na Ensaladilla (2), e também
que foi este cantar do Malfadado, se en armas dichoso, en amo-
res desdichado, e nao um romance parecido de Jorge de Mon-
temor (3), nem o jocoso de Quevedo (Parióme adrede mi ma-
dre) (4) que os poetas alemães Chamisso e Uhland imitaram
nas composições entituladas Pech e Unstern.
XL
Seguindo o exemplo dado pelo poeta cómico, vou juntar ao
romance de que acabo de tratar, o da Bola, geralmete cha-
mado da Fontefrida ou Fonte- fria por causa do Verso inicial:
Fonte frida, fonte frida (5), fonte frida y con amor
do todas las avecicas van tomar consolación,
sino es la tortolica que está viuda y con dolor (Pr. 116) (6).
Ao traçar o passo transcristo, António Prestes tinha na mente
sem dúvida alguma, os versos 7.° e 8,° d'esse poético cantar,
(i) Estes modismos vulgares, não os sei interpretar satisfactoriamente. O que
o poeta cómico quer dizer c que os personagens hão de dizer graças de arromba
que arrasem tudo, e que despertem desejos de outras mais, em ponto quasi tão
subido como assucar para rebuçados. — Pulhas «de entrudo» ou «de carreteiro».
(2) Estr. 3)Ingr. 18.
(3) Diana, Libro V: Citando yo triste naci luego naci desdichada,
(4) Duran, 1647.
(5) Luis Milan emprega a fórmula parodística
Fuente fria, fuente fria, fuente fria sois, setlur!
para motejar do gelo da frialdade de Don Diego Ladron. (Cortcsano, p. 155.)
(6) Impresso no Cancionero Generalas 1516. com glosa de Tapia (Andando
con triste vida) N." 439, e igualmente no Espejo de Jiiuimorados, linsayo N.° 451.
(Confer Cancionero Rennert N.° 263), no Canaonero de Romances ^Duran 1446) e
em diversos folhetos góticos (Sammlung, N.° VII e LXX1V de Pinar).
CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCtLLOS
em que a viuvinha, inconsolável como a Raquel bíblica, res-
ponde ao rouxinol que lhe oferece os seus servi'
[88] que ni poso en ramo verde ni en prado que t< nga flor,
(/>/<■ si dl agua hallo clara túrbia la bebia yo.
Do princípio d'esta réplica
[89] Vete de ahí, enemigo maio, falso, enganador (v. 7),
ou do fim da fala
déjame, triste enemigo maio falso mal traidor (v. 12),
ha duas reminiscências no próprio António Prestes: uma no
Auto do Procurador (p. 137), outro no do Desembargador
(p. 226). Ambas as vezes com a variante falso, maio, engana-
dor, que não é arbitrária. Aparece no Cancionero Musical (1)
e também numa Glosa de Carasa (2). Modificação volunta-
riosa, que rebaixa de dois tons a imprecação da torto rilha,
encontra-se nos Amphitriões de Luis de Camões, onde o prota-
gonista aplica os qualificativos
ladrão, perro, enganador,
a um dos Sósias, cujas informações, inconscientemente dispa-
ratadas, o enraiveceram (3).
(i) No 97. A música é anónima. — No texto ha variantes. A mais notável é o
curioso acrescento que hoy ha siete anos, que perdi mi buen amor/
(2) Cancionero Rétmert, N.° 40. O tema abreviado, bem diverso da lição mais
conhecida, diz:
Fonte frida, fonte frida fonte frida y con amor,
do todas las pajarijas van tomar consolacion
sino es la tortolica que está bibda y con dolor.
Nunca posa en ramo verde ni en prado que tenga flor,
y el agua qu 'e//a bebia turbia la hallaba yo.
Por ay pasó cantando el traydor dei rruisenor.
Palabras que le dezia llenas son de traicion:
«si te pluviese, senora de ser yo tu serbidor>>.
«Váyaste de ay, cruel, falso, maio, enganador,
á quien tan suia me hize no le haria traiçiún.»
O verso 2.0 e o último não estão em tipo espaçado na edição crítica do erudito
norte-americano.
(3) Acto IV, Scena IV. O Poeta fez também umas voltas graciosas a um can-
ROMANCES VELHOS 175
O delicado toma poético da rola- viuva é património inter-
nacional (1) e já ocupou vários folkloristas, como Grimm e
Reinhold Koliler (que náo desconheciam o romance peninsu-
lar). Ultimamente houve quem chamasse a atenção dos es-
trangeiros para quatro coplas populares portuguesas (2). Jun-
tarei mais uma que diz:
A rola que enviuvou
jurou de não ser casada.
Não pousa em ramo verde,
nem quer beber agua clara,
notando que é idêntica á dos Galegos que li ha dias na ad-
mirável edição crítica e comentada das Poesias líricas de
Luis Barahona de Soto, de D. Francisco Rodríguez Marín. Pois
diz:
A rida qu 'enviudou
xurou de non ser casada,
nin posar en ramo verde,
nin beber d'auga crara (3).
Como adição ás reminescências literárias que ahi mesmo se
transladam e são, além de uma estância da Egloga IV do ilus-
tar velho português {Apartaram-tt os meus olhos), em que temos og mesmos tres
adjectivos no plural:
Falsos a mores t
falsos, maios, enganadores.
Confer Primavera ic>7.a: traidora, falsa, malina.
(i) Conheço duas poesias árabes, dedicadas á rola, muito mais complicada-
mente artísticas do que o romance popular, no qual ainda assim alguns conhoce-
dores quiseram descobrir vestígios orientaes.
(2) O meu bom amigo, o excelente filólogo e íolklorista Dr. J. Leite de Vascon-
cellos, num artiguinho A Rola- Viuva na poesia popular portuguesa, publicado em
Modem Lançuage Notes, VoJ. XXI (p. 33), como adição a um estudo de Phil. S.
Allen (ib. Vol. XIX p. 175 ss). A quadra relativa ao rouxinol que junta em nota,
0 povo refere-a, segundo a minha experieneia, a gente enlutada, que de triste re-
cusa ouvir o canto de aves, ou outra qualquer música, tema nào menos universal
que o da Rola.
(3) Não seria antes: nin de beber ouça ciara:
CAROLINA MICHAtLIS DE VASCONCELLOU
tre «amigo de Gregório Silvestre (1), uni trecho de Lopo de
Vega (2) e outro de Luis de Velez de (.nevara ('■>), cisahini.-iis
duas, de interesse particular, porque mostram como a lenda,
já em si táo patética, de D. Inês de Castro, Foi realçada ainda
com outros motivos poéticos tradicionaes.
Na Tragédia famosa Reinar despué» de rnorir do segundo
dos dois dramaturgos, que já utilizei (sob N.° VI), náo faltam
agouros sinistros que alvoroçam o coração presago da infeliz.
No dia anterior á catástrofe sangrenta, ela sonha o sonho
do lião coroado que a separa dos filhinhos. Além d'isso, re-
para passeando nas videiras que se enlaçam em volta de
amieiros, e ouve uma rola-viuva que geme na sua solidão:
Apenas de nuestra quinta salí á caza esta mariana
cuando vi una tortolilla que entre los chopos lloraba
su amante esposo perdido (4).
E a mesma reminiscência encontra-se, em boca do Justi-
ceiro (!) naqueles versos apócrifos do fide-indigno A. Lourenço
(i) Já citei mais acima o título do Estúdio biográfico, bibliográfico y crítico,
premiado com medalha de ouro pela Real Academia Espanola. A p. 824 é que se
lê a anotação, e a estrofe a que pertence. Desculpem os que a conhecem, se a tres-
lado, a bem dos leitores portugueses:
Cual tórtola que pierde
su dulce y agradable companía,
que sola y sin abrigo está gimiendo
y, ajena de alegria,
ni posa en ramo verde
ni en cosa que le vaya pareciendo*
tal esto yo, delante no teniendo
tu claro rosfro, que llevó dei mio
las lumbres y dei alma los despojos,
usando ya tan mal dei sefiorío
que turban mis enojos
las aguas deste rio
con lágrimas sangricntas de mis ojos.
(2) Los Hijos de la Barbuda (Rivadeneyra XLV p. 134S).
(3) Los Melindres de Belisa. I. 1.
(4) Acto I. Scena VII.
ROMANCES VELHOS 177
( 'a minha já mencionados (1), em que andam baralhadas algu-
mas das Trovas de Garcia de Resende com outras de nova,
mas rasteira invenção (2). Sentado na câmara onde aquela se-
nhora jaz ferida, em uma camilha, e segurando-a nos seus
braços, é que D. Pedro improvisa entre outras cousas a es-
trofe seguinte:
E baste!
Oh crueldade tão forte
e injustiça tamanha!
viu-se nunca em Espanha
tào cruel e triste morte?
Contar-se-ha por maravilha!
Minha alma tão verdadeira,
pois morreis d'esta maneira,
eu serei a torturilha
que lhe morre a companheira (3).
XLI
Muito maior foi a popularidade de outro romance velho,
de tema c som tristonho, em que um prisioneiro sem-nome
descreve, cheio de saudades pesarosas, os efeitos que a resu-
rreição primaveril produz em todos os seres animados... que
gozam de liberdade.
Em fins do século xv ou princípios do xvi já existiam duas
( i ) Obras Inéditas dos nossos insignes poetas Pedro da Costa Perestrello coevo
do grande Luis de Camões e Francisco Galvão... e de muitos Anónimos dos mais
esclarecidos séculos da Literatura Portuguesa 1791.
(2) O editor salvaguardou-se, metendo-os entre as Obras Poéticas de vários
anónimos, as quaes os sábios ajuizarão de quem sejão, pela elevação c i\ liarão dos
differ entes estilos (p. 14).
(3) Exclamação á morte de Donna Inez de Castro quando o Sogro a veio matar,
fielmente traladada do seu Original antigo (v. p. 178). De passagem direi ainda,
eme na prosa em que esses versículos andam"aparece um Verso camoniano: Mtnlia,
it/ma, lembrai-vos d' ella como última palavra de D. Inôs! Note- se a torturilha,
vocábulo tào pouco usado em Portugal que patenteia a derivação de um texto
castelhano.
1-!
178 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
redacções, ambas com numerosas variantes. Uma puramente
lírica, tem apenas seis versos em -óe:
[90] Por May o era por May o (1) cu and o los (2) grandes calores,
cuando los enamorados van servir á sus amores.
sino yo, triste mezquino que yayo en estas prUionet,
que ni sé cuando es de dia ni menos cuando <-s de noche
sino por una avecilla que me cantaba ai albor:
Matómela un ballcstero! dele Dios mal galar don (Pr. 111).
Outra, muito mais extensa (com vinte verè03 de lamentações
em -ô), acaba com um epílogo narrativo (3). É a que começa :
Por d mes era de Mayo cuando hace la ralar,
cuando canta la colunaria y responde d ruisenor,
cuando los enamorados van á servir ai amor, etc. (Pr. 11 1 il ).
Não é impossível que ambas sejam destroços de algum cantar
juglaresco, relativo a um dos presos afamados de que se ocu-
pou o romanceiro épico: Sancho Diaz: Oonzalo Gústios; rei
D. Garcia (4); Fernan González; o paladino Reinaldos; o no-
velesco Vergílio, ou o conde Nilo (5). •
A lição mais curta apareceu na edição princeps do Canclo-
nero General (6) e em Pliegos Sueltos (7), passando depois ao
Cancionero de romances (8); foi imbutida na Emaladilla (9),
(i) Ou precedido de conjunção: Que por Mayo.
(2) Variante: las c.
(3) Oídolo habia el rey mandóle quitar la prisiòn. Creio que terá de prestar
atenção a este desfecho e a outros parecidos, quem tratar dos romances do Conde
Arnaldos e Sedução do Canto.
(4) Confer Depping, Romancero castellano (I p. 273).
(5) Na Antolo°ía XII p. 528, Menéndez y Pelayo nomeia Vergilios cujas rela-
ções com o Conde Nilo ou Olinos estão por determinar. Claro está que apesar
d'isso convém separar os temas, como fez D. Maria Goyri nas suas utilíssimas re-
gras sobre Romances que deben buscarse (vid. N.°, 22 e 74).
(6) Vol. I p. 550 da edição de 1882 (N.°, 464). Mas como ahi é tema de um glo-
sador, é provável que este abreviasse um modelo mais extenso.
(7) Vide Registrum de Cólon 411a, Ensayo II c. 550; F. Wolf, Romanzen-
poesie p. 6.
(8) Vid. Primavera 114 c Duran N.° 1453.
(9) Estr. 7, Ingr. 36: Por el mes era de Mayo. •
ROMANCES VELHOS
glosada por trovadores (IA, fixada musicalmente (2), levada
ao teatro (3), e perpetuada por todas essas vias na memória
da liarão, com fidelidade tâo carinhosa que ainda se conserva
na Andaluzia (4), na Catalunha (5), e em Madrid (6). Além
disso entrou inteira ou cm fragmentos, ora inalterados, ora
livremente retocados, em romances análogos, ou mesmo di-
versos, quer como intróito poético, quer como canto interca-
lado (7). Seis traduções para a lingua de Goethe atestam tam-
bém a grande aceitação que teve (8), ou antes o seu valor
poético.
O confronto das lições entre si,e com outros trechos pareci-
dos, relativos á noite de S. João, seria interessante, especial-
mente se recorrêssemos ao cancioneiro popular e aos canta-
res de gesta da França, onde notei numerosas descrições das
(i) Conheço três glosas. Unia é de Nicolas Nunez: Que por Mayo, no Canc.
. de 1 5 1 1 , no de Renuert N.° 125 e em diversas folhas volantes como a de
Praga XXXV, e principia:
Kn mi desdicha se cobra {Canc. Gen., vol I p. 5 5°)*
A segunda foi feita por Garci-Sanchez de Badajoz estando preso en una torre e
principia:
Si de amor libre estuviera (ib. II 5 20 do Canc. Gen., de 1527).
A liç.lo Por May o é intermédia, mais próxima de I do que de II. (Confer Kennert
13 e uma folha avulsa da Biblioteca Municipal do Porto). A terceira é do autor
anónimo da comedia Thebâyda (p. 257 da ed. de 1894): Citando el bien de vos me
vino. Confer Ensayo I c. 1 179.
(2) Vid. Çanc. Musical N.° 69, com texto desconexo, mas facilmente cofri-
givel á vista das outras redacções. Os [octonários 16 e 18 são variantes de 5 e 6.
(3) P. ex., por Alareon en Las paredes oyen (Acto III scena 9) com variantes,
pois diz:
Por mayo era, por mayo cuando los grandes calores,
citando los enamorados á sus damas llevan flores.
(4) Vid. Duran, Romancero N.° 372.
(5) Vid. Milá, Pomancerillo N.° 239.
(6) Vid D. Maria Goyri No 22, também com lindas variantes, que julgo já ter
lido ou ouvido. Cfr. Munthe II.
(7) Vejam p. ex. Munthe II; Almeida-Garrett II 174; Arch. Açoriano No 27 e
28; Kom. Madeira 80; Milá 239 e 240.
(8) Conheço versões de Platen, Geibel, Diez, Beauregard de Pandin, (Karl von
Jarigsen), o Anónima de Aarau, e Fastenrath.
780 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASC0NCELL0S
maiores três festas do ano (1). Mas isso nos levaria muito
longe. Restrinjo-me como devo, á prova de que o romanc
cantava na corte portuguesa, no reinado de D. Manuel, por-
ventura com a música publicada por Barbieri (2).
Também neste caso foi Gil Vicente quem o fez entoar nas
suas representações. Na Farsa Quem tem farelos? ou do Fidal-
go pobre, estreada em 1505, é o protagonista Aires Rosado
que o canta de noite, passeando diante da janela da ama-
da (3).
O octonário inicial reaparece duas vezes nos seus Autos.
Entrou num Quodlibet (Ensaiada por Gil Vicente guisada)
com que termina a Farsa dos Físicos ( 4 ); e na tragicomédia
satírica Romagem dos Agravados (5), composta para festejar
o nascimento do Infante D. Felipe (1533). Serve ahi de prin-
cípio de um romance, de oito versos inteiros, que na essência é
narrativo, sendo todavia transformado em composição lírica
de sete estrofes (cada uma das quaes consta dó* seis octoná-
rios e um quebrado) pela introdução de ura estribilho, e por
artes de leixaprem (6), afim de ser bailado e cantado por vo-
zes. Despido de todos esses accessórios, o texto com que
acaba a representação, diz:
Por Maio era, por Maio ocho dia3 por andar,
el ifante D. Felipe nació en Évora ciudad.
(i) Ha p. ex. descrições da Páscoa de Maio, Páscoa do Espírito Santo (Pâaues
fleuries) no Yvain, Gerard de Viane, Guillaume d'Orange, Gui de Bourgogne, etc. —
Confiram-se as quadras 410 a 414 do Poema de Alfonso XI.
(2) As ideias que Barbieri proferiu, louvando-se em Duran, a respeito de
Alonso de Cardona como suposto autor do romance, não tem base sólida. Por isso
não deviam ser reproduzidas por T. Braga (inexactamente, de mais a mais) na
Poesia Populai Portugueza (p. 339).
(3) Vol III p. 19: Por 'May o era, por May o.
(4) Vol. III p. 323: En el mes era de Mayo.
(5) Vol. II p. 531: Por Mayo era por Mayo. Só por engano o leitor é remetido
ao Triumpho de Inverno na Poesia Popular Portugueza (p. 340).
(6) O squema vem a ser xaxaRXR. Os versos 3 e 4 da estrofe primeira re-
petem-se como 1 e 2 da segunda, e assim por diante. Como se vê no Cancioneiro
Musical, esta arte de leixaprem (trovadoresea) foi aplicada a diversos romances e
algumas cantigas;
ROMANCES VELHOS 181
No nació en noche escura ni tampoco por lunar,
nació cuando el sol decrina sus rayos sobre la mar.
En un dia de domingo, domingo para notar,
cuando las aves cantaban cada una su cantar,
cuando los árboles verdes sus frutos quieren pintar, (1)
alumbró Dios á la reina con su fruto natural. 2)
XLII
Outro fragmento lírico, mais artístico do que popular, que
também é o desabafo de um desgraçado, mas d'esta vez revol-
toso, é o que diz:
[91] Maldita seau, ventura que asi me haces andar (3)
desterrado de mis tierras de donde soy natural,
por amar una seiíora la cual no debia de amar.
Adaméla por mi bien y salíóme por mi mal,
porque amô donde no espero galardones alcanzar:
por hacer placer á amor Amor me hizo pesar.
Como tema de uma glosa (de Nicolas Nufiez) entrou não só na
edição princeps do Cancionero General (4), mas também em
folhetos avulsos (5), e no Cancionero de romances. Uma glosa
incompleta e deturpada, de Pinar, encontra-se no Cancionero
Eennert (6). Outro texto mais extenso (de 16 versos), antepõe
á exclamação o dístico aparentemente estranho
De la luna tengo quexa y dei sol mayor pesar:
siempre lo hubiera por eso de no dexarme holgar!
(i) Talvez: querian?
(2) Ordenárão-se todas as figuras como em dança, e a vozes bailarão e cantarão
a cantiga seguinte. E com esta musica e dança se sahirão e fenece esta última tra-
s,i comédia (1533).
(3) Duran 1448 ( 6 versos). — Variantes: 3 á u. s. — que no deviera amar.
(4) Partido de mi bevir. — Canc. Gen. N.° 443 e 444, (Vol. I p. 538).
(5) Pragtr Sammlung, N.° VII (p. 7 e 131).
(6) N.° 60 e 61 De chica culpa gt an pena. — Só consta de três décimas. Na
terceira o verso glosado diz:
adamar una seiiora que no deviera amar
0 <[t:e imo dá sentido),
/
182 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
e faz seguir no fim uma descrição entusiástica d;is feiçOes e
da figura da amada. Assim completado, o romance tem por
título Romance que hizo ungalán, alabando á 9% amiga [1). Esta
segunda parto narrativa começa:
• Yo me amaba una senora <ju<' en el mando no hay 8U par (2).
Em Portugal parece que só o fragmento de sois vor
estava em voga. A maldição entrou, na liç&o que trasladei,
na Carta d' Africa.
Vejo desfeitos em vão
todos meus contentamentos;
porém os meus pensamentos
não cansam nem cansarão:
se a alma mais que a vida dura,
maia que a vida hão de durar (3).
Maldita seas, ventura
que assi me liazes andar (Estr. 7) (4).
(1) Praçer Sammlung N.° VI p. 128; transcrito na Antologia IX p. 221. Ahi
mesmo ha a p. 349 copia "de outro folheto gótico, com algumas variantes. O verso
que nos interessa, diz no primeiro:
Maldita sea la fortuna que asi me quiere tratar,
e no último: que así me f ti era ã tratar.
(2) Outros romances ha que, principiando de modo parecido, são totalmente
diversos, muito embora um d'eles siga o nosso (Cahcionero Rennert 2 p. 152), ou
ande mesmo fundido com ele. Começa:
Yo adamara una donzella blanca y de bel parecer;
existe fragmentário com a variante
Amara yo una senora y améla por mas valer,
e foi acabado por Quirós (Canc. Gen. I 560, N.° 457). — Outro que diz:
Yo me adamc una amiga de dentro en mi corazon.
(Duran 1456) foi glosado por Alcaudete. (Vid. Salva, N.° 2;e Ensayo N.° 90, 91 92).
(^) O texto está defeituoso nas edições de Juromenha e 1'raga; mas já foi res-
taurado devidamente por Storck.
(4) Em Hespanha, Florencia Pinar utilizou o primeiro octonário no Jogo de
Xaipes que fez para a Rainha I). Isabel; isto é antes de 1504. Vid. Canc. General,
N.° 875 (Estr. 38), Vol. II p. 93,
H0MANCES VELHOS
XLIII
Outro cantar, inteiramente artístico, ministrou ao autor
das Cartas d' Africa não uma, mas três sentenças muy tristes
e doloridas, E' o que principia:
Esperança me despide, el galardon no parece;
[92] plazer no sabe de mi cuidado no me fallesce;
[93] quando más pienso alegrarme mayor pesar (1), me recresce;
[94] el dia que ha de ser triste para mi solo amanesce (2).
Eis o teor das paráfrases:
O mór mal que ca padeço Poderá eu viver contente
é ver quanto sem razão com (3) saber que estava lai
outros olhos lograrão a que é causa de meu mal,
o que eu por amor mereço. por me não ter lá presente.
Isto tanto me entristece Mas por quão mal lhe merece
que depois que estou aqui meu amor tão maltratar-me,
plazer no sabe de mi, quando más pienso alegrarme,
cuidado no me falece. maior pasion me recrece.
(I, Estr. 12; (I, Estr. 16)
Quem disser que saudade
é vida para gabar,
se o disser de verdade,
di-lo-ha para me enojar.
Vida que a alma entristece,
em que toda a dôr conBiste,
el dia que ha de ser triste
para mi(m) solo amanece (II, Estr. 10)
XLIV
Resta-me falar de dois cantares líricos, anónimos, que es-
tiveram muito em moda desde fins do século xv, quer fosse
pela sentimentalidade trivial dos motivos, que se prestavam
(i) Duran 1394 {Cancionero General N.° 453). Ha outra redacção mais resumi-
da (N.° 1395)-
(2) Nos Camioneros está plazer; no texto português ha pasion.
(3) Como, nas edições de Juromenha e Braga.
184 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
a infinitas variações, quer pela graça insinuante das respecti-
vas músicas.
Um d'eles, chamado romance Indevidamente, pois consta
de quadras diversamente aconsonantadas {abba ou àbab), e
uma lamentação saudosa sobre o bom tempo passado, bom
principalmente por ser passado., tema realmente universal e
im-morredoiro.
Se nâo for no Cancioneiro Geral português, não posso di-
zer, onde se publicou primeiro. Provavelmente em folhas vo-
lantes perdidas. Mas antes que a arte de Gtatêmbevg se apo-
derasse d'ele, talvez já corresse em cadernos escritos (peque-
nos Cancioneiros de mão), a nao ser que se propagasse exclu-
sivamente nas asas do bel-canto. (1) Começa:
[95] Tiempo bueno, tiempo bueno quien te mo llevó de mi? (2)
que en acordarme de ti (3) todo plazer mo os ajeuo (1).
Por infelicidade, nenhuma composição musical corresponden-
te entrou nos diversos libros de vihuela do século XVI. Mesmo
o texto d' essa vulgarização do dantesco Nissun magior dolo-
re deixou de entrar em Cancioneiros e Romanceiros. Seria por
já lhe faltarem os atractivos das cousas novamente feitas/
Conhecemo-lo apenas peias glosas que provocou e pelas
numerosas menções honrosas que teve.
Eis as castelhanas de que me lembro: Simplez citações da
primeira quadra na Ensaladilla de Praga (5), e em outra di-
(i) A linguagem é um tanto arcaica. Não nos vocábulos, mas nas construções
e no modo de dizer (veja-se p. ex° o dativo ético me; o emprego de simiente como
termo colectivo, com o verbo no plural). Quer-me parecer que lhe falta a elegância
das cantigas palacianas posteriores a 1500.
(2) Julgo que esta é a redacção mais antiga. Ha todavia as variantes:
quien te me aparto de mi
quien te aparto de mi
quien se te llevó d' aqui
quien te me llevó r/' aqui.
(3) Variantes: que en solo pensar en ti.
(4) Variante: todo el p. m' es ageno. —Em 1880 juntara as que então conhecia
(numa Nota publicada em Zeittchrift V p. 77)
(5) Estr. 12, Ingr. 70.
ROMANCES VELHOS 185
versa, contida num caderno de Chistes hechos ]><>>■ diversos au-
tores por gentil modo y estilo naevamente impresso (1) Citação
do primeiro verso duplo no Auto dkl Tkiuxpiio dkl Sacka-
MENTO (2); só do heraistíquio inicial, numa Trova de Bos-
can (3).
(ilosas: Io) de Marquina Por la gloria antepasada, de três
quadras, num Pliego Suelto de c. 1530, descrito por Salva (Ca-
tálogo N.° 60) (4).
2o) de cinco quadras; de Cristóbal Velázquez de Mondra
gon: Oh enganosa e inconstante) transcritas no Ensayo N ."424s,
também de um folheto gótico, s. 1. n. a. (5).
3o) de seis quadras; de Castillejo: Oh vida doce y Sabrosa,
impressas na Biblioteca de Autores Espanoles, Vol. XXXII p.
121, e contidas no manuscrito analizado por Gallardo no Ensa-
i/o N.° 1678 ir,;.
4o; de três quadras; por um anónimo que talvez seja Bur-
guillos: (7) Oh triste ventara tuia, impressas em J'o,nanis<-lir
Studien Vol. XIV p. 227, segundo o Cancionero de Oxford (8).
õ°j de cinco, incompletas; obra de ura anónimo que tal-
vez seja o Dr Viilalobos, publicada no Cancionero de Nájera .
por Morol-Fatio, em t/Espagne au A 17' • et A 17/ ° siecle, N.°
LXXIX: Oh memoria de mi rida.
(i) Conserva-se na Biblioteca Nacional de Lisboa numa Miscelânea preciota
de folhetos antigos ( I3Ô). — Varias das cantigas que o caderno de chis-
tes contém, popularizaram-se em Portugal.
(2) Rouanet, Autos, Farsas y Colóquios, Vol. III p. 365.
(3) Ed. Knapp, p. 159.
4) Sob N.° 84 Xota, Salva regista uma glosa contida em outro Pliego Suelto*
mas sem indicações exactas.
(5) Variantes: Octonário 7 Auiujue, 8 las simientes, II e 13 como, 1415 atuído
fuè mayor mi estima, contemplando lo pasado, 17 con tanto da H o presente, 19-20
</ue bueno y ma/o me enoja, cuitado dei que lo s/ente.
(6) Vol. II c. 289. Tem Prólogo a el Rey, datado de 1 54 1 . Divergências do
texto publicado na Bibl, de Aut. I''.sp\ 5 tiempo fne, 14 estima, 15-16 la memoria me
lastima contemplar en lo pasado. 2 2 ansi.
(7) No MS. Goi (f. 750) da Bibl. Paris. Ulua glosa que principia Ok triste ventu-
ra mia é atribuído a esse poeta.
(8) Foi publicado em 1880 em Romanische Porscliuneen por K. Vollmoller.
186 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
6° e 7°) de Joaquin Romero de Cepeda, Obras Ed. 1682
a f. 86 e 57 (1), segundo Grallardo, Èn$ayo 8707 (2).
8o) de um anónimo, no Cancionero de Paris N.° 60o l.
264 v-); talvez inédita (3).
Em Portugal, cinco das quadras, entituladas Rrymançe
foram impressas em 1516 no Cancioneiro Geral, com glosa de
Garcia de Resende que principia
Los tiempos atrás passados ( 1).
Em castelhano, como se vê.
Cuanto a referências, temos na Ulysipo f. 103) o trecho
significativo, já acima transcrito (5), em que um personagem
interrompe citações insulsas de o:tro, advertindo-o, cheio de
ironia, de que se se empègasse naquele ma re-magnum , nem
mesmo fateixas de Tiempo bueno, nem arrepiques de Rey don
Sancho o tirariam a lume (f. 103).
Na Carta I d' Africa serve de remate a uma estrofe:
Tudo *ão queixas em vão
e tudo são vãos clamores:
capitão contra os moradores,
eles contra o capitão.
Emfim tal vai tudo aqui
que brada grande e pequeno;
Tiempo bueno, tiempo bueno,
quien se te llevó cf aqui? (Estr. 21).
Na Elegia amorosa portuguesa de Andrade Caminha (6),
(i) Tenho em conta de variante da copla final de Tiempo bueno o Mote alheio:
Todo me cansa y da pena;
no sé qué remédio escoja,
que si la vida me enoja,
tampoco la muerte es buena.
(2) Nunca vi estas Obras, por isso ignoro se ha voltas da i.a quadra, ou uma
glosa do cantar inteiro. Km Madrid não deve ser difícil a verificação.
(3) Morcl-Fatio, Catalogue des Manuscrita Espagnols et Portugais, p. 213.
(4; voi.nip. 584(f. 217).
(5) Sob N.° V, 14.
(6) Poesias, Ed. 1791, p. 176.
ROMANCES VELHOS 187
que encerra dezaseis girõas castelhanos, citam-se os mesmos
dois octonários:
—Este bem (i) a meu mal faita
porque venha a faltar tudo,
* e a alma assim se sobresalta
que ora grito, ora sou mudo,
ora a voz é baixa, ora e alta.
—Choro o tempo que perdi,
fermcso, brando e sereno,
só pelo que nele vi.
Tiempo butno, tiempo bueno,
quien te me llevó (2) de mi? (Estr. 10)
Do mesmo quinhentista áulico existe a paráfrase de uma
esparsa graciosa que, principiando
Tiempo de placer cumplido
e terminando:
quien te me llevó de mi?
claramente se patenteia como a estância segunda de uma das
diversas glosas de Tiempo bueno (3). E realmente faz parte
da 4.°, que registei (4),
Tiempo de placer cumplido,
aunque para mi cruel
pues ya lo ten#o perdido,
tiempo que después de ido
se me va el alma trás él!
Quan contento me hallara
y quan contento quedara
ai tiempo que te perdi,
si tal ventura alcançara
que la vida me llevara!
Quien té me, aparto de mif (5)
No s<V,ulo xvil Simão Mai-luido (c. 1.560 c. L632J ainda ci-
( ) morrer cedo.
(2) I. levou, com um quarto ú castelhana, e outro á portuguesa.
(3) Poesias inéditas, X.° 465, comentado a p. 557.
(4) Reparei neste facto post-festit/n (a 3 de Maio de 1907).
(5) Na poesia de Caminha falta o verso 3.0, talvez de propósito. Variantes: 6
Oh. q. c.-j y qtian alegre 10 llevó.
188 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASC0NCELL08
tava o romance, provavelmente de memória. \;i Comédia
mágica de Alfea mudou-o em
Tiempo bue.no, tiempo bueno,
mal me aproveché de ti! (1)
Rodríguez Lobo também o cita (2).
XLV
O outro cantar lírico é o celebérrimo da bela malmaridada.
Entre todos quantos deixo aqui consignados, talvez esse seja
o que durante século e meio inspirou maior número de vates
e de compositores (3). Conforme já o disseram investigado-
res castelhanos, não seria difícil escrever a respeito d'ele um
opúsculo, em lugar de uma nota (4)
A parte mais divulgada é a inicial:
[96] La bella mal maridada [96a] de las mas lindas que vi (5),
si hábeis (e>) de tornar amores, vida no dejeis á mi (Pr. 142) (7)
(i) Foi. 151 da ed. de 163 1.
(2) Obras, ed. 1723 p. 749.
(3) Gabriel, o Músico; Luis de Narvaez; Valderrabano; Juan Vázquez.
(4) Vid. Milá, Poesia Herôico-Popular p . 393; C. M. de Vasconcellos, Poesias de
Sá de Mii anda , Halle 1885 p. 747; Barbieri, Cancionero Musical p. 105; Jeanroy,
Origines de. la póesie lyrique; Francisco Rodríguez Marin, Luis Barahona de Soto,
p. 715; Antologia XII 503 ss; T. Braga, Poesia Popular Portuguesa p. 239.
(5) Também se dizia de las lindas que yo vi e por fusão das duas lições: de
las mas lindas que yo vi.
(6) Ou: si lias, seguido naturalmente de no dejes.
(7) Variantes: no dejeis por otro ã mi, ou por otro no dejeis ã mi. Nas glosas
que examinei es?e hemistíquio é sempre tomado no sentido de: no me dejeis vida.
Os editores do romance, pelo contrário, põem vírgula depois de vida, comos e com
esse vocábulo o poeta apostrofasse a Bela, tão infeliz e tão infiel. O verso
ti hábeis de tomar amores por otro ã mi no dejeis
no Romance das Senhas do Marido, de Juan de Ribera (Pr. 156), em -é, parece ser
reminiscência do divulgadissimo texto.
ROMANCES VELHOS 189
Era todavia frequente variar, dizendo:
miérribresete (1) cuan (2) amada, seiíora, fiaste de mi;
ou então
véote tristet enojada, la verdad (8), dímela a mi.
Esta última lição parece ser a primitiva (4).
Mas como (por um d'esses descuidos de poetas semipopu-
lares, de que não faltam exemplos) os quatro hemistíquios
iniciaes. formassem uma quadra: (abai) com as eonsonâncias
perfeitas ada-i ada-i, esta desprendeu-se do conjunto, divul-
gou-se avulsa (e provocou a variante miemhrese-te quan ama-
da), emquanto, pelo outro lado, retocadores escrupulosos anu-
laram o que era excesso de rima no princípio de um cantar
narrativo, e introduziram a lição, a que dei lugar de prefe-
rência.
Em vista d'isso, não admira que a poesia fosse tratada ora
como cancion antiga ou como copla a que faziam voltas os
que só olhavam para os primeiros quatro octonârios, ora como
cantar, ou corno romance pelo3 entendidos (5).
Composto de 26 versos, assonantados em -i, de sabor tra-
dicional, o texto que se conserva, acolhido bastante tarde
num cancioneiro de romances (6), consta de dois actos. O
primeiro é um dialogo entre o seductor e a mal-empivgada
ou mal-casada. No segundo, intervém o marido velho, como
vingador da sua honra manchada. Do desfecho— formado pe-
(i) Var: acuérdate,
(2) Cuando (no Cancionero Rennert N.° 230) é lapso.
(3) Em geral, segue-se então o verso
Si has de tomar amores vida no dejes á mi
que nas remodelações é 2.0.
(4) Var: la razón.
(5) Os compositores musicaes deram-lhe o título de Villancico, injustificada*
mente, isto é sem observar em as regras da Poética. — Também houve um autor de
voltas (Rennert N.° 230) que procedeu assim.
(6) O de Sepúlveda (1551). Vid. Primavera 142; Duran N.° 1459; Antologia
XII 505.
CAROLINA MICHAtLIS DE VASCONCELLOS
lo motivo do enterro nâo- sagrado dos que morrem de amor —
logo direi duas palavras.
Quanto a glosas e voltas, nao ha (que eu saiba) nenhuma
do texto inteiro. Uma única, de que ainda falarei, abrange on-
ze versos (a parte primeira, incompleta, do pequeno drama).
É de Quesada (1). Quanto a Juan de Zamora (2), autor de ou-
tra, perdida, nao sei se procederia do mesmo modo.
Todas as restantes são de poetas de renome (a começai' ena
1515 com Gil Vicente e a acabar com Lope de Vega e Queve-
do, perto de 1650). E quer sejam sérias e sentimentaes, quer
burlescas e irónicas, quer transpostas ao divino, só parafra-
seiam a quadra inicial. As citas até se restringem aos dois
hemistíquios La bella mal-maridada de /as mus lindas que vi,
proverbiaes jâ a princípios do século, pelo menos em Portugal.
Alguns dos versificadores do Cancioneiro Geral serviram-
se d'eles.
1.° O cortesfio Nuno Pereira, despeitado contra D. Leo-
nor da Silva, inspiradora do processo do Cuidar contra o Sus-
pirar, porque atinai casara com outrem, em tempo que ele a
servia, dirigiu-lhe versos satíricos que tem mais sal do que a
maioria das imitações, comquanto o sal seja grosso. Neles tra-
ta-a de donzela mal-maridada (Vol. I. p. 250. f. 33a).
2.° Outro palaciano, Jorge de Silveira, reforçou a nota,
dizendo-lhe:
por vós fizesteis lembrar
a gentil mal-maridada; • ,
por vós a vereis cantar... (ib. p. 255. 33°).
3." Clareia de Resende, tendo de mandar novas da corte
ao capitão da Mina, aludiu á mesma ou a outra dama;
a que sabeis que casou
que diz que é mal-maridada (III. 576. f. 215 f).
(i) Vid. Duran, Catálogo N.° 16; Salva N.° 108. Convém conferir os Pliegos
Sueltos, descritos por Duran sob N.° 12 e 25, com os da Sammlung de Praga
N.° LVII e LXII. Não entrou em Cancioneiros.
(2) Num folheto comprado por Fernan Cólon em 1524, o romance da Bella (?)
era atribuído a um poeta d'esse nome, aliás desconhecido, se as indicações do Re-
ROMANCES VELHOS
O curioso, que procure o resto, pois não deixa de ser digno de
nota.
4.° Gil Vicente parodiou, em linguagem de preto, a co-
pla primeira, juntou-lhe uma volta que traslado, para facili-
tar a procura do modelo e de imitações ulteriores. Na tragi-
comédia da Fragua d' Amor, representada na festa do despo-
sorio de D. João III com D. Caterina d' Áustria (na ausência
dela no ano de 1526), um Negro, vindo de TordesiUas, prova-
velmente no séquito de D. Caterina, canta na lingua estereo-
típica dos Africauos levados a Portugal e Hespanha:
Le bella mal maruvada
de linde que a mi ve
vejo-ta triste nojada,
dize tu razão puruque.
A mi cuida que doromia
quando ma foram cassa;
se acordaro a mi jazia
esse nunca a mi lembra.
Le bella mal maruvada
não sei quem cassa a mi.
Mia marido não vale nada
mi sabe razão puni que (1).
5o) No Triumpho do Yeráo dá-nos outra paródia; d'estavez,
em forma de dueto de ura casal popular (torneira e ferreiro).
Ela canta:
Marido mal maridado
dos mores ladrões que eu vi,
vejo -te mal empregado,
mas peor vejo a mi.
E ele replica:
Tu velha bem maridada
das mais bravas que eu vi,
vejo-te mal castigada
porque eu hei medo de ti.
"istrttm forem exactas e completas. — Km outro, que o mesmo comprou cm 1513
em Tarragona, la Bella constava de Coplas, cujo último verso terá tristt para mi
denota divergência dos textos conhecidos.
(1) Oh as, Vol. II p. 333.
192 CAfíOLlHA MiCHAÉLIS DE VASCONCLLLOS
E continuam com cinco voltas, dialogadas (todas em *aàa -í >
alegres; e com certeza muito aplaudidas na representação
de 1526 (1).
6o) Na Rubena, a feiticeira prediz que o demo havia de
cantar de voz em grito, no acto de as fadas levarem a Cisme-
fía, caracterizando-a como uma de las más lindas </ue vi (II 29 .
7o) Na Farsa da Lusitânia I {&&%) duplica as cita«
Temos primeiro um galan de los mas lindos que yo vi (Til 299 .
Logo depois, são as aves que hão de entoar por alvorada no
noivado platónico de Lusitânia com Mercúrio, o cantar
la bella mal maridada,
mal gozo viste de ti,
dito que parece aludir ã scena final, trágica, do romance.
Uma das testemunhas d'esse acto lamenta a sorte da mal-ca-
sada e mal-empregada, exclamando:
;Guayas de ella y de su vida,
de su cuerpo y su lindeza
y de su gracia vellida!
jA quê manos es vertida
la flor de la gentileza!
Temos ahi, aparentemente, o modelo para uma volta agressi-
va e compassiva, em que um poeta de origem portuguesa cen-
surou em 1557 em castelhano (no Caucione ro de Antuérpia)
os que glosavam o velho cantar, nos conhecidíssimos versos:
Oh bella mal maridada
á que manos has venido!
Mal casada y mal trovada,
de los poetas tratada
peor que de tu marido!
No es para tener querella
que, en sirviendo á una casada
aunque no Io soa ella,
en la primem embajada
va la glosa de la Bella?
(i) Vol. II 485-486.
ROMANCES VELHOS 193
8°) Na comédia Os Estrangeiros (Acto III, scena 13), o
sentencio3o Francisco de Sá de Miranda não vai mais longe
do que os versificadore3 do Cancioneiro. O doutor da peca
apregoa os grandes privilégios que teriam as mulheres dos
doutores, se os entendessem; mas o truâo retruca: que negra
consolação! ', principalmente para las bellas mal maridadas! (1).
9o) António Prestes emprega uma vez a fórmula casado e
bem-maridado (p. 216); outra vez casada e maridada—de las
mas liadas que vi (p. 304). Finalmente aplica-a, em sentido de-
rivado, a um engano. Ahi (p. 113), de los mas lindos que yo vi
equivale ao modismo: de marca maior.
10°) No Auto das Regateiras do Chiado (p. 65 da ediçáo
moderna), lê-se: E vós, bella mal-ma vidada — de las mas lindas
que yo vi.
11°) No Auto de Rodrigo e Mendo cita-se o segundo he-
mistiquio (2).
12°) Mesmo Jorge Ferreira de Vasconcellos nao adianta
nada. Na Atdegraphia (f, 46) diz de uma mulher esquiva:
Aquella bella mal-maridada não se toma com fita vermelha.
Glosas e Voltas sâo, ao contrário, raras neste país. Pos-
terior a < i i 1 Vicente ha uma Esparsa em diálogo, de Christó-
vam Falcão — a uma mal-empregada — que mostra de que fonte
deriva, pelo tema e pelas rimas.
Elbj
Solteira fôreis, senhora!
Vira-vos viver contente!
Ainda que o eu não fora,
fora eu só o descontente.
Mas ver vos mal «empregada!
triste de vós e de mi !(m)
de vós— por serdes casada
e de mim— porque vos vi.
Ela
Oh enganoso casar!
oh casar cheo de enganos!
(i) P. u da edição de 1784.
(2) Eschola de Gil Vicente, p. 331.
18
194 CAROLINA MICHAÉLI8 DE VASCONCELLOS
Se eu tal pudera cuidar,
solteira fora mil aunos!
Mas fui, triste, enganada!
Com enganos me perdi!
Inda m'eu veja vingada (1)
de qnem se vingou de mi(mj!
Umas voltas de Sá de Miranda (com as mesmas rimas:
-ada -i -i -ada) A este cantar velho: Doíla bella mal maridada,
ou, segundo outro manuscrito: Aquela cantiga velha Dona
bella cm letra castelhana (2):
Asi que aquella hermosura,
jamás vista sin espanto,
]a gracia y desenvoltura,
todo se es mudado en llanto!
Suerte tan presto mudada,
tan envidiosa de si!
Doncella dichosa ausi,
y duena tan desdichada!
No sé que me diga, ó á quicn
culpemos en mal tamaíi".
No se ayuda tanto bien
sino para tanto dano.
En todo tan acabada
— dije yo luego que os vi —
no nacistes vos asi
para ser bien empleada.
Entre os versos de D. Francisco Manuel de Mello ha na
Avena de Tersícore (II 71), um romance, ou elogio de chança,
em que a própria Bella fala, dizendo-se Biudilla mal mari-
dada. Em nada mais se semelha á copla antiga.
Não sei se Gil Vicente se serviu da composição de Gabriel,
um dos músicos mais afamados dos Reis Católicos e poeta do
Cancionero General; mas com certeza não se serviu das pala-
vras do texto, tal como anda na colecção publicada por Bar-
bieri.
(i) Ed. de 1871 p. 21. — Confer Revista Lusitana IV, 156.
(2) Poesias de Sá de Miranda, ed. C. M. de Vasconcellos, Halle 1886 e p. 747.
O tema da casada sem piedade, que lá cito, não se deve confundir com o da mal
empregada ou mal casada, como os Portugueses deziam e ainda hoje dizem de
preferencia.
ROMANCES VELHOS
O véote que repete nas três imitações, mostra que a lição
então propagada na Corte de D. Manuel, era a que tenho em
conta de primitiva do romance (1).
Junto a lista das voltas e glosas castelhanas de que sei (2) —
lista que apesar de constar de trinta e tantos números, de 27
poetas, ainda está incompleta (3). Tão numerosas foram que,
além das ironias já mencionadas de Gregório Silvestre, houve
outras, p. ex. de Jerónimo de Arbolanche que se gabava, ci-
tando entre as muitas cousas literárias que nâo fazia, a de nâo
cantar de coro:
Ni d la mal maridada bella glosas— Hago... (4).
Io) Gabriel, el Músico: Mira como por quererte. — Canc.
Mus. N.° 158 (5).
2o) Quesada: Cuando amor en mi ponia. — Pliego suelto,
descrito por Duran, Catálogo N.° XVI, e Salva N.° 108 (6).
3o) Juan de Zamora. Terminam: Será triste para mi. Vid.
Registram 3967. (Ensayo II c. 541) e 4048 (ib. 547) (7).
4o) Velazquez de Mondragón: Las gradas que repartia.
Ensayo 4248.
(1) Os Libros de Musica de Narvaez (1538) e Valderrabano (1547) são poste-
riores aos Autos de Gil Vicente. Todas as três composições musicaes da Bella
foram reimpressas por Barbieri. Vid. N.° 158 e p. 607 e 609. — Ainda ha outra
música de Juan Vázquez {Ensayo N.° 4186). — Segundo Milá, Poesia Heroico-Po-
pular p. 393, um canto espiritual era cantado em Valência ao som de La Bella.
Uma poesia religiosa de Ocafia (f. 21) cantava-se também ai tono de La Bella.
(2) Em geral é a primeira quadra què aparece com o Mote, seguida de estro-
fes de oito versos cuja última rima k-i (abba cddc).
(3) Falta nela p. ex notícia exacta de umas voltas de D. Fadrique Enriquez;
das de Burguillos, e de diversas que fazem parte de Comedias de Lope como
La bella mal maridada; L^a adúltera perdonada; Los locos de Valência; El acero de
Madrid.
(4) Ensayo N.° 237.
(5) Quanto a Juan Vazquez (Ensayo N.° 4186) ignoro se a sua composição mu-
sical se referia á copla, ao romance, ou a alguma das voltas.
(6) Confer Duran Catálogo XLI c XXV, Sammlung LVII e LXII.
(7) O nome Juan de Zamora só se menciona num dos folhetos. E das indica-
ções dadas não se vê, se o romance em si era atribuído àquele autor, oujuma glosa
das Coplas en es/anol.
196 CAROLINA MICHAÉLI8 DE VASCONCELLOS
5") Games: Llorar quiero d mi y a ti. — Canc. Renneri
N.° 230.
6o) Castillejo: Mal caçada sin ventura. -Biblioteca dê Au-
tores Espanoles, Vol. XX XV p. L30. No tema ha a variante: es
gran dolo r para mi.
7o) Jorge de Montemor: A unafea que mando glosar La
Bella; e Bien acertara natura em Obras de amor, Ed. 1.631 f. 61 «
Cancionero f. 163; outras coplas a f. 42.
8o) Gaspar Gril Polo: Amor cata que es locura, — Diana,
Libro III (p. 300 da ed. de L886).
9o) Alonso Pérez: El súl se rios eclipso . — Diana , Parte II
Libro VI p. 382 da ed. 1622; e outra vez a p. 387 Si el tem-
piado venteztco.
1<>") Diego Hurtado de Mendoza: Al tiempo que el cièlc
quiso, Ed. Kiiapp p. 414 ou Bibl. de Aut. Esp. XXXV p. 99).
1 1") Coloma: Ilizoos de tau alto ser.- Cancionero de Ná-
jera, Ed. Morel-Fatio p. 509.
12°) Pedro de Padilla: Naturatezà esmerar. Romancero
p. 437. — Feas pudo Dios criar, p. 438. — Gran razón tiene la
bella p. 439.
13°) Gregório Silvestre: Oh que desgracia ha venido. — Quê
os fatigue a vós la bella. — Qué desventura ha venido. — Muy
grande locura ha sido.— Canc. Ined. Paris. X." 601 f. 278; 177 e
178 v Obras ed. 1588; o último] n." Canc. Gen. II p. 602
(Ed. 1557 f. 391 v); Bibl. de Aut. Êèp. XXXV p. 130; Garcia
Pérez, Catálogo 524 ss.: F. Rodríguez Marín p. 717.
14") Licenciado Ximénez: Casi estoy mararillado. — Gar-
cia Perez, Catálogo p. 527 d).
15") Barahona de Soto: Alma delicada y bella. — Ed. Ma-
rín p. 593. — Que donoso casamiento , ib. 584 (burlesco) e (íarcía
Pérez 526.
(i) No Canc. Inédito Paris. No 6ol a f. 175 v ha uma composição de um Le-
trado a Gregório Silvestre que principia Casi estoy desesperado. Julgo será do Li-
cenciado Ximenez, predecessor do Português como organista da catedral de Gra-
nada, e autor do Hospital de Enamorados, publicado por Luis Hurtado de Toledo.
As \ nltas Que os fatigue a vós, la Bella são no mesmo ms. Respuesta ai letrado-,
Cír. Garcia Pérez p. 528.
ROMANCES VELHOS
16°) Diego de Carvajal: Quando nos quiso mostrar. —
Canc. Ined. Paris. 602 f. 84.
17°) Bernardino de Ayala: Hanse en mi favor mostrado,
ib. f. 85.
18.° Diego de Fuentes: Despues que naturaleza. — Obras,
ed. 1.663.
19°) Anónimo: El bien de su natural. Canc. Ined. Paris,
601 f. 276 *,
20°) O es defecto de natura. 602 f. 71.
21°) — Oh quan <le.sdicb.ado estado, 602 f. 86.
22° — Duruiiendo anoche sonára., ih. f. 192.
23°) La bella que Dios crio, 601 f. 135 v.
Ao divino:
24°) Ocafia, Si me adurmiere, madre. — Obras eá. 1603
f. 21.— Vid. Ensayo 3257.
25°) Gregório Silvestre: Gran cosa es el alma mia. —
Bibl. de Aut Esp. XXXV, 833 c. 12. Imagen toda hermosa.
Com relação a citas em poesias, novelas, comédias espa-
nholas, escolho apenas a ancedota do cego que canta á porta
de uma dama o romance da Bella, sendo apedrejado pelo mari-
do, a qual foi contada no Cortesano de Luis Milan, p. 12; uma
Lembrança de D. Francesillo na sua disparatada mas tao cu-
riosa Crónica fcap. 7); e a circunstância, que mesmo em Autos
sacros se entoava sem pejo esse cantar trivial e velhaco (1),
muito embora só saísse da boca do bobo.
Quanto á scena final do romance, já me ocupei d' ela (2 .
sem de modo algum exgotar o assunto. Entre as adições com
que podia enriquecer o artigo que em 1891 dediquei ao tema
universal e lírico do mal de amores e enterro fora do recintos
(i) Veja-se Rouanet Autos Vo). I p. 172 (v. 82 do Auto dei Maná); III p. 14
(v. 343 da Resurreción de Cristo); III p. 457 (v. 281-2 de La Puaite de la Orada);
III p. 378 (v. 999 da Farsa dei Trtumpho dei Sacramento).
(2) Zeitschrift XVI p. 397-421: Romamenstudien . Confer Kritischer Jahres-
bericht IV, 2 p. 195.
198 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
sagrados, ha um romance de Guadalcanal (1), outro de Bogotá
('2), diversas variantes dos textos que comuniquei (3), e diver-
sas quadras, vulgares, umas sérias, outras de broma.
E são duas açorianas (4), e quatro galegas (5).
Quem morre de mal de amores
não se enterra em sagrado;
enterra-se em campo verde
aonde se apagtora o gado.
*
Se eu morrer, enterrar- me-hão-de
na cova aonde eu disser,
deixai-me um braço de fora
pra abraçar quem eu quiser.
*
Xastre, quero-ch'un recado,
e mais non é de costura,
que che quero preguntar
s' o mal d' amores ten cura?
*
Mal de amores [non] ten cura,
mal d' amores cura non ten,
qu'eu xa tiven mal d' amores
e non m' o curou ninguém.
O mal d' amor non ten cura
e todos me din que o ten (7).
Tomar de novo outra moza
é o que mais me conven.
*
Cuando triste, cuando alegre,
ando ben apesarado,
todo o que ten mal d' amores
ten un mal desesperado.
(i) Antologia X p. 186.
(2) O romance que se encontra na Tercem Silva é igual ao que anda na Pior
de Enamorados de Linares (Antologia IX 325).
(3) Antologia X 231. Confer Duran N.° 1425.
(4) Zeitschrift XVI p. 423 N.° 23, e 426 N.° 93, colhidas por H. Lang.
(5) Ballesteros I 155 275 e 120.
(6) Variante que ouvi cantar:
O mal d' amores ten cura e todos din que o non ten.
Tomar de novo outra moza é o que mais me conven.
ROMANCES VELHOS 790
K. Romances em versos pareados.
XLV
Entre os romances em rimas pareadas, dissonantadas (1),
muita vez em disparates, que (como já disse) em geral contêm
Avisos, Porquês, Arrenegos, Maldições (2) ha um (quasi tao di-
vulgado em Hespanha como as Coplas de Calainos) de cuja
passagem por este reino ficou um testemunho. São as Maldi-
ções lançadas por certo Salaya a um seu criado, que lhe fur-
tara uma capa (3). Principiara:
Mucho quisiera apartarme de no decir maldiciones
e acabam:
Y sobre tu sepultura yo quiero este escrito haya
*Aqui yace en esta vaya el mayor ladrou d' Espana
el cual con muy sotil mana hurtó su capa a Salaya (4).
(i) Considerando também esta espécie como escrita en versos longos de deza-
seis sílabas, a rima seria encadeada, como desde a reforma de Sá de Miranda,
se usava em trechos narrativos das Eglogas de medida nova. Mas talvez sejam
de uma época, em que só os eruditos se lembravam dos versos largos e já era
costume inveterado dividi-los em octonários.
(2) Falei do género diversas vezes, p. ex. num artiguinho sobre A maneira do
Aplaha (Rev. Lusitana I 379 381). Mais abaixo tornarei a ele.
(3) Nos títulos que encabeçam o romance nos Pliegos Sueltos, esse criado cha-
nia-se ora Misauco, ora Misanco ou Misancho, pormenor que não condiz com
as indicações contidas no verso
■SÉ quereis saber su nombre de pato e cochino es,
a não ser que nas terras d' este ladrão chamem os cevados e os marrecos: sancho
incho!, como em outras localidades portuguesas os chamam: chico! chico (de onde
derivo chiqueiro) sem saber se chico significa pequeno ou Francisco, Confer Cil Vi-
cente II 31 .
(4) Lembro ao leitor que nessas Maldições se encontra, na parte erudita, dedi-
cada á historia pátria, o verso
De los osos seas comido como Favila el ncmbrado,
citado por Cervantes, no Dou Quixote II e. 34, e por outros escritores. {Lisandro
p. 27), mas <[iie de balde fora procurado no Romanceiro épico.
200 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASC0NCELL08
Com alusão directa a este trecho final é que António Prestes
diz no Auto dos Canta nnhos (p. 466), utilizando a rima vaya
Salaya:
Ah villão! que ia mais vaya
nesta mão roubas-me aqui (1).
Se não fora ver quem vi,
[97] as maldições de Salaya
praguejara contra ti.
Um escudeiro, casado, namora uma menina. Ela deixa eaii
da janela uma cartinha, fingindo ser um papel de almíscar
que lhe caíra do peito. Para enganar o criado que lhe servia
de guarda, manda-o apanhá-lo na rua. Antes de ir, este fecha.
porém, de desconfiado, portas e janelas... Entá<» o escudeiro,
que esperava poder continuar a conversa, diz os versos cita-
dos, acrescentando:
Tiras-me tudo o que tem i
os meus olhos
pois fechado tem seu bem.
Duran (2), que recolheu o texto de um folheto gótico (3), indi-
ca como autor certo Diego Garcia, natural de Berganza; um
Português portanto. Mas sem razáo suficiente; unicamente
por as Maldições andarem em um impresso juntas a umas co-
plas d'aquele autor (4). Provavelmente Salaya é o verdadeiro
autor, idêntico ao Alonso de Salaya que escreveu uma Glosa
de la Reina Troyana: Con doloroso gemido; um romance de
(i) Não ponho ponctuação, em dúvida sobre se ha de ir ponto depois de
mão, ou ponto e vírgula depois de vaya.
(2) N.° 1886.
(3) Vid. Duran, Catálogo^.0 61 e 26; Salva N.° 127; Ensayo, X.° 3766 e 2292.
(4) Coplas hechas por Diego Garcia, natural de la ciudad de Ber°anza, con
unos Amores de un caballero y una doncella, con las Maldiciones de Salaya (Duran
N.° 126 e Ensayo 2292). Pelo modo de dizer, parece que Las Maldiciones eram
obra conhecida. Em outra impressão estão em primeiro lugar {Maldiciones de Sa-
laya hechas a un criado suyo que se llamava Misauco, sobre una capa que le hurtô),
indo seguidas de dois romances, utilizados em Portugal I Castelhanos v Leoneses e
Por (Guadalquivir arriba).
ROMANCES VELHOS 201
Amadis En ttn hermoso ver<j<>/, várias outras miudezas, de que
o curioso encontra amostras no Ensayo de Gallardo (1), o uma
Farsa (com um Português entre as figuras (2).
L. Apêndice de Romances, ainda ndo verificados.
Além dos trechos citados até aqui, passo apontar vários,
em que ha provavelmente alusão a romances, mas alusão tá o
vaga ou a textos táo raros e escondidos que náo os conheço.
Vou registá-los, na esperança de que outros mais lidos e que
dispõem de bibliotecas bem providas, seráo mais felizes do
que eu. Omito todavia as repetições de formulas consagra-
das, táo singelas e estereotípicas que náo é possível dizer
qual romance foi a fonte em que os Portugueses as beberam,
como p. ex. os hemistíquios en Paru esa ciudad (3); a Paris
esa ciudad: o en ena Roma la santa.
XLVI
Começo com uma aneedota relativa a um dos mais intrépi-
dos fronteiros do Africa que ao mesmo tempo era dos cor-
tesáos mais galantes da corte de D. Manuel, e poeta muit)
apreciado, comquanto dos seus ditos e motes náo se conser-
vasse senáo pequena parte: D. João de Meneses, o suposto
glosador do romance de Durandarte, com quem o leitor já
travou relações (4).
(i) Xo 3768.
(2) N.° 3767. Pelo estudo da Farsa talvez fosse possível estabelecer, se Sa-
laya era Português.
(3) Sá de Miranda juntou ambas no Prologo da Comédia dos Vilhalpandos. E .1
Fama que ahi diz: de quantas cousas em todo [o mundo\ lia, nenhuma responde à
sua fama: nem em Paris essa cidade, nem [<w] essa Roma la saneia.
(4) Como já disse, nas considerações finaes hei de lhe dedicar mais algumas
palavras.
202 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASC0NCELL08
«Sendo hum dia (1) este capitão fora de Arzilla, e pondo-se ein um
valle a descansar, emquanto tornavam as escuitas, acertou correr a Ar-
zilla no mesmo dia um Alcaide com muita copia de gente; e sabendo
que o Capitão era fora, tomou lhe o passo, por onde havia de tornar; e
alguns dos Mouros, subindo-se em hum outeiro que senhoreava o valle
começaram (os que sabiam cantar hespanhol) a lhe cantar,
Já vos jazedes, peixes nas redes!
Já vos jazedes, D. João de Meneses! (2)
E o capitão, começando caminhar para ha villa, hla muito pensativo;
e tornando em si, e entendendo que hindo assi quebraria os corações aos
cavalleiros, chamou a hum cavalleiro que cantava muito bem, e rogcu-
lhe que para se desmelancolizarem, cantasse algúa cousa. K o cavalleiro
começou a cantar este romance:
[98] Mi compadre Gomez Árias que mal consejo me dia!
e indo proseguindo, chegou a hum passo d'elle que diz:
[99] Nunca viera xáboneros tan bien render su xabon
porque acertou de ser a tempo que se viam já muito bem os Mouros que
o esperavam, proseguio o Capitão as duas regras seguintes do romance
dizendo
[100] A ellos compadre, á ellos que ellos xáboneros son.
E dando após estas palavras Santiago] nos inimigos, houve d' ellesuma
tão famosa victoria, que merecera ser escrita por algum grande histo-
riador, com outras muitas qu<) em Africa este Capitão e outros ilustres
Capitães houveram (3).
O romance, evidentemente vulgar (talvez paródia de outro
velho e heróico?) foi aproveitado também por Sá de Miranda
na comédia dos Vilhalpandos (4). Na scena VIII do Acto III,
(i) Em 1495; ou entre 1547 e 1509.
(2) Cantar velho mas português, e não castelhano, de que fizeram uso Gil Vi-
cente (I 218), Jorge Ferreira de VasconcelJos {Eufrosina p. 149) e Luis de Ca-
mões {Auto de Filodemo II 6, v. 1088), sem a repetição postiça com o nome do
Grande Africano, que foi acrescentada ad hoc na escaramuça de apar de Arzila.
(3) T. Braga Poesia Populay- Portugueza (p. 369), tirou esta anecdota histórica
de um MS. da Torre do Tombo: Memoria dos Ditos e Sentenças de Reis etc. f. 564
(MS. 1127).
(4) Entre 1536 e 1549.
ROMANCES VELHOS
de que já extractei uma referência (N.° 27), um soldado hes-
panhol, caracterizado como valentão, entra cantando
A ellos compadre, a elb>s <nte ellos xaboncros sone! (1)
< 'anta, ou segundo o dizer do poeta, garganteia todo requebra-
do, e tão enlevado que nem vê o personagem Milvo (alcovitei-
ro da peça) que por isso lança o aparte: já cuida que os leva
todos de vencida. — Mas não é ouvido, e o soldado continua
Que nunca vi xaboneros vender tan bien su xabone!
XLVII
Nas Cartas d' Africa, camonianas ou pseudo-camonianas,
restam uns centões, que não cheguei a identificar. Na estrofe
5a da II (2) lê-se, ou devia lêr-se
A menudo sospirando hablando de tarde en tarde.
Ocorreu-me Valdevinos, o suspirador por excelência, tão
afamado neste país de namorados onde todo o negocio è suspi-
rar e dizer saudades, na opinião do sentencioso eremita da Ta-
pada; mas nada encontro no ciclo a ele dedicado. Também
me lembrei do bom velho Árias Gonzálo, no acto de lamentar
a morte dos filhos, do alto dos muros de Çamora, porque num
dos Romances historiados de Lucas Rodríguez(3j que lhe dizem
respeito, e tem a devida assonáncia -áo ocorre
Unas veces mira ai cielo y otras buelve suspirando.
Mas bem se vê que não é esse o verdadeiro padrão <4). Só se
houve redacção velha, perdida.
(i) Nas edições vulgares em grafia portuguesa A elhos (p. 236 da ed. de 1786).
(2) No texto de Juromenha e Braga temos: Suspirando a mentido, mas a rima
exige a inversão.
(3) N.° IX p. 80.
(4) Confira-se Gil Vicente, I 130:
Cantando de quando em quando e ás vezes suspirando.
204 CAROLINA MICHAÉ'LIS DE VASC0NCELL0S
Mais parecido é um passo do Auto de D. Duardos, relativo
ao protagonista, do qual se diz na edição princeps:
Suspira de tarde en tardo, pêro quéjase d menudo;
e no folheto:
Entre si de tarde en tarde hal>l<i y suspira d meiuu/o
(II p. 233). .
Já relevei o remate da estrofe 14a
[102] los bordones qttè oitos Uevan lanças w>ê parecer arte.
Deve pertencer a um romance em que as figuras principaea
sao paladinos disfarçados em romeiros, quer fosse ura dos can-
tares de Gaiferos, quer o do Pai metro de Mérida, o do Moris-
cote ou de Jtdianesa, quer um de de D. Inês de ('astro 1 .
A 18a acaba
[103] Y que nueras me traedes dei mi amor i pie álWi era?
pregunta que tem analogia com a de Alfonso Ramos
Y que nuevas me traedes de mi ftotabien guarmda (Pr 118);
a do rei Ramiro:
pues que nuevas me traedes dei campo de Paloma res (Pr. 99);
a dei rei D. Juan 11:
dí-me que nuevas me traes de Antequera mi villa (Pr. 74);
a lo Conde Claros:
p. :es que nuevas me traeis de la Infanta como está (Pr. 191).
e varias outras. Mas nenhuma tem a assonância -éa.
Na última estrofe, o desfecho
[104] A que muerte condenado puedo ser que grave fuese (19a)
antes par, ce lírico do que épico.
(i) O romance de D. Isabel, cantado na Catalunha, principia:
Do a Isabel se pasea en su palácio real;
mii ndo sus campos verdes romeritos ve pasar.
Noi van á pié los romeros, en buenos caballos van;
los rosários que ellos traen son cabezas de metal
las calabazas dei vino llenas de pólvora van.
Mili, Romam erillo N.° 253). Ahi é que o verso alegado entrava menos mal.
ROMANCES VELHOS 205
Ó mesmo vale de algumas citas da Carta I (1) (104).
[105] Si no muere este desejo (sic) moriré yo deseando (Est*. 10a)
[106] Que ya no es en mi mano el querer no ser querido (19a);
[107] Naves de la tierra mia venid ora e llevadme (22a);
[i08] Pues que sufrir e callar conviene a mi pensam[i]e?ito (24a)!
XLVIII
Na Âulegraphia (f. 31) um personagem diz com relação a
um segredo, que o tem sabido [)<>r uns certos canos de Carmo-
na. Como a frase não é rítmica, nem vestida á castelhana,
estou em dúvida, se ha ahi uma reminiscência do famoso
(i; Todas as citas líricas, que naturalmente não mencionei neste estudo, já fo-
ram identificadas por W. Storck e por mim. Menos a que diz:
Triste dei, triste, que muere
si ai paraiso no va (estr. 6).
Pertence a uma cantiga impressa num Pliego suelto gótico, como ingrediente de
uma Ensaiada de que já falei; e foi aproveitada também pelo autor da i 7y-
sipo (f. 1 19 v ). O mais curioso é todavia que essa cantiga é hoje popular em Por-
tugal e na Galiza. Em Viana ouvi cantar
Coitadinho do que morre
se ao paraiso não vai.
O que fica, logo come...
e da maçoa se desfaz.
e em Vigo com formas dialectaes, mais pronunciadas:
Coitadinho do que morre
s'ó paraiso non vai.
O que queda logo come
e do pesar se desfai.
No século xvi cantavam na corte com superior elegância e picardia:
De três dias muerto está...
la viuda casar se quiere!
Triste dei, triste que muere
si ai paraiso no vá!
A quadra gallega, já a vi impressa, quer no Cancionero de Ballesteros, quer no
DiccionaHô do Valladares Nuúez.
CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
aqueducto, utilizado por Valdevinos e Sevilha, e citado do ro-
mance:
[l(i{f] Por los canoa de Carmona por do va el agua á Sevilla
por ahi iba Valdovinos y con él su linda amiga,
ou melhor:
por ahi va Valdovinos a ver a su linda amiga (1).
Na Ulysipo notei mais dois eentões:
[110] Saliendo de tinamontaiia (f. 203).
[Ill] Triste, sola, emparedada (ib).
Em Gil Vicente:
[112] Al tiempo que el sol salta (IIÍ, 233).
[113] Media noehe con lunar (ib.) (2).
No Auto de Rodrigo e Mendo:
[114] Las nochcs siempre acordadas,
XLIX
António Prestes enxertou no Auto da Ave- Mar ia (p. 55) ,
o verso castelhano
[115] Yo le daria, bel conde, quanto darsele podia.
É a sensualidade, que em discussão com o hostis humani generis
sobre a melhor maneira de enganar o mundo, o pronuncia, logo
depois de haver empregado a exclamação Moro alcaide, moro
(i) O texto impresso na Antologia IX 247 e no Ensayo (Vol. IV c. 97 N.° 3619)
provém de um folheto impresso ein 1603, onde é atribuído a Juan de Ribera, e está
modernizado. Mas felizmente já não desconhecemos a versão antiga. E a que o
iSnr. Bonilla encontrou num manuscrito de meados do século XVI e que publicou
nos Anales, p. 31.
(2) Na Ensaladilla, de que fazem parte, ainda ha mais alguns versos castelha-
nos, que podiam pertencer a romances. P. ex.:
recorde, que no dormia á las J>ucrtas de la villa,
era la páscoa Jlorida en el mes de San yuan.
ROMANCES VELHOS 207
alcaide. Parece resposta ás repetidas preguntas: que me dásf
Quanto ciareis? de tentadores humanos, nos romances da Bela
Infanta, ou das Senhas do Marido (1). Talvez pertencesse á
lição primitiva, hoje perdida.
André Falcão de Resende, sobrinho do grande antiquário,
escreveu um enorme romance histórico, em que conta a céle-
bre victória que D. Joáo d' Áustria houve contra os Tur-
cos na grande batalha naval no golfo de Lepanto, por a toada
do romance velho que diz:
[116] Olá olá! que tocan ai arma, Juana! (2)
Tanto lhe agradou este refram (que me parece ser do último
terço do século) que o repetiu em outro romance (omitindo o
noine-próprio) também em castelhano, sobre a Jornada do
Emperador Carlos I a Viena d' Áustria e retirada do (irão
Turco Solimão (3).
Mais aioderno ainda, do tempo de Lope, Quevedo, e (ióngo-
f a, deve ser o cantar puramente artístico, amatório,vilhanesco
(i) No Romance de Rosailorida (ou Roca/rida) e de Montesinos, a heroina
manda ofrecer ao amado as suas riquezas, uma a uma, repetindo depois de cada
promessa
ti mas quiere Montesinos vo muclio mus le daria,
{Zeitschrift XVII 547). Numa das versões portuguesas do Conde Claros (Zeit-
schrift III 65) e especialmente na Xau Catrineta ha ofrecimentos iguaes, seguidos
sempre da recusa — .\âo quero. .. Xe/n quero. Aro Cancionero Popular também ha
quadras que lembram esse motivo. P. ex.
Em português: En galego:
Ahi tens meu coração Ehi tês o meu coraçon,
e a chave para o abrir. as chaves par' o abrir.
Nada mais tenho que dar Non eu tengo mais que darche,
nem tu mais que me pedir. ni ti mais que me pedir.
(2) Em -áa. — Vid. Garcia Pérez p. 180.
(3) Ib. p. 161.
208 CAROLINA MICHAÉLIS DE VA8C0NCELL0X
ou festivo, que D. Francisco Manuel de Mello introduziu no
seu curioso Guia de ÇOêadúi (l)y aproveitando uma parcela
que, como o N.° 1 1 õ , parece ser estribilho.
[117] El aspid anda ev lai floree!
alerta! alerta! zayales!
O fragmento
[118] Sobre mi vi guerra armar:
una diz que me llevaria,
otra que me ha de llevar,
pronunciado, no Auto do Físico de Jerónimo Ribeiro, por
um criado que chasqueia de uma briga (2) de cacaracá entre
duas moças de servir, tanto pôde ser troco de um romance,
como mote de cantiga.
LI
Deixei para o fim dois versos evidentemente portugueses
e um romance histórico perdido.
(i) Ed. 1873 p. 136. No Capítulo XXIX (Governo da casa) conta, com aquele
estilo admiravelmente sóbrio e próprio que o distingue, o conto do ramalhete em
que o próprio pae entrega á filha doente a carta do namorado.
(z) Autos, ed. 1587, f. 106. Vid. Eschola de Gil Vicente, p. 242. No Auto da
Feira de Gil Vicente. (I 163), Roma a santa cidade, entoa em português o cantar-
cillo:
Três amigos que tu havia
sobre mi armam porfia.
Ver quero eu quem a mi leva,
precedido do dístico
Sobre mi armavam guerra,
ver quero eu quem a mi leva,
omo se fosse mote.
Se dissesse pouco mais ou menos
Três amidos (que Deus tenha)
Sobre mim armavam guerra.
Ver q. eu q. a. m.
seria paralclistiéa, ;l maneira antiga, como tantas outras deliciosas composições
arcaicas com que enfeitou os seus Autos. Pena é que nos falte a continuação.
ROMANCES VELHOS 209
Um dos versos parece princípio de romance. É o que já
ouvimos sair da boca da ama de Rubena:
[119] Eu me sam dona Giralda (1).
Conferindo-o com as primeiras palavras das Trovas de D.
Inês (Eu rnera moça menina), e do romance Yo m 'era mora
morainia, estou naturalmente inclinada a supor nele um ro-
mance. (2) Tanto mais que no repertório da Ama textos narra-
tivos andam de mistura com textos líricos, todos eles pro-
vavelmente com melopeias pausadas, próprias a embalar me-
ninos (3).
O outro
[120] Os que me sotm guardare
é positivamente um verso de romance, desligado do meio do
contexto. João de Barros que o alega na sua Gramática
como exemplo do -e paragógico — em cuja frequência em tex-
tos cantados em Portugal o leitor reparou por certo — chama-o
rimance (4).
Qual seria? De um verso tão anódino nada se pôde inferir
Mas sempre direi que entre os de que tratei neste estudo ha
um de assunto português, com reflexos no Cancionero Geral,
com a assonáncia -á, que contém um octónario parecido. E o
de Inês de Castro, ou segundo a misteriosa nomenclatura cas-
telana de D. Isabel de Liar, já acima mencionado. A infeliz,
surprendida no seu paço rústico, confessa que nâo tem ao
perto defensor nenhum
bieri parece que noy sola, no tengo quien me guardar (5).
(i) Gil Vicente II 26.
(2) Ainda ha diversos outros textos que começam de modo semelhante. Nas
ubra3 do próprio poeta cómico temos p. ex. Eu m'era dona Isabel (II 404) e Yo
me soy Pêro (afio (ib 405). Mas pelo modo como são citados, parecem versos sol-
tos, inventados ad hoc, sem continuação, e não cantares tradicionaes.
(3) Aproveito o ensejo para chamar a atenção do leitor para o fascículo de
Canções do Berço com algumas das respectivas músicas publicado recentemente por
Leite de Vasconcellos (Lisboa, 1907).
(4) Vid. p. 163 da Compilação de 1785.
(5) Pr. 104.
14
CAROLINA MICHAÊLI8 DE VASCONCELLOS
Em outra redacção a concordância é maior ainda. O prín-
cipe D. Juan Manuel, rei de Ceuta e Tanger, procura-a depois
do desenlace fatal, e encontra o paço deserto,
que no halló los porteros que la solian guardar.
Maior! mas não completa. E de mais a mais ha, como de cos-
tume, fórmulas análogas em outros textos: los que me kabian
de guardar, no romance de D. Lambra (1); que los reinos solta
guardar, no jugralesco de Roldão (2); quê á <jlla guardar sol ia.
no de Calainos, etc, etc . 8).
O romance português a que me refiro, é histórico. Trata
da victória de Salsete, ganha na índia em 1547 por D. João
de Castro, e foi composto, segundo Diogo do Couto (4), por um
curioso. Isto é, como na maioria dos casos, por um anónimo
que nâo ligava grande importância á sua obra, destinada a
dizer no momento dado o que interessava a toda a comuni-
dade. Conio todavia só conhecemos os cinco octonários con-
servados pelo historiador: :
[121] Pelos campos de Salsete mouros mal feridos vão;
vai-lhes dando no alcance o de Castro Dom João.
Vinte mil eram por todos,
é difícil decidir, se é remedo directo de outro cantar velho,
como alguém suspeitou (5), ou se apenas segue, como era de
esperar, o estilo tradicional dos que tratam de batalhas ou
refregas fronteiriças.
Embora avulso, o facto nâo é indiferente para as conclu-
sões geraes que finalmente passo a expor.
(i) Pr. 19, Yo me estaba en Barbadillo.
(2) Pr. 187, Dia era de San Jorge.
(3) Pr. 193, Ya cabalga Calainos.
(4) Década VI Libro V. CaJ>. X.
(5) T. Braga aponta como modelo o romance de Roncesvales
En los campos de Alventosa mataron à Don Btltran.
Vid. Poesia Popular Portu°ueza p. 415.
ROMANCES VELHOS 211
III
Notas e observações complementares.
Como a impressão das Partes I e II levasse naturalmente
bastante tempo, continuei com as minhas pesquisas e encon-
trei mais alguns materiaes e indícios que nao devo omitir,
porque influem nas Conclusões Geraes (1).
Ad 24 e 2ô. — Com verdadeira satisfação aponto mais
duas lições oraes do tripartido romance do Cid e do rei Búcar,
meio-histórico, meio-romántico, cuja evolução tanto me in-
teressa.
Uma d'elas contém, deturpado mas reconhecível, o verso
importante relativo ao cavalo Babieca e á égua do Mouro,
cuja paródia suponho haver descoberto no Cancioneiro Geral,
mas cujo original procurei de balde, tanto no romanceiro an-
tigo como nas preciosas derivações tradicionaes, conservadas
nos Açores, na Ilha da Madeira, no Algarve, na Catalunha e
em Tanger. Se agora surge num texto trasmontano, temos
mais uma confirmação do valor excepcional que na Intro-
dução atribuo a essa mina.
O respeitivo texto, impresso ha pouco tempo no Roman-
ceiro do Abade José Augusto Tavares (N.° 72) é de Nozedo
de Cima (concelho de Vinhaes) (2). Designá-lo hei comi. O
outro, que faz parte do Romanceiro inédito de Leite de Vas-
(i) Ha alguns retoques nas páginas que seguem, facilmente reconhecíveis por
meio dos índices.
(2) Vid. Kev. Lus. IX, p. 277-323 (1907). Mencionei esta continuação do Ro-
manceiro Trasmontano (numerada de 24 a 101) diversas vezes em observações que
acrecentei na revisão das provas, e por isso deviam ter a marca PS. (p. ex. a p
769, Nota 5 e 1.019). Aproveito a ocasião para mencionar outra pequena colecção
de romances, também trasmontanos, publicados por Tavares Teixeira na esplen-
dida Rcista Portugália (I 388-390, 631 8., 862 e II 280, 472 s.).
212 CAROLINA MICHAÈLI8 DE VASCONCBLLOS
eoncellos, é de Parada de Infanções, e diverge bastante (1).
Designo-o com II.
Ambos começam narrati vãmente:
Bem se passeia Moirito (2) de calçada em calçada
olhando para Valência como está de amuralhada (3).
Continuam com a Lamentação sobre a perda de Valença, al-
terada na transmissão secular, mas nem por isso notavelmente
inferior á redacção que estava em voga nos dias de Gil Vi-
cente entre os Judeus portugueses. Nem mesmo faltam os im-
propérios contra as filhas do Campeador, pelo menos em I:
cOh Valência, oh Valência! de fogo sejas queimada!
pois quando eras dos Mouros eras de prata lavrada;
agora [que] sois de christãos, sois de pedra mal talhada.
Se minha espada me não quebra, minha sustancia me não falta, (4)
antes de vinte e quatro horas a Mouros serás tornada.
A fliha dei rei D. Oucidres (5) ja foi minha cautivada!
agora tem a mais nova, que será minha namorada».
Ou, um pouco melhor, se bem com omissão dos versos 4-7:
«Oh Valência, oh Valência, de fogo sejas queimada!
quando tu eras dos Mouros, d'ouro eras mociçada;
agora que es de Christãos, nem de pedra mal-picada!»
Do diálogo entre o Mouro e a filha do Cid, cheio de curio-
(i) Numa observação, que na sua qualidade de publicador juntou ao texto re-
colhido pelo Abade, Leite de Vasconcellos alude á variante que possue. Não con-
tente de me auxiliar na revisão das provas, pôs depois á minha disposição essa pro-
metedora amostra da sua colheita.
(2) Em II Mourilho. Não tem nome-próprio. Nem tão pouco o tem a filha do
Cid. Somente o cavalo e o conquistador de Valência, transformado todavia em Rei.
(3) Em II como estaba muralhada. Os dois versos iniciaes correspondem ao
primeiro e quinto do intróito que se lê no Cancionero de Romances.
(4) O nome da espada Tizona que o Campeador ganhou nessa perseguição
do rei Bucar, quadrava admiravelmente neste verso; creio todavia que a fantástica
sustancia substitue apenas lança.
(5) Dom Oucidres, em II Rei Dom Cidro, emparelha com o Rucido da Ilha da
Madeira e o Dom da Silva do Algarve. Em outros tempos diriam o bom Cide ou
slmprezmente Ruy Cide.
ROMANCES VELHOS 213
sos vulgarismos em ambas as lições, nào tenho de me ocupar
aqui. No Acto III também é somente o verso-modelo, com-
quanto desfigurado, que reclama a nossa atenção.
A namorada dissera:
A Babeca de meu pae, ela trepa (\) na calçada
e o Mouro replica:
Não se me dá pela Babeca nem por quem a cavalgava;
se a Babeca corre muito, o meu cavalo voava (2).
No texto de Parada de Infanções, que se aproxima em di-
versas particularidades do da Ilha da Madeira, o trecho diz,
com alusão pouco clara ao parentesco dos dois aniraaes:
Não ha cavalo que alcance a minha egoinha baia,
se não o cavalo que eu tenho qu'ela d'ele anda prenhada,
deturpação que talvez seja obra de alguma informadora de
memória deficiente, mas de inventiva fértil (3). Em todo o caso,
ambas transmudam o sexo do corsel perseguido e d 'aquele
em que ia o perseguidor — pela sírnplez razão, creio eu, de o
vocábulo Babeca parecer feminino ao povo português, exac-
tamente como planet a, cometa, tema e diversos outros em a (4).
A concluir da paródia e dos passos paralelos do Poema
dei Cid e das Crónicas, a redacção do romance, em voga no
século xv na Corte portuguesa, devia ser:
si Babieca bien corria ) , , .
\ la yegua mejor volaba.
OU si el caballo bien corre )
(i) Trepa ou trupa? com alusaõ ao estrupido dos cascos?
(2) Para reforçar a nota, ainda se junta o verso:
Botou por um vale abaixo não CORRIA que VOAVA.
(3) É fácil, mas ocioso, propormos emendas como se não o cavalo que eu mon-
to que d'' ele ANDOU prenhada.
(4) Nos Açores não houve transmutação dos sexos. Serviram-se de outro
expediente, masculinizando o nome do cavalo do Cid. Creio que Gabelo,nome bí-
blico, está por Babelo, e que esse, com troca de sufixo, equivale a Babeco (por
Babieca).
274 CAROLINA MICHAELIS DE VASCONCELLOS
Se agora, no romance de Tanger ou alhures, se encon
trasse variante que correspondesse a
se não por Dabeca seu filho que perdi numa batalha,
seria isso ouro sobre azul!
Como digno de reparo, registo também, que no texto de
Parada de Infanções subsiste o nome do rio em que o Mouro
perseguido embarcava, falsificado embora, pois o chamam
Guadiana, em vez de Guadalaviar.
Ao passar do Guadiana atirou-lhe úa lançada;
a lança ficou no corpo e o pau caiu á agua.
Com respeito á substituição de Valência por Alfama, de
que ha exemplo no texto da Ilha da Madeira, estabeleçamos
que aquela conquista histórica, cantada em romances caste-
lhanos, teve repercussão forte nos historiadores portugueses. (1)
O povo contentou-se aparentemente com a adaptação rudi-
mentar do romance antigo sobre Valença ao caso de 1 481 .
Ad 41. — Por descuido deixei de registar a imitação conhe-
cida de um dos romances tardios de Zaide e Zaida. —
Mira, Juana, que te digo que no baxes d la calle
é de Rodriguez Lobo, e anda nas suas Obras (p. 713), com a
epígrafe: Otro contrahecho ai Romance que comiença Mira Zai-
de que te digo.
Ad 45. — Um dos provérbios sobre o tema Antes morte que
deshonra entrou no romance trasmontano do Conde- malfeitor
(N.° 88 da coleção do Abe Tavares). Ao declarar que não daria
a mão de esposo á romeira por ele violada na estrada de San-
tiago, proclama: Mais quero morrer com honra que viver en-
vergonhado.
Ad 67. — Diversas aplicações teve a fórmula Ojos que nos
(resp. me) vieron ir, proveniente do romance de Durandarte
a Belerma. Neles a segunda metade dizia nunca nos ou nunca
(i) Vid. Resende, Vida e Feytos, Cap. 35; Ruy de Pina, Crónica de D. Alfonso
V, Cap. 211.
ROMANCES VELHOS 215
me veran en Fr anciã (1). Indiquei repetições nas Trovas rae-
dievaes de Duarte de Brito, numa cantiga de Cristóvam Fal-
cão (ou algum camarada seu), e num romance tradicional de
Gaiferos e Melisendra: sempre com a continuação nunca nos
veran voltar. Nessa mesma redacção, com a consonância -a,
serve de remate a uma das numerosas versões do canto ro-
mântico de Claros (ou Carlos) de Montalban, cantadas em
Portugal. O N.° 60 do Romanceiro Trasmontano termina fa-
lando da salvação de Claralinda das mãos da justiça pelo
Conde:
Pegara-lhe pela mão, pousava-a no cavalgar.
Olhos que a viram ir não-na viram ca voltar.
Esta concordância na rima suscita naturalmente a suposição
que o provérbio (2) fizesse parte de um romance velho des-
conhecido em -ar, relativo quer a Gaiferos, quer ao Conde
Claros, quer a Durandarte.
Outras duas citações antigas e por isso preciosas, encon-
tram-se no Cancioneiro Geral, nas mesmas condições em que
assinalei uma na comedia Ulysipo, isto é interrompida no
meio, como foi e é costume proceder com ditados muito co-
nhecidos. Trata-se de um lado de uns versinhos de ocasião, do
próprio Garcia de Resende, escritas quando entre 1511 e lolti
ele ia coleccionando materiaes para o seu Cancioneiro; e pela
outra parte de rimas mais antigas (3) do estribei ro-mór de
D. João II.
Eis a Esparsa era que o compilador insta com ura amigo
para este lhe trazer de Alcobaça um florilégio de máo, de
certo frade. E ameaça-o, rindo, de quebra de relações, se es-
quecesse a encomenda:
(i) Na Tercera Parte da Silva (Zaragoza 1550). Durandarte fala de si só, na
i.a p. s. — Vid. Antologia IX, 324).
(2) Chamo-o assim pelo valor adquirido, e não por conhecer algum prolóquio
popular de sentido igual e forma semelhante, que por ventura fosse fonte comum
de romancistas e trovistas.
(3) É provável, fossem redigidos em vida de D. João II. Em todo o caso. sâo
anteriores a 1499.
210 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Decoray polo caminho
té cheguardes ho moesteiro
qu'aa de vir o Cançioneyro
do abade frey Martinho.
E 8'esperardes de vir
sem m'o mandardes trazer,
podeis crer
que quem tinheis em poder
para sempre vos servir,
olhos que o viram ir... (1).
Pedro Homem, pela sua vez, aplica o verso volante a um
mensajeiro, tao inopinadamente desaparecido (morrendo, ao
que parece) (2) que não chegou a comunicar-lhe as desejadas
novas do amigo, futuro camareiro-mór de D. Manuel, e me-
nos ainda a enearregar-se da resposta. E diz:
Luis de Santa Maria
chegou em ora tão forte
que lhe ocupou a morte
sua pousentadaria.
Nam pude d'ele fruir
soomente novas de vós!
Dizem que é longe de nós!
Olhos que o vyram hyr., .
A integrante seria no primeiro caso Nunca mais ô querem ver,
e no segundo Nunca mais o hão de ver; ou coisa semelhante.
Repare-se em que ambas as vezes (3) se apresenta o verso
cortado, em português, e transformado, segundo as exigên-
cias do momento.
Ad 70. — Cheguei a descobrir o adágio, em castelhano, na
( i ) Vol. III, p. 634, f. 223 « : Trovas suas a Dioguo de Melo que partiya pêra Al-
cobaça e avyalhe de trazer de laa hum Cançioneyro d^um abade que chamam frey
Martinho.
(2) Se não fòr assim, devemos imaginar que houve óbitos nas casas onde con-
tava apear-se.
(3) Vol. I, p. 460, f. 59. e \De Pedr'Omen a Dom Joam Manuel. — Na estrofe ini-
cial da correspondência versificada, Pedro Homem, talvez novato na arte de trovar,
invoca rei Dom Denis com licença d'Aretusa. Era portanto sabedor da veia feliz do
monarca-trovador, conforme já expliquei no Cancioneiro da Ajuda.
ROMANCES VELHOS 217
forma concisa Antes envidia que mancilla. Gomo todavia não
o posso documentar senão com textos de 1600, como os Diá-
logos Apologaes, é possível que ele seja mera redução do
verso de romance, e obra individual do grande D. Francisco
Manuel de Melo (1).
Ad 71. — Mais um exemplo da popularidade do ditado
que os erros por amores dinos são de perdoar!
Numas Trovas inspiradas por uma aventura de palácio, no
ano de 1546 ou 1547, é que um anónimo o empregou em for-
ma, levemente diversa da que figura no romance do Conde
Claros.
A aventura fora trágica. Um fidalgo entrara de noite nos
aposentos de D. Juliana de Lara, filha do Marquês de Villa-
real. Por esse crime foi sentenciado á morte. A sentença, quer
executada, quer não, foi pelos poetas da corte considerada
iníqua e provocou censuras, em prosa e verso. Parece que o
temerário era D. João Lobo, filho do 3.° Barão de Alvito,
D. Rodrigo (2). Por uma carta que este dirigiu a D. João III
vê-se, pelo menos que, sem grave culpa, estivera preso no
Castelo de Soure, por queixas de Marquês, relativas aos amo-
res de D. Juliana com seu filho (3). Nas Trovas á sentença dada
contra um Fidalgo (4) diz-se na 2.a estrofe:
que ainda que era feio o feito
era fermosa a rezâo,
e devera de lembrar
ao senhor e aos doutores
que. os erros por amores
erros são de perdoar.
(i) Vertido para português fica sem rima. De mais a mais mazela nunca teve
aqui nem tem o sentido figurado de lástima, compaixão, que antigamente davam
em Castela a mancilla.
(2) Vid. Th. Braga, Camões, Ed. 1907 p. 364, onde se citam uns dizeres alusi-
vos ao caso, tirados da Arte de Galanteria.
(3) Vid. Braamcamp-Freire, Brasões de Cintra, Vol. II, p. 457.
(4) Foram publicadas por A. F. Barata num Cancioneiro Geral, a que se deu o
sub-titulo de continuação ao de Kesende. (Évora, 1902.) Vid. p. 32.
218 CAROLINA MICHAELIS DE VASCONCELLOS
A estrofe 3.R remata igualmente com uma alusão ao ro-
mance:
mais queria ser o Conde
que el-rey que o manda matar.
Não consta pelo menos que D. João Lobo fosse Conde como
o de Montalban.
Ad 90. — O lindo cantar de Maio, entoado pelo Prisionei-
ro, tradicional em Madrid, na Catalunha e na Andaluzia, (1)
subsiste também em Tras-os-Montes, em lição desfigurada nó
princípio e alterada no fim, mas ainda assim muito parecida
á do Cancionero General:
Manhanas de S. João pelas manhãs do alvor
todos os criados vão visitar o seu senhor.
Só eu sou um triste coitado que aqui estou nesta prisão;
não sei quando é [de] dia, nem quando ardia o sol;
se não são tre3 passarinhos que me cantam no alvor.
Uma era a calandrínha, outra era o rouxinol,
outra era o pintasirgo que inda canta melhor (2).
Ad 91.— Ahí mesmo se conserva também uma contribuição
ao tema tão propagado do Mal de amores e Enterro fora do sa-
grado. No Romance do Conde (3) o personagem mal-feitor
junta ao ditado cavalheiresco sobre a honra, que já tresladei,
o testamento lírico dos apaixonados:
Nem por mim toquen [os] sinos nem subam ao campanário;
nem me enterrem na igreja, nem tão pouco em sagrado;
enterrem-me naquele vale onde pasta o meu cavalo; (sic)
deixem-me a cabeça de fora e o meu cabelo entrançado
que digam os passageiros: «Deus te perdoe, desgraçado!»
nem morreu de garrotilho nem tão pouco constipado;
morrera de mal de amores, que é um mal mui desgraçado (4)
Ad 95. — Além da Glosa de Garcia de Resende e das outras
que mencionei, ha uma tardia imitação, de André Falcão de
Resende, bom humanista e amigo sincero de Camões. Este
(i) Segundo D. Maria Goyri N.° 22.
(2) Romanceiro Trastnontano N.° 50.
(3) Ib. N.° 88.
(4) Erro por: desesperado?
ROMANCES VELHOS 219
Português êsceveu-a aparentemente nos desalentos da sua
triste velhice (1). Por estarem inéditas treslado-as aqui <-l
Como se vê, as sentidas quadras são artísticas, e tem consoan-
tes perfeitas, mas contínuas, de sorte que merecem o título de
romance (3).
Tiempo bueno, tiempo bueno
r;quién te me llevó de mi?
Voló el bien raio y ageno
y el que tenía perdi!
5 Após un dia sereno,
oh quantos obscuros vi!
En Abril de flores lleno
y claro cielo nasci,
y mi fresca edad qual heno
10 tan presto seeó-se ansi,
que dei cabello d'oro (?) hebeno
' en plata y nieve bolvi:
y el buen fruto dulce y ameno
que ya sazonado cogi,
15 buelto en amargo veneno
en llanto y dolor perdi!
Si no pongo a vicios freno
sin freno corren atrás mi;
y si no los encadeno,
20 preso corno mereci. (?)
Cerca estando dei septeno
dei mal en que ejvejeci
con el cuerpo terra pleno
caeré, pues no subi,
25 sob la tierra hombre terreno
que el cielo desmereci,
mas ya me acoja en bu seno
aquel sumo bien; y en si
que es de tanta piedad lleno
(i) Faleceu em 1599.
(2) Garcia Perez, que publicou alguns textos castelhanos de A. Falcão de Re-
sende no seu Catalogo Razonado, p. 160-205, e entre eles uns cinco extensos ro-
mances, de que inda falarei, omitiu as Trovas, não sei porque. — Devo copia ao
Exmo. Sr. Dr. Mendes dos Remédios, a cuja amabilidade nunca recorro em vao,
quando preciso de esclarescimentos sobre livros e manuscritos conservados na
Biblioteca da Universidade, de que é digníssimo chefe.
(3) Contrafazendo este romance antigo é a epígrafe manuscrita.
220 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
30 que inorir quiso por mi,
buelva con su gracia en bueno
mi mal-bivir basta aqui.
Ame yo a el solo bueno
cuyo amor es sin fin (1).
*
* *
P. S. Ad 104, Nota 11. No Cancioneiro de Villa Real, pu-
blicado por A. Gomez Pereira na Revista Lusitana (Vol. ?y
p. 199), ha uma quadra (N° 1044) que diz:
Coitadinho de quem morre
se ó paraíso não vae:
quem cá fica logo come,
logo a paixão se lhe vae,
*
* *
[122] Continuo com uma referência antiga mas vaga a ro-
mances em geral, contida no Preâmbulo de Resende. Já a men-
cionei no § 28, mas sem entrar nas explicações precisas. Em
(i) O manuscrito conimbricense, apógrafo de princípios do século xvn,está bas-
tante danificado, especialmente nas margens. Algumas palavras foram completadas
pelo meu solícito informador. — O copista antigo cometeu seguramente mais de um
erro. Emendei apenas os lusismos gráficos e introduzi a pontuação necessária. Creio
que os versos 20 a 26 estão deturpados: variantes, metidas entre linhas, entrariam
no texto em lugares trocados. Ignoro todavia, se o poeta quis que se lesse:
y si no los encadeno
el cielo desmereci.
Cerca estando dei septeno (se. decénio)
dei mal en que envejeci,
sob la tierra hombre terreno,
caeré, pues no subi?
ou símplezmente:
y si no los encadeno
nel mal en que envejeci
sob la tieira, terra pleno,
caeré, pues no subi?
Eis as palavras cuja grafia rectifiquei: 2 quiem—leuó— 3 biem sano — 4 tenhia — 5 hum
7 Aòlir — \ò Tam — 12 em prata — 13 buem — 15 bueto que— 17 sino puse — 30 morrir
42 A rimayf» é um lu sismo típico.
H0MANCE8 V6J-H0S 221
prosa, cheia de bom senso e patriótico sentir, o compilador
do Cancioneiro censura o pernicioso descuido dos Portugueses
que como idealistas perduUrios sabem fazer e não dizer (1).
E depois de aludir aos descobrimentos marítimos e conquistas
na Africa e Ásia como a feitos não divulgados como foram, se
gente d' outra nação os fizera, passa âs trovas de folgar e gen-
tilezas, por ele juntadas a custo (2), para afirmar que tam-
bém se teriam perdido sem a sua intervenção.
E assim muytos emperadores, reys e pessoas de memorias, poios ry-
mançes <■ trovas sabemos suas estarias:
Se o prólogo inteiro, que condiz com muitas outras queixas,
coevas e ulteriores, sobre a falta de um Homero ou Vergilio lu-
sitano, e a necessidade do seu advento (3), atesta por um lado
a existência de poemas artísticos e cantares dignos de nota
sobre feitos heróicos, e cousas acontecidas íiacionaes, a parte
tresladada é testemunho, pelo outro lado, de que Garcia de
Resende conhecia romances sobre temas não-portugueses,quer
fossem os do Cid e Bernardo dei Cárpio, quer os de Carlos
Magno e dos paladinos Roldão, Montesinos, Durandarte,Guari-
nos, Gaiferos, etc. Além d'esses indeterminados, históricos, e
fora dos problemáticos Eu me era moça menina e Pelos campos
de Mondego (N° 28 e 29), cujo eco os príncipes da crítica pe-
ninsular julgaram reconhecer nas Trovas de D. Inês, por ele
compostas, sabemos que (rareia de Resende conhecia Oh Be-
lema (N° 67), o texto lírico La hella mal maridada (N° 96), e
Tiempo bueno. E com certeza não iremos longe de mais, admi-
tindo que estava familiarizado, não só com todos aqueles ro-
mances que os poetas palacianos, seus amigos, cantavam, cita-
vam e sabiam de cór, mas também com todos os impressos no
(i) A crítica moderna pôde e deve ampliar esta justa censura, lamentando que
tanta vez dissessem sem escrever, escrevessem sem publicar, e publicassem sem
pôr á venda.
(2) Ha Trovas em que o coleccionador pede aos cortesãos assentem por es-
crito os seus improvisos, e mandem treslado.
(3) A immortalidade que só a poesia dá aos heroes é um lugar-comum, dos
melhores todavia, que os autores de novelas de cavalaria, epopeias e crónicas
costumam apregoar em Prólogos e Dedicatórias. *
222 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Cancionero General de Castela, que lhe servira de modelo, no
de Enchia e em Cancioneiros Musicaes manuscritos, sem falar
nos populares que ouviria nas suas idas ao reino vizinho.
As afirmações opostas dos que, antes de mim, se ocuparam
do assunto, e procuraram de balde vestígios de romances ve-
lhos no Cancioneiro de Resende, são erróneas.
[123] De balde procuraram também o vocábulo roman-
ce, encontrando apenas rimance , nos três exemplos regista-
dos (1).
Com relação a esta fornia divergente direi que me parece
dejustiça ligar-lhe importância, como a um produto da etimo-
iogi&)popular (2), anterior a 1500. Tanto mais assim porque ri-
mance, remance de segada, se conservou em certos lugares de
Tras-os-Montes (3), como título de narrativas tradiciones em
versos octónarios de rima contínua. E também porque no sé-
culo XV, tempo de eclosão dos cantares épico-líricos peninsu-
lares, houve, ao par de romanço (4) na acepção de língua vulgar,
chã, símplez, comprensível a pessoas sem erudição, a forma
paralela rimanço. Quem usou d'ela foi o rei D. Duarte (5). Na
linguagem literária nem um nem outra permaneceu todavia
(6). Mesmo os exemplos quinhentistas são raros (7). Aos do
(i) Vol. I p. XXX no Preâmbulo; vol. Ill 584 duas vezes, como título de Tiem-
po bueno.
(2) Leite de Vasconcellos já tratou do termo, na Introdução do seu Roman-
ceiro. A vogal pretónica de romance (lat. romanicè), reduzida em boca portuguesa a
u, passou na pronúncia do vulgo a e surdo, vogal que depois foi substituída por
i, por influencia de rima —rimar.
(3) Campo de Víboras e Duas Igrejas, segundo Leite de Vasconcellos. —No
Alemtejo também se diz remance (vid. Rev. Lus. X, 240).
(4) Substantivo verbal de romançai rimançar.
(5) No Leal Conselheiro Cap. 39; Aquestas cousas susos criptas... screvy em sim-
prez rimanço por se melhor poderem reteer.-Sò por descuido T. Braga lhe atribuiu o
significado de composição rimada, no Archipelago Açoriano, p IX.
(6) Modernamente rimance tornou a estar em voga entre os poetas. Os que
se prezam de patriotas de bom saber (moços lusíadas, como disse um d'eles) ser-
vein-se do nome restrictamente nacional, deixando o que é comum a toda a pe
nínsula E antes isso, mil vezes, do que a introdução do estrangeirismo Roman-
za, que outros advogam.
(7) De passagem assentarei que na Diana de Montemor (ou antes na novela
ROMANCES VELHOS 223
Cancioneiro posso juntar apenas dois significativos, de João de
Barros, cujo interesse pelo género já documentei, citando
o trecho da Gramática de 1536 em que, tratando do e pa-
ragógico, diz como se faz nos Rimances antigos, que por fa-
zerem consoante diziam: os que me soem guardare, por guar-
dar (1).
Falando de uma cantiga histórica, composta na Abássia
do Preste João, entre 1515 e 1520, relativa a uma desastrosa
batalha perto de Zeila, preludiada por um desafio entre o Ca-
pitão Mouro Mahamed e um ex- frade peninsular, dizia nas
Décadas:
Do qual caso se fez hurna cantiga (ao modo como acerca de nós se can-
tam os rimances de cousas acontecidas) que os nossos ouviram cantar na
corte do Preste d'ahi a dous annos (2).
[124j Mais feliz do que T. Braga e Menéndez y Pelayo
encontrei um passo no Cancioneiro em que positivamente ocor-
re a forma romance, conforme também já deixei indicado.
Único por ora, é todavia tão bom, que, sendo datável com
exactidão, atesta que na corte de D. João II, mancebos na-
morados de Portugal tinham o costume de cantar romances.
Isto é, entre 1481 e 1496.
Abrindo o Vol. Ill a p. 358, o leitor encara com umas Tro-
cas a modo de carta: De João da Silveira, a Pêro Moniz e a
D. Garcia d' Alboquerque (quando foram com D. João de Sou-
sa a Castela, que foy embaixador) do que lhes havia ^acon-
tecer. í'3) Aos dois fidalgos, moços tão apaixonados que saíam
descontentes de ao pé das suas damas, João da Silveira pre-
diz, adevinhando, quaes demonstrações da sua sentimentalida-
de saudosa haviam de dar duranta a jornada; a saber suspiros,
intercalada de Abindarraez e Jarifa), romance é tauibem empregado, como equi-
valente de linguagem vulgar (com relação á cantiga do Mouro: Em Cartama me he
criado) pela símplez razão de os Castelhanos não possuírem senão essa forma
única para as diversas acepções da palavra,
(i) Sob N.° 120.
(2) Década III, Livro I, Cap. 5.
(3) F. i88f.
224 CAROLINA MICHAÊLIS DE VA8C0NCELL08
falas frautadas, passeios solitários era noites de luar, e final-
mente cantar romance:
Mais am de cantar rromançe
em que cuidam que i 'entendem (1).
Seguramente, não entoariam romances históricos de em-
peradores, reis e pessoas de memória. Mas tão pouco é neces-
sidade que escolhessem actualidades alegórico-sentimentaea
como os romances líricos de Badajoz, Enchia, Cardona, ou
dos seus conterrâneos Gil Vicente e Garcia de Resende. Na
Celestina (c. 1499), Semprónio canta e tange Mira Nero de
Tarpeya (2), a pedido do apaixonado Calisto que reclamara a
mais triste canção conhecida.
A aludida embaixada realizou-se logo depois de Cristóvam
Colombo haver entrado no porto de Lisboa, de regresso da
memorável expedição ás Antilhas (3). Resolvido a entender-
se sem demora com os Reis Católicos a respeito da demarca-
ção das conquistas no Oceano, o monarca português deu ins-
truções tanto a Ruy de Sousa (veterano em missões diplomá-
ticas e poeta palaciano, bem se vê) como a seu filho D. João
que já o havia acompanhado mais de uma vez a Castela,
onde era pessoa gratíssima. Com muy honrada companhia
abalaram em Março de 1494. Entrevistaram-se com os reis
em Medina dei Campo, Arévalo e Tordesilhas, onde a 7 Ju-
nho o histórico tratado de demarcação foi assinado.
[125] Passando a materiaes colhidos fora do Cancioneiro,
embora também se refiram a Poetas Palacianos, apresento
mais uma anecdota histórica, proveniente da mesma fonte ar-
quivada de onde saiu a dos Xaboneros (4). Nela, figura em cir-
(1) Na impressão de 1516 (e na de 1846) ha Cuidem.
(2) Emperador também!
(3) Vid. Visconde de Santarém, Cuadro Elementar, 392 s; e Vida e Eeytus,
cap. 167 s.
(4) Memória dos Ditos e Sentenças de A'eis: MS. N.° 1126 e 1127 Torre do
Tombo. Aproveitada por T. Braga na Poesia Popular Portuguesa, p. 2,g e 369.
ROMANCES VELHOS 225
cunstáncias cuja autenticidade se pôde controlar, outro ex-
patriado português, residente na Corte castelhana.
«Estando cl Rey D. Fernando huma sesta ouvindo música,
cantou-lhc o seu músico um romance, a letra do qual continha
o vencimento que se houvera contra el Rey D. Afonso. E de-
pois de acabado, preguntou el Rey a Fernão da Silveira: que
lhe parecia? E podendo mais com ele a natureza de Português
que o ódio particular que tinha a el Rey D. João, respon-
deu: «Senhor, muito bem está o Romance do pay; mas faça-
rae V. A. agora a mercê que mande cantar o Vilancete do
filho».
Escuso memorar as peripécias da batalha em que el-rci
D. Afonso foi vencido, e o Príncipe D. João saiu vencedor,
tão decantadas sâo (1). Mas, por excepção, darei aqui alguns
traços biográficos de Fernão da Silveira que deviam seguir
mais abaixo, porque sem eles a anecdota não se compren-
de. O rancor ao Príncipe Perfeito é indício seguro para a
sua identificação. Não se trata do personagem notável conhe-
cido como Coudel-mór e Regedor, tão íntegro magistrado que
mereceu da severidade de D. João II o honroso apodo de
Bom (2). O expatriado era filho de outro benemérito magistra-
do e diplomata: o Doutor João Fernandez da Silveira, escri-
vão da puridade de D. Afonso V, transformado em D. João da
Silveira (1480), um lustro depois de o monarca o haver elevado
a 1 .° Barão de Alvito (em 1475). O posto de confiança de escri-
vão particular em que Fernão era sucessor do pae, devia-o a
(i) Vid. p. ex. Resende, Vida e Feytos cap. 56 e 154; Góes, Cltronica doPiin-
cipe, cap. 78. Claro está que as alusões a Toro e Çamora são tão frequentes em am-
bas as literaturas como as relativas a Aljubarrota. As obras de arte, entre sérias e
burlescas ou satíricas, suscitadas pela batalha de Toro, reclamam um artigo que
talvez escreverei algum dia. Uma das mais curiosas é a Comédia Antónia Garcia de
Tirso de Molina, cuja figura principal (mulherona de forças gigantescas e ânimo
varonil como as serranas do Arcipreste) foi ideada para irmanar com a Forneira de
Aljubarrota, no mesmo sentido em que a acção de Toro irmana com a de Aljuba-
rrota, contrabalançando-a.
(2) O Coudel-mór era filho do rico-homem Nuno Martins da Silveira. Fidalgo
da casa do Infante D. Fernando (pae de D. Manuel) e Senhor das Sarzedas e de
Sovereira-Fermosa, fora nomeado Coudel-mór por carta de 1454. Substituído
nesse cargo, no fim da vida, pelo filho primogénito, Francisco, passou a ser Rege-
U
226 CAROLINA MICHAÉLIS DE VA8C0NCELL08
serviços pessoaes, prestados, leal e valorosamente, na tomada
de Arzila, era Tanger, e na acção de Toro (1). Afeiçoado e li-
gado aos Braganças, entrou coratudo, por motivos que se ig-
noram, na conspiração do Duque de Viseu (1484). Por isso teve
de fugir disfarçado para Castela, onde se conservou durante
anos. A requerimento do Justiceiro português foi finalmente
desterrado da península. Perseguido por ordem sua, foi morto
a ferro na cidade de Avinhão, a 8 de Dezembro, de 1480. Se-
gundo os Cronistas, também este Fernão da Silveira era ho-
mem de muito preço e de qualidades taes que o próprio rei
que castigava a sua traição, gabava a sua hombridade (2) .
Anteriormente, já estivera em Castela, em companhia do
Duque D. Diogo, como se infere d'uns versos seus de que logo
terei de falar.
O caso contado passou-se portanto entre 1482 e 1489.
O romance sobre a batalha de Toro não subsiste. Tanto a le-
tra como a música desapareceu (3). Mas se o Vilancete por
deshecha, a que o Português alude na sua resposta, não era fic-
tício (como presumo), o romance tinha feitio áulico. Vilancetes
ou Villancicos por deshecha, postiço acrescento lírico, que se
dor das Justiças. Faleceu em 1493. — Em 1490 ainda fora a Castela como embai-
xador, a tratar o casamento do Príncipe D. Afonso. Nas Festas de Évora foi um
dos Juizes das Justas. — Vid. Braamcamp-Freire, Brasões de Cintra, II 390 e III
194, e Sepulturas do Espinheiro, p. 14 e 52; Caet. de Sousa, Hist. Geneal. III 128;
Visconde de Santarém, Quadro I, passim. — PS. Ha um terceiro Fernão da Silva,
filho e neto dos dois Coudeis-móres, poeta também. A seu respeito, veja-se Braam-
camp-Freire, A Gente do Cancioneiro, na Rev. Lus., X p. 297.
(1) Vid. Góes, C /irónica do Príncipe,' e Caet. de Sousa, Hist. Geneal. XII 442.
(2) Resende, Vida e Feytos, cap. 52, 54, 56; Ruy de Pina, Crónica de D. João Ih
cap. 18.
(3) Procurèi-as de balde no Cancionero Musical, onde era o seu lugar, ao lado
dos romances relativos á tomada de Albuquerque (1480); Setenil (1484); Ronda
(1485); Baza (1489); Granada (1486, 1489 e 1492); isto é, os números 321, 332, 331,
328, 330, 327, 315. — O único romance sobre a batalha de Toro que conheço, é
erudito, e muito posterior. E' o que começa En esa ciudad de Toro, grande turba-
ciôn habla. (N.° 1024 de Duran, onde na epígrafe se deve ler: yuan \_II y Al-
fonso~\ V.) — Obra d'aquele Alonso de Fuentes que no seu Libro de los Cuarenta
Cantos (1550) iniciou o regresso ao estilo popular e a assuntos de historia pátria
e estrangeira.
ROMANCES VELHOS 227
juntava ao recitativo dos romances velhos, provavelmente por
instigação dos compositores musicaes, estavam em voga por
voltas de 1500 a ponto tal(l)que a locução responder a um ro-
mance com um vilhancico ou rematar um romance com um vi-
llancico, para indicar um contraste evidente entre duas coisas
caprichosamente juxtapostas ou encarreiradas, se tornou pro-
verbial (2).
*
[126] Agora outra série de provas da familiaridade dos
Portugueses com romances. Com relação a textos já então co-
rrentes entre o povo, em linguagem, como as redigidas por Bal-
tasar Díaz, chamarei a atenção apenas para uma única e
vaga referência, contida numa obra quinhentista. É Jorge Fe-
rreira de Vasconcellos que aplica a expressão Bella Infan-
tinha a uma donzela (3), evocando uma figura novelesca, por
ventura já então nacionalizada, pelo próprio cego da Madeira,
ou algum camarada seu. Não sei dizer, porém, se o autor da
Aulegrafia tinha em mente, como é provável, a protagonista
decantadíssima das Senhas do Marido, chamada ainda hoje
Bella Infanta no Ribatejo e em Tras-os-Montes, e Dona Infanta
na Beira Baixa (4); ou alguma das Infantinhas de França,
quer fosse a enfeitiçada por sete fadas, hoje geralmente trans-
formada, por falsa interpretação do título em filha dei rei de
Hespanha (5), quer a menos divulgada que se fingiu malata (le-
prosa) afim de se salvaguardar do cavaleiro andante (h) que a
(i) Vid. Canc. General N.° 435, 447-452, 454, 456, 457, 468, 470, 472, 474,
475» 477-48o; Canc. Musical 'N.° 336. Em um dos parágrafos seguintes mencionarei
um romance português acompanhado de desfeita.
(2) Vejo-a empregada v. g. por Luis Milan no Cortesano,^. 118.
(3) F. 133: que me lançarei em lençoes de veludo com a Bela Infantinha.
(4) Estava a bela Infanta no seu jardim assentada.
A's numerosas redacções conhecidas do tema, havemos de juntar agora os
No. 34, 51, 62, 63, 83, 94, 99 do Romanceiro Trasmontano.
(5) O caçador foi à caça, á caça como soia.
(6) Vid. Braga, Romanceiro p. 240-263 e Abade Tavares, Romanceiro Tras-
montano No. 31, 37, 46, 75.
228 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASC0NCELLÔ8
encontrara na floresta. Também a esposa do Conde-Sol leva ás
vezes ó título de Infantina.
[127] Quanto a romances literários, compostos antes de
1550 por Portugueses determinados, pouquíssimos surgiram
por ora na minha exposição. Em português apenas o curto
fragmento indiático sobre a victoria do Salscte, ganha por
D. João de Castro, quasi em meados do século xvi (N.° 121)
obra, todavia, de um Anónimo-, os romances juglarescos do
Conde Alarcos (perdido), Marquês de Mantua, c Emperatriz
Porcina, traduzidos do castelhano por Baltasar Uiaz. Nesse
idioma, o romance de D. Duardos e Flérida, escrito por Gil
Vicente entre 1521 e 1525.
Podíamos juntar-lhe o de Tiempo bueno, anterior a 1516,
pois foi proclamado como original de Garcia de Resende, pela
voz autorizadíssima de Menéndez y Pelayo (1). Quanto a
mim, confesso que conservo dúvidas fortes a este respeito; mas
poucas quanto ás origens portuguesas do texto. A favor des-
tas fala a designação puramente nacional de rimance, o facto
de a compilação de Resende ser a mais antiga em que apare-
ceu na península; a grande voga que teve neste país, e em ul-
timo lugar a sentimentalidade do assunto e a repartição do
cantar em quadras (2). A favor do próprio Garcia póde-se
alegar que no título falta o adjectivo Allieyo (3). De mais
a mais, é certo que ele estava familiarizado com roman-
ces, em ponto superior a todos os coevos que até aqui apre-
sentei ao leitor; e poetava frequentemente em castelhano,
como em geral os palacianos do seu tempo. Causadora das
minhas dúvidas é a profunda melancolia com que o autor
fala, na quadra segunda, dos seus cabelos brancos (4) e tam-
(i) Antologia VII, p. CXLVIU.
(2) Nous seus Commentarios as Rimas de Camões (Vol. III. 86) Faria e Sousa
cita Tiempo bueno, classificando- o de coplas antigas... comuns a todos.
(3) Repito que o texto é encabeçado da palavra Rymançe, sem mais nada; e a
paráfrase, de Grosa de Garcia de Rresende a este rrymance.
Infelizmente, sem acrescento algum. Se na primeira parcela falta Allieyo, na se-
gunda nào ha seu.
(4) Com referência ás horas ufanas do tempo pretérito diz: Mas en ellas se sem-
braron la simiente de mis canas.
ROMANCES VELHOS 229
bera a sintaxe arcaica do texto (1). A' procura de um roman-
cista português, encanecido antes de 1516 (2), aventuro-me a
indigitar um único nome: o de D. João de Meneses, o Grande
Africano. D'ele passo a ocupar-me.
[128] Cumpre-me principiar com outros dois romances em
castelhano que, sendo indubitavelmente do período medie-
val da poesia peninsular, sâo, na minha opinião de procedên-
cia portuguesa, embora não entrassem no Cancioneiro Geral.
Ambos sao líricos e de sentimentalidade melancólica, como
Tiempo bueno. Claro está que nao é meramente por este mo-
tivo que os reclamaria para Portugal. O estilo de afectuosi-
dade apaixonada em que estão escritos, era então moda tam-
bém entre Castelhanos e Catalães, como se vê, p. ex. em Por
unos puertos arriba de Juan dei Encina; Caminando por mis
males de Ciarei Sanchez de Badajoz; Caminando sin plazer do
Comendador Castellví; Triste estaba el caballero de Alonso de
Cardona. E é justamente no meio d'esses textos, que as obras
«portuguesas» aparecem.
A primeira Gritando va el caballero publicando sti gran mal
é uma narrativa misteriosa. Lamentando a sorte da sua casta
amiga, morta na idade de vinte e dois anos, o poeta vai cons-
truindo-lhe um fantástico monumento fúnebre, todo alegórico,
segundo o sistema das novelas de cavalaria.
A segunda, Venid, venid amadores quantos en el mundo sou ,
não é menos apaixonada. Um vate infeliz convida todos quan-
tos amam a assistir á morte e ao enterro do seu coração. Pos-
suímos porém um curto fragmento, os dez octonários iniciaes
apenas, e esses por terem sido glosados na Corte caste-
lhana.
G fitando foi impresso e louvado numerosas vezes. Kegis-
(i) Os glosadores retocaram-na, em geral, como se pôde observar na tabela
comparada (incompleta), que publiquei outr'ora na Zeitsc/irift. Ouanto a lusismos
tão típicos como o infinitivo pessoal, que ocorre em diversas poesias de Garcia
(p. ex a p. 599 en seren por vos causados; a p. 614 seren lexos de mirar e por no bi-
vieren llorando) não existem em Tiempo bueno. Só lusimos gráficos e fonéticos.
(2) Verdade é que na Glosa ele é como todos os demais, laudator temporis
a< ti, mas não acentua a nota das cãs. A respeito da idade do compilador queiram
conferir as datas biográficas que alego mais abaixo.
230 CAROLINA MICHAElIS DE VASC0NCELL08
tado entre as poesia? predilectas dos palacianos de 1500,
p. ex. pelo autor da Ensaladilla de Praga (1), e celebrado ao
mesmo tempo no Juego trobado de Pinar como romance ver-
dadeiro, de dolor muy desigual (2), entrou no Cancionero de
1511 (3), e passou para as edições modificadas de 1520 (4)
e 1557 (5), sempre com a declaração expressa De D. Juan
Manuel. Com a mesma está no Espejo de Namorados (6) e em
diversos Pliegos sueltos (7). Mas nem por isso a atribuição fi-
cou incontrovertida (8). Como poesia de Juan dei Encina figu-
ra em uma das impressões do Cancionero privativo d'esse fe-
cundo trovador (9).
Erroneamente, segundo entendem os próprios conterrâ-
neos (10).
(i) Estr. 5, Ingr. 23.
(2) Canc. Gen. N.° 875, Estr. 37, sem nome de autor como em quasi todas as
citações. Romance verdadero por ser inspirado por um caso acontecido? Talvez!
Da estrofe dedicada á D. Isabel, Princesa de Portugal, resulta a data 1491-1497,
pois de ahi em diante a viuva do Príncipe D. Afonso, esposada de D. Manuel,
ficou sendo Rainha de Portugal, até morrer em 1498.
(3) N.° 455 da reimpressão moderna. (Vol. I p. 544.)
(4) F. 110, como vejo na edição fac-similada de Huntington,
(5) F. 207 v.
(6) N.° 16 do exemplar que vi na Biblioteca Nacional de Lisboa. Confer En-
sayo IV c. 1459 N.° 4510.
(7) F. Wolf fala de um, conservado em Viena (vid. Romanzenpoesie, p. 6 e 97)
e de outros dois, guardados em Praga (Sammlung p. 18 e 131 — N.° XXXV e
LXXIV).
(8) Da atribuição, anacrónica, ao autor do Conde Lucanor, homónimo do Por-
tuguês, falarei no paragrafo imediato.
(9) Çaragoça, 15 16.
(10) Veja-se o que Duran diz a esse respeito no Vol. II p. 675 do Romancero
General s. v. Encina. Emquanto não houver reimpressão das obras líricas do fun-
dador da teatro castelhano, não me é fácil verificar, se no seu Cancionero entra-
ram mais obras alheias. Tão pouco sei, em que Romancero General o texto de
D. João Manuel entrou com a epígrafe El Mezquino Amador. Seguramente não
na edição de 1600, de cuja reimpressão fac-similada tenho a vantagem de me
poder servir.
Claro está que Gritando entrou em muitas colecções modernas (Duran N.° 297;
Depping II 469, sem nome de autor) e também que os historiadores da literatura
castelhana o mencionam e gabam, comquanto alguns como Ticknor e os seus su-
cessores partam de um ponto de vista falso.
ROMANCES VELHOS 231
Venid, Venid, amadores! (1) pelo contrário, ficou oculto
até a data recente da publicação de um Cancionero antigo
(10431 do Museo Britânico), dei Siglo XV, segundo Hugo Ren-
nert seu editor (2) ou de principíos do século xvi, na minha
opinião (3). Apesar d'isso não deixou de ser apreciado pelos
coevos. O mesmo Pinar (4) que prestou homenagem a D. João
Manuel, glosou os dez versos que possuimos. Escreveu além
d'isso duas continuações (5). E meteu o primeiro hemistíquio
no Jogo citado (6). Emquanto ahi o classifica correctamente
como un romance de dolores quen passion se despedaza (7), deu
á letra da glosa indicada, a epígrafe inexacta de Canciôn, se
não foram apenas os copistas que a adicionaram por causa das
proporções mezquinhas a que ficara reduzida (8).
O florilégio importante em que surgiu, é relativamente rico
de versos de Portugueses que provadamente estiveram em
Castela e Aragão, de Março a Outubro de 1498. E entre eles
sobresae o autor de Gritando, camareiro-mór do monarca, e
seu íntimo amigo D. João de Meneses. O primeiro figura ahi
com seu nome inteiro D. João Manuel, Português; o segundo
aparece, ora com a máscara de Un Galan (9), ora com o pseu-
(i) A mesma exclamação já fora empregada pelo Marquês de Santilhana nas
suas Coplas â la Muerte de la Reyna D. Margarida {Obras p. 259). A deusa do
amor {pobre de liessat como qualquer das protagonistas de Juan Rodríguez de la
Câmara) principia com ela os seus brados de endechera.
(2) Erlangen, 1895.
(3) Exposta no Literaturblatt de 1897.
(4) Ou a mesma Pinar ; se se tratar da irmã..
(5) N.° 164 é o tema; 165 é a glosa; 166 e 167 são continuações, em que não
sou capaz de descobrir partes do romance, a não ser nos versos 9-10 do N.° 166.
Tema da segunda continuação é o cantar velho Hagadesle (hagadesle), Monu-
mento de amores! he! que ocorre também em dois romances de Garci-Sánchez de
Badajoz: Despedido de consuelo (Canc. Gen. II, p. 525) e Cominando por mis males
(ib. 1,555).
(6) Canc. Gen. N.° 875, Estr. 45.
(7) A rima é contínua (em-onj.
(8) Talvez pelo próprio glosador. Por motivos óbvios, esse abreviava frequen-
temente os textos alheios que parafraseava ora por recomendação de um Mece-
nas, ora pela sua livre vontade.
(9) N.° 109 do Cancionero Rennert: La çarça toma receio, epigrafado Un galán
232 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
dónimo de El Grande Africano. Ao falar da glosa de Dum u-
darte, que pertence ao mesmo grupo de composições <|ue o
romance com a glosa e as duas continuações (1), já expliquei
que refiro o cognome glorioso ao fidalgo português que entre
os fronteiros africanos era o poeta mais notável, ou, se assim
o quiserem, ao fronteiro africano mais notável entre os poetas
cortesãos do Cancioneiro de Resende e do Cancionero Qemreâ
de Castilho (2).
[129] Quem são esses dois? Em primeiro lugar os mais al-
tamente cotados entre os poetas bilíngues da escola hespa-
ã tu amiga, é a estrofe final de uma composição extensa de D. João de Meneses,
impressa no Cancioneiro Geral I, 108. Logo mostrarei que em outra impressão o
mesmo fidalgo aparece disfarçado em un gentilhombre entre muchos conocido.
(i) Eis como o pecúlio do Grande Afticano se apresenta na edição de Ren-
nert:
EL GRANDE AFRICANO
159. [Villancico]: Nunca cessaran mis ojos.
1 60. Otro suyo: Vuestro soy, para vos naci.
161. Otras suyas: En toda la trasmontana.
I 162. Glosa de Durandarte: El pensamiento penado.
\ 163. Respuesta dei: La causa que vos hubistes.
164. Cancion: Venid, venid, amadores.
165. Glosa de Pinar: A la voz de mis gemidos.
166. Da razón á los amadores 1
que vinieron ai socorro de su ' Aunque, si viera senal.
muerte y como los despede. )
167. Del mismo Pinar en que 1
■r. i 1 f Haçndesle
mamnesta las onrras y el\ s
_ . , 1 , [ monumento de amores, he.
monumento dei corazón. I '
Cancion, em lugar de Cancion suya, diante o N.° 104, não invalida a probabili-
dade de a obra ser do mesmo autor das composições precedentes: tão vulgar é
essa inexactidão. Por descuido Rennert atribuiu ao Grande Africano (segundo se
infere do índice e das Notas) não só os N.°s 159-164, mas também 166 e 167.
Sendo, conforme digo no texto, continuações da Glosa N.° 165 que é de Pinar,
muito embora literalmente não se glose coisa alguma, são obra de Pinar. Quando
em 1897 tratei de Garci-Sanchez, ainda não estava bem inteirada da actividade
literária de D. João de Meneses. Vid Rev. Crítica de Ilist. y Lit. II, p. 127. Nota
2. É preciso riscar ahi as palavras creio que sem razão.
(2) Vid. supra: N.° 66, 98 e 100 do meu Catálogo.
ROMANCES VELHOS 233
nhoLi; quasi os únicos que virara os seus versos (1) honrados
e aplaudidos em Castela emquanto viviam; os únicos também
cuja fama perdurou e teve repercussão entre alguns corifeus
da Escola italiana em Portugal (2). Em segundo lugar (com-
quanto D. João de Meneses fosse mais velho, um decénio
pelo menos), um par de amigos cujas poesias andavam (pa-
rece) juntas num caderno (como as de Bernardim Ribeiro,
Cristóvam Falcão e Sá de Miranda, e mais tarde as de Gar-
cilaso e Boscan), sendo por isso confundidas ás vezes (3).
Amigos que juntos serviram D. João II emquanto Príncipe,
se interpreto correctamente uns versos do Cancioneiro (4).
Juntos foram no ano 1498 a Castela, onde entraram num
mesmo pleito burlesco entre Portugueses e Hespanhoes (5).
(i) Honrados na forma já indicada. Logo darei mais alguns exemplos da acei-
tação que os versos dos dois cortesãos portugueses tiveram no país vizinho.
Claro está que ainda outros personagens coevos figuram nas Cancioneros, p. ex.
Ruy de Sande, predecessor de Garcia de Resende, como moço da escrevaninha
de D. João II, e sucessor de D. João Manuel na embaixada de 1499.
(2) Façamos abstracção dos verdadeiramente grandes, como Gil Vicente, Cris-
tóvam Falcão, Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, cuja principal esfera de acção
fica fora do Cancioneiro.
(3) A cantiga, No hallo en mis males culpa está com o nome de D. João de
Meneses no Canc. General, N.° 337 (Vol. I p. 503); com o de D. João Manuel no
de Resende (Vol. I p. 410). — O rifão Senor mio como estais é atribuído a D. João
Manuel no Canc. de Hennert(N.° 83a) e a Meneses no de Resende (III 136). Nas res-
tantes parcelas da mesma Empresa das Calças, atribuídas aos dois, ainda ha maior
confusão. A ajuda que principia Ya vi calzas de damasco c lá (N.° 836) obra de
D. João Manuel, e cá (III 132) do empresário D. António de Velasco. A que diz
Em aguas de chamalote é de Meneses na colecção portuguesa (III 136), e de D.
Afonso Pimentel na castelhana (70^), etc, etc.
(4) Por um documento, que terei de citar mais abaixo, sabe-se que D. João
Manuel era em 1475 fidalgo da casa do Príncipe. Este modo de dizer é tão incom-
pleto que neste caso (e em outros muitos) originou numerosos erros. Julgo que o
Príncipe era D. João II e não seu filho D. Afonso, nascido em 1474. A casa de
D. João fora constituída em 1472. Desconheço todavia a lista dos Moradores. — O
vilancete, a que aludo no texto, seria portanto escrito entre 1472 c 1481, se a
minha conjectura fosse viável. — Vid. Canc. Ger. I 135: Se vos lá dizeis de nós. — A
epígrafe diz: Dom Joam de Meneses e dom Joum Manuel a Pêro de Sousa RH-
beyro porque entrando na Camará do pryncipe lhe \prometeo de dizer delles e na/n
disse.
(5) Os motejos dos Castelhanos sobre as calças de chamelote de um Português,
234 CAROLINA MICHAtLIS DE VASCONCELLOS
Juntos surgiram — e este traço é importante — na memória do
introductor da medida nova e do gosto ítalo-clássico quando,
no retiro da Tapada, recordava a sua feliz mocidade na corte
de D. Manuel (1). Cheio de saudades preguntava:
Os momos e 03 seraos de Portugal,
tam falados no mundo, onde são idos?
e as graças temperadas do seu sal?
Dos motos o primor e altos sentidos?
'uns ditos delicados cortesãos,
que é d'eles? quem lhes dá somente ouvidos?
Logo depois pôe em foco os dois vultos que mais brilho
haviam dado ás festas luxuosas da corte, continuando:
Porém, oh bom dom João (o de Meneses),
e oh Manuel que taes tempos lograstes,
chamar-vos-hei ditosos muitas vezes;
Que com tanto louvor aqui cantastes
e com tal voz que ainda eu alcancei
os derradeiros ecos que deixastes (2).
[130] Entre os materiaes biográficos que juntei, com o in-
tuito de apurar datas exactas a respeito dos Portugueses que
considero como mais antigos autores de romances e conhece-
dores de romances velhos, os relativos aos dois amigos per-
mitem-me rectificar diversas afirmações erróneas, em vigor
até hoje (3).
a que já me referi na Nota supra, encontram-se no Canc. Ger. III 131 e no Canc.
de Rennert N°s. 76-86 com nota suplementar a p. 153 §.
(1) Vid. Sá de Miranda, Poesias N.° 109 v. 127-132 e 142-147 da ed. de C. M.
de Vasconcellos, Halle, 1889.
(2) E assim que hoje julgo dever lêr, pontuar e interpretar esses versos, refe-
rindo o apelido de Meneses só a um dos dois poetas, mas o prenome João a am-
bos. Concordo portanto com T. Braga, que antes de mim chegou a este resultado,
conforme indiquei no Literaturblatt de 1897, N.° 4. Outr'ora eu procurava neles
dois titulares do tronco de Meneses, o Conde de Tarouca e o de Cantanhede, dan-
do importância excessiva ás variantes: dois condes, nos amores tam corteses e
Mas vós, oh bom Dom "João — Vos de Meneses Dom Manuel.
(3; Já aludi ao crasso anacronismo, cometido em tempos por diversos histo-
riadores da literatura hespanhola (como p. ex. Bouterwek e Dozy) pois vindicaram a
composição de Gritando va el caballero a um homónimo do camareiro-mór que flo-
ROMANCES VELHOS 235
Começo com D. João Manoel que figura nas Crónicas do
seu tempo principalmente como camareiro-mór, valido e con-
selheiro do rei Venturoso, mas também como alcaide de
Santarém (1). Logo no principio do reinado foi incumbido de
missões de confiança. Em 1497 ultimou o casamento do mo-
narca com a viuva do mal-logrado Príncipe D. Afonso (2).
Em 1499 foi pedir aos Reis Católicos a mão de outra sua
filha (3). Para assim conquistar o favor régio, teriam bastado
talvez as suas qualidades, tanto de homem de bom saber, no
sentido do Renascimento, como de perfeito cortesão. Outra
circunstância foi, porém, o ponto de partida da sua fortuna
e da intimidade das relações que o prendiam ao monarca.
D. João, e mais peculiarmente seu irmão D. Nuno (4), fo-
ram colaços de D. Manuel, que todavia ao nascer em 1.° de
Junho de 1469, ainda estava assaz distante do trono, sepa-
rado d'ele por oito pessoas que legitimamente o herdavam, se
em 1496 continuassem vivos. Como companheiros do Senhor
D. Manuel os dois moços se criaram no paço do Infante D. Fer-
nando (f 1470) e sua esposa D. Beatriz. Progenitor fora o dis-
tinto Carmelita D. Frei João (da criação do Condestável Nun'
Alvarez) , (5) . Capelão-mór e do conselho dos reis, o qual subiu a
Bispo de Ceuta em 1445, a Bispo de Guarda em 1459 e ocu-
pou além disso o cargo de provincial e administrador da
Ordem, até morrer em 1476 A mâe chamava-se Justa Ro-
resceu no século XIV; i. é. ao benemérito sobrinho de Alfonso o Sábio, a que de-
vemos o Conde Lucanor.Este erro já foi apontado por F. Wolf, nas Studien (p. 479),
e Menéndez Pelayo disse na Antologia o suficiente para o desarraigar por com-
pleto.
(1) Vid. Góes, Crónica de D. Manuel I. Cap. 5 e 46.
(2) Ib. Cap. 22.
(3) D. Maria (mãe de D. João III, D. Luis, D. Henrique, D. Afonso, D. Fer-
nando, D. Duarte, D. Isabel, D. Beatriz). Vid. Góes, cap. 46. Acentuando a boa
vontade que o monarca lhe tinha, o Cronista chama-o pessoa de quem com tazão
muito confiava, as si por sei mui prudente como pela criação que nelle fezera.
(4) D. Nuno era Alcaide da Guarda e almotacé-mór da Corte. Faleceu em
1525. Ele rimava também, mas só de longe em longe. Vid. Canc. Ger, III, 26 e
278. Garcia de Resende e Luis da Silveira dirigiram-lhe coplas (II, 468 e 470^.
(5) Góes, Crónica I, cap. 5. Na ordem fora Frei João de S. Lourenço. Mas
nunca e nenhures Dom Frei João Manuel (como disseram Barbosa Machado II,
236 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
dríguez. Ovelha do rebanho egitaniense do Bispo (1), era pro-
vavelmente de belos dotes físicos e d'alma; além d'isso ins-
truída e de família abastada, mas não nobre. No fim da vida
o Bispo conseguiu legitimar os filhos (15 de Nov. de 147'» .
pouco depois de haver instituído um morgado ;i favor do mais
velho (2), menor então de vinte e cinco anos. No acto, este era
presente na qualidade de fidalgo da Casa do Príncipe. E já
então se apelidava Manuel e usava do título Dom. E de cror
que nâo escolheria como patronímico aquelle nome bem so-
ante, sem acquiescôncia do seu senhor e colaço.
Historietas, ou antes patranhas genealógicas, transforma-
ram D. Justa, que se rehabilitou perante os olhos do século
pela fundação do convento de Jesus de Setúbal, em descen-
dente dos insignes Manueis de Castela; ou então o próprio
Bispo em bastardo dei rei D Duarte, havido numa D. Maria
Manuel, sobrinha da primeira esposa de D. Pedro I de Por-
tugal (D. Constança Manuel) (3).
Ha pouco, investigações cuidadosas de dois historiadores
beneméritos (4) destruíram todavia pela raiz essas lendas
fantasiadas por linhagistas adictos aos novos Manueis de Por-
tugal, e propagadas por Gaspar Barreiros e Pedro de Mariz,
(õ) lendas a que me acuso de também haver dado fé, adicio-
nando-lhes até um ponto: a lembrança de vindicar para o
687 e Caet. de Sousa, Hist. Geneal. XI, 371, e depois d'eles muitos outros), embora
mais tarde se insculpisse esse nome na sua campa.
(1) Numa Bula de 1489, em que lhe foi concedida a fundação do convento de
Jesus em Setúbal, ela é designada expressamente como mulier egitaniensis.
(2) A 14 de Agosto do mesmo ano.
(3) Camilo Castelo Branco foi um dos propagadores da noticia. Outros de-
ram á amante inventada o nome D. Juana Manuel.
(4) Braamcamp-Freire, Brasões de Cintra, I 187-231 {Manueis); Brito Rebello,
na Arte em Natureza e Portugal, Fase. 34 (Setúbal).
(5) Escuso dizer que essas patranhas nao ficaram sem contradição. Um satírico
do tempo as verberou, brincando com o nome Justa:
Justa Rodriguez justou
com um frade carmelita;
e esta justa maldita
os Manueis nos deixou.
ROMANCES VELHOS 237
Bispo D. Frei João (pseudo-Manucl), amante de Justa Rodrí-
guez, uma trova que é de Jorge Manrique! meramente por
ela começar com as palavras amfibológicas Justa fué mi per-
dición (1).
D. João Manuel não se distinguiu por grandes «feitos mili-
tares. Sei apenas de uma expedição africana em que tomou
parte em 1489, a fundação tao contrastada da fortaleza da
Graciosa (2). Morreu em Castela, entre 24 de Agosto de 1498
e a mesma data do ano de 1500 (3); provavelmente antes de
4 de Fevereiro de 1499 (4), de doença, segundo Damião de
Góes. A missão foi ultimada por Ruy de Sande, dando em re-
sultado o segundo casamento de D. Manuel, como já disse
(õ). Ignoro que idade teria (0). Era viuvo de D. Isabel de Me-
(i) Com esse título publiquei um artigo no Círculo Camoniano, Vol. I p. 294-
299, cheio de erratas e de inexactidões.
(2) Vid. Resende, Vida e Feytos, cap. 81; Ruy de Pina, cap. 38. — Confer Canc.
Ger. I 383 e 397.
(3) Vid. Góes, Crónica I cap. 46; e Hist. Geneal. XI 1. c. Brito Rebello afirma
que Justa Rodríguez acompanhou o filho a Castela. Contra o seu costume não in-
dica todavia o documento em que se baseia. Podemos suspeitar que D. João Ma-
nuel já andava doente ao sair da pátria.
(4) Esta é a data do documento, pelo qual seu filho foi nomeado camarei-
ro-mór. Nele ha alusão ao pae que Deus haja. Vid. Brasões de Cintra I 21 1. Gar-
cia Perez, Rennert, Menéndez y Pelayo colocam a sua morte erroneamente no ano
1524. Suspeito que 1524 é simplez erro por 1521, e que esta data foi por má
interpretação de um trecho de Ticknor (I p. 60; p. 56 da ed. alemã) referida a D.
João Manuel, sendo na verdade, e também na mente d'aquele historiador da lite-
ratura castelhana, a da morte dei Rei D. Manuel.
(5) Segundo o Quadro Elementar do Visconde de Santarém (Vol. II p. 7) Ruy
de Sande achava-se no desempenho da sua missão a 22 de Abril de 1500. Como
D. João Manuel morreu sem a terminar, o ilustre diplomata não o menciona.
(6) Creio que teria pouco menos de quarenta anos. As relações de Justa Ro-
dríguez com o Bispo da Guarda findaram seguramente quando foi chamada ao paço
do Infante afim de criar o Senhor D. Manuel. Mas é incerto, quando começaram,
e se antes de D. João houve outros filhos que não vingaram. Braamcamp supõe
que as relações datam de 1466, e coloca o nascimento do camareiro-mór no ano
de 1467, e o de Nuno, como é justo, em 1468 ou 1469. Quer-me parecer todavia
que, se o Bispo requereu e conseguiu em 1460 licença pontifical para testar, co-
meçando logo a juntar bens, procederia assim porque já então tinha motivos para
cuidar do futuro de Justa Rodríguez e sua prole. E as datas que se podem abstra-
238 CAROLINA MICHAÉLI8 DE VASC0NCELL08
nese9 (1). Deixou uma filha e um varão, D. Bernardo (2)
que imediatamente foi nomeado camareiro-mór, e que em
1510 batalhava nos campos africanos. Só depois da morte
do primogénito, Justa Rodríguez se recolheu ao convento
que fundara e onde jaz.
Por uma carta latina de pêsames e de consolação, que o
afamado latinistaCataldoSículo (3), mestre do Duque de Coim-
bra D. Jorge (bastardo de D. João II) e de diversos próce-
res, escreveu então a D. Justa (4), sabemos que ele sustentara
relações epistolares com D. João Manuel durante quinze anos.
De 1484 em diante.
As poesias do Camareiro-mór dão prova de fina cultura,
clássica e moderna, mas também de verdadeiro talento poé-
tico. Os traços que nelas prenunciam o advento do Humanis-
mo, e lhes dariam de 1478 a 1500 valor especial, não são
comtudo os que hoje despertam interesse. Conforme já indicou
com simpatia e discernimento o autor da Antologia (5), ana-
lizando parte das obras castelhanas contidas no Cancioneiro
de Resende, o que lhes dá graça e sabor é a subtileza do ingé-
nio, são as luzes e os matizes poéticos com que salpica os seus
hir do posto de fidalgo em 1475, e de algumas composições poéticas de D. João
Manuel, confirmam a suposição que nascera em 1460, ou antes.
Uns versos seus, escritos em resposta a Pedro de Cartagena [Çanc. Gen. N.° 162),
são anteriores a 1478, se tal for realmente a data do falecimento do ilustre Cas-
telhano.
(1) No Romance Gritando va el caballero a amada fina-se com 22 anos, indi-
cação que faz supor realidade e intimidade. Mas alguns traços da poesia, a desig-
nação casta Diana, reforçada pelo simbólico emblema das castanhas e o verso que
murio sin la °ozar excluem a aplicação á esposa. Essa era filha do Alcaide-mór de
Campo, D. Afonso Telez de Meneses.
(2) Ha quem erradamente o chame D. Fernando.
(3) As suas obras latinas, nas quaes avulta a epopeia Arcitinga, foram reim-
pressas no Vol. VI das Provas da Hist. Genealógica.
(4) Cataldus felici Etnanuelis Regis jVutrici. A carta está no fim da edição de
1 500, de que ha um exemplar entre os Incunábulos da Biblioteca Municipal do Por-
to (Sign. 66). Não entrou na impressão que, promovida por António de Castro,
foi dedicada á Infanta D. Maria. Em ambas faltam cinco cartas a D. João Manuel,
de que Barbosa Machado dá noticia, tresladando um passo importante.
(5) Vol. VII, p. 139-143. Conf. Clarus, II, 232.
ROMANCES VELHOS 289
assuntos. E também a elegância e pureza da dição (1). Dis-
tinguindo um Poema (em coplas de Jorge Manrique) sobre os
Sete Pecados Mortaes, incompleto por causa da morte do au-
tor (2), espécie de visão dantesca, com referências a Platão,
Cicero e o pitagórico y (3), Menéndez y Pelayo caracteriza-o
de menos didáctico e menos árido do que o poema de Juan de
Mena que lhe serviu de modelo. Nota o interesse histórico que
desperta a Lamentação sobre a desastrosa morte do Príncipe,
na qual tivera parte sem culpa, o seu íntimo, D. João de Me-
neses. Do Romance não fala, ou por esquecimento, ou por ele
não haver entrado na compilação de Resende; nem tão pouco
dos versos de amor e de burla aliás comedida, por serem ba-
gatelas triviaes de mais.
Entre as suas composições portuguesas destacam-se pela
singeleza e sinceridade da inspiração duas religiosas, e duas
didácticas ou moraes. Essas últimas são de forma e dição po-
pular (4). Numas trovas centónicas mostra-se bom conhece-
dor das cantigas áulicas da corte dos Reis Católicos, conser-
vadas em parte no Cancionero Musical, e aproveita, além de
um texto francês (horrivelmente deformado na colecção de
Resende) uns versos do amigo Meneses (5), ao qual tributou
ainda outras homenagens (6). Ura dos seus correspondentes
(i) Apesar d'isso ha nas suas poesias castelhanas, de longe em longe, um infi-
nitivo pessoal. Vid. Canc. Ger. I, 419, 1. 23.
(2) Boehl de Faber (na Floresta I, N.° 17) erra dizendo que as coplas eram
dirigidas a D. João II.
(3) Acerca d'este simbólico y, que é costume reconhecer numa das entradas
das Capelas Imperfeitas da Batalha, vid. C . M. de Vasconcellos, As Capelas Imper-
feitas, Porto 1904. O mote do pórtico, tratado de grego durante séculos e que de
balde tentei interpretar como português e de D. Manuel, é francês e de D. Duar-
te e diz tant que seray, completando-se com as palavras lealte faray inscritas tal-
vez no fecho do arco. Ambas foram descobertas pelo General Brito Rebello nu-
ma baixela dei Rei D. Duarte, cuja descripção perdura. Vid. A Revista, 1904.
(4) Nunca vi... e Ouve vê e cala, em pareados.
(5) Canc. Ger. I 407: Mi tormento desigual; impresso entre as obras de Meneses
I, 117.
(6) P. ex. numa carta que lhe dirigiu (I 413). Quanto á cantiga No hallo a mis
males culpa (de Meneses, na minha opinião), quem sabe se andava entre os versos
de D. João Manuel como letra para voltas e glosas, que não chegou a compor?
24o Carolina michaêlis de vasconcellos
literários, glosador também de uma das cantigas de D. Jofio
Manuel (1), é aquele Álvaro de Brito que trocou versos com
Gómez Manrique e verberou os excessos do Roupeiro .
[131] D. João de Meneses é realmente de prosápia antiga
e ilustre, enaltecida tanto pelos melhores vates portugueses
como pelos historiadores nacionaes. Descendia em linha recta
de D. Gonçalo Telles de Meneses, Conde de Neiva desde 1378
(2). Como um dos filhos d'este titular chegasse a ser Senhor
de Cantanhede (3), e um dos bisnetos, irmão do nosso D. João,
fosse levantado a Conde d'aquela vila (1479) (4), é costume
designar o ramo a que o poeta pertencia, como dos Meneses-
Cantanhede. O distintivo é necessário, porque outro D. João,
de Meneses foi, como o nosso, fronteiro intrépido nos campos
africanos, como ele Governador da casa de um Príncipe, co-
mo ele cortesão acreditado, e poeta nos serões de D. João II
e D. Manuel (5). Esse homónimo, coetâneo e parente, era filho
do grande D. Duarte de Meneses, o de Alcácer (trucidado na
serra de Benacofú pelos Berberes, de modo tal que no seu ja-
zigo enterraram apenas um dedo) (6), neto portanto de D. Pe-
( i ) Cuidados, deixai-m 'açora.
(2) Era bisneto d'ele, segundo Braamcamp, Brasas de Cintra II. p. 349. La-
mento que o capítulo dedicado ao grosso tronco dos Meneses (I 59-72) seja tão
lacónico.
(3) Vila do Douro, cinco léguas ao Norte de Coimbra, afamada pelo juramento
de D. Pedro l, relativo a Inês de Castro.
(4) Brasões de Cintra, II 401.
(5) A prova de que não era inteiramente hóspede na arte de metrificar, temo'-
la em trovas d'ele, impressas no Canc. Ger. II 65,111 95, 1 13, 1 19, 632. Numa
d'elas, pequena correspondência sobre questiúnculas de amor, que trocou com o
seu homónimo (II 65), dá-lhe a palma de valente, de cavaleiro e de sabedor:
A vós qu'em cavalaria
e valentia
fiais toque a Cepiam,
a vós qu'em sabedoria
precedeis rei Salamam,
a vós so cujo poder
jaz toda [a] arte de trovar..., etc.
(6) Segundo Conde de Viana e Caminha, desde 1460, deu assunto a uma
Crónica particular de Gomes Annes de Zurara.
ROMANCES VELHOS 241
dro, o de Ceuta (1). Este foi feito Conde de Tarouca em
1499 (2), pouco depois Conde-PriOr (3). De 1508 em diante era
Conde-Prior e Mordomo-mór (4). Mas apesar de tudo, também
neste cnso houve muita confusão, tanto por parte de estran-
geiros como por nacionaes, desde João de Barros até Menén-
dez y Pelayo (õ).
D. João de Meneses-Cantanhede, que ujs ocupa, era irmão
mais novo do 1.° Conde (D. Pedro fal. em 1518). Nascido no
tempo de D. Afonso V, ganhou na Africa as esporas de cava-
leiro, como todos os fidalgos de então, e continuou nos dois rei-
nados imediatos a batalhar ahi, até o seu último alento. Como
Capitão d' Arzila foi victorioso contra o rei de Fez, Molei-Ba-
rraxa, e contra Almandarim de Tetuao em 1495 (6). Distin-
guiu-se em 1501 e 1503 (7), em repetidas correrias contra Al-
cácer Quebir e aldeias da mesma região. Em 1504 foi contra
(i) Primeiro Conde de Viana e i.° Capitão de Ceuta, assunto de outra Cró-
nica, do mesmo.
(2) Veja-se p. ex. o cap. 70 da Pt inteira Parte da Crónica de D. Manuel: De
como D. Joant de' Meneses e D. Joa/n de Meneses Conde de Tarouqua foram correr
o campo de Alcacer-Quil>ir. E vejam-se as trovas ao homónimo, a que me referi em
nota anterior: Do Conde de Tarouca a D. Joam de Meneses.
(3) Canc. Cer. III 631.
(4) Vid. Braamcamp, Brasões de Cintra II 422; id. Sepulturas do Espinheiro p. 31 ,
40, 70, 72; Góes, Crónica do Príncipe, cap. 99 e 102; id. Crónica de D. Manuel
Parte III, cap. 46; Resende, l'ida e Feyos, cap. 28, 35, 36; Sousa, Hist. Geneal, III
125 e496.
(5) Já outr'ora tentei deslindar a actividade militar, palaciana e literária dos
dois homónimos (Poesias de Sá de Miranda p. 813 e 883). Mas desde então muitos
documentos vieram elucidar o problema mais e melhor; especialmente os coleccio-
nados por Braamcamp (Brasões II 100). O Conde de Tarouca tinha Ires irm&os:
D. Henrique de Meneses, Conde de Loulé; o Bispo-conspirador D.García; e o cons-
pirador D. Fernando, degolado em 1484. Era Capitílo de Arzila em 1481; de Tah-
ger, de 1486 a 1489. Largou esse posto quando foi nomeado Governador da Casa
do Príncipe D. Afonso. Passou depois da sua morte a mordomo-mór de D. João
II; reassumiu a Capitania de Tanger em 1501; e levou nesse mesmo ano uma frota
de socorro aos Venezianos. Depois de viuvo, foi nomeado Prior do (rato; em
1 52 1 passou a Alférez-mór, Faleceu em 1522.
(6) Góes, Crónica de D. Manuel, I cap. 12.
(7) Ib. Cap. 18-50.
18
242 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASC0NCELL08
Larache (1); em 1507 como Capitão da armada enviada con-
tra Azamor. Activíssimo no cerco posto pelo rei de Fez,
a Arzila (1508) (2), serviu finalmente de Capitão do campo na
expedição contra Azamor em que morreu (1514) (3). Na hie-
rarquia oficial era Alcaide-mór de Cartaxo; Comendador, na
Ordem de Cristo, primeiro de Aljezur (4) e depois de Moga-
douro; de Alvim, na de Santiago. Nos paços reaes passou da
casa de D. João II á de D. Afonso, único e mal-logrado filho
legítimo do monarca, ignoro em que qualidade. Ha coevos que
lhe dão o título de (luarda-mór (5), e Governador da casa do
Príncipe (6). Mas sem direito. Quem por carta de 9 de Junho
de 1489 foi instituído Governador do herdeiro da coroa, ser-
vindo também, segundo ordens de 29 de Out. de 1490 (7), no-
minalmente junto d'ele os ofícios múltiplos de mordomo-mór,
camareiro-mór, veador da fazenda e escrivão em acumulação
inverosímil era o Conde de Tarouca.
O sucesso mais impressionante da sua vida no paço, que
muito a amargorou e tornou o seu nome tristemente memo-
rado, é a catástrofe no Alfange de Santarém, de 11 de Ju-
nho de 1491 (8), pois foi ele quem, mão por mão, correu com
o Príncipe D. Afonso a desastrosa carreira do páreo no
areal do Tejo, em que o maldito murzelo se transformou em
homicida do jovem recem-casado. (9) Catástrofe que, prantea-
da por toda a nação e também no pais vizinho, pátria da
Princesa, inspirou além de diversos poemas em latim, em cas-
telhano, e em português (10), e de sentidos trechos em prosa
(i) Ib. Cap. 83 e 84.
(2) Ib. II Cap. 27-29; Barros, Década II, Livro IX, Cap. 9.
(3) Góes, Crónica de D. Manuel, III Cap. 49-51, especialmente p. 237, 249 e
252 (da ed.de 1790).
(4) Canc. Ger. I 413; Ruy de Pina, Crónica de D. João, II Cap. 50.
(5) Barros, Década II, Livro III, Cap. IX p. 337.
(6) Hist. Geneal.Ul 161 (e 157). Quem conferir Vol. III 125 e 496 com X
148-156 terá mais uma prova da confusão entre os dois Meneses.
(7) Documento da Torre do Tombo: Livro Extras f. 24v- e 25.
(8) Em profunda síncope durante todo o dia 12, o Príncipe expirou a 13 de
Junho.
(9) São expressões de D. Francisco Manuel de Mello.
(10) Mcn«ionci um cujo autor é D. João Manuel.
HOMANCES VELHOX
patética (1), um romance popular que ainda nos ocupará (2).
Os pormenores do acontecimento— ser o dia uma terça-fei-
ra, dia assinalado no folklore português, ora aziago, ora feliz
e a casualidade de um rapaz, que se banhara no Tejo, haver
batido os çapatos um no outro para lhes sacudir a areia, no
próprio momento da queda — foram desde então tidos em conta
de prognósticos funestos pelo valente capitão. E esta balda
era notória entre os soldados, na Africa e na índia (3). Pro-
fundamente magoado, D. João retirou-se da corte depois da
catástrofe, e só voltou, ao cabo de anos, a instâncias do mo-
narca. Quanto a idas ao pais vizinho é certo que pelo menos
uma vez passou lá seis meses (4), travando relações com di-
versos próceres que poetavam (5). Em 1507 ou 1508 foi no-
meado governador da casa e camareiro-mór do então Prín-
cipe D. João III (6).
Embora o Conde de Tarouca prestasse serviços igualmente
notáveis ao reino, é em especial a D. João de Meneses-Can-
tanhede que os Cronistas tecem os mais encarecidos louvores.
Entre muitos trechos escolho um do sóbrio e austero Damião
de Góes que o chama hum dos estimados fidalgos nestes regnos
(i) Vid. Resende, Vida e Feytos, cap. 131 e 132; Pina, Crónica de D. João II,
caP- 35 e 36-
(2) Na Parte IV d'este estudo.
(3) É nas Décadas que colhi dois testemunhos curiosos. O primeiro foi pres-
tado pelo grande Vicerei D. Francisco de Almeida. No dia em que expirou nos
areaes do Cabo da Boa Esperança (1504) quando, forçado pelas instâncias dos
fidalgos ia castigar os desmandos d'uns negros, um seu servidor começou a bater
um no outro os çapatos do Vicerei. Foi então que disse: «Quão fora estava D.
João de Meneses, se aqui fora e ouvira esse teu bater de çapatos, dar mais um
passo adiante! ainda que fora pêra dar uma batalha de muito sua honra!...» Vid. Dè~
cada II, Livro 3, cap . 9, p. 336. O segundo passo diz respeito ao Vicerei D. Henri-
que de Meneses, sobrinho de D. João. Quando em 1524 ele se aprontava para uma
expedição bélica, desmanchou um braço. Aconselhado a não a emprender, replicou:
«Se este agoiro fora baterem-me hum çapato, como a meu tio D. João de Mene-
ses, por -ventura me provocareis a não sahir; mas isto he lançar-me hombro lóra,
que eu tomo por muito bom prognóstico.» Dec. III, 9, IV, p. 387.
(4) De Março a Out. de 1498, como um dos oitenta fidalgos que acompanha-
ram o monarca a Çaragoça.
(5) P. ex. com o Conde de Fuensalida. Vid. Canc. Geral I, 125.
(6) Góes, Crónica d,' D. Manuel, I, parte cap. 12; e II, cap. 27-29.
244 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
e nos de Castela de quantos em seu tempo viveram, porque <'m
armas e prudência facilmente ignara Oft pausava qualquer outra
pessoa em que estas duas nobres artes te podessem adiar (1 ).
Como poeta não foi menos acatado, como já se viu nuns
versos do Conde de Tarouca. Sendo moço dirigia trovas apai-
xonadas ás damas e, por sinal, de exagero tão requintado, e
tão cheias de heresias de amor, que uma pelo menos teve de
ser expurgada (2). Pouco antes de findar ainda redigiu vilan-
cetes de amor (3). A urbanidadc perfeita do Qfie era mui lin-
do fidalgo (segundo o dizer do próprio deus de amor no famoso
processo entre o Cuidar e o Suspirar em que tomou parte) e
por acaso também aventuras suas que desconhecemos, leva-
ram Gil Vicente a enfileirá-lo como mártir de amor numa la-
dainha burlesca de namorados, santificados pela sua musa
folgazan (4).
Não me ponho a analizar os versos de D. João. Elogiados
excessivamente por alguns críticos nacionaes, não agradam
a Menéndez y Pelayo que dá pouco apreço a versinhos de
amor, preferindo os de maior pujança. Ni en castellano ni en
português hallo que saliese de la rutina cortesana que en su
tiempo pasaba por poesia (5).
A cotação em que o tiveram não só os coevos, mas também
os poetas da escola nova, foi positivamente alta. Repito-o e
vou prová-lo. A trova portugueza sem fezes he muito para agra-
decer; e se não, tomai-me o nosso D. João de Menezes! Vereis
se falou ninguém melhor que elle. E mais, tudo he seu próprio,
sem se ajudar do alheio. Assim é que Jorge Ferreira de Vas-
concellos confirma os aplausos de Sá de Miranda (6). A cantiga
(i) Góes, Crónica I, p. 21 da ed. de 1790.
(2) Estrofe 2 da poesia impressa no Cone. Ger, I, 120. O índice Expurgatório
que se ocupa d'ela é o de 1624.
(3) Canc. Ger. I, 132. Nao creio que sejam essas trovas os derradeiros ecos, a
que Sá de Miranda se refere. Esses, seriam versos cantados na corte ainda em 1521.
(4) Obras III, 8o.
(5) Antologia, VII p. CXXXIII.
(6) Ulysipo, f. 129. Em outra scena da mesma comédia, o dramaturgo alude á
cortesania perfeita do fidalgo: haveis que soubera aquelle grande D. Joam de Me-
nezes tratar assi hua dama? (f. 123 v.).
ROMANCES VELHOS 245
Nunca cessara* los oj&s foi emsoaáa por alguém (1), e entrou
no Cancionero Musical (2). A já citada
No hallo á mis males culpa
porque en mi terrible pena
la causa que me condena
me desculpa.
anda náo só 1103 dois C;mcionoit\>s (3) e em outros Florilé-
gios (4), mas também em Pliegos Sueltos, onde é atribuída a
nm gentil konibre entre muúkos oonociêe (6); Foi pasafrasead a
duas vezos por Jorge de Montemor ((>) e citada tanto nos Au-
tos de Prestes (Ti como nas Cartas d' Africa (8). Ainda ha
pouco tornou a ser publicada... como obra de um notável
quinhentista castelhano (9). Mi tornr>nto desigual foi introdu-
(1) A julgar da epígrafe de umas trovas suas (Canc. Ger. I \\z\De canto dyor-
fumj, D. João de Meneses era compositor como Gil Vicente e Garcia de Resende.
Portanto não é impossível que a música perdida, a que se refere a Nota imediata,
fosse obra sua individual.
(2) Já não se conserva, infelizmente. Estava numa das folhas arrancadas ao
precioso códice (a 73a). Vid. p. LII do índice alfabético, anotado por Barbieri.
(3) Canc. Gen. I p. 502 N.° 337; Canc. Ger. I 410.
(4) P. ex. num Canc. (inédito) de Paris: MS. 602 do Foud; Bsfagnol, f. 231.
(5) P. ex. num de 1570, impresso em Granada, que faz parte da Coleção de
Cracóvia (N° C).
(6) Obras de amor, Ed. 1554, f. 39 v e 181. Confer Gallardo, linsayo N ' 3122.
(7) Autos p. 453.
(8) Carta I, Estr. 2. Por causa do metro, o autor transformou o último verso
dizendo La causa que me condena Me serve (1. servira) de desculpa. Em toda a parte
o texto tem erros, mesmo na impressão portuguesa. Tal é a sorte, pouco invejável,
dos autores bilingues, ou pelo menos dos que cometeram lusismos. O infinitivo
pessoal, com preposição, em oração causal, contido na quadra
A muerte me condenastes,
seúoia,por cuanto os quiero,
y luego me desculpastes
por (ou: en) serdes vos por quien muero,
provocou diversas tentativas, baldadas, de emenda. No Canc. Gen. p. ex. imprimi-
ram en ser de vos, o que não dá sentido; en ser vos por quien me muero nas Obras
citadas na Nota que segue.
(9) Gutierre de Cetina, na bela edição de Ilazaflas y la Rua, Vol. I p. 254.
Nenhuma das variantes serve de emenda.
246 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
zido por D. João Manuel nas suas Trovas centónicas (1). O
simbolismo da garça que, solta das mftos do remoutador, voa
primeiro a medo, para finalmente se erguer com altivez, es-
quecendo as peias, propagou-se, também desligada e liberta
(2). A sentença Quem tem alma não tem vida, remate de uma
esparsa, serviu de tema para divagações místicas dos prega-
dores da moda (3) e inspirou a um teólogo-poeta, o Frade
da Rainha, um soneto sacro cujas únicíis rimas sâo alma
e vida (4). O dístico antitético Que no vivo, porque vivo — Y
muero porque no muero transformou-se em lugar-comum da
poesia áulica (õ), e foi immortalizado por Santa Teresa, que
o repetia nos seus arroubos extáticos (6). Luis de Camões
guardava-o também na sua admirável memória, e empre-
gou-o uma vez, parodiando-o (7). O ditado Cativo são de ca-
tiva reaparece nas Redondilhas do Poeta, aplicado com suma
arte a Bárbara, sua escrava.
(i) Canc, Ger. I 407.
(2) Rennert N° 109 Un galan á su amifO. A conferir com o Canc. Ger. I 108,
como já deixei explicado.
(3) João de Barros condena na Rhopica Pneuma p. 94 o emprego no púlpito
de este mote cortesão, assim como de outros, de origem mundana.
(4) Vid. T. Braga, Antologia portuguesa N° 1 68.
(5) Encontramo'la p. ex. talqual numa composição de Duarte de Brito no
Canc. Get . I 343, sem que seja possível decidir quem dos dois amigos imitou o ou-
tro. E apenas a analogia com os casos alegados que me leva a ter D. João de Me-
neses em conta de inventor. Inventor, ou pelo menos introdutor na poesia áulica
do verso haurido no Cantar dos Cantares.
(6) Entre os metrificadores do Canc. Geral e Santa Teresa ha certa distância.
Ignoro o nome do transmissor que fez do dístico a triada que ela parafraseou por
duas vezes:
Vivo sin vivir en mi
y tan alta vida espero
que muero porque no muero.
Paralelos e reminiscências vagas como
Ay que viviendo no vivo!
ay que mnriendo no muero!
não faltam no Canc. Geral.
(7) No Filodemo, Acto II Scena 8, v. 21 13, encontro, transposto para a 3a
p., a parodia que muero, porque nu muere.
ROMANCES VELHOS 247
Como D. Joíio Manuel, o de Meneses não desatendia por
completo as fontes tradicionaes da poesia lírica. Entre os ver-
sos d'ele coleccionados em Castela, talvez porque os escre-
vera lá, á compita com magnates dos Reis Católicos, ha vol-
tas a uma letra, na qual creio reconhecer certa Serranilha
antiga, tanto em voga que foi aproveitada no século xv pelo
Marquês de Santilhana e não somente inspirou voltas, no xvi,
a Sá de Miranda e a diversos anónimos, mas também uma Co-
média ao grande Lope. A letra diz:
En toda la trasmontana
nunca vi cosa mejor
que era su amiga de Antón
vaquerizo de Morana (1).
Já mencionei a glosa de Darandarte. Contei como perto de
Arzila, o valente Capitão entoou uni dia o romance alegre
dos Xaboneros para animar os combatentes. (2) E Venid, venid,
amadores! esse desabafo sentimental, a que deu a forma de
romance e que inspirou pela sua vez um dos irmãos Pinar, le-
vou-me a dedicar-lhe estas páginas.
Tal conjunto de notas, susceptível de ampliações, faz
suspeitar que I). João de Meneses sobresaía da schiera vol-
gare, não só como guerreiro e cortesão, mas também como
poeta palaciano.
Quanto ao cognome El Grande Africano, claro é que muito
melhor quadrava aos dois ascendentes acima nomeados, cujos
feitos heróicos enchem duas Crónicas particulares. Mas o he-
roe de Ceuta (f 1437) e ode Alcácer (f 1464) não podem con-
correr, cronologicamente, c menos ainda, porque sempre mi-
litantes, nunca poetaram (salvo erre) (3).
(i) Contribuições para o tema,do qual trato numa das minhas Rtindg/ossen(\.nc-
dita), encontram-se nas obras seguintes: Cancionero publicado por AV««<r/-/,N.° i6l;
Santillana p. 466 da ed. de Amador de los Rios; Sá de Miranda, Poesias N.° 55;
Gallardo, Ensayo N.° 568, 1462, 3396; Salva, Catálogo N.° 73; Duran, Catàhço de
Plieoos Sueltos N.° 13 e 51.
(2) Vid. § XLVI.
(3) Votar por eles, atribuindo os versos N.os 1 59-164 do Cancionero de Rentnrt
a D. Duarte ou D. Pedro de Meneses, equivaleria a um atraso de alguns decénios,
na colaboração de Portugal no Roíiiamero palaciano.
248 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASC0NCELL08
A favor da minha interpretação lalam vários factos já ci-
tados que vou recapitulai-. D. João de Mènesefl tomou parte
na Entrada dei Rey Dom Manuel em Carteia (descrita num
opúsculo de Garcia de Resende, que também pertencia ao sé-
quito do monarca). Ahi se relacionou com o Conde de Kuen-
salida. No Cancionero, publicado por 11. Rennort, ha divei
composições de Portugueses, e relativas a Portugueses, que
por essa ocasião colaboraram nos pleitos burlescos de Cara-
goça. Entre eles se distinguem es dois amigos: D. Joíio Ma-
nuel com seu nome inteiro; D. João de Meneses com máscara
transparente, ora como Galan (ou gentil hombre entre muchoê
conocido), ora como El Grande Africano 1 1 \,
[132] Quanto ao pecúlio poético de ambos, metade em
português, metade em castelhano, umas quarenta composições
de D. João Manuel, extensas em parte (2), e cincoenta de D.
João de Meneses, em geral curtas (3), ainda direi que lucra-
riam se, tiradas do âmbito monótono e acabrunhador dos
Cancioneiros, aparecessem em edições modernas, com orto-
grafia e pontuação nacional (4). O caso que se deu com a can-
tiga No liallo a mis males culpa, e outros análogos de que me
ocupei ha tempos (5), justifica essa suposição. Creio todavia
que mesmo assim náo produziriam impressões fortes. As suas
Vidas — traços individuaes e acontecimentos históricos em que
(1) Na Egloga IV de Bernardim Ribeiro surge certo Africano, como amigo e
conselheiro do pastor Jano. Não ha comtudo, indícios suficientes para fazerem
supor que se trate de D. João de Meneses.
(2) Cancionero General, Nos. 85, 162, 277, 278, 445, 555, 642, 820; Canc. Ge-
ral, I, 374-439; com suplementos no Vol. I, 134, 135, 464; II, 580; III, 25, 1 1 6,
233; Canc. Rennert,^.0 83, 308-312.
(3) Cancionero General N.° 337; Canc. Geral. I, 107-135 e 4, 21, 24, 43, 48,
341; II, 17, 576, 585, 599; III, 53, 58, 71, 98, 112, 118, 135, 214, 232; Canc. Ren-
nert N.°s 159-164 e 109.
(4) Recomendo-as ao Dr. Mendes dos Remédios para os Subsídios da Histo-
ria da Literatura Portuguesa.
(5) Aludo ao Mote Olvide y aborreci. De invenção de Juan Alvarez Gato; foi
retocado por Garci-Sánchez de Badajoz e acolhido nas Rimas de Camões. E tam-
bém tenho em mente as três Redondilhas de Garcia de Resende (Canc. Ger. III,
596: Senhora, pois minha vida; 607: Esperei já não espero; 608: Meus olhos, lembre
vos eu) que tiveram a mesma sorte.
ROMANCES VELHOS 249
tiveram parte — continuarão a ser mais interessantes do que
as Rimas. E o que sucedeu com os poemas do Condestável D.
Pedro de Portugal, comquanto fossem de voo mais alto e de
mais possante envergadura. A palidez das comedidas queixas
sentimentaes,as perifrases retóricas e (quanto ao Condestável)
o exagerado Humanismo que se espraia em comparações eru-
ditas de difícil interpretação, afugentará em geral os moder-
nos leitores peninsulares, captivando apenas alguns estran-
geiros pelo encanto táo português da atmosfera de afectivi-
dade terna e meiga em que andam envolvidas.
Se dei desenvolvimento excessivo aos parágrafos dedica-
dos aos dois amigos, foi porque me importava instilar no lei-
tor pouco a pouco noções correctas a respeito da idade, da po-
sição social e do carácter luso-castelhano dos autores que em
Portugal assinam os mais velhos romances palacianos. O
apurar, que pelo menos um d'eies faleceu antes de 1500, é im-
portante. Logo reatarei o fio, continuando com a resenha dos
romancistas mais velhos d'este país. Primeiro tentarei, po-
rém, fixar datas tão seguras quanto possível a respeito dos
que citam versos de romances no Cancioneiro Geral.
[133] Nuno Pereira (1) era, como já fiz ver, servidor de
D. Leonor da Silva, menina do paço, muito cortejada, no rei-
nado de D. João II, também por alguns Castelhanos. Esses
amores originaram em 1483 no paço de Santarém o de-
cantado Processo do Cuidar contra o Suspirar que ocupa as
quatorze folhas iniciaes do Cancioneiro (2). Nele, diversos
(i) Vid. T. Braga, Poetas Palacianos p. 315 326; Menéndez y Pelayo, Antologia
VII p. cxxx I. — Os versos d'ele acham-se no Canc. Ger. I 1-104 passim; 249, 27 1;
II 481, 578 s.; III 92, 149, 153. 161, 168, 171, 193 s. 223.
(2) O diálogo inicial, composto de um rifão e quatro voltas, principia:
Vós, senhor Nuno Pereira,
por quem hys assy cuydando?
— Por quem vós hys sospirando,
senhor Jorge da Silveira.
A Nuno atribuo toda a estrambótica parte final (de p. 80 em diante) em que o
Cuidar ou Seis mar sae triunfante do pleito, incluindo os versos postos em boca de
Macias, Mena, Padron, e a cantiga portuguesa que todos os três (e a mais Tar-
quinio, o de Lucrécia!) entoam juntos (p. 93).
17
250 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
trovadores, na maioria casados, disseram gentilmente proli-
xas semsaborias. Empregando promíscuos os dois idiomas,
louvam-se de preferência em Macias, Rodríguez dei Padron e
Juan de Mena (1), tomando uns o partido de Nuno, campiâo
do Cuidar, outros o de seu amigo e competidor Jorge de Sil-
veira que defendia o Suspirar. Ambos, e com eles Francisco
da Silveira, se transformaram comtudo aparentemente em ini-
migos maldizentes da Bda quando, desatendendo os nobres
que a louvaram em metro cónsono, casou com um provincia-
no da Beira para ser dona e d' outrem sogeita. Satirizando en-
tão o preferido como fidalgote ridículo, de maneiras rudes (2)
trataram-na a ela de Mal-maridada , motejo lisonjeiro em si,
e que foi aproveitado desde então, durante decénios, com a
assiduidade que mostrei, por a espécie ser tão numerosa (3).
Creio que o caso de D. Leonor se daria pouco depois de 1483.
Quanto aos motivos da recusa, a maledicência dos con-
frades descobriu certas imperfeições em Nuno, o Cuidoso. Nas-
cido o mais tardar em 1455, coetâneo portanto do Coudel-
mór e de D. João II, encalvecera muito cedo (antes de 1481),
defeito que de balde procurava encobrir, usando de cabe-
leira. Galante cortesão e born trovador, com quem o Príncipe
muito folgava por lhe ser muy afeiçoado, segundo o testemunho
de Garcia de Resende, não conservou essa influência, após
a subida de D. João ao trono. Uni alvará com a promessa de o
fazer Conde foi rasgado pelo soberano, que varonilmente se
arrependeu da leviandade que cometera (4). Por estes e outros
incidentes, não faltaram motejadores a Nuno Pereira. A calva
foi-lhe posta á mostra por diversos, p. ex. Fernão da Silveira,
o de Toro. O autor anónimo dos Porquês de Setúbal preguntava
Porquê traz Nuno Pereira
cabeleira sobre velho (5)?
(i) Na Antologia VII p. cxxxn o ilustre crítico parece considerar essas inven-
ções como versos da própria lavra dos indicados, que por acaso nunca foram re-
colhidos em Castela. — E lapso, a meu ver.
(2) Canc. Ger. I 259-256. Jorge de Silveira trata-o de triste castelhão; ignoro,
se com algum direito.
(3) Ib.1469.
(4) Vida e Feytos, cap. 24.
(5) Canc. Ger. III, 149.
ROMANCES VELHOS 251
Contra a bajulice ou insciôncia com que numa carta ao Prín-
cipe ele lhe dera título de Alteza (correspondente a Majesta-
de) haviam-se insurgido ur.s quatorze trovadores, aosquaes,
de resto, ele não ficou a dever o troco, apontando os senões
de cada um (1). Garcia de Resende registou como cronista to-
dos os traços por mim indicados (2). E mais alguns. Por elo
sabemos que no ano dos Processos (o jocoso do cuidar, e o po-
lítico-trágico do Duque de Bragança) Nuno Pereira era Al-
caide de Portel, por nomeação do incriminado (3). Ahi mesmo
tinha hospedado pouco antes o pequ nino Príncipe D. Afonso
quando, ao recolher das Terçarias de Mour.-1, fora levado a
Évora. Fiel ao seu rei, entregou cointudo imediatamente a
Fortaleza á primeira ordem (4).
Nos seus versos documenta o seu sentir patriótico, dizen-
do mal dos nacionaes que de qualquer jornada a Castela
voltavam muy ufanos, cheios de admiração por Juan de Mena,
e amesquinhavam tudo quanto era português, em especial a
doce língua materna, desdanhando d'esta ter raqu'é pequena (5).
De outros versos seus vê-se que de pação também passou a
lavrador (I 256) e casou por verdadeira afeição com uma filha
do Coudel-mor chamada D. Isabel, dando-se bem com o sossego
da vida campestre (6).
(i) Ib. III, 241.
(2) Vida e Feytos, cap. 24, 43, 44 e 200. No cap. 200 onde, ao falar da calvície
afirma que Nuno devia então ser homem de quarenta anos, ou mais. Os quarenta
anos bem feitos, a que o próprio alude numa trova a Fernão da Silveira, refiro-os
todavia a esse, seu sogro ou cunhado (I, 469),
(3) Vid. Vida e Feytos, cap. 44.
(4) Ib., cap. 43.
(5) Canc, Ger. I 265 Trovas a Anrrique d' Almeyda quando veo de Castela com
o Duque. Isto é: das Terçarias, onde estivera com D. Diogo de Bragança, servindo
lhe de «viador».
(6) Ib. I 256, 252 e 270. — As relações de parentesco com o velho Coudel-mór
e seus filhos Francisco e Jorge não são bem claras. No tempo do pleito de amor
(I 14) o pae trata-o de cunhado. Nas trovas de despeito contra D. Leonor são os
filhos que lhe dão ora este nome (254), ora o de irmão (255^. Ahi mesmo Nuno se
dirige a Francisco como «meu senhor e meu cunhado». Na Táboa genealógica,
elaborada por Braamcamp-Freire, não ha filha alguma casada com Nuno Pereira.
Talvez apenas por não jazer no Espinheiro, ou por não haver deixado descen-
dência (Sepulturas do Espinheiro p. 12; cfr. 15.)
252 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASC0NCELL08
Notas e observações complementares.
[134] Jorge da Silveira, competidor de Nuno no cortejo a
D. Leonor da Silva e no rancor fingido com que persiguia
a Bela mal-maridada, era filho segundo do velho Coudel-mór,
irmão portanto de Francisco, que sucedeu ao pae em 1493 (1).
Como todos os altos funcionários do paço justou nas festas de
Évora. Foi do Conselho de D. Manuel. Em 1515 foi nomeado
(ruarda-mór e Camareiro-mór do pequenino Infante D. Fer-
nando. Viveu até 1523. Jaz no Espinheiro, com sua mulher
Margarida Furtado (2), uma das trovadoras d'aquela idade (3).
Comquanto de veia fraca, Jorge não se contentou de secun-
dar os empresários de processos satíricos e amorosos. Já sa-
bemos que instaurou o mais falado d' esses divertimentos pa-
lacianos, com a ideia talvez de renovar as Cortes de amor da
época trovadoresca.
[135] Duarte de Brito, que aproveitou o verso final do ro-
mance Oh Belerma, era cavaleiro de moradia de D. João II (4),
e muito amigo de D. João de Meneses (5). É um dos melhores
poetas do Cancioneiro. No poema do Rouxinol, com invoca-
ção ás Musas, comparações clássicas e visões dantescas, do-
cumenta-se familiarizado tanto com o mundo greco-latino,
(i) Vid. T. Braga, Poetas Palacianos p. 382. — Canc. Ger. I 1-104 passim, e 255;
II 518; III 32,47, 54, 119, 146, 168, 171, 184, 235.
(2) Sepulturas do Espinheiro, p. 15.
(3) Uma vez ela deu uni Mote a Duarte de Brito [Canc. Ger. I 332"); em outra
ocasião colaborou nuns Louvores de seu primo (e futuro cunhado) Francisco da
Silveira (III 182), em que Jorge também tomou parte (ib 184).
(4) Vid. Poetas Palacianos p. 327-344; Antologia VII, p. CXXXVI; Canc. Ger.
1286-373.
(5) Numa Carta de homenagem respeitosa (I 3i7)pinta-o como morto de pai-
xão e perdido de amores. D. João responde glosando um verso de Duarte de
Hrito, que lhe fora indigitado por D. Leonor Mazcarenhas (I 110). Outra corres-
pondência trocaram os dois sobre um problema d'amor (I 340-341). Jâ falei do
dístico Que vivo porque no vivo.— O tema da garça, encetado por D. João, reapa-
rece igualmente em Trovas de D. Duarte (I 368).
ROMANCES VELHOS 253
como com os neo-clássicos italianos e hespanhoes (1). Em es-
pecial foram os Infernos de Namorados e Sepulcros de Garci-
Sanchez, Guevara e o Marquês de Santilhana, que tentou
imitar.
Uma alusão ás Festas da Emperatriz (2), não é prova su-
ficiente de que, na mocidade de D. Alfonso V, ele fosse de
idade a assistir oficialmente ao casamento de D. Leonor de
Portugal com o Emperador Frederico II (1451).
[136] O fidalgo João da Silveira, que ouvimos prognosticar
o modo como certos mancebos apaixonados haviam de cantar
romances saudosos, longe do ninho paterno, nao pôde ser o
Dr. João Fernandez da Silveira, benemérito diplomata que
foi elevado em 1475 por D. Afonso V a primeiro Barão de
Alvito, recebendo um lustro depois o titulo de Dom (3), con-
forme já expliquei. Este parece haver versejado de longe em
longe, produzindo ao todo, quando muito, escassa dúzia de tro-
vinhas anódinas. Mas nem por isso devia haver confusão,
porque o João da Silveira de que trato, metrificava em 1494,
e talvez posteriormente (4). E o Baráo, como sempre o cha-
maram de 1475 era diante, nos apodos do Cancioneiro, por ele
ser entáo únicp neste país, já falecera antes de 9 de Abril
de 1489 (5).
(i) Duarte de Brito conhecia Novelas de amor dos séculos xiv e xv; p. ex.
as de Hocaccio, Rodriguez dei Padron, Juan de Flores.
(2) Canc. Cer. I 368.
(3) Brasões de Cintra, II 390. — Resende dá-lhe, em regra, o nome abreviado
D. João da Silveira, p. ex. em Vida e l'eytos, Cap. 35 e 148.
(4) Cartas-trovas, impressas no Lane. Ger. III 599 a 603, apresentam-no como
correspondente de Garcia de Resende.
(5) Ha dúvidas sobre o seu pecúlio, porque o 2.° Barão d'Alvito, D. Diogo
Lobo, seu filho, metrificava também nos serões, e figura no Cancioneiro, ora com
seus nomes (II 574), ora, como o pae, com o símplez título de O Barão (I 1 17
Í27), ora com ambas as designações (III 236), p. ex. nas Justas de Évora. E pois
necessário fixarmos as datas de todas as composições, epigrafadas O Barão, atri-
buindo as anteriores a 1489 a D. João e as posteriores a D. Diogo; ou antes as
posteriores a 1499, porque c só depois d'esse ano, em que faleceu a Baronesa D.
Maria de Sousa, verdadeira proprietária do lugar de Alvito e do magnifico Castelo
ahi edificado de 1482 a 1504, que D. Diogo teve o baronato. Vid. Brasões de Cin-
tra II 423. — Os versos sobrescritados O Barão ou Barão de Alvito encontram-se
254 CAROLINA MICHAÈLI8 DE VA8C0NCELL08
Ignoro quem seja o homónimo, autor também só de insig-
nificantes rimas de ocasião (1), mas em todo o caso superior
ern talento ao liarão. Se foi da familia do Coudel-mór, os Ge-
nealogistas esqueceram-8e d'ele, por ter falecido novo, c sem
descendência, e sem haver desempenhado cargos honoríficos
ou praticado feitos gloriosos ('2).
[137] Quanto a Pêro Moniz sei que servia de reposteiro-
mór a D. Manuel (1506) (3). Gil Vicente menciona-o na Fra-
goa d' Amor (1525) por causa dos seus lindos ares de fidalgo,
barba castanha escura e olhos garços cansados (4). Garcia d'
Albuquerque, segundo dos mancebos que João da Silveira
tinha em vista (5), era filho do primeiro Conde de Penamacor,
D. Lopo de Albuquerque, que serviu de Camareiro-mór a
D. Alfonso V, tendo todavia de sair de Portugal por impli-
cado na conspiração do Duque de Viseu (1484).
[138] D. João de Sousa e Ruy de Sousa, seu pae, Senhores
de Sagres e Nisa, sâo notabilidades da corte de D. Afonso V
no Vol. III a p. 8, 14, 37, 46, 54, 117, 172 227, 393, 397; os alusivos ao Barão, ou
a Alvito, acham-se no Vol. I 138, II 505; alguns, a ele dirigidos, ha no Vol. II 120,
12!, 124, 368 e no III 127. Inclino-me a atribui-las todas a D. Diogo. Hesito ape-
nas quanto ao Vol. III p. 1 17 e 227, e quanto a^s Porquês de Setúbal (III 239). O
nome Lobo Alvito, empregado por Álvaro de Brito (I 277) e na pregunta
Porqtte a Lobo Alvito, nado
nam lhe sabemos amyguof
não é indício seguro.
(1) As composições de João da Silveira estão no Vol. III a p. 10, 19, 43, 56,
57, 244, 251, 356, 359 e 599-603.
(2) Nas obras de Draaincamp-Freire não encontrei notícias.
(3) Brasões de Cintra II 261.
(4) Obras II 344. — Gil Vicente menciona-o também no Processo de Vasco
Abai (Carie. Oer. Ill 535.).
(5) Vid. Resende, Vida e Peytos, Cap. 52, 54 e 74; Braamcamp-Freire, Brasões
de Ctntta II 392 c A Ciente do Cancioneiro, em Rev. Lus. XI 343. Quem possuir a
muito útil Tavoada do Cancioneiro Geeral dos Aytos (Lisboa 1900), com que dois
Obsequiosos de Sacavém brindaram os investigadores, poderá verificar com facili-
dade, quaes as obras de cada um dos Poetas Palacianos, e quaes os motejos com
que os companheiros os ridicularizaram. Aos que não tenham essa vantagem direi
(como proprietária gratíssima do Exemplar N.°i) que os versos dos nobres rima-
dores, que cito nos §§ 129 a 144, são, como de costume, galantes letras ás damas,
motes de Justas, ou rifões de burla.
ROMANCES VELHOS 255
e D. João I[, distintos como diplomatas, guerreiros e corte-
sãos. Versejavam só excepcionalmente. De Ruy subsistem
três trovas (1); de D. João possuimo3 uma única (2). O pae é
o mais apreciado (3), mas também o mais apodado dos dois.
Segundo os Porquês de Setúbal, tanta vez citados, ainda era
mundanal aos noventa (4), idade que talvez não se deva enten-
der literalmente. Ou então não é exacto o epitáfio da sua cam-
pa, que dá setenta e cinco ao velho embaixador, falecido em
Toledo (õ), entre 14 de Fevereiro e 4 de Junho de 1498 (6).
D. João tomou parte na guerra de sucessão, decidida pela
batalha de Toro (7). Em 1498 esteve na empresa da Gracio-
sa (8). No ano imediato figurou nas Justas de Évora, corno
mantendor do monarca. Em 1497 não faltou na ida a Castela
e Arngão, sendo distinguido em Toledo «entre todos» pela
Rainha D. Isabel (9), que em 1494 (e talvez antes) tivera en-
sejo de avaliar as suas qualidades cavalheirescas; especial-
mente em Arévalo (10). Do Conselho de D. João II e do su-
cessor, pessoa muito principal, muito valente cavaleiro, muito
bom capitão, singular cavalgador de gineta e toureador incom-
parável (11), eis como vivia na memória de Resende.
[139] Pedro Homem, conhecedor do romance de Duran-
darte a Belerma (como Duarte de Brito), era fidalgo do Senhor
(i) Canc. Ger. III 118. 187; II 189.
(2) Ib. III 190.
(3) Ib. I 169, 276, 478 III 1 18, 145. Entre os elogios, que os coevos lhe distri-
buíram, o mais interessante é o que o apelida tal fazedor de mornos, qual ante nos
se nam sabe.
(4) Ib. Ill 239. — Ahí também se alude ao filho.
(5) Resende, Entrada em Castela p. 298. Dos pormenores da sua vida, o mais
antigo c o cargo de Guarda de D. Afonso V, antes de o Reisinho pegar nas rôdeas
da Governo em 1449.
(6) Sepulturas do Espinheiro p. 9. O expediente de lermos no Cancioneiro seten-
ta (LXX, em vez de I.XLJ, talvez agracie a alguns leitores. — Vida efeytos, Cap. 1 73.
(7) Vida e Feytos, Cap. 7 e 8, 34, 80 e 81; 167 e 168; 172 e 173; Ruy de Pina,
Crónica de D. Afonso V, Cap. 189; Góes Crónica do Príncipe, Cap. 96.
(8) Pina, Crónica de D. João //, Cap. 38.
(9) Entrada em Castela, p. 302 e 305.
' (10) Vida e Feytos, Cap. 80 e 81.
(1:) Ib., Cap. 81.
250 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASC0NCELL08
D. Manuel e um dos sete aventureiros que o acompanharam
nas Justas das bodas de 1490 (1). Depois da subida d'ele ao
trono, Pedro Homem sempre ficou ao seu lado, na qualida-
de de estribeiro-mór, até o filho D. Francisco lhe suceder em
1518 (2). Claro está que era das relações íntimas de D. João
Manuel, D. João de Meneses, Jorge da Silveira, Nuno Perei-
ra, o Coudel-mór e seu filho, os dois Sousas, emfim toda a so-
ciedade culta dos seraos. Como versificador tratou os mesmos
assuntos palacianos que inspiraram os companheiros, sem in-
dividualidade pronunciada (3).
[140] Com relação a Fernão da Silveira, escrivão da pu-
ridade de D. João II, adicto aos Braganças, e por isso justi-
çado como traidor, o qual vimos na corte do3 Reis Católicos
discutir um romance sobre a batalha de Toro, já esbocei li-
geiros traços biográficos (4). Como poeta foi pouco fértil,
muito menos que o seu homónimo e coetâneo, com o qual foi
confundido ás vezes. Mas bom Português também, conforme
demonstrou na resposta a D. Fernando de Aragão. Quando no
tempo das terçarias esteve em Castela, mordendo então cas-
telhano, por necessidade e mal, deu réplica salgada a um
chasqueador de lá, que motejava dos Portugueses vindos
com o Duque D. Diogo, e dos senões do seu bilinguismo obri-
gado (5). Claro está que nessa réplica não falta a alusão á
victória de Aljubarrota. Português era também na sua qua-
lidade de muito namorado, quasi- Macias , segundo se vê nu-
mas trovas em que se finge morto, afim de ouvir o que as da-
mas diriam d'ele (6). Nos serões pertence ao grupo de Nuno
Pereira e dos Silveiras (7).
(i) Vida e Fcytos, Cap. 128.
(2) Góes, Crónica I Cap. 24.
(3) Vid. Canc. Ger. I, 460-467, 409; II, 598; III, 25, 29, 61, 87, 112, 117, 187
«93» 233 269-
(4) Vid. § 125.
(5) Canc. (Sí?: II 29: Trovas em resposta de outra que certos Castelhanos escre-
veram A porta do paço em Castela, andando lá o Duque D. Diego.
(6) Vol. I.3.
(7) Além de um ramilhcte de veiv de galanteria (Vol. II 13 a 29), no qual
está metido uma pregunta do Coudel-mór que facilita a identificação, parecem-me
ftúMA.VCES VELHOS 251
Quanto ao valor literário do Coudel-mór, já houve quem o
caracterizasse com simpatia, pelo positivismo e pelo humor
que o distingue (1). Notarei apenas a tendência que tinha de
datar as suas composições históricas; e do outro lado a pouca
conta em que os companheiros e societários tinham a sua
veia. Um d'eles preguntou nos Porquês de Setúbal:
Porquê o Coudel-mór fez
tanta má trova escrever? (2),
designando-o d'este modo como empresário de processos de
folgar. Outro, pelo contrário, deu a entender que era autor
dos versos que corriam com o nome de seus filhos, pelo me-
nos com o do primogénito (Francisco) (3).
[141] D. Pedro de Almeida, o que contrafez os versos re-
lativos a Babieca e á egua-m&G, é outro fidalgo que não ins-
creveu o seu nome nas páginas da história portuguesa, talvez
por sucumbir cedo, nos areaes da Africa. Comquanto colabo-
rasse nas empresas jocosas dos trovadores e trocistas de fins
do século (4), relacionou-se mais intimamente com os senten-
ciosos, nascidos em sino de latim, cndoutrinados lá fora por
Poliziano, ou cá no país por Justo Balduíno e nas aulas de Ca-
taldo Sículo. O seu melhor título de glória é, aos meus olhos,
a pequena dedicatória com que foram submetidas ao seu
ser d'ele certos rifões, assaz rudes, impressos no Vol. II p. 102 e III 76-80, 109,
1 1 1 e 149, todos pertencentes a empresas burlescas, em que surgem em geral os
dois homónimos (o Coudel-Mór e Regedor, com esses seus títulos; o Escrivão,
com o seu nome )
(1) Vid. Poetas Palacianos p. 360-372; Antologia VII p. CXXXIV. O principal
núcleo dos seus poemas, didácticos e cultur-históricos, está no Vol. I 136- 178,
240,450,470, 471, 472. No Vol. II, II, 23 589 e no III 77, 79, 81, 83, 103,
110, 14H, ha bagatelas insignificantes: Ajudas e Respostas provocadas por nutrem,
assim como algumas cantigas. Uma d'essas foi glosada por João Gomez da Mina
(" 41).
(2) Vol. III 241.
(3) Ib. 159.
(4) No Vol. III, 311-320 ha versos de amor da sua lavra. A maior parte das
suas trovas {Ajudas e Respostas) anda todavia nos cadernos dos seus amigos e co-
rrespondentes: D. Luis de Meneses \\\ 474-476) e João Rodrlguez de Sá c Mene-
ses (II 427-441).
258 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASC0NCELL08
juizo traduções portuguesas de algumas Heróldas do Sulmo-
nense(l):
Eu fiquei, Senhor, corrido
porque sei que vos rirei
de quam mal ensinei Dido
a fa'ar o português
Trabalhei mui bem meu giro:
trabalhei porem em vilo
sem dar boa concrus-ão,
porque ela... era de Tyro,
e bem sabeis d'onde eu são (2).
[142] Assim lhe escrevia João Rodriguez de Sá e Meneses,
com receio de que a innovação não agradasse e as belezas dos
clássicos latinos naufragassem em linguagem e no metro na-
cional. Este autor é um dos que, com versões de Ovídio e Ti-
bulo (3), e urnas Quintilhas heráldicas, em que, descrevendo
os brasões das mais notáveis famílias de Portugal, toca, de
leve embora, em feitos históricos (4), galgou as barreiras
acanhadas da fútil poesia áulica, na qual a princípio comun-
gara, naturalmente. Atingindo idade nestoriana (5), transfor-
mou-se, no reinado de D. JoíLo III, em amigo e inteligente
Mecenas de poetas quinhentistas e homens de bom saber,
como Lourenço de Cáceres (6). Alguns como Diogo Bernár-
dez, António Ferreira, Pedro de Andrade Caminha enaltece-
(i) Como se vô trata-se ein especial da Carta de Dido a Eneas.
(2) Caiu. G,-r. Ií, 436.
(3) Ib II, 375-417. João Rodriguez de Sá e Meneses e João Rodriguez de
Lucena (II 548 e 557) são os únicos traduetores de textos latinos que figuram no
Cancioneiro. Ambos seguiam as pisadas de Encina, o qual pouco antes de 1490
tentara nacionalizar as Bucólicas de Vergilio (com liberdade muito maior). Vid.
Antologia, VIÍ p, 1-110.
(4) Ib. II 358.
(5) Diz-ie que, nascido em Í464 (?\ morreu em 1576. Antes de 1557 um do»
■eus admiradores rematava uma Carta que lhe dirigia com os parabéns seguintes:
Inda os bisnetos vejais
dos bisnetos que ja vedes.
Góes Crónica IV, cap. 38, dizia em 1567 que ele contava mais de oitenta anos.
(6) Memorias de Literatura. Vol. V 349.
ROMANCES VELHOS 259
ram-no como antigo pae das Musas d' esta terra. E Sá de Mi-
randa, que não era louvaminheiro, dizia-lhe:
As letras que não achastes,
vós as metestes na terra!
A' nobreza os ajuntastes
com que d'antes tinham guerra (1).
Por tudo isso é assaz conhecido. Restrinjo-me a lembrar que
era sobrinho de D. João de Meneses, ao lado do qual ganhara
em Azamor, em 1507, as esporas de cavaleiro. Como filho do
poeta palaciano Anrique de Sâ (2), era Alcaidc-mór do Porto,
herdeiro de Sever, e Senhor de Massarellos, S. João da Foz e
Matozinhos (8).
Parece-me certo que o poeta que, pessoalmente, aprovei-
tou os aforismos românticos do Mensajeiro e dos Erros por
amores, havia de coinprcnder o dístico alusivo ao cavalo
do Cid.
[145] Garcia de Resende (o,. 1470— c. 1536), último do pe-
queno grupo romancista do Cancioneiro, é o mais importante,
porque foi o primeiro que compôs um poema narrativo com
sabor nacional, sobre um acontecimento histórico transacto,
que emparelha com os romances (4), mais uma vez o repeti-
mos. O autor das Trovas de D. Inês, c talvez de Tiempo bue-
no, glosador d'este romance lírico, e citador de Durandarte e
da Bela mal maridada, evolucionou todavia de modo diverso.
De poeta palaciano, bilingue (5), e de benemérito colecciona-
dor das produções métricas da sua época, passou a historia-
(i) Sá de Miranda, Poesias p. 205 (texto) e 749, 788, e a Tabela Genealógica.
Claro está que hoje podia ampliar e rectificar essas páginas, redigidas em 1880.
(2) Ciiuc. Ger. II 526-343; 200; 234.
(3) Brasões de Cintra. I 336.
(4) Se abstrahirmos da prosa dos linhagistas e dos Cronistas de D. \lfonso IV
e D. Pedro, foi Resende quem primeiro se ocupou dos amores de D. Inôs, assun-
to, posteriormente, de tantos poemas c dramas. Ao curioso recomendo o Capítulo
<Ca/nões e António ferreira. 1 VI" <l..s Fontes dos Lusíadas) do Dr. José Maria Ro-
drigues, obra importante publicada no Instituto. A p. 175 da Separata, ha refe-
rencia aos Campos do Mondego.
(5) Canc. Ger. II 154, 156, 184, 315, 451, 470, 476, 487, 488, 587, 596; III 6,
22, 36, 39, 49, 57, 69, 71, 75, 248, 255, 262, 271, 573 a 666.
260 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
dor, de segunda mão embora, compondo o livro Vida e Feitos,
tantas vezes citado nestas páginas, por estar repleto de infor-
mações preciosas sobre a corte e o Príncipe Perfeito, que o
honrara com a sua confiança. --Moço da câmara d'ele até 1490,
dos que faziam guarda a el rei sob as ordens do Guarda-mór
e dormiam perto d'ele, e durante um ano ao serviço do Prin-
cipe D. Afonso, voltou ao de D. João II, avançando então
ao posto de moço da escrevaninha (1). Em 1498 acompanhou
o sucessor a Castela e Aragão, como secretário e tesoureiro (2).
Em 1514 fazia parte, nas mesmas qualidades, da embaixada
de Tristão da Cunha á cúria de Leão X.- No reinado de D.
João III ocupou a posição de escrivão da fazenda e fidalgo
da casa dei rei, que lhe fora outorgada por D. Manuel. No
fim da vida tornou a versejar sobre assuntos portugueses, na
forma e no estilo despretencioso das Trovas, compendiando
todos os acontecimentos notórios do seu tempo numa crónica
rimada, a que deu o título apropriado de Miscelânea e varie-
dade de historias. Comquanto não fosse insigne em nenhuma
especialidade, a critica moderna, tanto nacional como estran-
geira, fez justiça aos serviços importantes que prestou á pá-
tria, e ao seu espírito enciclopédico de músico, desenhador,
poeta e historiador (3).
A alusão á Bela é bastante posterior ás de Nuno Pereira e
Jorge da Silveira. Não se refere portanto a D. Leonor da
Silva (4).
[144] Gregório Afonso, um dos poucos versejadores de baixa
esfera que por excepção figuram no florilégio aristocrático de
Resende, não escreveu romances de que saibamos, nem os ci-
tou. Todavia tive de mencioná-lo (õ) como autor de uma com-
(i) Do predecessor Ruy de Sande, (mais tarde D. Rodrigo de Sande) jâ falei
mais acima.
(2) Além da Crónica e Entrada e/n Castela, deixou ainda outro opúsculo his-
tórico: Ilida da Infanta D. Beatiiz pêra Saboya.
(3) Braamcamp-Freire, nas Sepulturas do Espinheiro, p. 67-80, e Menéndez
y Pelayo na Antologia VII p. cxll.
(4) A composição, em que ocorre, deve ser de 1508 ou 1509. Emende-se neste
sentido a dúvida, expressa mais acima.
(5) N°§47.
ROMANCES VELHOS 261
posição em estilo popular, imitada por Gil Vicente no Auto da
Barca do Inferno, e por isso reimpressa e muito citada. Esses
Arrenegos (1), que irmanam com outros géneros igualmente
populares (como os Porquês, os Nuncas, os Disparates, as
Maldições, os Apiahás, algumas Regras de bem viver, Pala-
vras moraes, Avisos para guardar) e com alguns textos líri-
cos, constituem nos Romanceros o grupo especial dos parea-
dos dissonantes ou discordantes, que já mencionei diversas
vezes.
Nada se sabe d'ele senão que foi criado do Bispo d'Evora,
D. Afonso de Portugal (;2), primo dei rei, e pae de D. Fran-
cisco, primeiro Cunde de Vimioso, autor de sábias Sentenças
vasadas em singelas quadras vulgares. Sabia castelhano mui-
to regularmente (3) e por certo não escreveria apenas as três
amostras conservadas pelo compilador. Pôde ser escrevesse
para o povo composições propagadas por cegos ambulantes, e
mais tarde em Folhas soltas (4).
[145] Reatando agora o fio que mais acima quebrei, torno
aos raros autores de romances que figuram no Cancioneiro
Geral, ou vieram pouco depois. Todos eles são tào distinta-
mente conhecidos, ao contrário dos meros citadores, que es-
tou dispensada de apurar pormenores biográficos.
Bernardim Ribeiro (1482-1552), o poeta mavioso da Meni-
na e Moça e de cinco Eglogas com mais algumas poesias me-
nores, foi mencionado por mim, porque utilizou o provérbio
salomónico dos Erros por amores (5) e também para assentar
(1) Canc. Ger., Vol. II 534.
(2) Bispo de 1485 a 1522.
(3) No Cancioneiro (II 593 e 544) ha duas cantigas castelhanas de Greqoti»
Afonso.
(4) Se o mulato Afonso Alvares, autor de àwersos Autos sacros, alguns dos qtiaes
ainda hoje se imprimem e representam, foi realmente da família do mesmo Bispo,
como parece, esse seria outro jogral popular, de fins do século xv ou primeira
metade do xvi, dos que poderiam ter nacionalizado romances castelhano*. O
quarto seria o seu rival encarniçado, o praguento e burlesco Chiado, autor das Par-
voíces, das Profecias e dos Avisos para guardar, se, como penso, já versificava en-
tre 1530 e 1540.
(5) Vid. No. 67.
262 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASC0NCELL0S
que não é sua uma glosa castelhana de Dundartera, impressa
num Pliego Suelto gótico, juntamente com uma Egloga de que
é autor, mas também com diversas composições alheias (1).
Agora registarei três poesias narrativas, que lhe foram atri-
buídas, todas do mesmo subjectivismo dolorido e commoven-
te que distingue não só a sua prosa mas também as Bucólicas
rimadas e as trovas juvenis, palacianas (2). Só uma cinge-se
ao tipo comum, tendo rima contínua (em-ar). Eo Romance de
Avalor, designado expressamente pelo próprio autor como
Canta r-romance. Intercalado no Livro II da novela, serve,
com a misteriosa vaguidão e profunda tristeza que exhala,
quasi que a autenticar não essa discutidíssima continuação
por inteiro, mas pelo menos os primeiros capítulos, impressos
logo na impressão de Ferrara (1554) (3); isto é na edição que
até hoje passa por ser a primeira (4).
E' costume tratar igualmente de romance a narrativa em
forma de monólogo que se imprimiu solta, mas talvez cons-
titua o remate da Egloga V.
Ao longo de uma ribeira que vai polo pé da serra
onde me a mim fez guerra muito tempo o grande Amor (5).
(i) Em testemunho da falta de critério do editor da folha volante e dos reim-
pressores modernos, basta dizer que tratam de romances da lavra de Bernardim
Ribeiro a cantiga Justa fite mi perdiciôn de Jorge Manrique, e a paráfrase de Bos-
can (composta de cinco décimas). Menendez y Pelayo cinge-se á opinião errónea
de Garcia Perez (Catálogo Razonado p. 492); este, pela sua vez, louvava-se nos edi-
tores da impressão de 1852. Repito aqui, que Bernardim Ribeiro é dos poucos Qui-
nhentistas portugueses que nunca se serviram de idiomas estrangeiros. Nem mes-
mo emquanto frequentava a corte. Vid. Canc. Ger. III 539-543 e 389-892. A T. Bra-
ga ainda hoje não repugna aceitar como obra de Bernardim Ribeiro a glosa cas-
telhana de Ok Belerma. — Vid. Bernardim Ribeiro e o Bucolismo, p. 90.
(2) Nas edições antiga9 estão a renglones seguidos como verdadeiros roman-
ces. A distribuição em quadras é arbitrária.
(3) Os Capítulos I a XVII (repartidos a princípio em apenas doze trechos). O
romance faz parte do Cap. XI.
(4) No Jahresbericht IV p. 213 expus que o MS. de Madrid, a edição de
Ferrara e a de Colónia dão apenas, em doze ramos, o equivalente dos dezasete
primeiros Capitulos da Segunda Parte, o que torna provável a hipótese de o res-
to, publicado pela primeira vez em Évora (1557-8), ser continuação postiça de al-
gum anónimo, bem ou inal-intencionado.
(5) Almeida-Garrett incluiu-a no seu Romanceiro (Vol. III p. 155-182), a par
das outras duas de que me ocupei.
ROMANCES VELHOS 2G3
E para isso é razão suficiente a construção métrica, pois é a
dos Arrenegos e géneros semelhantes, adoptada por diversos
romancistas do reino vizinho, como Garci-Sanchez de Ba-
dajoz, e seus imitadores portugueses. Comquanto esse romance
em pareados impares — (descordo, se nos servirmos de um
termo da poética dos trovadores galego-portugueses) — surgis-
se muito tarde, (na edição da Menina e Moça que, em 1645 foi
publicada por um parente do poeta) (1), não o tenho em conta
de apócrifo, porque nao conheço entre os gongoristas e con-
ceitistas de então algum que fosse capaz de se cingir ao estilo
tão símplez e vago, e na sua vaguidão tão poético, de Ber-
nardim Ribeiro (2).
A terceira poesia, também solilóquio pensieroso, é aquele
singular e afamado cantar á maneira de solao «que era o que
nas cousas tristes se acostumava nestas partes» (3), cantar
tanto do gosto dos coevos que o glosaram e citaram a miúdo
(4). A ama da menina Aonia recita-o, psalmodiando ad una
você, sem instrumento, como era e é costume das mulheres do
campo, quando, sentadas ao sol diante das suas casas, folgam
ou se ocupam de singelas tarefas femininas:
Pensando vos estou, filha, vossa mãe me está lembrando.
Enchem-seme os olhos d'agua, nela vos estou lavando.
(1) Neto de um primo-co-irmão de Bernardim.
(2) Os erros de impressão í-uo numerosos, mais ainda do que os que detur-
pam as tão apreciadas folhas volantes.
P. S. (1908) Em outro lugar responderei ao livro recente de Delfim Guimarães:
Bernardim Ribeiro: O Poeta Crisfal (Lisb. 1908). No Cap. VIII (A parte apócrifa
da mknina e moça) o autor ocupa-se do Romance de Avalor. No Cap. XIII. (Um ro-
mance apócrifo), do descordo, cuja contextura não reconheceu.
(3) Parte I. Cap. No Capitulo imediato repete-se o vocábulo solao. Na edi-
ção de 1852 deram-lhe o título de Romance, em harmonia com o procedimento
de Almeida-Garrett.
(4) Foi glosado p. ex. por um Anónimo do Cancioneiro de Luis Frcnco (com
variantes). Entre as citações, unia dai principaes encontra-se na Aulegrafia f. 168.
A glosa, muito incorrecta foi impressa por T. Braga na sua Antologia N." 142 e no
volume Bernardim Ribeiro e o Bucolismo (p. 188), onde a atribue ao próprio Ber-
nardim.
P. S. — Atribuição, que é Ião pouco justificada como a novíssima a Camões,
realizada por Delfim Guimarães.
264 CAROLINA MICHAÈL1S DE VASCONCELLOS
Nascestes, filha, entre magoa! Pêra bem inda vos peja,
pois em vosso nascimento Fortuna vos houve inveja.
Esta melancólica composição, com insólita abundância de ri-
mas, não teve predecessores nem imitadores, quanto ao es-
quema métrico (1). Por causa d'este isolamento, a critica nâo
chegou a definir os característicos da espécie (2). Começando
com um octonário branco, continua com rimas cruzadas (2
com 4; 3 com 5), sempre variadas, de modo que temos uma
sequência de quadras, que todavia não produzem o efeito das
coplas populares, por não o serem sintacticamente, e por se-
rem precedidas, conforme disse, do verso solto do início. A
dissonância que de ahi resulta é augmentada pela particula-
ridade de cada copla ter, além da consonância usual nos ver-
sos impares, mais outra nos pares, com correspondência por
tanto na quadra antecedente e na que segue. Eis o esquema:
XABA | BCDC | DEFE | FGHG, etC.
Quanto ao romance castelhano de D. Bernaldino, compos-
to em vida do poeta (3):
Ya piensa D. Bernaldino ir su amiga visitar,
não é impossível que ele seja obra de algum Castelhano, seu
amigo e admirador, mal informado sobre a sorte do pobre
doido, internado no Hospital de Todos-os Santos, ou que fan-
(i) Eu. pelo menos, não conheço paralelo algum. Resta-me todavia averiguar,
se o ha nas obras de Juan de Encina, porque este começador do estilo pastoril
tentou nos seus romances muitas innovações, poucas das quaes vingaram.
(2) Por isso mesmo repugna-me juntar novas tentativas etimológicas às nu-
merosas que já existem Ainda assim direi que me inclino hoje a equiparar solao ao
vocábulo galego solano solana, sinónimo de sofajlhàro (e como este derivado
de sol). Se ao Norte do Minho chamam contos de solana aos que, ao Sul do mesmo
rio, são contos da carochinha, creio será porque lá não narram histórias nem can-
tam romances apenas de noite, em volla do lar, mas também (e de preferência) de
dia, ao ar livre, em sítios onde der o claro sol, amigo dos heroes. A locução cantar
de solao, empregada por Jorge Ferreira de Vasconcellos, com relação a moços de
espora que autre mó de cavalos se entretinham cantando, emquanto os amos es-
tavam no terão (Aulegrafia f. 2.°), mostra que em sentido lato de solao significava
ao ar livre.
(3) Foi publicado no Cancionero de Romances de 1550 (Duran N.° 293).
ROMANCES VELHOS 266
tasiassc a seu respeito com licença poética (1). A influência
que a musa de Bernardim Ribeiro exerceu antes de 1554 além
das fronteiras, é digna de atenção, embora até hoje seja mal
definida (2).
[§146] Cristóvam Falcão (c. 1510 (?)-1553) (3), autor da
«muy nomeada e agradável Egioga Crisfal:»
Autre Sintra a muy prezada e serra de Ribatejo,
preso durante mais de cinco anos, por instigação dos paren-
tes de D. Alaria Brandão, com a qual catara a furto, dedicou
á amada a Egioga tão cheia de traços autobiográficos, e como
prelúdio, uma Carta sentida de tom plangente (4), desespera-
damente desconexa, como os apaixonados desabafos de Soror
Mariana:
Os presos contam os dias mil anos por cada dia,
mas os me. is, sem alegria, como os contarei e i,
verdadeiro amor meu a quem por meu Deus conheço?
Essa também pode em rigor figurar no Romanceiro Português,
porque o esquema métrico é o do monólogo Ao longo de uma
ribeira, dos Arrensgos c quantas mais composições, quer lí-
ricas, quer burlescas, existem em pareaclos discordantes.
Pedindo vénia vou intercalar aqui tanto o Romance de
Avalor como a carta de Crisfal (ambos em lição crítica) (5).
(i) Lembre-se o leitor das liberdades típicas que Cervantes tomou, quando no
Persiles novelava a respeito de Frei Luis de Sousa, assim como das diversas co-
médias cujos protagonistas são D. João Manuel e D. João de Meneses.
(2) Falei d'ela no Jarhesbericht IV, 2 p. 215. E conto ocupar-me d'ela de
novo, oportunamente. Aqui baste nomear Alonso Nuuez de Reinoso, Feliciano de
Silva, Miguel de Carvajalcs, Luis Ilurtado de Toledo.
(3) Segundo documentos que dizem respeito a C. Falcão, as Trovas de Crisfal
não podem haver precedido as Egloças de Bernardim Ribeiro. Conlinuo todavia a
considerar as Trovas superiores cm espontaneidade e ternura encantadora às
Éclogas de Bernardim Ribeiro. Apenas a de Jano e Franco emparelha com elas,
assim como a prosa da Menina e Moça.
(4) Do verso 31 podia-se concluir que a carta fora precedida de ontras.
(5) Sigo a lição, até hoje nunca reproduzida, da edição de Ferrara (1554) qUe
me permite restaurar passos deturpados nas edições portuguesas. Regu o a orto-
grafia sem a modernizar. Onde emendo palavras que me parecem erradas, ponho
18
206 CAROLINA MICHAÊLIS DE VA8C0NCELL08
D'esfce modo o leitor terá presentes, como ilustrações típicas,
os quatro exemplares mais perfeitos do romanceiro palaciano
de Portugal da l.a metade do século xvi.
I Romance de Avalor.
Mas da sua ida (isto é: da partida de Arima, anagrama de Maria) e
como Avalor também após elia se foi, não se soube então inteiramente
mais que per um cantar romance que daquelle tempo ficou, que diz
assim:
Pola ribeira de um rio, que leva as aguas ao mar,
vai o triste de Avalor. Não sabe se ha de tornar!
As aguas levam seu bem! ele... leva o seu pesar!
Soo vai e sem companhia, que os seus fora ele deixar,
5 que quem não leva descanso, descansa em só caminhar.
D'escoutra onde ia a barca se ia o sol abaixar:
indo-se abaixando o sol escurecia-se o ar;
tudo se fazia triste quanto havia de ficar.
Da barca levantam remos e ao som do remar
10 começaram os remeiros dos bancos este cantar:
« Que frias eram as aguas! quem as haverá de passar?
Dos outros bancos respondem: *Quem as haverá de passar
senão quem a vontade pôs onde a não pôde tirar?»
Tra la barca lhe vão olhos quanto o dia dá lugar!
15 Não durou muito, que o bem não pode muito durar.
Vendo o sol posto, contr'ele, soltou os olhos ao chorar,
soltou rôdeas ao cavalo d' á beira do rio andar.
A noite era calada pêra mais o magoar,
e ao compasso dos remos era o seu suspirar.
20 Querer contar suas magoas seria áreas contar.
Quanto mais se ia alongando, se ia alargando o soar:
dos ouvidos e dos olhos a tristeza foi igual.
Assim como ia o cavalo foi pela agua dentro entrar,
e dando um longo suspiro ouvia longe falar.
25 t Onde magoas levam alma vão também corpo levar!*
E indo assim, por acerto foi c'um barco n'agua dar,
que estava amarrado á terra e o seu dono era a folgar.
Saltou, assim como ia, dentro e foi a amarra cortar.
A corrente e a maré acertarain-no a ajudar.
os colchetes de uso, e justifico em nota o meu procedimento. Adopto a disposi-
ção épica dos versos.
P. S. Na sua edição das Trovas de Crisfal Delfim Guimarães já introduziu na
Carta as rectificações, por mim indicadas no Jahresbericht.
ROMANCES VELHOS 207
30 Não sabem mais que foi d'ele nem novas se podem achar.
Suspeitou se que era morto, mas não 6 pêra afirmar,
que o embarcou Ventura pêra só [n]isso [o] guardar!
*
Mais são as magoas d'amor do que se pôde cuidar!
Nas Variantes que seguem F significa Ferrara (1554); E Évora 1557
e as reimpressões de 1852, 1886, 1907; G Gallardo, Ensayo; A Almeida
Garrett. — A redacção contida no Ensayo, (IV c. 90 N.° 3615) é reprodução
de um manuscrito, de meados do século xvi, e portanto digna de aten-
ção.—Segundo o seu costume, Almeida-Garrett retocou o texto, que é o
da edição de Évora. — 1 G Pelas ribeiras d'um rio.— A Pela ribeira. —
4 EG E soo vai sem companhia.— A E só vai s. c. - leixar.— 5 EGA ca.—
6 E donde.— A a baixar.— 6 e 7 E abaxar-abaxando.— 9 Eremo. — G pêra
averem de remar.— 10 F començaram. —E do barco.— A da barca.— 11 G
geram. —12 EA barcos. — 13 A senão quem pôs a vontade.— EA donde. —
14 E levam olhos.— G ho leuam os olhos. -15 Na edição de Ferrara ha
o erro duram.— O segundo hemistlquio falta em E.—G diz: soltou os olhos
ao chorar. -A não teve mais que pensar.- 17 E da beira.- G deu beira
do rio andar {erro de leitura por d' em beira?).— A abeira do rio a andar —
18 FG E a noite.— 19 AF que ao compasso.— G Do compasso. —FG era o do
seu suspirar.— 21 G Quanto mais ^e alongava. —A Quanto mais ia alon-
gando.—22 EA Dos seus ouvidos aos olhos. —G des que os ouvidos e os
olhos.— CG a tristeza foi igualar. — 24 G ouvira.— 25 A levam olhos. — 26
A Mas indo. — 58 G salta.— 31 A Suspeitaram que foi morto. — 32 EG que
não o embarcou ventura.— A para só isso aguardar.— E mas mais são as
aguas do mar. — A mas mais tão as magoas do mar. —EA do que se podem
curar.
II Carta [de Crísfal] (1).
Carta do mesmo estando preso que mandou a úa senhora com que era
casado a furto contra voutade de seus parentes d'ela, os quacs a que-
riam casar com outrem, sobre que fez, segundo parece, a passada Egloga.
(i) Ed. Ferrara f. 147 v. A Carta é ahi precedida da Egloga. Na Taboada do
volume, está registada a Menina e Moça de Bernaldim Ribeiro e alguns Eglogas
suas. E assi algus motes e cantigas do mesmo. — Depois, de f. 129 r a 167 v , vem
o seguinte:
Húa muy nomeada e agradauel
Egloga chamada crisfal que diz:
Entt e Sintra a muy prezada
que dizem ser de Cristouam fal-
cam, ho que parece alludir ho
nome da mesma Egloga.
208 CAROLINA MICHAÈLIS DE VA8C0NCELL0S
Os presos contam os dias: mil anos por cada dia;
mas os meus, sem alegria, como os contai ei «-u,
Aerdadeiro amor meu, a quem por meu Deu[s] conheço,
pois como preso padeço (e como quern vos não vê)
5 mal (cuja dor se não crê) de prisão e de amêucia,
e sein pecar, penitencia faço de trás de Úa grade?
Meus olhos, de escuridade, já nilo \6m; ettão mortais!
E pêra que era ver mais des que vos eles lRo viram?
desque de vós se espeiiram? Bem se enxerga nos danos
10 que estou preso ha cinqu' anos, afora os que hei de estar,
passando em dessejar o tempo que vos não vejo.
Vede que fé de dessejo em que lugar mVicompanha!
Nunca se viu fé tamanha nem tam mal agradecida!
Não quis Deus que a minha vida fo^se pêra mais que isto,
15 ainda que em vos ter visto não naci em vão, senhora;
que a vida é úa hora, este bem será etert o,
que, quer estee no inferno, (iue) quer esíee no paraiso,
nunca me verão deviso d'aqueste tamanho bem!
E não vos diga ninguém que o mal que me tendes feito
20 me faz ter outro respeito, inda que fora rc/.ão;
mas não quer o coração pelo muito que vos quer;
e sempre isto ha de ser enquanto eu vivo for.
Q ,e verdade e que amor pêra se não ter em muito!
e quam pouco é o fruito que d'ele tenho tirado!
25 Quem lançasse o meu cuidado onde o não visse mais,
pois lembranças tam mortais traz á minha fantesia
que basta ua, de um dia, pêra me os meses tirar!
Nele vos vi eu chorar, e nele chorei também —
derradeiro do meu bem e primeiro de meu mal!
30 Nada, senhora, me vai; não sei em qu« me sostenho!
Pois que vos escrito tenho, porquê não vejo reposta?
Quem vos pÔ3 no que estais posta? Que palavras vos disseram
que mais que a rezão poderam que já outro nós posemos?
Cuidai quanto nos quisemos! eiâo vos possa mudar
35 dizer que vos podem dar outrem que tenha mais que eu!
Pode ser; não [o] nego eu; mas bem vo3 posso afirmar
que não podereis achar outrem que vos tanto queira.
Olhai que, á derradeira, riqueza não tira dor,
pois antre ela e o amor, qual é mais pêra estimar
Ilua carta do dito: lios presos co-
tam os dias Mil anos por cada dia.
E outras cousas que entre lendo se
poderam ver.
fíOMANCES VELHOS 269
40 deve ser bem de julgar. Mas, comquanto eu isto digo,
mal acabarei comigo, senhora, que possa crer
mudar-se vosso querer por nenhuns outros q íereres,
esquecendo os prazeres do nosso tempo passado,
que me faz tão esforçado que emquanto (a meu cuidar)
45 a terra me não gozar, ninguém gozará de vos
senão meu.» cuidados sós, que em vossa contemplação
os tempos gastando vão como se fosseis presente,
com ua fe tam constante como no tempo milhor!
Ese isto ante vos for que me pus a escrever,
50 querei, senhora, entender que tinha que dizer mais;
mas lembraram-me os sinais vossos e olhos fermosos;
e os meus, de saudosos, lembrando-se que vos viram,
com lagrimas me impediram poder pôr mais por escrito.
Baste o que tenho dito pêra haver por galardão
55 três regras de vossa mão, pêra reponta das quais,
senhora, fi^ue o mais que aqui escrever devera
se o escrever pudera!
Variantes: (1)8 F Deu com maiúscula; completado por mim para
deus é a lição tio texto original. - Birckman, que extirpou o nome de
Deus cm cinco passos diversos do autor (2), imprimm: a quem por meu
bem conheço. E esta emenda foi repetida por TE. Os reimpressores an-
tigos não (j miaram porém. A d iz; do qi.e outro amor mereço; A-C que
outro amor merecia.— í UE como a.— 5 A qual cuja.— A-C qual crua. —
AC àe pesar ou de ausência. — 0 pois (em todas as edições).— ! BAC já
não vem, já e.-tão mortaes.— 8 ACTE Mas.— AC para. — 9 AC que de vóa
se despediram. -10 Coque.— 12 A CT que só o desejo. — AC neste lugar
acompanha. -13 AE c tam mal agrade, ido. — 14 T Não quis fortuna que
a minha vida. — AC Não quis deus que minha vida.— AC para. — 15 AC
inda.— 16 BE e de ua hora. -BTEeste bem sendo terreno (!) 17 BTEAC
quer este em mim mesmo (!) BT queque r este sem juízo (!) ACE quer este
fora de siso (!) IS AC diviso. — A daquesse.— 21 A polo. — li quero.— 22
ACluo.-- 24 FD c pouco bom é o frui to.— A A-C fruto.— 25 AE que lan-
çasse.— A donde o nosso visso mais.— A'2C donde o vo3so visse mais.— 26
AC pois as lembranças moi tae.s me fazem tam grande mal. De 2G'X saltam
portanto a 20 b. — .9 T de meu mal. — 30 AC nem. — 30b o 31" esião trans-
postos em AC. - 31 A veyo. —CT resposta. -35 A qu'eu.— 36 ACT 1'oder
(í) /'. Ferrara 1554; I>. Birckman 1 559; //. António Alvarez 1 6 1 9; y/2, id. 1639;
C. Costa Carvalho 172; P. T. Braga 1871;^. Epiphanio Diaz r 873.— Omito todas
os variantes meramente gráficas (ou linguisticas), porque não tem importância
para os fins d 'este estudo. Não c preciso dizer expressamente quaes lições são
meros erros de imprensa.
(2) Cfr. Jahrtsbericht^ IV Tarte II p. 215; e Literaturblatt 1894, p. 276.
270 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASC0NCELL0S
Bor nao nego o. - 37 AC outro que tanto vos queira.— 39 AC entr'ela. —
40 AC deve se bem de julgar.— A mas comquanto isto digo A2C mas era-
quanto isto Vos digo. — 41 A que posso crer.— A^C se posso crer.— 43 C de
nosso tempo. — 44 .4.42(70 que me tem esforçado que emquanto eu cuidar.
48 ACI melhor. — 50 AC querer.— 51 BE finais. — .4Clembramme os si-
naes— TIembra-me os sinaes.— 52 AC que os viram —53 AC impediam—
pudera mais por escrito.— 54 BF pêra a veer.— 55 C pela. — 56 IiEdi ve-
ra. —57 .áC se se. —2*7 poderá.
Olhando para os sentidíssimos versos, que reconduzi ao seu
teor primitivo (1), o leitor talvez aprove, aplaudindo, a longa
citação que, de resto, pôde salvar, saltando, segundo a receita
de Camões.
[147] De Gil Vicente (fal. em 1539) (2), profundo conhece-
dor da alma nacional e das suas manifestações populares, mas
também das literaturas medievaes, subsistem uns nove textos
narrativos, quer independentes, quer intercalados nos seus.4tt-
tos. Já citei três: o de D. Duardos e Flérida; a paródia Yo me
estaba en Coimbra; e o romance de ocasião que, dedicado ao
nascimento de um filho de D. João III, principiaPor Mayo era,
por Mayo (3). Na lista que segue, registo-os por ordem crono-
lógica, e indico o idioma empregado. Note-se que todos os da
sua lavra, com uma excepção (motivada) tem o título romance,
como o têm na boca d'ele todos os alheios e velhos que cita.
1)* 1518.— Vol. I, 246.— Português, em -ia:
Remando vão remadores barco de grande alegria.
2) 1519.— Vol. II, 416.— Castelhano, em -ia:
Nifia era la Ifanta, Dona Beatriz se decia
3) 1521.— Vol. III, 348.— Português, em -ia:
Pranto fazem em Lisboa dia de Santa Luzia (4).
4) 1521.— Vol. III, 355.— Português, em -ai:
Dezanove de Dezembro, perto era do Natal (5).
^i) Especialmente io, 12, 17, 22, 33 do Romance, e 3-14-16-17 d&Carta me-
recem atençfto, por terem variantes de peso.
(2) Quanto á data do nascimento, hesita-se ainda entre 1475 e '452-
(3) Dos remedos vicentinos da Bela mal-tnaridada, uns são quadras (II 485);
outro, em guineo, é cantiga (II 333).
(4) A' morte dei Rei D. Manuel.
(5) A' aclamação de D. João III.
ROMANCES VELHOS 271
5)* 1525.— Vol. II, 249.— Castelhano, em -ia:
En el mes era de Abril, de Mayo antes uu dia.
6) 1526.— Vol. III, 202.— Português, era -ada (1):
Yo me cátaba en Coinbra, cidade bem assentada.
7)* 1527.— Vol. I, 333.— Castelhano, em ando:
Vocês daban prisioneros, luengo tiompo estdn lloraudo (2).
8)* 1529.— Vol. II, 478.— Castelhano, em -ado:
Dios dei cielo, rey dei mundo, por siempre seas loado (3).
9) 1533.— Vol. II, 531.— Castelhano, em -ar:
Por Mayo era, por Mayo, ocho dias por andar (4).
Como se vê, apenas quatro vão em linguagem nacional.
Nenhum vai em quadras. Todos tem rima contínua. — E essas
sào, em regra, consonâncias puras e perfeitas (5). — Graves,
sete vezes; agudas só em dois casos.
[148] Jorge Ferreira de Vasconcellos (f. em 1563, ou pouco
antes) (6), outro bom observador e pintor de costumes na-
cionaes, veio bastante mais tarde. As suas principaes criações
(i) Português, apesar do primeiro hemistíquio, que é citação castelhana.
(2) Cantarão os presos o romance seguinte, que fez o mesmo autor ao mesmo
propósito.
(3) A introdução diz:
Vos, Sirenas, que cantareis
por memoria y enxalzamiento
de su vida y nacimiento,
este romance oireis.
Ao nascimento de uma filhinha de D. João III.
(4) Já expliquei, por que motivo Gil Vicente dea o nome de cantiça, bailada
a vozes, por dois coros de romeiros, a esta composição curiosíssima. E torno a
lembrar que foi a intercalação de um refram extenso que a transformou assim.
(5) Notei apenas três desvios ligeiríssimos: em N.° 2 Castilla e maravilla, em
7 Biscaia; em 9 cittdad e natural.
(6) Ignora-se por ora a data do nascimento. E nem se sabe ao certo, se a co-
média Eufrosina, sua estreia, é anterior aos Vilhalpandos e Estrangeiros de Sá de
Miranda. E incerto também, se o autor era parente da Jorge de Vasco Goncellos,
cunhado de João Rodriguez de Sá e Meneses, que figura no Cancioneiro Geral,
como autor de rifões insignificantes. Sua vida como a sua obra precisa ser estu-
dada, e merece sê-lo.
272 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
(duas das comédias, c um livro de cavalarias), sRo todavia
anteriores a 1550. — Só a Aulegrafia e um tratado, perdi-
do, sobre a educação de D. Sebastião, sito posteriores. — Ser-
viu de moço da câmara ao Infante D. Duarte (f 1540), pas-
sando em seguida ao serviço do Príncipe D. João. A este
dedicou as suas obras, menos a Eufrosina, oferecendo-as, de-
pois da sua morte prematura (1553), ao filho pós-thumo, el Rei
D. Sebastião. Muito embuido em literaturas clássicas, docu-
mentava os seus conhecimentos com graça, mas com demasia
da ostentação. Compensou todavia esta pequena balda pela sua
fina comprensâo do génio e do idioma pátrio, tão invejado e re-
prendido, e pelo entusiasmo sincero com que recolhia elemen-
tos tradicionaes, e enaltecia trovas c músicas portuguesas.
Admirando Gregos e Latinos, que cita a cada passo, imitando
Terêncio, sabendo de cór Dante e Petrarca, Garci-Sanchez e
Rodríguez dei Fadron, Garcilaso e Boscan, tinha predilec-
ção declarada por trovas portuguesas, sem fezes corno as de
D. João de Meneses (1), gostando mais porém das poesias
saudosas de Bernardim Ribeiro e do estilo sentencioso, mui
limado e novo, de Sá de Miranda.
Quanto a romances velhos, tresladei ditos d'ele, relativos a
Buen Conde Fernan González, Por aquel postigo viejo, Para
que paristes, madre, que provam o enfado e a ironia com
que, âs vezes, olhava para taes antigualhas, ou pelo menos
para aqueles que os glosavam, caminhando por sendas já
muito trilhadas (2). Mas ainda não registei outros dizeres
d'ele, relativos a romances em geral, importantes porque ne-
les confirma e justifica as queixas formuladas em 1515 por
Garcia de Resende. Uma vez censura os conterrâneos por
nao deixarem escritura das suas façanhas (3). Outra vez
(i) Das menos perfeitas, não gostava nada. Quando muito concede-lhes al-
guma graça. Em geral, benze-se como de espirro dos antigos trovistas palacianos,
que trata de músicos de fantasia; e não dá uma palha por um Inferno de amor ou
Testamento.
(2) Glosas eram cansadas coisas para o gosto fino d' esse Jorge.
(3) No engraçado mas complicado Prólogo da Eufrosina ha diversas alusões.
Ora afirma que, se os Portugueses se prezassem de sua lingua até então enconcha-
da, como gostavam das armas, deixariam escrituras de mores façanhas que os
ROMANCES VELHOS 273
diz, depois de haver alegado um romance de assunto bretó-
nico (1):
neste estilo e por este modo usaram os passados celebrar sextt
herói i-os fnvtOS, porque (i. é para que") a gloriosa memória delias assi
viesse a nossos tempos e se conservasse, o que também em Espanha se
usou muy to, e usar-se agora para estimulo de imitação não fora mao (2).
Se ahi parece lamentar a falta de romances épicos, rela-
tivos ao ilustre peito lusitano, ha no Intróito da Ulisipo,
outro passo significativo sobre a existência de trovas de mal-
dizer, de feitio igual ou parecido ao dos romances. Para ca-
racterizar as sátiras dos povos clássicos, emprega a fórmula
segundo cá os nossos (respectivamente os vossosj romances e
porquê? (3).
Pessoalmente, não soube remediar os males que aponta.
Verdade é que, muito bem intencionado, se meteu a escrever
romances. Mas a sua veia não era popular. A maior parte dos
que compôs não trata de assuntos pátrios. Quasi sempre es-
colheu assuntos clássicos, ainda não tratados na península (4),
antecipando-se assim a Juan de la Cueva e Laso de la Vega.
Uma vez tratou compendiesamente da matière de Bretagne.
Só ha duas tentativas d'ele sobre acontecimentos nacionaes
coevos. Mas essas são, em vez de fanfarras triunfantes, tris-
tes lamentações, e preságios fúnebres, relativos á morte do
seu Príncipe, luz e espelho dos Lusitanos (5). Todos em portu-
Hebr eos de incredu/idades, os Gi egos de fabulas, e os Latinos de deidades (p. 1 1 .)
Ora pede aplausos, para que a inveja do favor que lhe dessem, fosse negaça para
outros tentarem cantar vossos heróicos feytos (p. 12).
(1) Sagramor, Cap. IH p. 10.
(2) No cap. 73 lô-se: romances eram. os cantos que então mais se usavam. Com
relação, fantasiada, aos tempos post-arturianos do seu heroe.
(3) É no Prologo de Mercúrio á Ulysipo ou Lisboa (f. 2.0 da ed. de 1618) que,
falando da invenção da poesia, que de louvores de Deus degenerou em vitupério
de homens, afirma que os lavradores de Atheuas iam de noite á cidade e em canta-
res, segundo cá es vossos rvmaiues e poi quis, publicava/n o dano que recebiam, no-
meando o Autor.
(4) O Juízo de Paris; os amores de Prvtesilao e Laodamia; Sofonis/e; Achiles
e 7'o/ixena; César e Pompco.
(5) O Príncipe D. João morreu de anemia, na idede florescente de quinze
anos c sete meses, após 14 meses de casado, dezoito dias antes do nascimento de
seu filho D. Sebastião. O triste sucesso provocou demonstrações ài pesar, não
274 CAROLINA UICHAÈLIS DE VASC0NCELL0S
guês, com alguns trechos agradáveis, mas cm regra assaz pe-
destres, inferiores em fantasia reconstructora aos paralelos
castelhanos.
Eis a lista dos romances de Jorge Ferreira de Vasconce-
llos. Todos fazem parte do já citado livro de cavalarias Sa-
gramor ou Memorial das Proezas da Segunda Tacola Redonda.
1) Cap. 3. — Enumeração de heroes bretónicos — Em-e*íe.
Gram Bretanha, desleal ao melhor rey que teveste.
2) Cap. 8. — Paris e Enone: juizo de Paris. — Em-aua.
Naquela montanha Ydea que Afrodisia frequentava.
3)* Cap. 12. — Amores de Protesilao e Laodamia. — Em-m.
Com lagrimas e soluços dos braçoò de Laodomia.
4) Cap. 13. — Sofonisbe. — Em-ar.
De ti, casto Scipião, Sofonisba ouvi queixar.
5) Cap. 33. — Achiles e Polixena. — Em-ava (1).
Diante os muros de Troya muy ufano passeava.
6) Cap. 35. — Morte de Achiles. — Em-ado.
No templo de Apolo, Achiles, desprovido namorado.
7) Cap. 45. — César e Pompeo, em -ia.
De Roma sahe Pompeo e toda Roma o seguia.
8) Cap. 46. — Cantar das Fadas, Cloto, Láchesis e Atro-
pos, ao rei de Portugal, no Torneio de Xabregas, em pareados
dissonantes.
Príncipes e emperadores que o mundo a sabor mandais
e tam pouco vos lemb 'ais da rota da vida eterna.
inferiores ás que em 1491 acompanharam a desastrosa morte do Príncipe D. Al-
fonso; nem ás que em Castela foram suscitadas pelo falecimento de D. João, filho
dos Reis Católicos (1497). Mas em lugar de Romances e Poemas em versos de
arfe maior, agora predominavam lamentações eruditas, em estilo italiano, e em
latim. — A lista que dei no meu Sá de Miranda, (p. 739) não é completa. Po
dia hoje ampliá-la bastante.
(1) Com Vilancete de desfeyta (ou desvio)
ROMANCES VELHOS 275
9) 47. — A'morte do Príncipe e nascimento de D. Sebastião,
em -ado.
Soberbo está Portugal em sua gloria enlevado (1).
Todos com consonâncias perfeitas e rimas contínuas, menos
o No 8. Na reimpressão moderna estão repartidos em quadras.
Nunca tive o gosto de ver a edição príncipe.
[149] Quanto a Baltasar Diaz, nacionalizador, por vol-
tas de 1537, do Marquês de Mantua, da Emperatriz Porcina, e
do Conde Alarcos, nada posso acrescentar ao que ficou exposto
nos parágrafos 59 e 81, e á vaga hipótese, formulada no 127°,
de que o cego jogral redigiria outros romances, como por ven-
tura o da Bela Infanta, citado por Jorge Ferreira, e o de Sil-
vana, mencionado no século xvn por D. Francisco Manuel
de Mello,
• [150] A existência de um romance vulgar, relativo a uma
coisa acontecida no domínio português em 1522, impõe-me o
dever de examinar, se ele seria escrito logo em seguida. O
sucesso é o terremoto medonho que na Ilha de S. Miguel des-
truiu a 22 de Outubro a mais florescente e populosa vila do
Archipélago Açoriano. O romance principia:
Em Vilafranca do Campo que, de nobre, precedia,
na Ilha de Sam Miguôl, a quantas vilas havia.,
É literário, em tora joglaresco, bastante chão; vivo e poé-
tico, apenas, na descrição dos abalos. Impresso diversas vezes,
tem duas redacções: uma extensíssima (2), outra abreviada,
ou antes fragmentada (3). O povo não conhece nem mes-
mo essa.
(i) Os dois capítulos finaes tratam do Torneio histórico, celebrado em 1552
(a 25 de Julho, dia de Santiago; segundo outros, a 5 de Agosto) no arrabalde de
Xabregas, em honra do Príncipe e da sua noiva. — Dirigidos a D. Sebastião, foram
acrescentados á primeira redacção da Novela, depois de 20 de Janeiro de 1554.
T. Braga e Leite de Vasconcellos referem erroneamente o primeiro d 'estes
romances ao Príncipe D. Afonso, filho de D. João I.
(2) Proveniente do manuscrito das Saudades da Terra (Livro IV, Cap. 25, se-
gundo Jorge Cardoso), a redacção completa foi publicada no Archivo dos Açores,
toI. I, p. 352 (1879).
(3) O autor do Agiológio tresladou no Commentario ao dia 26 de Maio. (Vol. III,
270 CAROLINA MICHAÈ~L18 DE VASCONCELLOS
A meu ver, é produção tardia de um Insulano, bem in-
formado (1), mas que nao fora testemunha presencial: o Micha-
elense Padre Gaspar Fructuoso. Na única obra literária, por ele
elaborada, a Historia das Ilhas, a que deu o título poético de
Saudades da Terra (2), com > admirador e imitador de Bernar-
dim Ribeiro, encontra-sc esse romance, com mais algumas ri-
mas, que 8.1o incontestavelmente suas (3).
Dois trechos do romance merecem ser consignados aqui,
porque ha neles reminiscências que ajudam a caracterizar os
processos do autor.
Primeiro contém um verso que destoa agradavelmente da
secura geral:
Era uma quarta-feira q iarta-feira, triste dia,
em a noite mais serena que o ceo fazer podia.
É tirado do romance de D. Duardos, de Gil Vicente (1525),
popular nos Açores, como o leitor sabe (4). Outro pormenor
p. 415) um pedaço do tosco romance que (Veste triste e lastimoso espectáculo traz
o mesmo Gaspar Iructuosa no Livro alienado.
D'ahí T. Draga o passou, não á 1'loresta de vários autores determinados de ro-
mances, como devia, nem tão pouco ao Romanceii o do Archipélago Açoriano, mas
antes ao Romanceiro Geral (entre as Lendas Piedosas), como se fosse verdadeira-
mente popular. — Vid. p. 131 e conf. 212. -Na nova edição da Poesia Popular
Portugueza (p. 378), o investigador remate os leitores ás Dicadas de Barros
(III-1-5).
E engano. Creio que houve confusão entre verbetes relativos a Barros c á ba-
talha de Salsete, e outro*, relativos a Gaspar Fructuoso.
(1) Houve, e talvez haja ainda, nina relação coeva em prosa. Vid. Memorias
Lit. Vol. V, p. 349: Destroiçam que foi na Ilha de Saiu -Miguel, do tremor de terra
a 22 de Outubro de ij22.
(2) Doutor em teologia e mestre em artes pela Universidade de Salamanca,
nascido no próprio ano do terremoto. A Historia das Ilhas desde o descobrimento,
meritória, mas confusa quanto á coordenação e ao estilo, foi redigida em 1 591.
Podia comtudo ser que os versos existissem muito antes. —A maior parte dos dois
tomos de que consta— quasi duas mil páginas in-fólio cada um— está inédita. Ál-
varo Rodríguez de Azevedo publicou apenas as partes dedicadas a Porto-Santo,
Madeira, Desertas, e Selvagens (Funchal, 1 873 "i.
(3) Entre elas ha um Soneto a Camões, cujas quartetas são razoáveis, sendo
extremamente banaes os tercetos.— Vid. T. Braga, Camões, Época e Vida, Porto 1907.
(4) A essa reminiscência talvez se juntasse outra: do romance do Príncipe dom
Afonso, igualmente popular nos Açores.
ROMANCES VELHOS 277
lembra o Palmeirim de Inglaterra de Francisco de Moraes. O
gigante Almourol, em Portugal guardador da famosa e esqui-
va princesa Miraguarda, é transformado nas Ilhas em abala-
dor da terra (1). Eis os versos a que aludo, suprimidos no Ro-
manceiro de T. Braga e na fonte de que ele se serviu:
que de ser velho cansado ronca quando adormecia,
inda que fosse levante nada d'ele se sentia;
não corre bafo de vento, nem folha de arvore bulia;
estrelado estava o ceo, nuven não o escurecia.
Ante manha duas horas (inda não amanhecia)
começou tremer a terra (mais que outras vezes tremia.)
e a dar fortes balanços, parecendo maresia.
Não treme de baixo a cima, mas para os lados tremia.
Nem abre boca alguma o espirito que isto fazia;
sacudiu somente a terra dos lados em quo feria.
Sacode a terra dos hombros com o peso que sentia
o grão gigante Almourol que deitado ali jazia.
Movem se todas as cousas quando seu corpo movia;
eitrondos que a terra faz roncos são do que dormia,
que de ser velho cansado ronca quando adormecia.
*
A imitação, a ser certa, nos levaria ao quinto decónio do sé-
culo, p^lo menos. Mas ela tíõ,a ó facto provado. Dize-se tam-
bém que houve lendas locaes de Almourol, anteriores ao livro
de cavalaria,
[15 IJ Paro aqui, sem me ocupar da infinidade de romances
compostos por letrados portugueses, de lõõO em diante. Logo
depois de a grande reforma de Sâ de Miranda haver vingado,
poucos escreveram romances. Muitos, durante e após o contac-
to imediato com o gosto castelhano, no tempo da união (2).
A Floresta de variou romances de autores determinados de
T. Braga não dâ ideia adequada d'essa tardia abundância.
Pelo contrário, ela produz a impressão de pobreza extrema;
a ponto tal que o desprevenido deve concluir que não ha em
(i) Não verifiquei, se por ventura em alguma das continuações do Palmeirin,
o Gigante morre e é sepultado nas Ilhas.
(2) Nesse tempo diversos Romanccros foram impressos em Portugal: 1581 o
Cancionero de Romances; 1595 o Ramillete de Flores; 1595, 1603 c 1606 Zegris e
Abencerrages', 1605 e 161 5 o Romancero dei Cid; 1610 e 16 16 o Romanceio Histó-
rico de Francisco de Segura. Todos na capital.
278 CAROLINA MIOHAELIS DE VASCONCELLOS
toda a literatura portuguesa romances literários bastantes e
bastante bonitos para com eles se encher um volume mediano.
Se essa única colecção existente, consta apenas de vinte-cin-
co exemplares, entre portugueses e castelhanos (1), e
esses vão entremeados de vilancctes e cantigas, que pela sua
beleza peregrina põe em sombra os textos narrativos, a ideia
de penúria impõe-se aos olhos mesmo de quem não reparar no
facto de, entre os impressos como romances, andarem Trovas
estróíicas, de propósito diluídas em textoj contínuos, como as
de D. Inês e a lamentação do Príncipe D. Afonso (2).
Faço votos para que na nova edição transformada do Ro-
manceiro entrem pelo menos todos os romances de arte, por-
tugueses, e os castelhanos que sao obra de Portugueses, ante-
riores á data 1550, como o de D. Jofio Manuel, os de D. João
de Meneses, os quatro de Gil Vicente que foram omitidos, o
(i) Claro está que nessa conta não entram os dezoito textos (em parte anó-
nimos), relativos á História de Portugal, que formam a Segunda Parte da obra.
Tirados de colecções hespanholas, são evidentemente de autores castelhanos, me-
nos uma, de que tornarei a falar.
(2) Pelo assunto e pelo seu estilo singelo a composição de Álvaro de Brito:
Morto é o bem de Hespanha,
nosso Príncipe Real,
chora, chora Portugal!
choremos perda tamanha!
(Canc. Ger. I 221) merece a distinção. A quadra que tresladei é todavia mal pa-
rafraseada em seguida, em cinco voltas líricas (de duas quadras-redondilhas). Na
sua Antologia, T. Braga classificou ainda de romance outras trovas parecidas, de
1 449: Á Morte do Infante D. Pedro que morreu na d1 Alfarrobeyra, e vão em nome
do Infante:
Pola morte de mym soo
e d'alguns vossos parentes
vósoutros que soes presentes,
todos deveis filhar doo,
(Canc. Ger. I 451), de Luis de Azevedo. E útil conferi-las com diversos monólogos
de mortos, compostos no pais vizinho (p. ex. o de D. Juan Pimentel, falecido em
1437 e deplorado por Agraz).— P. S. No Vol. III do Romanceiro Geral Portuguez,
distribuído ha pouco, mas já com a data de 1909, a floresta foi um pouco modifica-
da. Entre os acrescentos ha p. ex. os romances de Gil Vicente, que faltavam na
l.a edição, os de Falcão de Resende, D. Manuel de Portugal e Pedro de Andrade
Caminha. Mas ainda agora sustento o que digo no texto.
ROMANCES VELHOS 279
de Jorge Ferreira de Vasconcellos que teve a mesma sorte (1),
o de Gaspar Fructuoso, o sacro de D. Joana da Gama, de que
nao falei (2). Dos posteriores, tudo quanto temos em lingua-
gem. Dos em castelhano, pelo menos uma selecção do melhor.
Aos romances jogralescos de António López de Trancoso,
Diego Garcia de Bragança, Gabriel de Saraiva, impressos no
país vizinho em folhas volantes góticas, e em parte acolhidos
nos Romanceros , juntaria eu os espécimes contidos nas Obras
de Jorge de Montemor (3), de Gregório Silvestre, Pedro de
Andrade Caminha (4), Falcão de Resende (5), Frei António de
Portalegre (6), D. Manuel de Portugal (7), Francisco Ro-
dríguez Lobo (8), Miguel Leitão de Andrade (9), Jorge Furta-
(i) São os que nas listas supra vão marcados de asterisco (i, 5, 7, 8 de Gil
Vicente; 3 de J. F. de Vasconcellos).
(2) Onde acharei sofrimento pêra vida tam penada, impresso em 1555 nos
Ditos da Freira.
(3) P. ex. o romance da Mofina:
Citando yo triste naci luego nací desdichado,
pertecente ao Livro V da Diana, e tantas vezes reimpresso.
(4) Nas Poesias Inéditas ha um romance português que diz:
Desque me parti de ver-vos tenho quanto mal mereço
(No 323).
(5) Conf. § 128 e Garcia Pérez, Catálogo, p. 160.
(6) Ha alguns romances sacros no seu livro da Meditação (1547).
(7) Vid. Obras 1605, f. 220V.
(8) Além dos cinco romances em português que andam nas Obras de Lobo
ha mais quatro inéditos no Cancioneiro de Fernández Thoina?.
F. 31. Atrevido pensamento, não me ponhais em perigo
F. 37v. De cima d'este penedo, aonde combatendo as ondas.
F. 48. Tesouro por mãos de amor achado nas de ventura.
F. 60. Ferindo o sol sobre as ondas que umas co' outras combatem.
Os castelhanos são muitíssimos: 56 só a respeito da jfornada de Felipe III a
Portugal (1609), e além d'isso dois Livros inteiros, um com 30, outro com 26 nú-
meros. Um horror!
(9) E possível que seja autor (e compositor?) do Romance de Alcaccr-Quebir
Postos estão frente a frente os dois valerosos campos.
Castelhano no Diálogo VII da Miscellànea, figura aportuguesado nas Rimas de
Estêvam Rodríguez de Castro (ed. 1792). - Leitão de Andrade afirma que o canta-
280 CAROLINA MICHAÉLIS DE VA8C0NCELL08
do (1), Vasco Mousinho de Quevedo, D. Francisco de Portu-
gal, D. Francisco Manuel de Mello, Miguel da Silveira, Antó-
nio Serrão de Castro, António Lópoz da Veiga, António Al-
varez Soarez, Simão Garcia de Brito, Faria e Sousa, António
Barbosa Bacelar, Fernão Correia de Lacerda, Jerónimo Ba-
hia, Guerreiro, Valladare», Gamboa, D. Violante do Ceo, Je-
rónimo Peixoto, Quintana de Vasconcellos, Francia da Cos-
ta (2), etc, ctc. Depois, alguns solaos e algumas xácaras divi-
didas cm quadras, dos poetas românticos do século xix, assim
como, de íins do t-éculo e princípios d'este, algumas amostras
de mortos como Júlio Dinis e António Nobre, e outras de vi-
vos como Afonso Lopez Vieira, Brandão, Ribeiro de Carvalho,
Silva Gaio, Correia d'01iveira, e o própio Teófilo Braga.
Bem sei que à quantidade não corresponderia a qualidade
e que essas obras de arte, mais ou menos perfeita, não al-
terariam a impressão produzida, de dependência de Caste-
la. Nem as ideias evocadas pelos romances velhos, acerca
das feições imitativas e tendências sentimentaes do génio
português, e sobre a evolução da poesia portuguesa cm geral.
Os romances seiscentistas (em regra em castelhano), que são
os que mais avultam, são arrebicados, secantes de metáforas
e conceitos, porque foram escritos com a pena d'asa da gon-
górica Fénix Renascida, para me servir de expressões carac-
terísticas de Almeida-Garrett. Os do tempo do Romantismo
são tétricos e empolados, ou extremamente insulsos! Entre os
dos nacionalistas de mil e quinhentos e do Renascimento mo-
ram depois da infeliz batalha, por uma toada tristíssima e sentida e que muito» o
glosaram de muitas maneiras (p. 151.) Mas nada diz quanto ao autor da letra e da
música. — Ao cabo de cada copla repete-se o estribilho: el lusitano .
(1) No Cnncioneiro Geral, publicado como continuação ao de Garcia de Re-
sende, pelo benemérito e erudito Eborense A. F. Earata (mas, que, além de poesias
em estilo peninsular, contém muitas no gosto clássico, compostas em 1576, 1598,
1606) ha um Romance lírico d'csse autor, pouco conhecido:
No hajais, fiensamiento mio, el vuelo tan levantado.
(2) Quem quiser completar a lista dos antigos romancistas, recorra ao Catá-
l»ço de Garcia 1'érez.
ROMANCES VELHOS 281
derno, os melhores, que se aproximam dos tradicionaes, quan-
to ao espírito e ao estilo, são suavemente poéticos (1).
Verdadeiramente épico, talvez não haja nenhum.
Em todo o caso figura-se-me útil que também esses docu-
mentos se tornem accessíveis e sejam examinados, antes que
Menéndez y Pidal lavre sentença final no processo instaura-
do, para o qual elaborei esse longuíssimo estudo.
[§ 152] Ponho ponto final nas Notas Complementares com
algumas observações sobre trovas de escárnio e maldizer.
Do Prólogo da Aulegrafia, citado ha pouco, vê-se o que, de
resto, já sabíamos: que a veia cómico-satírica dos Portugueses
que tao abundantemente ss revelara na época dos Trovado-
res, e tantos pleitos de folgar promovera entre os rimadores
palacianos de 1449 a 1516, continuava a expandir-se no rei-
nado de D. João III em versos de escárnio e de maldizer. Cha-
mando-os trovas ou romances, Jorge Ferreira suscita a con-
jectura que taes composições em estilo popular seriam vasa-
das, pelo menos algumas vezes, em rimas contínuas. Não me é
dado, porém, apontar exemplos. As amostras, relativamente
numerosas, do reinado de D. Sebastião, do de D. Henrique e
do tempo dos Governadores, que conheço em parte, constam
todas de quadras soltas ou séries de quadras (2). Nasreferên-
(i) A influência benéfica da Musa de Bernardim Ribeiro actuou em muitos.
(2) Uns, em forma de Epitáfio, motejam do Bispo Afonso Mexia do modo se-
guinte:
Um prelado aqui se esconde
que começou em Tomar.
Veio a ter tanto que dar
que o fizeram Bispo-Conde.
Um bispo que nS,o é santo,
Mexias que nito c Cristo,
nâo tenho por grande espanto
fazer obras de Antecristo.
Outros censuram D. Sebastião e seus Conselheiros
Um rei em experiência,
sem alma um cardeal,
10
282 CAROLINA M1CHAÊLIS DE VASC0NCELL08
cias que colhi nas Décadas de Barros e Couto, nas Lendas de
Gaspar Corrêa, na História de Castanheda, a respeito de com-
posições, em que os expatriados, praguejadores dos Capitães,
Governadores e Vicereis, (ou cm que os gentios enalteceram
feitos gloriosos, tanto próprios como de Portugueses), sempre
se trata de Trovas, Porquês, Cantigas (1).
Eis alguns exemplos. Em 1509 Afonso de Alburquerque
manda sondar a barra de Goa, afim de ver que espécie de nãos
poderiam entrar nela. E sondada a barra, não se fez mais
nada; do que os que estavam em Cananor com o visorey, zom-
baram muito. E fizeram sobr'isso trovas porque haviam por im-
possível tomar-se Goa, por camanha cousa era, e quão podero-
sa de gente (2).
O vicerei Jorge Cabral era tão bom e tão íntegro que nun-
ca se lhe achou que tachar, de modo que, lançando-se umas
dois irmãos sem consciência
acabarão Portugal.
*
Sebastião e Martinho,
Henrique e Luis,
olhai por onde is,
que levais mau caminho!
Ou: também -.Martinho e Martinho (i. é D. Martinho Pereira, Martim Gonçalvez de
Camará, Luis Gonçalvez da Camará). Diversos acham-se no Cancioneiro Geral àe
Barata (Évora 1902.) A Sátira de Soropita sobre a perda da independência é imita-
ção das Coplas de Mingo Revulgo.
(1) Cantiga ora no sentido lírico, ora como equivalente de quadra, no sentido
de bitafe. - Claro está, porém, que os Indiáticos levavam como recordação da pá-
tria e da infância não só romances narrativos, mas também cantares velhos. Eis
um exemplo. Antes da peleja naval, em que foi desbaratado e mortalmente feri-
do D. Paulo da Gama (1 533 em Malaca), ele começou a cantar assim em som baixo
aquela Cantiga velha que diz:
Olival! olival verdet
azeitona preta,
quem te colhesse!
por ver, se algum dos seus lhe dizia que não era siso esperar os inimigos, e que se
recolhessem. Couto, Década IV, Livro 8, Cap. 9 (Vo). II p. 278).
(2) Castanheda, Livro 2, Cap. 122.
ROMANCES VELHOS 283
trovas em Goa em que praguejavam de todos os oflciaes, nele
não se fala nem tocaram, sendo os Governadores da índia os
primeiros a que os homens não perdoam cousa alguma, notando-
Ihes ainda cousas que nunca fizeram (1549) (1).
No tempo de D. Afonso de Noronha, este recebeu ordem
de desapossar um seu amigo da Capitania de Diu. Nem ele,
nem fidalgo algum se quis, porém, incumbir do escabroso ne-
gócio. Só D. Jorge de Meneses Baroche o aceitou, o que lhe
todos estranharam... que aquilo era mais profissão de um ba-
charel que de hum fidalgo tão honrado; e sobre isso lhe fizeram
muitas trovas (1550) (2).
A batalha de Pungor, de que Paulo de Gama saiu vencido
e ferido mortalmente (1533), foi tao famosa, e assim está hoje,
pelo grande dano que nela receberam, tão fresca na memória
dos Malayos, que se tem em cantigas que eles muitas vezes can-
tam com grandes sentimentos (3).
Quanto â visita do Sultão Badur ao Governador Nuno da
Cunha, Couto diz que a gente de Diu a canta em suas can-
tigas, porque todo esse sucesso puseram em verso e o cantam o
dia de hoje, por todo o reino de Çambaya (1531) (4).
De António Galvão consta que para os seus feitos bemfa-
zejos ficarem entre eles em perpétua lembrança, os Ternates
faziam cantares em seu louvor, que ao seu modo são as Crón-
nicas per que se sabem nos tempos vindouros o que fizeram os
seus passados e quem foram (5).
O Capitão de Ormuz Diogo de Melo, que prendera sem jus-
(i) Década VI, Livro 9, Cap. 2 (p. 237).
(2) Década VI. Livro 10, Cap. 15 (p. 502).
(3) Década IV, Livro 8, Cap. 1 ! (p. 281);
Capitão Dom Paulo
baparam (de) Pungor
anga dia malu
sita pa tau dor.
Versos de endecha.
(4) Década IV, Livro I, Cap. 9 (p. 98.) Em outro lugar ha referencias a cho-
carreiros de Ucnomotapa.
(5) Década IV, Livro 9, Cap. 22 (p. 597).
CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
to motivo o Raix-Xarafo, tratava-o tão asperamente que deu
matéria para era uns Porquês+quc alguns praguentos fizeram
na índia, dizer:
1'orque Diogo de Melo:
«Xarafo, dá-nie uinheiro?»
Porque ele diz: <vê-lo, vê-lo!
não sejas meu carniceiro!» (1527) (1).
Os soldados de Francisco Barreto, tomando a mal que ti-
vesse feito as pazes com os de Goa, começaram a soltar-se em
palavras contra ele e a cantarem-lhe de noite cantigas sujas e
deshonestas (1558) (2).
Nem uma só vez se fala de romances.
[153] Para integração do processo faltam dois capítulos
igualmente importantes, de que seguramente se encarregarão
os esposos Menendez Pidal: um relativo aos assuntos e ás for-
mas dos romances tradicionaes, em confronto com os textos
castelhanos; outro, também comparativo, sobre a música,
tanto dos populares de hoje como dos artísticos da corte dos
Reis Católicos, e sucessores. O primeiro, em que aqui só pude
tocar ocasionalmente, já foi traçado, com os materiaes de Al-
meida-Garrett e T. Braga, pelo autor da Antologia. Terá, po-
rém de ser ampliado com todos os preciosos subsídios recolhi-
dos pelos continuadores, conforme deixei exposto na Introdu-
ção. O segundo, para o qual sou incompetente, podendo dar
apenas, na Parte que se segue, um feixe de notas literárias,
terá valia superior, se D. Ramon e D. Maria puderem reali-
zar o plano que têm de fixarem por meio do gramofone, as
melodias mais características.
(i) Castanheda, Livro VII, Cap. 4.
(2) Década VII, Livro V, Cap. 7.
KOMANCES VELHOS
IX Recapitulaçâo e Conclusões.
[§ 154] De cerca de cincoenta autores portugueses, tirei
uns duzentos passos documentaes, relativos a mais de oitenta
romances que, com poucas excepções, subsistem em colecções
antigas, hespanholas (1).
Como previamente anunciei, a maior parte d'esses passos
documentaes, contém citações, em geral textuaes, comquanto
deturpadas muito a miude. Comtudo ha também traduções,
quer de versos largos, quer de hemistíquios, ou de metade
d'eles. Outros compõe-se de refundiçòes ou acomodações de
textos antigos a factos mais modernas; de contrafaçoes ao di-
vino; de remedo3 burlescamente disparatados; de paráfrases
expressivas, ora de romances inteiros, ora de breves trechos
de romances. Também tive de falar de algumas criações novas
de Portugueses. Tudo isso, parte na linguagem dos vizinhos,
parte na materna. Diversas vezes me referi a meras alusões
ao género em geral, ou a determinadas espécies, assim como
a opiniões de poetas de cá sobre a popularidade e o valor de
romances velhos, romances trovados, glosas de romances (2).
(i) Nos índices I e II é fácil verificar os dados estatísticos.
(2) De caso pensado omiti meras referencias a figuras típicas peninsulares, ou
da mitologia clássica, relê \ ando apenas de longe em longe alguma, de interesse
particular. Não lhes dediquei um capítulo especial, por não se haver certeza, nem
mesmo probabilidade de que em cada menção do Cid, Lain Calvo, Ximena, Velli-
do Dolfos, Infantes de Lara, Roldão, Reinaldos, Oliveiros, o Marquês de Mantua,
o Conde Partinuplôs, Tristão e Iseu, Ilero e Leandro, Dido e Eneas, Orfeo e
Eurídice etc, se visassem romances, e não crónicas, novelas, comédias, poemas,
poemetos, traduções de Ovídio.
Igualmente omiti motivos soltos e frases-feitas que são reminiscências de ro-
mances: nomes de protagonistas novelescos (Gerineldos, Conde-Claros); epítetos
honoríficos (b/ten caballero honrado); trechos descritivos de tempo ou lugar, que
Bervem de introdução pitoresca (meia-noite era em pino — clara noite de luar)
bordões de transição (ellos en aquesto estando; bien oistfis lo que dicia); fórmulas
impressivas (si me quieres por mujer, si me quieres por amiga; ir me quieto a tornar
moro); sentenças moraes vulgares (não morreu de tabat dilho, nem morreu pelas
tabernas, nem pelas tablasjogar.Ta.es dizeres, repetidos em variadíssimos roman-
ces tradicionaes, deverão ocupar os que editarem os definitivos Romanceiros Po-
pulares.
280 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASC0NCELL08
Os textos a que as citações pertencem, ou a que glosas,
trovas, contafacções e críticas se referem, já então passa
vam por velhos. E embora esse qualificativo fosse talvez dis-
tribuído com demasiada prodigalidade, como aconteceu ao
diante, ó certo que na maioria dos casos me foi dado remeter
o leitor â Primavera y Flor de Romances de F. Wolf, isto é á
Coleccion de los mas viejos y mas populares romances castella-
nos, ou aos preciosos Suplementos com que essa bela e cri-
teriosa colecção foi modernamente alargada na Antologia de
Menéndez y Pelayo e nos estudos de Menéndez Pidal e sua
esposa (1).
Quanto á índole, muitos são realmente primitivos (2), e tra-
dicionaes. Outros são jcgralescos; outros, artísticos antigos.
Considero vulgares só alguns casos excepcionaes como o ro-
mance perdido dos Xaboneros (3), as Maldições de Salaya, os
Arrenegos de Gregório Affonso.
Quanto aos assuntos, poucos são nacional-históricos e mou-
riscos.— Os que predominam são os carolíngios, cavalheires-
cos, novelescos e épico-líricos. D'essas quatro categorias, bas-
tantes, verdadeiramente velhos, e alguns jogralescos, perdu-
ram na tradição oral das regiões portuguesas (4). Dos de his-
tória peninsular, apenas o tripartido de Ruy Cid, o dei Rei
D. Rodrigo, e um de Bernardo dei Cárpio (na forma vaga do
Conde Preso). Tendo pouca difusão, estão deformados pela in-
trodução de elementos estranhos, novelescos e líricos. Dos ca-
rolíngios sobrevivem os do Passo de Roncesvales, Valdevinos, o
(1) Cincoenta e tantas vezes remeti o leitor á Primavera de Wolf, e vinte e
cinco vezes à nova edição de Pelayo. Nos restantes casos, como nos relativos á
Zaide e o Forçado de Dragut, os romances tardios de que se trata, entraram na
grande colecção de Duran.
(2) Entre os Quinze romances selectos, publicados ha pouco por Delbosc, em
edição monumental, ha diversos dos que registei, como a Bela ma! maridada;
Tiempo es el caballero; Por el mes era de May o', fonte/rida,' RA padre era de Ronda .
(3) No A B C de disparates do Cancionero d'Herberay (Gallardo, Ensayo I
451) eita-se um cantar dos Xaboneros de Sevilla, entoado por Torre (c. 562). É
tudo quanto sei.
(4) Em geral, os mesmos subsistem também no norte e nord-oeste do reino
vizinho. E foram citados a miude na literatura castelhana, (em Ensaladillas, In-
fiernos de amor, Jueços de Naipes, e posteriormente em Comedias e A ove/as).
ROMANCES VELHOS
Conde-Claros, Gaiferos. Dos cavalheirescos, o de D. Duardos
e Flérida. Dos novelescos de tema internacional, os do Conde
Alarcos, da Infantinha, de Silvana, e da Donzela- Varão. Dos
líricos, o do Prisioneiro, o da Rola- Viuva, e o do Mal de amo-
res, resto talvez da Bela mal-maridada.
[§ 155] O aproveitamento de composições inteiras (para
glosas e trovas, ou como entremos musical) é raro. Somente
o velha romance lírico de Tiempo-bueno foi glosado muita vez,
do princípio ao fim (1). Durandarte, Gaiferos, Guay Valência
foram abreviados, conforme era uso dos glosadores e canto-
res. Mesmo onde o romance seria na realidade cantado inte-
gralmente ao baile (quer no palco, quor em actos e scenas da
vida popular) o poeta, ou o referente, assentava apenas o
octonário inicial (2), na certeza que os executantes e os leito-
res saberiam de cór o texto, ou teriam facilmente ensejo de
se inteirar d'ele — particularidade que atesta a repercussão in-
tensa dos respectivos romances. Nas glosas e nas trovas cen-
tónicas é em regra um verso largo de cada vez, que remata
as décimas, ou estâncias parecidas.
[§ 156] O maior número dos meus passos documentaes en-
contra-se nas obras de autores quinhentistas, notáveis pelo
seu amor pátrio, seu profundo conhecimento da alma nacio-
nal, e vivo interesse por materiaes folklóricos em geral (su-
perstições, costumes, anexins, provérbios, melodias e letras
populares). Gil Vicente, Jorge Ferreira de Vasconcellos, Luis
de Camões ocupam os lugares primaciaes. Tanto as citações
como as intercalações de romances cantados se dâo sobretudo
no teatro do Plauto português e seus discípulos; nas comédias
Eufrosina, Ulysipo, e Aulegrafia; no Filodemo, Rei-Seleuco e
nos Anfitriões; mas também em trovas de ocasião, e em Car-
tas familiares do Príncipe dos Poetas portugueses (3). isto é:
(i) Pelas chacotas de Jorge Ferreira de Vasconcellos sobre a moda de escre-
ver glosas, que segundo ele, já por 1540 se havia tornado enfadonha (tão seguida
fora antes d'e?se prazo), suponho que muitas se perderiam.
(2) Guay Valência, em boca do alfaiate judeu, no Auto da Lusitânia de Gil
Vicente, aparta-se da regra.
(3) As pequenas ocorrências anecdóticas da vida histórica que citei, conside-
-roas como pertencendo aos géneros familiares.
280 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASC0NCELL08
em géneros que espelham a realidade, ora na prosa de todos
os dias, ora em versos de medida-velha. Em obras de arte
austera, de estilo ítalo-clásico, procuraríamos de balde versos
alheios de carácter popular (1). Neles ocorrem apenas raros
versos alados, em latim (de Horácio, Ovídio, Vergílio), ita-
lianos (Dante, Petrarca, Bembo), hespanhoes (Garcilaso, Bos-
can) ou no idioma nacional (Camões) (2).
Quasi sempre é o hemistíquio primeiro, pelo qual o roman-
ce é recordado. Menos vezes se empregam versos do meio ou
do fim. Nestes casos são em regra ditados sentenciosos, com
feitio de provérbios, ou vocativos e imperativos (resp. optati-
vos) em alocuções vivazes. De vez em quando a citação é in-
terrompida a meio (3), conforme mostrei com relação a Olhos
que vos viram ir
E as pessoas, de cuja boca vemos sair fragmentos de ro-
mances? É digno de nota que a gente-povo, a burguesia, e a
nobreza parecem haver tido gosto igualmente vivo pelo géne-
ro épico-lírico. Na galeria que constituí, ha palacianos e vi-
lões; fidalgos e escudeiros; estudantes da Universidade, al-
faiates judeus, moços de servir, amas de criar, capitães e sol-
dados tanto da Africa como da índia. Todos conheciam e em-
pregavam romances: Nas ruas da capital e de Coimbra, nas
cidades menores e vilas, onde a corte residia temporaria-
mente, nas aldeias e serras. Em representações scénicas dos
serões do paço; longe da pátria, na viagem ao reino vizinho,
na travessia á Africa, nos adustos campos mauritanos; no
meio do oceano, nas fortalezas do Oriente — em toda a parte
os Portugueses entoavam romances, ora como desabafo sen-
timental, ora como mero divertimento (afim de nâo adorme-
cerem no quarto da modorra); ás vezes com tenção satírica;
outras vezes para levantar o espírito guerreiro dos comba-
tentes. E tão inveterado era o costume que não ha diferença
entre o primeiro acto das conquistas orientaes, gloriosamente
fechado por D. João de Castro, e os subsequentes, em que
(i) Claro que ha algumas excepções (p. ex. em Barahona de Soto).
! 2) Hendecassllabos, já se vô.
(3) Com provérbios, é vulgar proceder-se do mesmo modo.
ROMANCES VELHOS 289
filhos e netos se esforçavam, em balde, de sustar a decadência
das virtudes antigas.
Liguei particularíssimo interesse a D. João de Meneses por
ser representante de Portugal, o Velho; isto é:d'aqueles nobres
da Escola dos Infantes (1), cuja actividade militar, começada
decénios antes do descobrimento do caminho marítimo para a
índia, se desenvolveu exclusivamente na Africa (2), em gue-
rras fronteiriças, e cuja actividade literária despontou no rei-
nado de D. Afonso V. A alcunha de Africano, dada tanto ao
rei como ao Capitão, quadraria a todos os corifeus d'aquele
tempo, e parece que, de facto, foi dado a mais de um (3).
[§ 157] Alguns leitores estarão dispostos a abater da minha
lista diversas citações, ou a diminuir o seu valor documental,
persuadidos de que as pessoas que d'elas se serviram, conhe-
ciam exclusivamente as próprias locuções rítmicas qua em-
pregavam, já então estereotipadas, sem terem ideia da sua
proveniência, e sem saberem realmente de cór os romances
de que fazem parte. A objecção pôde ser verdadeira. Pelo
menos, com relação a gente illetrada. Mas longe de invalidar
a tese da popularidade dos textos respectivos, realça-a ainda.
Quantas vezes havia de ser cantado p. ex. o romance do Cid
Por aquel postigo viejo, antes que escudeiros e vilões aplicas-
sem mecanicamente a qualificação de viejo e a oração relativa
(i) D. Enrique, o Navegador, faleceu em 1460.
(2) E na passageira guerra de sucessão em Castela.
(3) Ainda assim, T. Braga parece-me ir longe demais, afirmando, num passo do
seu Bernardim Ribeiro e o Bucolismo (1897), que Africano designava genericamen-
te no século xv o cavaleiro militante em Africa, talqual no século xix Brasileiro
designava o burguês que fizera fortuna no Brasil.
No Africano das Eglogas de Bernardim Ribeiro, ele quer reconhecer certo Diogo
de Melo e Silva (de nenhuma fama militar), somente porque ha d'ele umas Trovas
que escreveu vindo de Azamor e encontrando a sua dama casada (Canc. Ger. III
308), trovas ás quaes pertence, e das quaes saiu o Mote:
Casada sem piedade,
vosso amor me ha de matar.
Ele foi utilizado por Cristóvam Falcão numas Volta9 que andam confundidas coni
as da Bela mal maridada, e que assim mesmo tornam a aparecer na obra de Ca-
mões (nos Amphitriões).
290 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
que nunca fuera cerrado, a qualquer janelinha ou portinha, de
que tinham de falar! Muitas fórmulas foram tão repetidas que
positivamente alcançaram valor de proverbiaes: os preságios
do rei Rodrigo; as Maldições de Salaia; exclamações como
Guay Valência! Helo, helo por do viene! Afuera, afuera Rodri-
go! Vuelta, vuelta, los Franceses! A las armas, Moriscote! ex-
pressões como Suspirastes, Valdovinos; Vamonos dijo mi tio;
Ya cabalga Calainos; Apesar dei rey de Francia. E' mesmo pos-
sível que algumas preexistissem em forma de provérbio, como
Mensageiro es, amigo; Rey que não faze justiça (1); Mais vale
morrer com honra; Erros por amores (2); Antes envidia que
mancilla; Olhos que vos viram ir (3). Mas sempre que trajem á
castelhana, ou tenham a medida dos versos de romance, acho
lícito perfilhá-los entre as citações.
Com respeito a alguns modos de dizer, vagos e pouco ca-
racterísticos, mas aplicados muito a oiiude como longas tie-
rras van morar— los brazos traigo cansados — bravo va por la
batalla, pode ser que não provenham precisamente dos textos
que apontei. O mesmo vale de indicações de localidades, co-
mo pola veiga de Granada — pelos campos do Mondego. Que os
abatam á vontade das minhas listas. O que resta de vestígios
inconfundíveis autentica suficientemente a tese da familiari-
dade secular de Portugal com o Romanceiro hispânico.
Claro está que, pelo outro lado, não imagino haver coli-
gido tudo quanto subsiste (4). Claro também, que mesmo a
totalidade das citações existentes, se a conhecêssemos, não
representaria, nem de longe, a totalidade dos romances real-
mente conhecidos em Portugal, o (5) Velho.
(1) Na Demanda do Graal encontrei ha pouco: Rei que mente nom deve trazer
coroa (Cap. 119); diluído em Mas ningun rey que dize mentira no deve sei rey ni
devia traer corona na versão castelhana (cap. 98).
(2) Tirso de Molina empregou o ditado dos Erros na Comedia famosa Como
han de ser los amigos (Nueva Biblioteca de Autores Espanoles, Vol. 8, p. 26) e o
da polvareda e de D. Beltrane, na Fingida Arcádia (ib. p. 453).
(3) Mais abaixo adito mais uma nota importante ás que já reuni.
(4) Deixei com certeza bastante que respigar, especialmente em obras, em
parte inéditas, relativas ao Ultramar, em tratados sacros, e em Autos raros, que
não pude compulsar (de Fernão Mendes, Francisco Vaz, Afonso Alvarez e outros).
(5) Mesmo em Quinhentistas notáveis passei por alto algumas coisas que me
ROMANCES VELHOS 291
[§ I58] Digo: familiaridade secular. Mais exacto seria di-
zer: além de tetra-secular. Importa ver mais de perto, de
quando ela data. Dos autores que tive de citar, uns doze flo-
resceram no último quartel do século XV. O maior número,
no imediato. Diversos, nos primeiros decénios do XVII. Os
limites do tempo, de que tratei, sao 1483 e 1663. Escolhi a data
1483, que naturalmente nao é efectiva, por ser o ano em que
foram compostas, segundo entendo, as mais antigas poesias,
contendo citações que sei datar: as trovas de Nuno Pereira e
Jorge da Silveira, instauradores do Processo do Cuidar e do
Suspirar, relativas á Bela mal maridada (1). O ano 1663 é o
da morte d' aquela Soror Micaela, de sangue real, que expi-
rando citou, segundo pia lenda conventual, uma transposição
ao divino do romance de Gaiferos. Conta redonda, melhor
será pormos como data inicial 1450 e como terminal 1640.
Os romancistas que nomeei, pertencem portanto a três
períodos diversos da literatura pátria: o medieval, classifica-
do em regra de hespanhol; o ítalo-clássico, áureo, ou do Re-
nascimento; e o do Barock-Styl dos Conceitistas, Gongoristas
e Académicos, ou seja da união filipina (2).
Ao medieval pertencem os seguintes moradores da corte,
que biografei no3 parágrafos 132-144, e cujas obras princi-
paes andam no Cancioneiro Geral:
1). João Manuel (t 1499) § 130-132.
D. João de Meneses (f 1514) § 131 e 132.
Nuno Pereira (fl. 1483) § 133.
pareciam supérfluas. P. ex. uma Glosa em que Diogo Bernardez parafraseou vó ro-
mance artístico
Sangrientns las hebras d' oro se sale de la ia ta lia
la hermosa Bradamante, aunt/ue herida, ven°ada . )
(Rimas Varias, p. 202).
(i) Repito que o processo é de 1483. Nesse ano D. Leonor já era casada. Em
1482 Nuno Pereira dirigira a Anrique d'Almeida uns versos, de que tratarei mais
abaixo.
(2) Em geral é costume considerar este como segunda metade ou desfecho do
4ureo. Mas aqui convém separá-los.
202 CAROLINA MICHAÊLI8 DE VA8C0NCELL0S
Jorge da Silveira (fl. 1483) § 134.
Duarte de Brito (fl. 1490) § 186.
João da Silveira (fl. 1494) § 136.
D. João de Sousa (fl. 1494) § 138.
Ruy de Sousa (f 1498) § 138.
Pedro Homem (fl. 1490) § 139.
Fernão da Silveira (f 1489) § 140.
D. Pedro de Almeida (c. 1500) § 141.
D. João Rodríguez de Sa e Meneses (n. 1464) § 142.
Todos eles são fidalgos de clara estirpe; na sua posição em-
baixadores, camareiro3-móres, estribeiros-mórcs, guarda-
móres; em geral de notável cultura literária. Apenas Gregó-
rio Afonso (§ 144), criado do Bispo de Évora D. Afonso de
Portugal (1), era de baixa esfera.
Transitam para o período seguinte como innovadores,
além, do prócere que citei em último lugar, a quem Febo deu
linguagem vergiliana, o benemérito coleccionador do Cancio-
neiro (§ 143); o fundador do teatro nacional (§ 147), e os seus
numerosos discípulos: Jorge Pinto, Henrique López, Jerónimo
Ribeiro, António Ribeiro, (o Chiado) (2), António Prestes, Gil
Vicente d' Almeida, assim como os anónimos autores cómicos
do Auto de D. Guiomar de Porto; Auto do Juizo; Auto do Du-
que de Florença.
Coevos d'eles são (além de Sá de Miranda), os dois prera-
faelitas Bernardim Ribeiro e Cristóvam Falcão (§ 147 e 148)
(3). Com suas primícias entraram no Cancioneiro (4), e pouco
(i) Esse magnate figura nos Embrechados do Conde de Sabugosa (1908), num
belo estudo sobre a Sempre-Noiva.
(2) Já deixei dito que nas suas obras miúdas se manifesta imitador ou conti-
nuador de Gregório Alfonso.
(3) Agora (junho de 1908) promete-se para Outubro um volume, em que o jo-
vem escritor Delfim de Brito Guimarães pretende provar que Cristóvam Falcão
nio foi poeta e que as Trovas de Oisfal e a Carta do mesmo, com todas as poe-
sias menores que lhe tem sido atribuídas, são de Bernardim Ribeiro. Por ora
não-convertida, continuarei a diferençá-los.
■P. S. — Em diversos acrescentos já disse que a obra apareceu em Dezembro e
que d'ela me ocuparia alhures.
^4) Canc. Ger. III 389 e 539-544. O nome Cristóvam Falcão não ocorre na
ROMANCES VELHOS 293
depois (entre 1520 e 1530) creio que o mais velho iniciou
o bucolismo português com as suas Eglogas, tao ingenuamente
belas. Com a novela meio-pastoril, meio-cavalheiresca da Me-
nina e Moça, o mesmo abriu senda nova também aos cultores
da prosa artística.
D'eles se distancia pelas suas aptidões jogralescas, seme-
lhantes ás de Gregório Afonso, Baltasar Biaz, quasi o único
sucessor português, nominalmente conhecido, d'aqueles cegos
jograes que cantam velhas façanhas (1). Agora que devo apon-
tar mais uma vez a sua glosa do Conde Alarcos, as suas na-
cionalizações do Marquês de Mántua, da Emperatriz Porcina,
e quem sabe se de mais alguns contos de assunto internacio-
nal, do fundo mistcioso da poesia popular, que abreviados
perduram na tradição de hoje (2), acrescentarei a circuns-
tância que exactamente na Ilha da Madeira, pátria de Balta-
sar, subsistem muitos contos, casos, e histórias infantis era
verso de romance (3).
Ao seu lado poderemos colocar António Lopez, de Tranco-
so, glosador de En el mes era de Abril, e Diogo Garcia, de Bra-
gança, ao qual num Pliego Suelto se atribuem as Maldições de
Salaia (4).
Comquanto também se estreasse nos serões manuelinos, e
continuasse a favorecer o metro antigo, o douto filósofo Sá de
obra. Supus comtudo que entre os versos de Ribeiro e os de Sá de Miranda
(II 316-325) andassem alguns. Autorizava a hipótese o facto que na edição de Fe-
rrara (1554) e na de Colónia (1 559) surgem entre as poesias que se seguem á
Caria diversas trovas que no Cancioneiro sao atribuídas a Ribeiro e a Mi-
randa.
(1) No reino vizinho houve bastantes; aliás de pouca nota. Lembro-me de:
Alonso Bezerro, privado dei sentido visivo, vezino de la villa de Aguilar {Pliego
suelto de 1 594^; Cristobal Bravo, ciego de la vista corporal, natural de la ciudad
de Córdova (PI. S. de 1572); Francisco Godoy id., natural de la villa de Motril y
residente en Sevilla (1594); Gaspar de la Cintera, id., vecino ora de Granada, mas
natural de Ubeda (1566, 1572, 1582); Gines de Sandoval id., de Múrcia (1588).
(2) Já sabem que penso na Bela Infanta e na Silvaninha.
(3) Vid. Álvaro Rodrigues de Azevedo, Romanceiro do Archipelago da Ma-
deira (18).
(4) Vid. Duran, Catalogo No 61 e 126; Gallardo, Ensayo III 2292. A bem di-
zer, nenhuma das composições atribuídas ao liragantino, é romance.
294 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
Miranda, embora, mais \ elho do que 03 dois poetas bucol i cos (1),
partence virtualmente á era do Renascimento, náo só como
reformador da arte lírica, mas também como introdutor da
comédia togata em prosa (2). Se no campo dramático foi se-
cundado apenas por Jorge Ferreira de Vasconcellos, e indi-
rectamente por António Ferreira, numerosos adeptos agrupa-
ram-se em volta do renovador do estilo lírico, seguindo, feliz-
mente, o seu exemplo também no judicioso processo de nao
abandonar por completo as antigas medidas peninsulares da
Escola Velha.
Entre os Mirandistas tive de nomear como conhecedores
de romances (fora o tantas vezes citado Ferreira de Vascon-
cellos) a Jorge de Montemor, Gregório Silvestre, Pedro de An-
drade Caminha, Diogo Bernardez, Frei Agostinho da Cruz.
Sobranceiro a todos se ergue o maior vulto da literatura
portuguesa: Luis de Camões, que na sua admirável memória
levava para a Africa, a índia, a China, um manancial caudo-
loso de reminiscências poéticas, tanto cultas, como populares,
hauridas umas em livros e manuscritos, outras colhidas nos
campos do Mondego e nas várzeas do Ribatejo, no convívio
com os músicos de Câmara da corte e com os estudantes da
Universidade. Reminiscências, de que se servia oportunamen-
te, como já expliquei num parágrafo anterior: das cultas, em
obras de arte nobremente áulicas; das populares, apenas em
obras de pouca gravidade: Cartas em prosa e verso; Sátiras,
como os Disparates na índia; e Comédias.
Perto d'ele, estendendo a mão aos Seiscentistas, vimos
André Falcão de Resende que celebrou o vate vivo em terce-
tos; Fernão Rodriguez Soropita, primeiro editor das Rimas de
Camões; Miguel Leitão de Andrade, que honrou a sua sepultu-
ra e meteu diversos Sonetos d'ele na sua Miscelânea; Francis-
(1) Segundo documentos, publicados por Sousa Viterbo nos seus Estudos
sobre Sá de Miranda (Goimbra 1859), ele nasceu antes de 1490, talvez já
em 1485.
(2) De um caderno manuscrito com poesias de Sá de Miranda, recentemente
descoberto em Lisboa por Delfim de Brito Guimarães, consta que o autor escre-
veu (ou começou?) uma tragédia sobre o assunto clássico de Cleópatra.
ROMANCES VELHOS 295
co Rodriguez Lobo, um dos seus melhores imitadores, pelo
menos no género bucólico.
Os que vieram depois, muito mais hespanholizados, estáo
sob a influência do Barock-Styl. Simão Machado, Serrão de
Castro, D. Francisco Manuel de Melo, D. Francisco de Portu-
gal, ora imitam, em trovas ao modo peninsular, o estilo ho-
raciano de Sá de Miranda; ora se cingem aos trovadores
mais singelos da Escola Velha, como o conde do Vimioso,
Gregório Alonso, o Anónimo dos Porquês de Setúbal, doeu-1-
mentando de longe em longe a sua familiaridade com roman-
ces velhos, embora dessem a preferência ás raouriscadas do
seú tempo.
Os casos acontecidos na vida real, em que notas român-
ticas entraram como elemento decorativo de façanhas milita^-
res, e foram registados pelos historiadores (João de Barros,
Gaspar Corrêa, Diogo do Couto, Castanheda, Frei Bernardo da
Cruz, e o desconhecido coleccionador das Memórias e Anec-
dotas) (1), ocorreram parte na Africa (em Arzila, Azamor,
Alcáccr-Quebirj, parte na Ásia (em Goa, Salsete, Surrate,
Barcelor); mas também na Europa (depois da acção de
Toro.)
Só de relance mencionei o Cavaleiro de Oliveira, ultrapas-
sando os limites acima estabelecidos. A parte que este exce1-
lente observador da alma portuguesa teve porventura na co-
leccionaçao (antecipada) de romances populares, ainda está
insuficientemente definida (2). Adverti que a crítica estran-
geira talvez se engane ao considerar como mera fábula, in-
ventada por Almeida-Garett, a sua qualidade de assentador
de alguns romances. Mas para os problemas que nos ocupam,
o caso tem pouco peso.
[§ 159] Neste esboço cronológico está o principal elemento
novo da minha demonstração. Acerca da voga que o Roman-
ceiro peninsular teve em Portugal na época de Miranda e Ca-
(i) Nas Crónicas dos reis (de Fernão Lopez, Zurara, Pina, Góes, Osório, An-
drade, etc) não dei com citação alguma.
(2) Nilo reli ultimamente as suas Cartas e Memórias, com a mira em vestígios
de romances portugueses.
290 CAROLINA MICHAELIS DE VASCONCELLOS
raões, e na imediata, nunca lavraram dúvidas, apesar de nin-
gem se haver ocupado d'ela com interesse particular. Nem
tão pouco com respeito á colaboração, pouco brilhante embo-
ra, dos Portugueses nas espécies artísticas e eruditas, ou se-
mi-artísticas e semi-eruditas, de 1550 em diante.'
Quanto ao heróico período medieval e ás varonis e singe-
las produções épicas e épico-líricas, tratadas de velhas no rei-
nado dos Reis Católicos, ninguém, pelo contrário, reconhecera
até agora os seus apagados vestígios na literatura nacional.
Tão ocultas e pouco numerosas são as alusões, no Cancioneiro
Geral (1), quasi único monumento poético que d'ele subsiste.
Tão pouco dão na vista as isoladas contribuições de Portugal
á literatura dos Pliegos Sueltos (2) e aos Cancioneros e Roman-
ceros escritos de 1500 a 1550, mas impressos só de 1550 em
diante, ou tirados á luz apenas no nosso tempo, de manuscri-
tos e edições raríssimas (3). Tão vagarosamente chegamos so-
bretudo a encarar com alguma lucidez os problemas suscita-
dos pelas diversas nacionalidades e línguas da península, e a
sua mútua acção.
O cabeça do moderno movimento literário em Portugal
afirmou sempre que na compilação de Resende, não havia
vestígio sequer de romance algum, nem tão pouco dos gracio-
sos cantares de amigo, cantos de romaria e serranilhas da pri-
meira época lírica (4); nem mesmo vestígio da forma e do es-
(i) Como as citações não fossem realçadas tipograficamente na edição de
1516 — (na reimpressão de Kaussler elas destacam-se apenas nas glosas, clara-
mente designadas como taes nas respectivas epigrafes) — só as pôde descobrir
quem tem a abnegação de ler e reler esses poemas didácticos, essas trovas, ás
vezes tão enssosas, essas burlas ás vezes tão grosseiras do florilégio de Resen-
de, tendo bem fixado na memória o estilo e os assuntos dos cantares épico-
líricos.
(2) Aos poucos que mencionei, já posso juntar actualmente mais um exemplo.
Numa folha volante, conservada na Biblioteca de Praga (No LXI) ha uma Canción
de un çalan português. - F. Wolf afirma (p. 13c 1 26) ser obra portuguesa de Lope
Ortiz de Zúfriga. Não verifiquei a asserção que, pelo nome tão castelhano, parece
inexacta.
(3) Em quasi todos os Cancioneros castelhanos ha contribuições de Portu-
gueses.
(4) Na Floresta (p. XI), T. Braga dizia (em 1867) que poeta algum da corte de
DOMANCES VELHOS 267
pírito ingenuamente popular de ambos. D'essas afirmações,
não-contestadas, Menéndez y Pelayo inferiu logicamente, a
absoluta nulidade da colaboração dos Portugueses antigos nos
cantares de gesta e nos romances velhos, e a completa ausên-
cia de talento e sentimento épico e histórico d' esta nação,
vindicando toda a gloriosa actividade para Castela.
Assim o registei na Introdução. Em seguida fui desentra-
nhando no meu estudo, alusões a cinco ou seis romances vel-
hos (1) de nove ou dez trovas diversas do Cancioneiro (2),
compostas por sete moradores da corte. Apontei uma refe-
rência a romances indeterminados, cantados na corte de D.
João II por mancebos namorados. Chamei a atenção para um
romance composto por D. João Manuel antes de 1499 (3), e
para outro de D. João de Meneses, anterior a 1514 (4). Falei
da glosa de Durandarte, do mesmo. E só negativamente, da
de Belerma (1536), erroneamente atribuída a Bernardim Ri-
D. João II e D. Manuel (exceptuando o colector do Cancioneiro) nem sequer so-
nhava com a existência de romances. E desde então repetiu mais de uma vez a
mesma afirmação.
(i) Vejam os Números 2, 4, 25, 67, 71 96, e os respectivos Suplementos. No
Índice procurem os nomes-próprios. Para comodidade do leitor torno todavia a
lembrar lhe que se trata dos seguintes versos:
Mensajeio eres amigo, do romance Buen Conde Fernan González, citado por
João Rodríguez de Sá e Meneses (C. G. III 302.)
.SY el caballo bien corria, la yegua tnejor volaba, do romance; Ilelo, helo por do
viene, parodiado por Pedro d' Almeida (C. G. II 428.)
O/os que nos vieran ir, do romance Oh Belerma, aproveitado por Duarte de
Brito (C. G. I 366), Pedro Homem (I 469), Garcia de Resende (III 634) e mais
tarde por Cristóvam Falcão e Ferreira de Vasconcellos.
Qus los yerros por amores dignos son de perdonare, do romance do Conde
Claros, citado por João Rodríguez de Sá e Meneses (C. G. II 423.) e D. João de
Meneses (I 156).
La bella mal maridada, citada por Nuno Pereira (I 250), Jorge da Silveira
(I 255), Garcia de Resande (III 570) e posteriormente por Gil Vicente e muitos
outros.
(2) Dez, se quiserem aceitar como prova documental a cantiga em que
D. João de Meneses se refere vagamente aos erros por amores {Cancioneiro
Ger. I 126).
(3) Gritando va el caballero.
(4) Venid, venid, amadores.
20
298 CAROLINA MICHAPlIS DE VASCONCELLOS
beiro. Aludi aos rimances de casos acontecidos, familiares a
João de Barros (antes de 1539), e á importância d'esse vocá-
bulo popular, não desdenhado de resto (como esqueci de re-
lembrar) pelo sábio introdutor do gosto clássico (1). De passa-
gem tratei dos1 géneros vulgares em versos pareados (consoan-
tes ou dissoantes),ou em quadras antigas [xamã) y que é costume
incluir nos Romanceiros e que, de facto, irmanam com os
verdadeiros romances (2). Dei amostras de romances épico-
líricos, vasado3 nas mesmas formas, os quaes atribui a Ber-
nardim Ribeiro, e que provém seguramente, quando nao d'ele
próprio, pelo menos de imitadores coevos (3).
Com esses testemunhos da existência de uma arte popular,
intermédia entre a francamente lírica e a narrativa, dei for-
ça maior aos três indícios de romances portugueses, anterior-
mente conhecidos, mercê de Garcia de Resende: o Rimance e
a Glosa de Tiempo bueno; as Trovas de D. Inês, os rimances de
emper adores, reis e pessoas de memória, a que o colecciona-
dor aludira.
[§ 160] Tudo isso é pouquíssimo. Quasi nada, comparado
com a riqueza espantosa de exemplos e de informações que a
literatura castelhana possue em Cancioneros, Eomanceros,
Pliegos Sueltos, e de reflexos contidos em comédias e novelas
do século xvn (4). Todavia nâo devemos ser injustos. Para
explicar a desproporção, digam-me, se ela não se dá em quasi
(i) Na Fábula de Mondego, escrita provavelmente depois de Gil Vicente ha-
ver em 1527, fantasiado sobre a Devisa da Cidade de Coimbra, Sá de Miranda
serviu-se do vocábulo rimance (na ortografia, a seu ver etimológica, rhitmance),
mas em sentido lato. Vid. Poesias, N.° n i, verso 429. No Ms. P temos rimances
divinos (sacros); na ed. A rhitmãnces; na ed. B romances.
(2) Cortei o capítulo relativo aos Nuncas, Porquês, Arrenegos, Avisos e ás Mal-
dições, Regras, Sentenças, por ter saido extenso demais. Talvez o publique na Re-
vista Lusitana ou na Revue Hispanique.
(3) O cantar-romance, á maneira de Solao: Pensando-vos estou, filha, interca-
lado no Cap. 21 da Parte I, é seguramente do poeta. — O romance de Avalor mal
poderá ser abjudicado ao poeta da Menina e Moça. O romance Ao longo de uma
ribeira, impresso en 1 645, nem por isso pôde ser obra tão tardia. Os pareados dis-
sonantes, hoje desconhecidos aos literatos de cá, a ponto tal que os imprimem em
quadras, eram igualmente estranhos aos autores do século XVII.
(4) Quem não conhecer suficientemente e sas Fontes, recorra á Antologia de
ROMANCES VELHOS 2QQ
todos os ramos da literatura, com excepção do lírico e da his-
toriografia, em que Portugal sempre sobresaiu? Digam, se ela
náo é consequência fatal da pequenece do país, e do número
restrito dos seus habitantes? e se, apesar d'isso, alguém se
lembrou de amesquinhar ou negar por completo as importan-
tes contribuições de Portugal a todos os ramos da literatura
peninsular? Digam, se é de estranhar que numa miseelánea,
essencialmente palaciana, compilada e dada a imprimir por
um cortesão português, no princípio do Renascimento, faltem
cantares jogralescos e populares? Digam, se quanto ao lirismo
a efectiva penúria de elementos populares nesse Cancioneiro
Geral (1) que é «nobreza e galantaria do bom Portugal, o vel-
ho» (2), nao é desmentida e compensada amplamente pelas
perfumadas flores agrestes, com que a musa portuguesíssiraa
de Gil Vicente soube engalanar os seus Autos, de 1502 a 1536,
quer alheias, quer propiamente d'ele? e também pela multi
d ao de let rilhas velhas, cantares de moças (em dísticos, tila-
das, quadras) entoadas nas ruas em coro, ao som do rústico
pandeiro — antigualhas que se conservaram }or haverem ser-
vido de Motes e de centões aos poetas dos séculos xvi e xvn, e
vivem (em parte muito reduzida) na tradição (3).
Digam, S3 tenho razão em considerar os poucos versos tra-
dicionaes de romances, infiltrados em composições palacia-
nas, como eco tenuíssimo de vozes incomparavelmente mais
fortes, outr'ora? tâo fortes que, sem interrupção de continuida-
de perduram em todas as províncias do reino, nas 1 lhas oceâ-
nicas, e no Brasil.
Pela minha parte, ligo importância ao pouco que revelei,
Menendez y Pelayo (Vol. IX); ao Catálogo (incompleto) de Duran, e á Sammlung
de F. Wolf.
(i) Ainda assim, a penúria não é absoluta. Além das diversas trovas em pa-
reados, ha no Cancioneiro um canto de romaria, dirigido a Santiago, e que fazia
parte de um Momo ou Entremh (Vol. III 395). Obra de um palaciano, pertence
pela forma (tríadas com refram) ao período arcaico da literatura, do qual ha
outros restos importantes no Cancioneiro Musical.
(2) A menção honrosa é de André Falcão de Resende. Vid. Poesias p. 470
Ao Marquez de Villa-Real, mandando-lhe o Cancioneiro Portuguez.
(3) Trabalho de ha muito na reconstituição d' esse Cancioneiro.
àOÓ ÚAROLINA MlCHAhlS DE VASCONCELLÒB
e espero que o leitor esteja de acordo comigo. Julgo-o sufi-
ciente para abalar a tese principal do T. Braga e para modi-
ficar as ilações de Menéndez Pelayo. E opino que, mesmo se
a afirmação do catedrático português fosse verídica, o que
nâo é, devíamos restringir a conclusão do madrileno.
[§ 168] Do talento épico da nação dos Lusíadas logo direi
duas palavras, e também da sua eventual colaboração nos
Romanceiros. Praticamente demonstrei a sua familiaridade na
idade-média com romances velhos. Teoricamente, ela é pro-
vável, por três motivos: 1.°) O segundo período da poesia por-
tuguesa é exactamente o da maior eflorescência do género.
2.°) Este período é essencialmente hespanhol. 3.°) Nele come-
çou ou avultou na Corte, o emprego promíscuo das duas lín-
guas, com enorme prestígio da castelhana, mesmo no campo
lírico — emprego que até então fora usual apenas emHespanha,
além das fronteiras, no campo lírico, segundo a opinião ge-
ral, e minha própria (1).
As relações políticas e pessoaes de Portugal e Hespanha,
íntimas no período galego-português, comquanto de modo al-
gum sempre pacíficas, haviam continuado assim, no último
quartel do século xive no xv.Em artes e letras, não havia fron-
teiras entre os dois reinos. Na política sonhava-se, desde a
união de Castela e Aragão, numa monarquia universal, basea-
da na união ibérica, sob o sceptro de um príncipe nascido das
duas dinastias, com a capital na bacia do Tejo, mas como idio-
ma castelhano como língua oficial. Casamentos entre asfamílias
reinantes tendiam a esse fim. Alianças entre nobres de cá e de
lá apertavam cada vez mais os laços já existentes. As guerras
de sucessão, a que finalmente conduziu a tendência unitária,
redundaram em expatriações, repatriações, embaixadas, via-
gens e nas terçarias. Depois veio o desterro dos parentes e
partidários dos Duques de Viseu e de Bragança (1483-95); as
festas de Évora pelo casamento do Príncipe D. Afonso com a
filha dos Reis Católicos (1490); a sua morte prematura (1491);
a ida de D. Manuel a Çaragoça (1497), afim de fazer procla-
mar sucessor o primogénito da mesma princesa, com a qual
(i) Vid. Cancioneiro da Ajuda, vol. II, p. 25, 614, 685, 689, 734, 755.
ROMANCES VELHOS 301
casara. Todos esses, e muitos outros acontecimentos notórios
tiveram repercussão nas duas literaturas (1). Em geral, o eco
é simpático, o que nao inhibe que Portugueses e Castelhanos
se crivassem ocasionalmente de frechas satíricas, quer rindo,
quer a sério.
O emprego frequente do idioma castelhano em Portugal
(vid. § 173), em todos os géneros, explica-se todavia, mais do
que pelos planos de união e recíprocos interesses, pelos pro-
gressos notáveis que no centro e nas regiões orientaes, em
contacto directo com a Itália e os seus grandes poetas e hu-
manistas, as letras e as artes haviam feito em Hespanha, de
1385 em diante, emquanto Portugal, depois do longo esforço
galego-português, se recolhia, preparando-se para as conquis-
tas africanas, iniciadas em 1415, e para as empresas oceâ-
nicas.
A parte que os Portugueses tomaram, nos decénios de tran-
sição, em que a lírica se transformou em galego-castelhana(2),
foi diminuta; quasi de mudez. Só de 1430 em diante, as re-
lações literárias começam a ser notórias. Os reinantes de cá
e os vultos principaes do Parnaso castelhano deram o exem-
plo. D. Duarte encomendava traduções de textos latinos a
Afonso de Cartagena. Mossên Diego de Valera dedicava obras
a Alfonso V. O Regente trocava versos com Juan de Mena (3),
e correspondia-se com o Marquês de Santilhana, a favor de
seu filho, o Condestável, o do Proétnio, No desterro, em 1449,
este começou a ensaiar-se no idioma estrangeiro (4), era-
(O No texto me referi a diversas composições, relativas á estada do Duque
D. Diogo e a embaixadas. Aqui chamo a atenção para uns versos de Gomez Man-
rique, alusivos aos Duques portugueses, em especial ao de Viseu. Vid. Cancionero
de Gomez Manriqiie, vol. I, 683.
(2) Vid. Henry R. Lang, Cancioneiro Gallego-Castelhano (New- York, 1902), e o
compte-rendu que dediquei á obra em Zeitschrift, XXVIII, p. 200 a 230.
(3) Canc. der., II, 70. O Regente escrevia portuguôs. A Resposta de Joain de
Mena é castelhana. A Réplica do Regente, portuguesa.
(4) Tratei do assunto na minha impressão da Tragedia (em Homenaje a Me-
nendez y 1'elayo, I, 637-732) e mais extensamente no Jahresbericht, I, p. 582-597.
Mais abaixo emitirei todavia a opinião nova que o Condestável talvez fosse prece-
dido um século pelo autor desconhecido do Poema de Alfonso XI.
302 CAROLINA MICHAtLIS DE VASCONCELLOS
quanto outros se esforçavam por nacionalizar as obrai Me San-
tilhana, e o Libro de Buen Amor do Arcipreste de Fita I .
Com o Poema do Menosprezo do Mundo (2), o Condestável é
(depois do Infante, do seu correspondente, e de Álvaro Barrei
o autor mais velho que figura no Cancioneiro Geral, seguido
de perto de Álvaro de Brito, que trocava versos com Gomez
Manrique (3).
Pois bem, a esses eruditos precursores do Renascimento
desagradavam naturalmente as singelas cantigas e as ingé-
nuas composições narrativas (histórias e contos metrificados)
qje o vulgo amava. Creio comtudo que não as desconheciam,
comquanto só possa demonstrar que o Regente fala na Vir-
tuosa Bemfeitoria (inédita) dajograes na praça e que el Rei
D. Duarte, falecido em 1438, se refere no seu A B C da Leal-
dade a Cantos segraes do povo (4). Ambos com desprezo igual
àquele com que o Marquês menciona os cantares-romances.
Quanto ao Condestável, partidário convicto das ideias do mes-
mo prócere, e do seu entusiasmo pelo grande aparato de eru-
dição clássica, ha, nos Comentários em prosa dos seus três
poemas filosóficos, alusões a casos históricos do seu tempo,
cantados em romances (como, p, ex., a tragédia de Álvaro de
Lima), mas também a figuras vetustas do épos nacional como
o Cid, el rei D. Sancho, o traidor Vellido Dolfos. É porém
mais provável que ele se inspirasse, quanto a coevos, nos
próprios sucessos, e quanto a personagens antigos, nas prosifi-
( i ) Vid. T. Braga, Questões, p. 1 28 e 1 39.
(2) E sabido que anteriormente fora impresso em edição avulsa, dedicada ao
Arcebispo de Çaragoça, filho dei Rei D. Fernando. Notei com satisfação que Ja-
mes Fizmaurice Kelly faz justiça ao Condestável, e que o seu tradutor castelhano
confessa que na literatura medieval de Hespanha ha poucos documentos tão no-
bres, eloquentes e comovedores como a Tragedia (Bonilla, p. 149).
(3) Gomez Manrique respondeu em português á pregunta do seu correspon-
dente. Vid. Canc, II, 90-93.
(4) Leal Conselheiro, cap. 70. Dos pecados da boca. Na edição de 1843 lê-se
sagraes; mas pelo texto conhece-se que se trata de cantos profanos, considerados
deshonestos nos ofícios divinos. Segral, de seglar, seculare, de seculum, na acepção
de mundo. Mundanal portanto. No cap. 71 el rei considera pecaminoso entre mui-
tas outras cousas scuitar o mal e dar aos jograts.
ROMANCES VELHOS 303
cações da Crónica General (1), e não nos romances tradicio-
nacs da gente de baixa e servil condição.
[169] O Cancioneiro Cerai, que abrange a colheita (2) dos
reinados de D. Afonso V (incluindo a regência de D. Pedro
de 1438 a 49), D. João II (1477-1495) e D. Manuel (até
1516) (3), é a tal ponto hespanhol que passa por ser mero su-
plemento, ou seja Segunda Parte do General, publicado qua-
tro anos antes, por Fernando dei Castillo (4). Igual exterior-
mente, no formato e no tipo, irmana com ele quanto ao
conteúdo. Todo ele consta de paralelos dos géneros então cul-
tivados em Castela. Cá como lá temos poemetos com reminis-
cências dantescas: Visões, Sonhos, Infernos de amor, Sepulcros,
Testamentos em que falam os mortos. Cá como lá ha pleitos
burlescos, libelos difamatórios, preguntas e respostas enigmá-
ticas, á laia das que haviam estado em moda no tempo de
Enrique IV e D. Juan II (5). Cá como lá se encontram poemas
filosóficos e históricos, em oitavas de arte maior (6). Compo-
sições alegórico-amatórias em coplas de pé quebrado, como
as de Jorge Manrique (7). Também nos versos em estilo popu-
lar ha correspondência, com a diferença que em Castela esses
se divulgavam em regra em Pliegos Sueltos, de cuja existência
(i) Relembro que a compilação da Crónica General, que se conserva em Paris
(No 4), foi propriedade do Condestável.
(2) De vulto entre os textos que ficaram de fora, são apenas a Sátira e a 7'ra-
gi-dia do Condestável, ambas de letra castelhana, mas de espírito, portuguesas.
(3) É costume circumscrever o período com as datas 1449 e 1516 (ano da pu-
blicação do Cancioneiro), ou 1521 (ano do falecimento de D. Manuel). Também
assim fiz. Os versos trocados entre o Regente e D. João de Mena, e os de Álvaro
Barreto, são, porém, anteriores á batalha de Alfarrobeira, em que D. Pedro su-
cumbiu. A ela se refere todavia o mais antigo poema histórico da colecção.
(4) Vid. Garcia Pérez, Catálogo, p. 93; C. M. de Vasconcellos, Jahresbericht, I,
583-97; Menéndez y Pelayo, Antologia, VII, p. CL a CLXIII.
(5) Vid. Cancionero de Baena.
(6) Apenas os Sonetos do Marquês de Santilhana (que, de resto, não entraram
nos Cancioneiros Geraes) não vingaram, por serem prematuros, antes da aceita-
ção do hendecassílabo.
(7) A obra-prima da poesia castelhana d'aquele tempo, Recuerde, el alma dor-
mida! foi muito admirada e imitada, mas nunca igualada em Portugal. Vid. Revue
Ihspanique (vol. VI) e T. Braga, Camões, Época, Vida e Obra (1905), p. 551.
304 CAROLINA UlCHAtLIS DE VASOONCELLOS
indubitável, nâo temos em Portugal senão provas tardias e
muitos raras (1).
Quanto a romances, ao único, artístico, qu«- no Geral sur-
ge com sua glosa, respondem no General três a quatro dú-
zias (2), e mais, se metermos em contribuição os outros Can
cioneiros que o completam (3). Ainda assim, mal se pode ima-
ginar que exactamente o género mais popular e nacional, <■
mais profundamente arraigado no solo hespanhol, deixasse de
se expandir e de fructiflcar em Portugal.
Como aqui exagerassem muita vez, por razões óbvias, as
qualidades características do génio peninsular (4), é possível
que Garcia de Resende, mais absolutista do que Fernando de
Castillo, os excluísse propositadamente do seu florilégio pala-
ciano (5). A prova de que ele e os coevos os conheceram está
dada. Note-se ainda que entre os corifeos mais citados e imi-
tados no Cancioneiro, e posteriormente, por todos os represen-
(i) Dos primeiros três decénios do século xvi não subsiste nenhuma, a não se
aceitarem como taes os Repertórios e as Cartinhas . Nem sei, qual fosse o impressor
que as podesse ter lançado com os materiaes tipográficos que possuía. A mais an-
tiga, com a Egloça Silvestre e Amador de Bernardim Ribeiro, tem na gravura a data
1536. Ainda não apurei, se saiu das oficinas de German Galharde ou das de Luis
Rodríguez, ou se veio de Hespanha, onde imprimiram o Romance de D. Duardos,
Autos de Gil Vicente, etc. O a mesma gravura com a mesma data ver-se numa
tragedia de Eneas y Dido (castelhana) fala a favor da segunda hipótese.
(2) Vid. N.os 433-480. Além d'isso ha numerosas alusões no yuego trobado de
Pinar (N.° 875), e no Inferno de Garci-Sanchez (N.°274).
(3) No Cancionero Musical ha 38; no de Encina, muitos; no de Rennert entre
outros os três atribuídos a Padron; no de Estu&iga, dois artísticos, de Carvajales,
relativos á corte de Afonso V de Aragão (1448).
(4) Entre os estrangeiros que conhecem bem a península inteira e abrangem
de longe o quadro geral da sua cultura, uns afirmam que Portugal possue as qua-
lidades e os defeitos da alma hespanhola em ponto subido. Achando superior o
orgulho nobiliárquico dos Portugueses e maior a sua macropia, atribuem-lhes as
mais exageradas hespanholadas. Dizem que a inquisição, a censura, o jesuitismo,
o fanatismo, o beaterio, o gongorismo, e a maledicência tomaram aqui proporções
desmedidas. Outros acham, pelo contrário, que na fisionomia nacional as linhas ca-
racterísticas estão apagadas. Talvez porque os primeiros tenham em mente Portu-
gal o Velho, e os últimos pensem no de hoje?
(5) Custa todavia a crer que o compilador descartasse os romances dos dois
amigos. Talvez os conhecesse e requisitasse sem os obter, o que lhe aconteceu em
muitos casos (Vid. Vol. III, 632).
ROMANCES VELHOS 305
tantes da medida-velha (Mena, Santilhana, Estuiiiga, Gueva-
ra, Macias, Rodríguez dei Padron, Garci-Sanchcz), pelo mo-
nos os últimos dois são autores de romances, ou passam por
sê-lo.
Entre estes dois e Carvajales de um lado, isto é entre os
primeiros Castelhanos e Aragoneses conhecidos, a que se atri-
buem romances (artísticos, mas em estilo popular), e pelo
outro lado a falange já numerosa dos romancistas da corte
dos Reis Católicos, que figuram no Cancionero de 1511 com
glosas, continuações e contrafeições de romances velhos, e no
Cancionero Musical com melodias e letras novas sobre actua-
lidades históricas (1), é que eu colocaria a D. João Manuel*
D. João de Meneses, Garcia de Resende, e Bernardim Ribeiro.
[§ 170] Dito isto, estamos habilitados a fixar conjectural-
mente a data em que começaria a familiaridade dosPortugue-
ses com os romances. Se palacianos que haviam sido com-
panheiros de D. Afonso V na batalha de Toro, cantavam ro-
mances e os citavam na corte do sucessor, como coisa corren-
te, esses já deviam haver circulado durante algum tempo. O
termo inicial 1483 não pode ser verdadeiro, torno a repeti-lo.
Passariam a fronteira pouco depois de desabrochados no cen-
tro. Em todo o caso, antes de haverem atingido o seu apogeo
no reinado dos Reis Católicos. A mais tardar, no tempo de
Enrique IV (1454-74), esposo da Beltraneja; talvez já no de
D. Juan II (1406-54). Isto é: na silenciosa comquanto fecunda
época dos filhos de D. João I, em que o espírito nacional fo-
mentava as empresas aventureiras que constituem a missão
histórica de Portugal, e são assunto da sua epopeia privativa.
[§ 171] E as vias de transmissão? Não é apenas quanto á
cronologia, mas também quanto ao processo de importação
que teremos de abandonar as teses de T. Braga. É impossível
que os Cancioneros de Romances fossem os verdadeiros propa-
gadores do género, visto que não os houve senão de 1550 em
(i) De 1430 em diante: Albuquerque, N.° 321; i484,Setenil, N.°332; 14X5, Ron-
da, 331; 1486, Granada, 327; 1489, Baza, 331; 1492, Granada, 315; 1504,1). Isabel,
317.— Cfr., p. 11, Lealtad, lealtad, 1466, e o N1,** 69, 83, 95, 318, 322 a 335, 339,
343» 344-
300 CAROLINA MICHAÉLIS DE VASCONCELLOS
diante (1). Nem mesmo ao Cancionero General de 1511, com
as suas amostras parcas, indirectas e retocadas, se pode atri-
buir essa função. As primeiras fontes impressas, que propaga-
ram em Portugal romances velhos, foram Pliegos Sueltos gó-
ticos, numeros8Ísimos (como se vê pelos restos que perduram),
e de fácil divulgação, embora de pouca dura (2). O leitor
atento notou, sem dúvida, quantas vezes as lições, citadas em
Portugal, se aproximara das que constara em folhas volantes
sem data nem lugar (3).
Além d'eles, creio que cadernos manuscritos cursariam an-
tes e depois da invenção de Guttenberg, especialmente onde
se cultivava a música. A comunicação principal, mais viva e
eficaz e ainda hoje constantemente renovada, deve todavia
ter sido oral, porque o vulgo, ao qual se dirigiam os roman-
ces, não sabe lêr, e porque essa abrangia e abrange a letra e
o som. Sem a importante parte musical, dificilmente tantos
romances se teriam perpetuado durante séculos. Para os
que nos ocupam, devemos distinguir nessa comunicação de
boca em boca, duas correntes: a palaciana e a popular.
Da popular, que continua, de expansão vagarosa mas segura,
logo falarei nos parágrafos sobre o problema linguístico (4).
A palaciana, de corte a corte, teve por veículo mais impor-
tante, além dos viajantes nobres, músicos profissionaes, vin-
dos de Castela a Portugal e viceversa.
[§ 172] Intercalo aqui as notas soltas prometidas, relati-
(i) São as edições de Martim Núcio de Anvers (a 2.a, de 1550, a i.a, sem data,
mas pouco anterior) que T. Braga costuma alegar, com a posterior de 1583.
(2) Dos séculos xvii e xvm ha muitos, portugueses, de 1550 a 1600 poucos;
anteriores a 1550, são preciosidades raras. Os tardios são todavia, em grande
parte, reproduções textuaes do& velhos, gastos por completo.
(3) Vejam os N.os 6, 8, 9, 14, 15, 21, 26, 27, 37, 45, 57, 59, 63, etc.
(4) T. Braga separa, com rigor que 11 e parece inútil, romances impressos e ro
mances oraes. Por terem sido impressos de 1550 em diante em Cancioneros de Ro-
mances, ou anteriormente em Cancioneros e Pliegos Sueltos, não deixaram de co-
rrer de boca em boca. Verdade é que ás vezes ha nos tradicionaes mais vigor poé-
tico do que nos impressos. Mas em geral, eles são deteriorados. Onde ha tradicio-
naes que emparelhem, p. ex. com os XV publicados por Foulché-Delbosc? Demos
graças a aquelles que em Castela se lembraram de os imprimir. E lamentemos que
em Portugal ninguém procedesse assim!
ROMANCES VELHOS
vas á íntima comunhão o quasi unidade que noa séculos xv
c xvi houve nos dois reinos também quanto ás manifestações
musicaes da alma peninsular (1).
O gosto do povo português de 1500 pela música e pela dan-
ça é tão abundantemente atestado por Gil Vicente (2) que não
carecemos de outros testemunhos (3). A troca constante de
compositores e executantes entre as duas cortes, é facto
igualmente conhecido (4). Ha todavia materiaes râo apro-
veitados.
Dos princípios da época é, p. ex., uma carta portuguesa so-
bre assuntos da capela régia, de que possuo treslado (5). Di
rigida em 1434 pelo rei D. Duarte a D. Juan II de Castela (6),
contém queixas amargas do monarca português por seu pri-
mo, irmão e amigo, reter na sua corte um seu cantor e orga-
(i) Quanto á música dos romances velhos, não ha nada feito. Quanto á história
da música em geral, vid. Joaquim de Vasconcellos, Os Músicos Portugueses (Por-
to 1870); Ensaio sobre o Catálogo de D. João IV (ib. 1872); Catálogo de D, João IV
(1905); Sousa Viterbo, Artes e Artistas em Portugal, 1892 (cap. IX), e diversos
artigos soltos do mesmo em Revistas como Arte Musical, e Amphion. Na Organo-
grama Musical Antiga Espanola, de Felipe Pedrell, não ha senão raríssimas refe-
rências (Barcelona, 190) a Portugal, infelizmente.
(2) Entre dúzias de passagens relativas a cantigas e danças populares de en-
tão, a mais afamada é o Intróito do Triumpho do Inverno (II, 447):
Em Portugal vi eu já
em cada casa pandeiro
e gaita em cada palheiro...
a cada porta um terreiro,
cada aldeã dez folias,
cada casa atabaqueiro...
tambor em cada moinho.
(3) Nas Crónicas ha muitas indicações de valor.
(4) Basta lembrar, como exemplos dos que de Portugal foram ao reino vizi-
nho, a Jorge de Montemor e Gregório Silvestre.
(5) Conto puLlicá-la qualquer dia. O diccionarista Moraes conheceu-a, confor-
me se vê s. v. engalhar e engalhamento, vocábulos que traduz imperfeitamente com
enganar, seduzir.
(6) Escrita por Vicente Domingues, mas feita pelo próprio rei, se interpreto bem
a fórmula per sy do sobrescrito: Carta que fez El Key Nosso Senhor per sy pêra El
Rey de Castella.
308 CAROLINA MICHAÈLIS UE VASCONCELLOS
nista, Álvaro Fcrnandez de nome (1), adestrado cá e de tal
mestre (2), e também porque além d'isso ia angariando a furto
outros capelães régios, desorganizando-lhe assim a sua bem
montada capela.
De D. Manuel, D. João III e os Infantes seus irmãos, in-
culpados não sem motivo de um estrangeirismo ou antes cas-
telhanismo exagerado, sabe-se até que ponto favoreciam, jun-
tamente com a língua, a música castelhana (3). Entre os
mestres de capela, músicos de câmara, organistas, tangedo-
res, cantores e chocarreiros que floresceram na corte, em
parte vindos na comitiva das filhas e netas do3 Reis Católi-
cos (4), em parte chamados directamente, ha entre outros um
(i) Este Álvaro talvez seja de importância capital. Barbieri fala de um distinto
músico d 'esse nome (hespanhol, segundo ele), criado de D. Juan II, e logo orga-
nista da Real Capela, por alvará da Rainha Católica de 8 de Julho de 1480. Outros
citam um compositor Álvaro, que em 1472 dedicou a D. Afonso V de Portugal um
Oficio com a solfa de Cantochão, em acção de graças pela conquista de Arzila.
Oficio cujo autógrafo se conservava em 1759 (depois do terremoto) na Biblioteca
do Infante D. Pedro, como o curioso poderá verificar em Barbosa Machado
(IV, 10). A não haver valor especial no organista de D. Duarte, não havia motivo
para escrever a respeito d'ele uma Carta, guardada entre as suas obras.
Na sua Ilistoire de la Musique A. Soubies comete o singular anacronismo de
confundir o filho de D. João V com o vencido de Alfarrobeira.
(2) Quem seria? O próprio monarca? Não é provável.
(3) Além de letras portuguesas, castelhanas e latinas, cantavam na corte com-
posições italianas e francesas, em geral muito deturpadas nas impressões de Autos
e Cancioneiros. Uma francesa que subsiste nas Trovas centónicas de D. João
Manuel {Canc. Ger., II, 410), talvez a ouvissem pela primeira vez de René de Cha-
teaubriand, barão de Loigny, ou a alguém da sua enorme comitiva. Este Monsenhor
viera em 1493 á corte, oferecer a D. João II seu braço ás armas feito para as gue-
rras africanas, com o intuito de ahi conquistar para si um reino. Mas afinal levou
de cá um mero título in partibus infidelium: o de Conde de Guazava, ou cousa
que o valha. Digo isto porque os Cronistas registaram que trazia muito boa capela
de muitos e bons cantores, dos quaes diversos ficaram em Portugal. Vid. Resende,
cap. 169; Braamcamp, Brasões de Cintra, II, 411; Conde de Sabugosa, Embrecha-
dos (1908), p. 1 17.
(4) Claro está que, se as Rainhas de Portugal, vindas de Hespanha, traziam
de lá os seus músicos, as que de cá se iam não deixavam de levar cantores seus.
Exemplo: a princesa D. Maria, em cuja companhia foi Jorge de Montemor (1543).
Nas Provas ilustrativas da Historia Genealógica da Casa Real, pôde o curioso
respigar muita nota solta a respeito de músicos da capela e da câmara dos reinan-
ROMANCES VELHOS 30Q
Badajoz (l),um Sedano (2), diversos Baenas (3), um Salcedo (4),
um Escobar (5), enaltecidos nos Autos de Gil Vicente e louva-
dos alhures:
Musica vimos chegar
a mais alta perfeição,
Sanedo, Fontes, cantar,
I rancisquilho assi juntar
tanger, cantar, sem (?) razão.
Arriaga, que tanger!
o Cego!, que gram saber
nos órgãos! e o Vaena!
Badajoz! outros que a pena
deixa agora d 'escrever.
Assim declamava (na sua Miscelânea, Estr. 179), Garcia de
Resende, nada hóspede no assunto.
Provas de maior peso sao as cantigas conservadas no
tes. O tema dá margem a muitas investigações. Castelhanos, com os mesmos no-
mes de poetas e músicos da nação vezinha, surgem cá entre os músicos de câmara,
moços da câmara que aprendiam a cantar e a tanger (II, 792), moços músicos (II,
618), moços de capela (II, 374), etc.
Chamo a atenção para Lucas Fernandez, Castelhano; Pêro Bayahona, Miguel
de Sarzedo, que em 1 5 1 7 figuram entre os Moradores da Rainha D. Maria, e com ela
tinham vindo de Castela em 1499 (II, 374). António e Alfonso de Baena eram ser-
vidores do Infante D. Duarte (II, 615). Entre os músicos da câmara de D. João III
figuram: João de Badajoz, Gonzalo de Baena, António de Madrid, Nicolás de Es-
covar (VI, 622); entre os cantores André de Torres, Francisco de Madrid, Nico/ás
de Valdevieso e Sedano. E muitos d 'esses nomes figuram igualmente no Cancionero
Musicai: em parte como de autores de sons; em parte como de autores de letras.
(1) Vid. Sousa Viterbo, p. 194; Resende, na estrofe citada no texto; Gil Vi-
cente (II, 137), que o menciona como tangedor de viola e músico discreto. Frey
António de Portalegre escreveu um romance espiritual (em pareados dissonantes):
O ciudad de mi deseo, 7 ter ra que tienes mi gloria, do qual diz fora «apontado sin-
gularmente por Badajoz, músico da câmara dei Rey Nosso Senhor». Cotarelo,
nos seus notáveis Estúdios de Historia Literária, p. 45-47, não acredita na iden-
tidade do músico de câmara de D. João III e do poeta do Cancionero Musical e
Cancionero General.
(2) Vid. Sousa Viterbo, p. 194.
(3) Vid. Provas; Miscelânea', Sousa Viterbo, 1. C.j e Canc. Mus., p. 24 (Lope de
Baena.)
(4) Vid. Provas', Miscelânea; e Canc. Mus,, N.° 92 e p. 44 (Salcedo).
(5) Vid. Provas e Canc. Mus., p. 32. Com respeito a Lucas Fernandez e Ma-
drid, vid. Canc. Mus., p. 34 e 37.
8'0 CAROLINA MlCHAtLIS DE VASCONCLLLOS
Cancioneiro Musical (1). Numerosíssimas cTessas obras eram
familiares aos cortesãos portugueses. Ha dúzias de cantigas,
canciones, chançonetas, mas sobretudo de cantares velhos <■
vilancetes (preciosos documentos por constitui rem o nexo com
o primeiro período lírico, galego-português) que foram cita-
dos, cantarolados, glosados c imitados pelos versificadores da
corte, por Gil Vicente, Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda e
posteriormente por todos os Quinhentistas e Seiscentistas que
para o bel-canto preferiam a medida-velha (2).
Quanto a músicas de romances, elas são naturalmente me-
nos frequentes, porque em virtude da igualdade formal de to-
dos, e da igualdade espiritual de muitos, um mesmo som po-
dia servir para grande número de textos (3), o que também
acontece com as quadras soltas do fado. Ainda assim, entre
os trinta e oito espécimes, conservados no Cancioneiro Musi-
cal, descobri bastantes dos que figuram neste Ensaio (4). E
(i) Já disse que algumas tem letra portuguesa (Vid. N.° 50, 437, 458), e que
pelo menos uma, castelhana, é obra de D. João de Meneses.
(2) Como amostras sirvam as seguintes: Quien pone su aficion [Canc. Mus.,
No 167; Gil Vicente, I, 224); Nina erguedme los ojos (C. M., 59 e 60, G. V., II, 401 ),
Norabuena quedes, Menga (C. M., 369 e 370; G. V., I, 18); Nunca fuè pena tnayot
(C. M., 1; G. V., I, 284; II, 329 e 410); Tristeza quien a mi vos deo (C. M., 12, G. V.
II, 329.); Que harè yo sin ventura (C. M., p. 53; Canc. Ger., III, 598).J0 Mote da
cantiga Como dormirão meus olhos, que forma as estrofes 63-66 das Trovas de
Crisfal, é tradução do que diz Como dofmiran mis ojos pues vela mi corazon (C. M.,
253). Acrescentarei, por ser novidade, que Frey António de Portalegre é autor
de um Vilancete sacro:
Una donzella divina
su mismo padre pario
y cria quien la crio.
que se havia de cantar por o duo que compôs Torres da letra! Inimiga le soy ma-
dre (C. M., 4 e 5).
(3) Os romances que se dizem trovados, mudados, trocados, contra/eitos por
outros, cingiam-se ao tono dos modelos (a parte do tenor). Dos originaes literá-
rios, muitos nunca foram cantados, com certeza (p. ex., de Gil Vicente, III, 202,
348, 355)-
(4) N.° 69. Por May o era por Mayo.
97. Fonte frida.
1 58. La bella mal maridada.
315. Qu'es de ti desconsolado.
318. Caballeros de Alcalá.
ROMANCES VELHOS 311
esses mesmos tornam a aparecer, harmonizados de outro
modo, no Libro de Música de Víhuela de Milan (153G), dedica-
do a D. João III (1), e por igual em tratados publicados pos-
teriormente, como os de Valderrabano (1547), Pisador (1552),
Salinas (1577).
Milan escreveu, entre outras, músicas para os romances
de Durandarte, Valdevinos, Mis arreos. Valderrabano e Sa-
linas para o de Don Beltran; Pisador e Salinas para os de-
cantadíssimos textos do Conde Claros; Valderrabano para o
de Calainos o de Arábia, Salinas sobre o Conde Alar cos (Re-
traída está la Infanta).
A' procura de compositores portugueses que por ventura
concorressem também neste campo com os Castelhanos re-
conheci que carecemos de informações sobre os géneros, cul-
tivados por músicos ex-oficio como Fonte e Vilhacastim (2), e
pelos nobres amadores da corte. Apenas sabemos quaes os ins-
trumentos em que se distinguiam (3) alguns como D. João de
Meneses (órgão), Garcia de Resende (rabil), Sá de Miranda,
André de Resende, Damião de Góes, Pedro de Andrade Ca-
minha, Jorge de Montemor, Gregório Silvestre.
Mesmo a respeito de Gil Vicente, as indicações, contidas
nas suas Obras, sao insuficientes. De uma única cantiga lá se
diz expressamente que fôr a feita e enssoada pelo autor (4). É
N.° 323. Caballero, si á Francia is.
329. Pésanie de vos, el conde.
333. Tiempo es, el caballero.
343. Durandarte.
344. Los brazos traigo cansados.
(1) O tratado de Milan não é o único dedicado a D. João III, ou seus ir-
mãos, yuan Bermudo oferecera um ao rei em 1549; e Mateo de Aranda já havia
dirigido outro ao Infante-Cardeal D. Alfonso em 1533. Cfr. Sousa Viterbo, 178 ss.
(2) Sousa Viterbo notou que Fonte, louvado por Garcia de Resende, como
músico, também fora trovador {Canc. Cer., II, 270). — Ignoramos, se D. João de
Meneses, autor de Nunca cerraran mis ojos, escreveu também o som.
(3) De D. João Rodríguez de Sá e Meneses sei apenas que estudava solfa
com seu tio D. João de Meneses (Canc. Ger., II, 356).
(4) Obras, I, 61. Trata-se da linda cantiga Muy graciosa es la doncella, Fm
todo caso, nenhuma composição musical de Gil Vicente é hoje conhecida. No Ca-
talogo da Livraria de Musica de D. João IV, nem memo o nome do fundador do
teatro nacional ocorre.
312 CAROLINA MlCHAÈLIS DE VASCONCELLOS
quási certo todavia que, como Juan dei Encina, ele compunha
música para todas as suas criações originaes, líricas e épico-
líricas, cantadas nos seus Autos (1). Nesse caso, a música do
romance de D. Duardos se propagaria naturalmente junto
com a letra (2).
Para composições alheias de arte, o fundador do teatro
talvez se servisse da livraria de música dos reinantes, exac-
tamente como para a enscenação ele recorreria ao pessoal é
á guarda-roupa e repostaria do paço, luxuosíssima nos dias de
D. Manuel (3).
Quanto a romances velhos, de letra tradicional, cantaro-
lados por tipos cómicos como o escudeiro namorado, a ama de
Rubena, o alfaiate judeu e seu filho, ou por pastores da serra,
é de supor que Gil Vicente e os sucessores se serviam de me-
lodias antigas, também tradicionaes.
Do mesmo modo, com relação aos demais autores consul-
tados, é preciso distinguirmos entre romances de arte, entoa-
dos por profissionaes aulicos, a três e quatro vozes, com
acompanhamento de instrumentos de câmara, como harpa,
laude, doçaina, viola d'arco, orgâo, e os cantados e bailados
(i) Onde se diz feita pelo autor ao propósito (tomo II, 339, I, 333), deveremos
portanto entendei feita e enssoada.
(2) Já dei, no §§ 154, a lista dos romances de Gil Vicente, indicando em
geral, quaes as figuras que tinham de cantá-los no palco, aparentemente sem
acompanhamento de instrumentos.
Na Baica do Purgatório três anjos cantam ao som e compasso dos remos o
romance sacro Remando vão remadores (I, 246).
Os Planetas Júpiter, Vénus, Mars, e os signos Câncer, Leo, Capricórnio cantam
a quatro vozes o romance: Nina era la Infanta (II, 416).
As Sereias entoam os louvores de Portugal: Dios dei cielo, Rey dei Mundo
(II, 478).
Os Presos do Limbo cantam Vocês daban prisioneros (I, 333).
As damas de Flérida, e em seguida o patrão da barca com seus remadores,
cantam: En el mes era de Maio (II, 249).
For Maio era, era por Maio é cantado e bailado por todas as figuras da satírica
Romagem de Agravados (II, 531).
(3) No Inventário da Guarda-roupa de D. Manuel somente os objectos per-
tencentes ao baile de mourisca ocupam cinco paginas da reimpressão de A. Braam-
camp Freire (Anhivo Histórico, II, 393).
ROMANCES VELHOS 313
ao ar livre (de solaot) por gente-povo, quer á guitarra e ao
som do pandeiro, quer sem instrumento algum.
A' pregunta, se as melodias ou melopeas das letras tra-
dionaes seriam de facto música popular (idêntica em Castela
e Portugal), ou composições artísticas, adaptadas ao gosto
dos leigos, por meio de algumas simplificações; e pelo outro
lado, se as composições de autores afamados do Cancionero
Musical e dos Llbros de Música seriam verdadeiramente ori-
ginaes, ou apenas cantos populares, artisticamente harmoni-
zados (1), nao poderá ser dado resposta senão depois de os
esposos Pidal haverem realizado o seu plano. Nao por mim,
que não sou competente.
[§ 173] Agora o problema linguístico. Parece-me útil prin-
cipiar com três advertências: !.*) A semelhança entre caste-
lhano e português (em tempos antigos muito maior do que
hoje, quanto á pronúncia e ao vocabulário) inhibe-nos algu-
mas vezes de deslindar, a qual das duas línguas um curto tre-
cho de apenas oito sílabas pertence, ou pertencia, na opinião
de quem o empregava. 2.a) Um só verso em português, da ca-
tegoria dos alados, não pôde constituir prova segura de o ro-
mance inteiro, de onde provém, existir realmente em redaçâo
portuguesa. 3.°) A grande liberdade com que os letrados al-
teraram textos de romances, nas citações, prova bem que p
género era considerado popular tradicional, obra comum da
nação inteira (2).
A pesar d'essas dificuldades, estou ceita que o leitor esta-
rá de acordo comigo no seguinte:
A maioria dos trechos de romance, repetidos por literatos
de cá, no período de que trato, trajam d castelhana, correc-
tamente.
Muito a miude a letra é híbrida: .castelhano, eivado do
lusismos.
(1) É sabido que a Igreja divinizou na idade-uiédia muitos vilhancicos pas-
toris e outros cânticos profanos.
(2) Citações, provenientes de composições de arte de autores conhecidos, síl<>
em regra tratados com mais respeito; isto é: são transmitidos na redacção origi-
nal, inalterados.
•21
314 CAROLINA MICHAÈHS DE VASCONCELLOS
Só excepcionalmente, talvez na quarta-parte dos casos, te-
mos português castiço: redacções literalmente iguaes ou muito
semelhantes dos romances velhos do país vezinho: traduç&efl
ou nacionalizações mais ou menos livres, conforme resulta do
confronto. De ambas as formas ha exemplos relativamente
temporaos. Entre as citações, contidas no Cancioneiro Geral,
ha diversas que trajam á portuguesa (1).
Quando e por que razão se empregava ora ura processo,
ora outro?
No emprego a sério de trechos puramente castelhanos dis-
tingo dois grupos. O primeiro consta de romances cantados,
podendo-se supor que a preferência se daria porque letra c
som tinham vindo juntos de Castela, como um todo indissolú-
vel; ou então que a língua castelhana com a sua vocalização
sonora e ossatura consonántica mais vigorosa, passava por
mais cantábile (2). O segundo grupo é constituído por trovas
centónicas. Os autores queriam que os fragmentos, por eles
escolhidos e parafraseados (nas Cartas de Africa, nas Cartas
de Caminha, e nas glosas de Durandarte e Gaiferos), se dis-
tinguissem, e fossem reconhecidos como de proveniência
alheia (3).
A tradução fazia-se quando o autor ligava importância
superior ao pensamento, de sabor proverbial. Olhos que o
[respectivamente: os> a, as\viram ir — Mensageiro sois, amigo —
Eitos [de amores] que sam pêra perdoar — A's pancadas, mou-
riscote — Mais vale morrer com honra que deshonrado viver —
(i) No índice, as citações portuguesas (assim como as traduções a que me
refiro) vão em normando para darem na vista.
(2) Parece que com relação ao canto de arte o idioma nacional começou a ser
considerado desastroso, por causa das nasaes, por ocasião da reforma de Sá de
Miranda, preconceito que se prolongou até aos nossos dias, mas que naturalmente
não extirpou o costume antigo. Já contei em outros escritos meus que no D. Qui-
xote (II, c. 58) uma Egloga do excelentíssimo Camões é cantada en su mis/na len-
çua portuguesa.
(3) Com troços líricos procedia-se do mesmo modo. Motes alheios, quer nacio-
nacs, quer castelhanos, eram assinalados como taes. Em trovas centónicas — com
citações em ambas as línguas no fim de cada estrofe, — a sua existência costuma ser
anunciada na epígrafe. Veja-se, p. ex., Canc. Ce?:, I, 109, 230, 400, 501; II, 31, 193.
ROMANCES VELHOS 3/5
Rey que não faze justiça sâo boas ilustrações d'essa maneira.
Modificando instintivamente a linguagem, o tradutor ora subs-
tituía apenas os vocábulos estrangeiros pelas formas corres-
pondentes da materna, ora alterava a sintaxe e a rima, se-
gundo as exigências do texto português. E ás vezes deixava
subsistir termos e locuções castelhanas, quando a nacionali-
zação era difícil, ou exigia mudança de maior, escorregan-
do assim para o bilinguismo.
O terceiro fenómeno, isto é o emprego simultâneo ou pro-
míscuo dos dois idiomas, é involuntário (em regra), ou propo-
sitado (por excepção).
Involuntário quer dizer: causado por ignorância, desleixo
ou precipitação (1). Em quasi todos os textos castelhanos,
compostos ou citados por Portugueses, ha erros: inadvertên-
cias ora de autores que, pretendendo expressar-se em idioma
estrangeiro, sem querer entremeiam o discurso de formas da
lingua materna (2); ora de copistas e impressores que em innú-
meros casos deturparam textos originariamente correctos (3).
(i) Os mesmos versos, citados em ocasiões diversas pelo mesmo autor, apre-
sentam-se por isso com aspectos diversos. No Templo d\lpolo, um vilão de Gil
Vicente canta:
Rogaré á Dios dei ceio
que era padre de mesura
que ou me case ou me mate,
ou me tire de tristura!
Amor, no puedo dormir (II, jSy),
o que é castelhano, se emendarmos a conjunção disjuntiva (e lermos cielo). No
Auto da Lesta (p. i I 2) temos mais alguns remendos portugueses: Rogarey a deos
e Amor não posso dormir.
(2) Lapsus calam/, correspondentes aos lapsus lin^uae que na conversa esca-
pam necessariamente ao Português que só de vez em quando tem de lalar cas-
telhano.
(3) Muita vez seriam, pelo contrário, os correctores das imprensas os enca-
rregados de rectificarem erros gráficos, iónicos ou mórficos. No Cancioneiro de 15 16
ha muita trova castelhana, cheia de grafias e fonações aportuguesadas nuns exem-
plares, mas que aparecem emendados em outros. Confira quem puder, p. ex , a fo-
lha XII na edição fac similada de Iluntington com as páginas 88-92 do vol. I da
edição de Stutgart e com os três exemplares da Biblioteca Nacional de Lisboa.
Cfr. Zeitschrijt, V, 80.
àjè CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS , . .. .
Apurar culpas de uns e outros é comtudo impossível (1).
Creio que na maioria dos casos deveremos considerar como
meros lapsos accidentaes — sobretudo nos géneros elevados em
estilo toscano ou em redondilhas de espírito horaciano, de
artistas escrupulosos — defeitos gráficos, como m final em lu-
gar de n (em com som sam tam liam); simples erros de fonação
como n por n Canos danos enganos enganar enganador), ou vi-
ceversa nh por n (caminhoj (2); e por ie (terra vento sempre gre-
go pensamento ceio); o por ue (morte forte); ou por o (na con-
junção disjuntiva, e nos pretéritos da l.a conj. 3 s.); pr cr fi-
em vez de pi cl fl (prazer praya prumage decrina frecha). O
mesmo talvez valha da troca isolada de formas como he por es;
se por si; mim assim por mi assi; meus teus por mis tus; deos
por dios (?).
Outros lusismos mais incisivos ha, que comquanto incons-
cientes, são evidentemente da alçada dos autores: erros voca-
bulares, mórficos, gramaticaes, mas também fonéticos, que sao
fruto de reflexão, e muita vez não podem ser emendados sem
se tocar no metro e na rima (4). Aplicando mal a lei da diton-
gaçilo, os Portugueses escrevem ás vezes nuerte impuerta nue-
(i) Nem ha, nesse ponto, diferenças notáveis entre os textos de autores da
Escola velha, e os clássicos dos autores cultos do Renascimento. Todos pecam,
com raras excepções; todos, menos os que viviam em Hespanha (como Montemor
e Silvestre). Em peculiar tenho em mente os hendecassílabos de Sá de Miranda,
de modo algum isentos de lusismos (em parte graves), conforme mostrei no Glos-
sario da minha edição e na respectiva Introdução (p. cxxx).
(2) A grafia Ih por // Caauelha, elhos, etc), comquanto não possa induzir em
erro (ao contrário de //, que em castelhano significa uma coisa e outra em portu-
guês (p. ex. em bellaj, exige modernização em reimpressões cuidadas.
(3) Sou de opinião que em futuras edições críticas devíamos endireitar todos
esses descarrilamentos.
(4^ Englobando os lusismos naõ só dos versejadores do Cancioneiro e de Gil
Vicente e seus imitadores, mas também dos poetas da idade áurea, podia-se es-
crever um estudo útil e interessante. Por ora ha apenas um opúsculo digno de
nota. O de Gonçalvez Viana, sobre Lusismos no castelhano de Gil Vice ite, publica-
do na Revista do Conservatório Real de Lisboa, por ocasião do 4.0 Centenário Vi-
centino (N.° 2, Junho de 1902). Sem ser completo, é excelente. Leite de Vascon-
cellos, no seu Gil Vicente e a linguagem popular (1902) em Revista Lusitana, II,
não se refere senão de passagem aos defeitos pequenos do castelhano corrente, e
muita vez primoroso, do admirável dramaturgo. Além dos dois ensaios, e das ob-
servações no meu Sá de Miranda, ha apenas notas soltas no Ensayo de Gallardo.
ROMANCES VELHOS
ble tuerno suelo (= só), por analogia com muerte puerta muo-
ble cuerno duelo; priesto (p^r analogia com tiesto); c também
piado em vez de prado (por analogia com prata = plata) (1).
Põe livraria altanaria (em lugar de libreria altaneria); empre-
gam tdrmos comuns a ambas as línguas em acepção exclusiva-
mente portuguesa, p. ax.,prieto no sentido de negro; ou em for-
ma nacional (esmola cisne f rol natureza seara ter vir) (2); hispa-
nizam levemente palavras e locuções privativamente portu-
guesas (condon (3). penera,juera, atijo); introduzem ligações e
assimilações inexactas como todalas, veloemos, pluraes como
leis reis bueis (monossilábicos), infinitivos em er, de verbos que
em castelhano pertencem á 3.a conjugação (morrer sofrer vi-
vsr dizer), assim como os expressivos infinitivos pessoaes (4).
Nem são coisas raras consonâncias que, inexactas em caste-
lhano, sairiam perfeitas, transpostas em português como ins-
tintivamente foram pensadas (v. gr. fruto mucho; muerta
importa; atiço servido). Licenças poéticas que sobretudo a
musa pouco severa dos poetas da escola velha não se pejava
de adoptar, por bem da sua comodidade.
Intencionalmente, nenhum artista tomava, a meu ver, li-
berdades d'esse género, a não ser para produzir efeitos có-
micos. Isto é em trovas de folgar, sátiras, gracejos, prosas
familiares em que se retratam pessoas e costumes (5). O verda-
deiro terreno para tão burlescos contrastes linguísticos era to-
(i) Não é de admirar, mas merece reparo que esses fenómenos sejam tam-
bém traços distintivos dos dialectos occidentaes de Hespanha, sobretudo do leo-
nês. Vacilando entre bueno t/enes á castelhana, e bono tenes, eles chegavam a di-
zer fuella (era lugar de folha) e nueite (em lugar de noite).
(2) Fuele por fuelle (pg. fole); acifia e aiíia em lugar de nina, sob influência
de aginha são outros exemplos.
(3) Vid. C. M. de Vasconcellos, Contribuições para o futnro Diccionario Etimo-
lógico das Línguas Hispânicas (I,isb. 1908, extr. da Revista Lusitanal XI), p. 1-9.
(4) Entre os exemplos que conheço ha um salieres de Gil Vicente (II, 76) pre-
cioso porque mostra que para o Plauto português o conj. fut. e o infinitivo pessoal
eram formalmente idênticos.
(5) Numa contenda entre Castelhanos e Portugueses (Canc. der., II, 29), re-
lativa aos diversos nomes dos pulmões, ha lusismos acidentaes e intencionaes.
Acidentaes como prazerá. Intencionaes como o verso:
Onde meus e teus avoos,
em rima com dios vós nós.
318 CAROLINA MICHAÈLIS DC VASCONCELLOS
davía o teatro. Gil Vicente— a cujo génio inventivo devemos
autos compostos em castelhano, autos escritos em portugu
pecas nas duas línguas, e outras poliglotas em que, além (Telas,
surgem juristas, clérigos, físicos, religiosos que se BCrvem do
latim (em traje mais ou menos macárronico), ciganos, mouros,
negros da Guiné, um Francês e um Italiano, todos eles magis-
tralmente caracterizados (1) — Gil Vicente baralha muita voz,
de caso pensado, o português com o castelhano. E os poetas
cómicos da sua escola seguiram-lhe o exemplo (2).
Digno de nota é que com esses processos eles definem ape-
nas figuras bnixas, o,u]o português também está cheio de par-
ticularidades: arcaísmos e idiotismos provincianos (3). Nunca,
personagens de alta categoria. Esses expressam-se sempre
em português culto ou em castelhano culto, embora com os
defeitos inconscientes a que aludi. Os característicos dos tex-
tos bilingues sâo os já indicados, mas em acumulação. E isso
tanto em ditos da sua própria lavra como em textos alheios.
Da boca de vilões, pastores da serra, ratinhos da Beira, trans-
formados em escudeiros de pouca monta, saem cantares ve-
lhos, com um pé á castelhana, outro á portuguesa (4), de tal
modo promíscuos que a nacionalidade fica ás vezes incerta (5).
Eis algunos exemplos:
(i) A fala de taes personagens de comedia merece o nome de Kauderwelsch
Ibaragouin). Tratar porém depreciativamente a linguagem toda de Gil Vicente de
geringonça (jers>a inixta de castellano) como fizeram Fitzmaurice-Kelly e seu tra-
dutor, é injustiça flagrante.
(2) Nos artigos já citados de Gonçálvez Viana e Leite de Vasconcellos ha por-
menores a este respeito.
(3) Ha quem julgue convencional esse português rústico de pastores da Se-
rra da Estrela, da Serra de Sintra, e dos arredores de Coimbra; imitação do estilo
pastoril (sayagitês e salmanquino) de Juan dei Encina e Lucas Fernández.
As semelhanças entre os dialectos pastoris de Leão e Estremadura e os da Beira
portuguesa são comtudo positivas. Em ambos ha traços que parecem castelhanis-
mos, e traços que parecem portuguesismos. Cfr. Lecte de Vasconcellos, Esquisse
d' une Dialectoloçie Porttigaise,% 14.
(4) Apesar de as vogaes átonas do português antigo não terem sido tão sur-
das como hoje, e de as consoantes y x eh z ç haverem ido valor igual em ambas
as línguas, o contraste lá estava.
(5) Mas também cantam em castelhano correcto, em português correcto, ou em
linguagem pastoril.
ROMANCES VELHOS
Estes meus cabelloa , madre,
dos cá dos me los lleva el aire. (II, 110.)
■■•■■
Por una vecina mala
meu amor tolheu-me a fala. (III, 77.)
*
Volaba la pega y vai-se!
quem me la tomasse! (II, 423.)
*
A mi seguem dous açores!
hum d'eles morírá damores! (II, 425.)
*
Á serra es alta,
o amor he grande,
se nos ouviráne? (II 427) (1).
*
Não me vos querem dare:
ir-me-hei a tierras agenas
a chorar meu pesare. (II, 20.)
*
Terra querida deismelo, (?)
no me negueis mi consuelo! (II, 448.)
*
Nina, erguedme los ojos
que a mi namorado m'hao. (II, 401) (2).
A meu ver, esse hibridismo das composições líricas can-
tadas é o reflexo fiel da linguagem comum da realidade — con-
sequência fatal do enorme prestígio que o idioma do centro
gozou de 1450 a 1640, pelas causas exaradas no § 160, refor-
çadas ainda pela tendência geral do Renascimento, de lixar
em cada país um centro de unidade linguística, em oposição
á romântica variedade de idiomas literários que reinara na
idade-média.
Falar correntemente a lingua da corte, versejar nela com
primor, longe de ser crime de leso-patriotismo, era meritório
ou mesmo um dever cívico, emquanto durava o sonho da
(i) Com o e paragógico de ouviráne dure pesare e bonamore (II, 31), em can-
tares velhos, compare-se o dos trechos de romances que citei (perguntade eenare
llevare 56, perdone l\,peleare 88, sane xabone 100).
(2) Uma das citações que nos ocuparam, emparelha com esses exemplos:
S'o barrete bem volava
la hegoa mijor corria.
320 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
união (1). Figura-se-me típico o conselho Ante mordey caste-
lhano que falardes português, dado por ura Mentor perspicaz
a ura dos mancebos que acompanhavam em 1483 o Duque
D. Diogo á corte dos Reis Católicos (2). Mesmo os popul;i:
que afluíam á capital, Beirões era grande parte Çó), levavam
seguramente no regresso um pecúlio mais ou menos vasto de
vocábulos e frases e de cantigas, trovas e romances. Um
lado bueno por aqui/ pronunciado com a devida arrogância,
dava-lhes ares de cortesãos.
Quanto aos literatos, todos os bons engenhos escreviam
ora em português, ora em castelhano, e moviam-se á vontade
em ambos. Pela reforma de Sá de Miranda a praxe avigorara
ainda, porque, na aprendizagem do metro toscano, muito mais
escabrosa cá, por causa da excessiva vocalização dos vocá-
bulos, o mestre se adestrou primeiro em castelhano; e os adep-
tos fizeram o mesmo. Os poucos que nào se deixaram arrastar
(Bernardim Ribeiro instintivamente; António Ferreira de caso
pensado) só confirmam a regra. Outros que, pela sua pos;ção,
não se lhe podiam subtrair, lamentavam pelo menos o fatal
estrangeirismo da nação— fatal porque, se documenta a vitali-
dade e agilidade do génio português, importa ainda assim num
desperdício de forças para a literatura nacional — e condena-
vam incondicionalmente a antiestética promiscuidade das
duas línguas em trovas de carácter popular (4).
(i) O sonho repetia-se sempre de novo, mesmo depois que dos aconteci-
mentos históricos, ocorridos de 1477 a 1553, se deduzira o adágio político: Caste-
lhanos, Portugueses, Não os quer Deus juntos ver (Afisc. Estr. 35). Sempre o vi cita-
do nessa forma. Na edição de 1798, de que me sirvo, lê-se todavia: já os que Deus
juntos ver, o que está em contradição flagrante com o resto da estrofe.
(2) Canc. Ger., II, 459. De Gil de Crasto a Anrique d' Almeida hindo para
Castela. Será bom conferir os versos, já alegados, em que Nuno Pereira motejou do
mesmo Anrique d'Almeida quando veio de Castela com o Duque (I, 265); assim
como a contenda em que tomou parte (II, 29).
(3) Dos Ratinhos da Beira, que afluíam a corte é que Gil Vicente aprendeu
por ventura a linguagem dos serranos, e parte das cantigas e serranilhas á moda
galego-portuguesacom que enfeitou os seus Autos (1, 161, 183; 11,443, 4815111,214.)
(4) Na literatura castelhana ha textos bilingues que parecem paródia dos de
cá. Citei, p. ex., o romance Afora afora Rodrigo, cantado na quixotesca Mancha
por um namorado lencciro português (Duran, N,° 1772). Como todavia os versos
ROMANCES VELHOS 321
De Jorge Ferreira de Vasconcellos, o qual vimos louvar
cantigas portuguesas sem fezes como as do Africano, é a
sentença seguinte: Não ha entre nós quem perdoe a uma trova
portuguesa, que muitas vezes é de vantagem das castelhanas
que se tem aforado comnosco e tem tomado posse dos nossos
ouvidos (1).
De Luis de Camões é uma engraçada alusão aos textos re-
mendados. A trova verdadeiramente boa, fina e saborosa, a
trova trigo-tremês,
ha de ser toda de um pano,
que parece muito inglês
num pelote português
todo um quarto castelhano! (2)
[§ 174] O predomínio do idioma castelhano nos romances,
é todavia outra coisa do que um dos aspectos do prestígio ge-
ral, por ele exercido. Além da influência literária, e superior a
ela, ha neste ramo a influência popular, directa e constante,
da tradição. Para o reconhecer basta pormos em foco a persis-
tência do fenómeno. De 1640 para cá o prestígio do centro foi
se perdendo; os sessenta anos de união produziram mesmo
certo apartamento político e social, que se reflectiu nas rela-
ções literárias e artísticas. Os romances tradicionaes todavia
continuam a conter resaibos castelhanos, especialmente em
Tras-os-Montes, e na Beira-Baixa. Isto é na raia hespanhola,
onde o contacto entre os dois povos é constante.
O que ahi se passa no dia de hoje, como continuação do
de hontem e de ha quatro séculos, foi tâo bem exposto por
Leite de Vasconcellos, que conhece as províncias de visu, que
basta tresladar os seus dizere, anotando-os, onde fôr preciso.
de arte de poetas portugueses, reproduzidos no reino vizinho como preito de ho-
menagem sincera, estejam igualmente deturpados, a minha interpretação nâo é
segura.
(i) Note-se bem: dos ouvidos. — Parte do prestígio vinha da sonoridade da vo-
calização, e das composições musicaes.
(2) Amphitriôes, I, 6. — Na mesma comédia ha alusões picantes ao costume
dos poetas de se servirem do alheio. Citar muito era considerado como prova de
bom saber. Exactamente como hoje.
322 CAROLINA MICHAÊLIS DE VASCONCELLOS
«Os povos da fronteira transmontana (1) falam corrente-
mente o castelhano, do mesmo modo que os de lá lalam o por-
tuguês (2). O mesmo sei que se dá no Alcmtejo. No Alto.
Minho, na raia da (íalliza, os Portugueses sabem também o ga-
llego (3). Na fronteira as moedas portuguesas e hespanholas
circulam indiferentemente lá e cá.
Ha festas em Portugal aonde vem os Hespanhoes e festas
em Hespanha aonde vâo os Portuguezes, como eu tenho ob-
servado frequentes vezes. Quem viaja pela nossa fronteira, a
cada passo encontra Hespanhoes que andam commerciando.
Os trabalhos agrícolas chaman também indivíduos promis-
cuamente das duas nações.
Em Traz-os-Montes os romances populares gozam de
grande vitalidade, principalmente no districto de Bragança,
porque os cantam de contínuo nas segadas de centeio, pro-
ducto este cuja cultura tem allí (como se sabe) muito desen-
volvimento. Para estes trabalhos vem com frequência Hes-
panhoes que então trazem do seu país muitos romances que
depois cá ficam (4). Isto é um facto de observação e portanto
positivo. Mas ainda que isto se nâo soubesse, a origem im-
mediatamente hespanhola de grande parte dos nossos roman-
ces provava-se.
Io) Porque ha cá muitos em castelhano; assim os tenho
recolhido em Traz-os-Montes e amigos meus no Alemteio;
(i) Faltam referências á Beira-Baixa, porque o benemérito investigador fre-
quentou pouco aquelas regiões. Na Revista Lusitana publicaram -se recente-
mente alguns textos. Vid. vol. XI: Tradições populares e linguagem de Atalaia, de
Carlos A. Monteiro do Amaral. Nos romances ha alguns poucos castelhanismos:
quitar, chicas , la nina.
(2) Posto que o dom das linguas seja qualidade essencialmente portuguesa,
menos frequente em Hespanha, a influência foi e é forçosamente mútua. E os
portuguesismos que por ventura haja na língua e no Cancioneiro popular de Leão
e da Estremadura, etalvez também no Romanceiro, devem ser examinados. Parece-
me que Cáceres, Ciudad-Rodrigo, serão bom terreno para investigações.
(3) Em Miranda do Douro, as pessoas de certa cultura intelectual, falam por-
tuguês, castelhano e mirandês, com o sotaque particular de cada um.
(4) Os romances vulgares que existem unicamente no distrito de Bragança,
passariam a fronteira recentemente.
HOMANCES VELHOS 323
2°) Porque se dizem entre nós romances metade em portu-
guês, metade em castelhano, como eu possuo alguns;
3o) Porque nos romances em português apparece muitas
vezes aqui e além perdida uma palavra em castelhano.
Esta importação dá-se actualmente; mas devia dar-se
também noutros tempos. De facto, os romances em que ha
já poucos termos castelhanos, mostram que elles foram tra-
duzidos; e a traducçâo fez-se muito lentamente. Quando eu
fui a Tras-os-Montes, as pessoas que me dictavam romances
em castelhano-português empregavam memo ás vezes indife-
rentemente uma forma de lá ou uma forma de cá; compre-
hende-se, pois, que com o tempo e com as pessoas, os roman-
ces hespanhoes se tornem inteiramente portuguezes» (1).
[§ 175] Os romances castelhanos, colhidos nos nossos dias
no território português, por ora nâo foram publicados, infe-
lizmente. Nem tâo pouco exemplos dos meio-castelhanos, a
nâo ser o do Cativo que T. Braga diz ter tirado de um manus-
crito portuense, ao qual talvez atribua nímia idade (2). Dos
textos que aqui e além trazem palavras perdidas em caste-
lhano, ha, pelo contrário, bastantes nos diversos roman-
ceiros; mesmo no de Almeida-Garrett, apesar dos retoques
C3in que o grande poeta aperfeiçoou os cantares tradicionaes.
De cada vez, os castelhanismos sâo poucos. Dois ou três nos
romances transmontanos e beirões, porque nas outras provín-
cias muitos estão sem nenhum. Para chegar a resultados se-
guros seria preciso examinar, se os castelhanismos são priva-
tivos dos romances, ou usados também no Cancioneiro popu-
lar, nos contos e na prosa usual, das regiões raianas (3), fa-
zendo parte das línguas fronteiriças. Nâo creio todavia que
chegaríamos a resultados diferentes. Baste dizer que os mais
frequentes sâo: el lo la los las como artigos, mi mia tu. Subs-
(i) Romanceiro Portuguez, p. 4-5. Nos parágrafos que precedem o trecho co-
piado ou se lhe seguem, o autor trata das origens dos romances.
(2) Século xvil.
(3) Vocábulos como quedar oliva relumbrar, empeçar, aquesta, que se repetem
em romances de Tras-os-Montes e da Beira, são usuaes nessas províncias e ocor-
rem em bons autores portugueses, antigos. De padre madre na acepção de pae
mãe, nem vale a pena falar.
324 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASC0NCELL08
tantivos e verbos surgem sobretudo na rima. Se, por exemplo,
num romance castelhano em -í-o ocorre castillo, testigo, quis»,
chiquito , ou Castilla, la nina, ch/quita, num em -í-a, alguns
recitadores conservam-n'os taes-quaes nas suas traduções ,
comodamente (porque castelo, testemunha, quis, pequeno; Cas-
tela pequena não servem) emquanto outros interrompem sem
ceremónia a assonância contínua (1).
Num parêntese chamarei a atenção para um grupo impor-
tante de termos que ocorrem no meio dos versos, porque para
os filólogos têm interesse particular, é talvez possam servir de
indícios de como cantares-velhos e romances-velhos pertencem
á fase arcaica da lingua e da literatura.
Registando os vocábulos manhana, manhanita (2), magana,
ventana, irmana, irmano, cristana, cristano (respectivamente
Cristiano) (3), grana, granado, vénia, tenia, poner, tener, tiene,
venir, venido, color, mala, relinchar (4), solia, volaba, paten-
teio que se trata de formas provenientes de outras latinas
com -n- intervocálico — ou (menos vezes) com -l — formas que
em português moderno perderam uma sílaba, pela queda do
-l-, ou do n (depois de transformado em resonância nasal,
aderente á primeira vogal) e contração das vogaes em uma só
(manhã, maçã, venta, irmã, irmão, cristã, cristão, gran
grado vinha, tinha, pôr, ter, vir; cor, má, rinchar) (5).
Essas mesmas palavras e outras de formação igual, prin-
cipalmente as que acabam em -ão (de -anu) ou em -ães, -ões
(-anes, -ones), antigamente com valor de duas sílabas, mas
nesse estado pouco cantáveis, já haviam causado embaraços
aos trovadores galego-portugueses. Por isso muitos servi-
ram-se, na letra cantada e bailada de cantos de romaria e
(i) Verdade é que nino podia muito bem ser substituído por menino, e la nina,
por menina.
(2) Num dos arcaicos cantares líricos de Rebordainhos, cuja descoberta se
deve a Leite de Vasconcellos, temos: pela mankaninha manhã.
(3) O alfaiate judeu do Auto da Lusitânia canta cristianos. Também diz en la
mano una azagaia porque cristãos e na mão ua azagaia não preenchia a medida.
Cristane na lição algarvia do romance dei Cid parece erro por cristano.
(4) Vid. Zeitschrift, XVI.
(5) Soia, voava não sofreram redução.
HOMANCES VELHOS 325
serrauilhas, das formas sano, louçano, irmana, dizendo tam-
bém pino, penado, avelanedo em lugar de são, loução, irmã,
pio, peado, avelãedo.
E costume tratar essa3 formas de castelhanismos. Nâo de-
vemos esquecer todavia que o português de então, culto e
popular, possuía -ano, -ana (v. g., na forma familiar mana,
mano, serrano, castelhano, etc), e que os reformadores e poe-
tas clássicos do século xvi, beneméritos da lingua nacional,
resuscitaram o -n perdido em muitos termos simples (1)
(v. g , feno, pena, menos), e em innúmeros derivados. Reco-
rrendo aos étimos latinos aproximaram estas formas das co-
rrespondentes castelhanas, quando nâo resultava identidade
(gráfica) absoluta. A gente-povo da fronteira, quando em
romances que aportuguesava, tinha a pronunciar, cantando
ou recitando, correspondentes de tener, venir, poner, mano,
bueno, vencia a dificuldade com o fácil expediente de os
deixar estar taes-quaes. Para eles a influência castelhana
é a única admissível. Se portanto menos, pena, na boca de
poetas cultos, são latinismos, vénia, tenta, sâo castelhanismos
na boca do vulgo.
Da obra de Gil Vicente extraio alguns cantares de gente
da serra:
Vento bueno nos ha de levar!
garrido é o vendaval (II, 306 e 494).
Vós me veniredes a la mano,
a la mano me veniredes!
e vos veredes
peixes nas redes (I, 21tf) (2).
E se j)07ierei la mano em vós,
garrido amor? (II, 443).
Hum amigo que eu havia
mançanas d'ouro m'envia (II, 441).
A serra é alta, fria, nevosa,
vi venir serrana, gentil, graciosa (III, 2-14).
(i) Na boca do povo lo passara a inho, tia a uma,' e ão-ãa-õe-ãe tornaram-se
monossilábicos.
(í) Em outros escritos encontrei uma variante do refram: yá vós jazedes, Pei-
xinhos, nas redes.
326 CAROLINA MIÒHAÈLIS DÊ VASCONCELLÔS
[§ 176] Fechado o parêntese com que terminei a discussão
mal esboçada do problema linguístico, torno ás teses de T.
Braga e Menéndez y Pelayo (§ 166-168), que combato. Do
castelhanismo da maior parte dos romances velhos nâo lia
que duvidar. Castelhanos na redação original, eram cantados
e citados em castelhano na corte portuguesa e entre os es-
tudantes da Universidade. Fizeram-se, porém, portugueses,
traduzidos pouco a pouco e adaptados ao gosto nacional na
boca do vulgo, quer descessem do paço ás ruas da capital,
quer entrasse m directamente pela fronteira. A dição a prin-
cípio puramente castelhana, transformou-se em castelhano
eivado de lusismos, em português com raros resaibos caste-
lhanos, e finalmente, nas províncias mais afastadas, em por-
tuguês castiço.
Ainda assim, não subscrevo em globo as conclusões dos
dois, conforme já assentei na Introdução, acentuando-o depois
sucessivamente. Das premissas estatuídas pelo historiador
madrileno, e anteriormente, com menos precisão, pelos pró-
prios Portugueses (1), tiro consequências diversas, por encarar
á luz diversa o problema das linguas, das nacionalidades e
das literaturas peninsulares.
Dos vestígios que revelei, resulta que de 1450 a 1640 os
Portugueses citavam e cantavam romances em castelhano.
Os que hoje o vulgo canta em português no continente, nas
ilhas oceânicas, no Brasil, com palavras perdidas em caste-
lhano, sobretudo nas províncias raianas de Tras-os-Moutes e
Beira, são os mesmos do século xvi. Os mesmos que então
existiam e ainda existem no reino vizinho, nâo só nas regiões
que entestam com Pjrtugal, mas também nas mais afasta-
das (2), e fora da Península, na América do Sul, em Marrocos
e entre os Judeus do Levante (3). Iguaes no metro e na rima,
os romances tradicionaes de Portugal, comquanto deteriora
dos a miude, sâo muita vez decalcos completos dos que em
(i) Garrett e T. Braga. Sobretudo Almeida.
(2) Sem excepção do centro, como até ha pouco, se julgava.
(3) Está por examinar, se na lingua e no material folklórico d'esses Judeus não
ficaram vestígios da sua passagem por Portugal (como creio).
ROMANCES VELHOS 327
Castela se imprimiram no século xvi, e lâ também eram ci-
tados, glosados, parodiados, igual predomínio dos romances
em castelhano nota-se na Galiza e nas Astúrias, isto é em
províncias cujo povo fala dialectos bem distanciados da co-
mum língua literária. Na própria Catalunha, os romances são
arraiados nâo só de vocábulos isolados, como em Portugal,
mas também de fragmentos inteiros em castelhano (1) A
abundante colheita, coordenada por Milá y Fontanals, origi-
nalíssima na forma, no espírito e nos assuntos, nem a das
Astúrias, nem a de Portugal é genericamente indígena e pri-
vativa de cada região. O romance nasceu em Castela, dos
cantares de gesta democratizados por jograes; lá teve o seu
mais alto grau de vitalidade, irradiando para todos os lados.
Mais uma vez: de tudo isso nâo ha que duvidar (2).
Concordo também com o dictame finamente pensado e re-
digido, que «comunicando-lhe a sua poesia narrativa, é que
Castela pagou á Galiza e a Portugal a dívida que contraíra
ao receber d'eles, nos alvores da literatura, as formações lí-
ricas».
Mas nem por isso eu diria que «tudo quanto ha em roman-
ces velhos é resto de uma poesia inteira e exclusivamente do
centro castelhano, na qual o Norte, o Nordoeste, o Oeste e
Levante nâo teve parte alguma» (3). Antes diria: que o cas-
telhano é a lingua em que os romances foram escritos — por
gente de todas as regiões da península — porque o castelhano
fora nos séculos xn e xm a lingua épica de Hespanha, e con-
(i) A diferença explica-se. Os romances, com menos elementos originaes, são
mais perfeitamente nacionalizados em Portugal do que na Catalunha, porque o
eclipse da lingua catalan (na literatura) durou três séculos
(2) Os exemplos de nacionalização progressiva são tantos que é justo consi-
derar como importados mesmo aqueles, de que não subsistem paralelos caste-
lhanos, sempre que não haja motivos e indícios óbvios do contrário.
(3) Apontando a regra, abstraída de exemplos de peso, Menéndez y Pelayo
esquece as excepções, como G. Baist as esqueceu, ao vindicar para Castela todas
as prosas novelescas do tempo arcaico. Textos tornados accessíveis nestes últimos
tempos, como o Vespasiano (Destruição de Jerusalém), o Merlim, e o Graal, não
conlirmam de modo algum a regra. O confronto com os textos portugueses (impres-
sos e manuscritos) mostra que foram traduzidos do português. Innúmeros erros
nasceram da má comprensão d'esta lingua. Prová-lo-hci em outra parte.
32â ÒAROLINA MICHAÈLIS DE VASÔONCÉLLÒS
tinuava a sê-lo nos séculos imediatos, exactamente como o .
lego-português fora de 1200 a 1350 a língua lírica comum 1 1) e
continuou a ser empregada por alguns Castelhanos até L450.
Escrito em castelhano não equivale a obra de um Castelha-
no, como escrito em galego- português não equivale a obra de
um Galego ou de um Português. Escassez de talento épico,
sentimento histórico, e génio inventivo não significa abso-
luta falta (2). A existência de romances de arte, escritos em
castelhano por autores portugueses, é um facto. Mesmo que o
de D. Duardos e Flérida fosse o único, cuja exportação e
popularização estivesse provada, teríamos o direito de supór-
que entre os anónimos, alguns tenham origem portuguesa (3)
(e outros sejam obra de Galegos, Asturianos, Aragoneses, Ca-
talães, Leoneses, Estremenhos) (4). Se o achado de três ro-
(i) Com exclusão da Catalunha, cujos trovadores eram irmãos-gênieos dos da
Provença.
(2) Verdade é que os romancistas portugueses de 1500 e 1600 não dis-
punham de grande originalidade. Um dos melhores dirigiu aos colegas a sátira se-
guinte:
Mis senores romancistas,
poetas de Lusitânia
que hurtastes las invenciones
a la lengua castellana....
no veis que estan ya sin hojas
los laureies de Castalia?
que dan á cada espaiiol
romancista una grinalda?
Mas parte da sátira atinge também os epígonos castelhanos.
(3) Seduzias de Portugueses conhecidos contribuíram para a literatura castelhana
com novelas pastoris, livros de cavalaria, versos sacros e profanos, autos e comé-
dias, tratados históricos, etc, etc, e com romances artísticos, não é de crer que
entre os anónimos autores de romances velhos eles faltem por completo. Se pos-
suíssemos lições primordiaes de romances, talvez lá encontrássemos lusismos. En-
tre as que foram impressas no século XVI, será difícil descobrir alguns. Comtudo,
não dou o ponto por debatido. No estudo especial de cada um dos romances típi-
cos haverá ensejo para a análise comparada, dos textos castelhanos e portugueses.
(4) Não é de crer que a Galiza, Leão e Astúrias fossem estranhos á elabora-
ção do Romanceiro. Se a porção relativamente pequena de romances colhidos na
Andaluzia corresponde á sua tardia reconquista, a abundância e boa conservação
dos de Astúrias deve significar, pelo menos, que lá arraigaram fundo e se desen-
volveram com viço.
ROMANCES VELHOS 326
mances entre as poesias de Juan Rodríguez de la Câmara
sobresaltou os críticos modernos, demos também o valor de-
vido aos romances (posteriores, bem o sei) de Gil Vicente, cujo
génio inventivo e cuja maestria em composições castelhanas
quasi ninguém impugna. Nem esqueçamos que o próprio Juan
Rodríguez, celebrado como primeiro autor conhecido de ro-
mances, era do Padron de Santiago, conterrâneo e amigo de
Macias, e que Carvajales, o segundo, pertencente á corte
neapolitaua de Alfonso V, era Aragonês.
Falando de romances castelhanos, tomemos portanto o
qualificativo no sentido lato e derivado de hespanhol ou his-
pano, que foi adquirindo nos tempos de Carlos V, e nao no
primitivo de oriundo e privativo do centro peninsular.
[§ 177] Conheço as objecções que se podiam levantar mes-
mo contra a colaboração excepcional de Portugueses no Ro-
manceiro mediévico que advogo, a suposta imperícia do povo
no idioma cortesão, e a falta de talento épico. Com relação
ao primeiro óbice, recordo o que se disse das províncias raia-
nas, da facilidade com que o Português aprende línguas es-
trangeiras, e também da semslhança entre os dois idiomas
no século xv (1). No tempo da maior e florescência do género,
populares de espírito superiormente dotado bem poderiam ter
composto romances em castelhano. Em segundo lugar lembro
que já nao se considera a poesia popular como misteriosa
criação genérica, de proletcs incultos, mas antes como obra
da inspiração pessoal de personagens pertencentes a todas
as classes sociaes, com ingénio poético e que consubstancia-
vam em si a alma nacional, mas obra que depois, na sua pas-
sagem pela boca de muitos, era retocada a miude: ora aper-
feiçoada por condensação, ora deteriorada por falta de me-
mória e por confusão com outros textos.
Com respeito ao talento épico de Portugal e sua colabora-
ção eventual na poesia heróica, é facto que não ha cantares
de gesta originaes (2), nem mesmo imitações ou traduções. A
(i) A migração de contos e de cantos líricos é prova da inanidade da objecção.
(2) Certas canções históricas, de tipo diverso do comum dos romances, as
quaes tem sido apresentadas na Galiza e em Portugal como de origem remotíssi-
m
830 CAROLINA MlCHAtLIS DE VASCONCELLOS
paródia de uma sccna da Chanson de Roland, algumas poe-
sias narrativas que se aproximam do género dos romances (1),
eis tudo o que ficou de épico do primeiro período da literatura
nacional. Somente o reino leonês (segundo as aparências, uma
parte que em tempos de Alfonso Henriquez fora portuguesa),
contribuiu com o Poema de Alexandre, provavelmente na
pessoa de Lourenço de Astorga (2). Na época de transição,
que das gestas conduz aos romances, é que Portugal par'
haver criado o mais antigo poema épico de estilo popular, em
quadras de versos octonários, chamados no futuro redondilhas.
Exemplo talvez do que seriam formalmente os cantares jugla-
rescos que Menéndez Pidal e Menéndez y Pelayo definiram e
avaliaram tão magistralmente (3).
Investigadores conscienciosos como Cornu e Baist tem o
chamado Poema de Alfonso XI em conta de tradução de uni
original português (perdido e ignorado). Menéndez y Pelayo,
Menéndez Pidal, Beer, Becker, Fitzmaurice-Kelly, Bonilla,
adoptaram este parecer. Eu, pretendendo conciliar com o cas-
tclhanismo do texto os frequentes e evidentes lusismos na rima ,
inclino-me a crer que não houve tal, e que o Poema foi escri-
to por um Português desnaturado, súbdito do buen rey de Cas-
tiella e Leon, que aceitando o castelhano como idioma épico,
se antecipava um século ao Condestável e aos romancistas.
Entre as diversas explicações que ideei (4), nenhuma satis-
ma — a do Monte Medúlio lá, e cá a dos Figueiredos e o Poema da Cava — seio falsi-
ficações, mais ou menos habilmente feitas.
(i) Vid. C. M. de Vasconcellos, Die Romanze von Don Fernando CRandglosse,
XII em Zeitschrift XXVI).
(2) Vid. a Ed. de Morel-Fatio (Dresden, 1906); e R. Menéndez Pidal, El dia-
lecto leonês (Madrid, 1906).
(3) O Poema tem numerosas alusões a costumes populares, pontos de con-
tacto tanto com as novelas do ciclo bretónico como com as cantigas de amor e de
amigo dos trovadores galego-portugueses, e talvez com outros cantares de gesta
democratizados, de que irradiaram romances. A este respeito aditarei uma nota
curiosa. Além do ditado, relativo ao mensagero, que extratei mais acima, encontrei
110 Poema, com viva satisfação, o dos Olhos que vos vira/ti ir. Na estrofe 24 11 é
que se 16 Ojos que vos vieren ir nunca se (? vos) verán tornar. Estou a ver que o
original ainda se descubrirá em qualquer Cantar de gesta.
(4) No (rrundriss, Ilb, 284-5, eu procurava no autor um Leonês, acostumado
ROMANCES VELHOS 331
faz, em todos os sentidos, mais e melhor do que esta,, que
oportunamente tentarei demonstrar (1).
A prova de que perto de 1340 o staiu-quo das línguas pe-
ninsulares começava a alterar-se, temo'-la no cantai- de amor
único em castelhano (se abstrairmos de uma tentativa frag-
mentária de Alfonso X), com que o próprio Alfonso XI, o ma/j
castelhano, contribuiu ao Cancioneiro galego-português (2),
nao sem entremear a fala materna com diversos lusismos. E
temo'-la em outro poema épico, também em quadras, e sobre o
mesmo assunto — a Batalha doSalado— em que rivalizando com
o Luso-castelhano e não dando fé á maior epicidade da lin-
gua do centro, o Português Afonso Giráldez se serviu do idio-
ma lírico. Poucos versos subsistem, mas esses são autenti-
cados por claras referências numa Carta do Regente (3).
Quanto ao cantar do Abade D. João de Montemor e o de
Bistoris grani sabedor, ambos completamente perdidos, acho
a menção de Afonso Giráldez positiva demais para negarmos
a sua vericidade (4).
a falar o seu dialecto e a poetar em galego-português; e inda hoje acho que ha par-
ticularidades linguísticas a favor d'essa conjectura.
(i) Ao lado de rimas imperfeitas ou nulas no texto castelhano, que em portu-
guês resultam perfeitas (e portanto seriam pensadas em português) ha outras
(mais de um cento) que, estando bem na redacção que possuímos, saem imperfei-
tas ou nulas, transpostas em português. E isso em partes que não são interpola-
ções, como por ventura as Profecias. Como lusismos considero ainda: o em rima
com ne (osso morto fora Marrocos nozes cordo aposta volta bõaj; e final, depois de
d (bondade lide salude, e os imperativos em ade ede ide); o plural monossilábico
reis; melo com valor de uma só silaba (como o português arcaico mho mi -o); verbos
que em português pertencem á 2.a e em castelhano á 3.11 conjugação; distinção
entre a 3 s. perf. da i.il, 2.u e 3.11 conjugação. Em parte eles concordam com os
lusismos que sinalizei no Cancioneiro Geral e nos Autos de Gil Vicente.
(2) Canc. Vat., N.° 209: El rey dom Affonso de Castela e de Leon que venceu
el rey de Belamarim com o poder d'alem mar a par de Tarifa: Em huum tiempo coa-
dores.— Não me refiro a lusismos gráficos e fónicos, que podem ser obra de copis-
tas, mas apenas aos mórficos, autenticados pela rima (sofrir vivir defalir decir
pidii morire e apar d'eles avkr fazer DIZER morrkr).
(3) Vid. Grundriçs, II1', p. 205.
(4) Neste ponto afasto-me portanto do parecer, enunciado por Menéndez Pi-
dal na sua excelente edição da Leyenda dei Aba d Pou Juan de Montemayor (Dres-
den, 1908). Cfr. Iíaist, em l.iteraturblatt, 1905, p. 1466.
332 CAROLINA MICHAÈLIS DE VASCONCELLOS
E a falta estranhável de romances sobre feitos históricos
de Portugal? A tomada de Ceuta, Tânger, Arzila, Azamor
batalhas de Aljubarrota e de Toro, íi tragédia do Regente; o
martírio do Infante Santo; a actividade do Navegador; os
feitos de Alfonso, o Africano, e seus capitães; as navegações
oceânicas; as conquistas orientaes; e tantos e tantos c;i
poéticos da história nacional, não despertarin a musa épica
popular. Nem mesmo da prosa infantil das Crónicas do Con-
destâvel, do Infante Santo, e de D. João I, ou da História Trá-
gico-Marítima se desprenderam romances. Talvez porque as
Crónicas e Histórias, pela sua vez, nao saíram de cantares de
gesta preexistentes? Ou porque a conquista de terrenos extra-
curopeios não inspirou no povo os mesmos sentimentos pro-
duetivos que a reconquista do solo pátrio? e essa já estava
personificada no Cid Campeador? heroe nacional com uni,
comquanto do Occidente pisara apenas a região conimbri-
cense?
A evolução histórica quis que só tarde, na era do Renas-
cimento, e na parte culta da nação, acordasse a nobre ambi-
ção de no seu seio se gerar, não um jogral romancista que na
praça guitarreasse versos populares, mas um Vergílio ou Ho-
mero que em metro condigno cantasse, classicamente, o peito
lusitano. A' vista dos Lusíadas é impossível negar o talento
épico da nação. Mesmo entre os imitadores de Luis de Camões,
que depois de 1572 criaram poemas históricos como o Naufrá-
gio de Sepúlveda, A tomada de Diu, Malaca conquistada, alguns
hombreiam com Ercilla e sua Araucana. Injusto é também
negar o estro heróico de Gil Vicente, em cuja Exhortação da
guerra refulge um patriotismo comovido (1).
[§ 178] Se finalmente me preguntarem, quaes são os ro-
mances velhos e tradicionaes que me parecem ser obra de
anónimos portugueses, do período medieval, ou pelo menos an-
teriores a 1550, respondo que é cedo demais para formular-
mos propostas. Só quando possuirmos o Romanceiro Hispânico
comparado, de Menéndez Pidal, com os Inéditos de Leite de
(i) Gonçalves Viana pensa como cu, conforme vi, com prazer, no seu estudo
sobre os lusisnios do grande Português.
ROMANCES VELHOS 333
Vasconcellos, é que será pos3Ível proceder ao exame detido
de cada um dos que aparentam origem portuguesa, quer pelo
assunto, quer pela sua difusão exclusiva ou superior no occi-
dente e províncias raianas de Ilespanha, quer pela absoluta
falta de pr lavras perdidas castelhanas, quer por certos ca-
racterísticos formaes (consonância perfeita, em lugar de as-
sonância; divisão em quadras; versos de seis sílabas).
Por ora apenas se podem aventar hipóteses.
Como entre os romances familiares a Portugal o Velho, os
romanticamente novelescos predominam sobre os inspirados
pela musa histórica de Castela, conforme mostrei, calculo que
a colaboração também se moveria nesse campo, mais conge~
nial ao espírito lírico da nação. E suponho que exactamente
alguns dos mais citados, glosados, parodiados e de maior ex-
pansão ainda agora, sejam obra portuguesa.
Dos heróicos, histórico-nacionaes, derivados dos cantares
de gesta, provavelmente nenhum. A não ser aquele tripar-
tido de Mio Cid que principia Helo helo por do viene; o de Jão
Lourenço, conhecido por ora apenas numa lição dos Judeus de
Levante; e a Lamentação sobre a morte do Príncipe Dom
Afonso (1).
Dos novelescos do ciclo bretónico e carolíngio alguns de
Trintão, Gerineldos, o Conde Claros, Conde Nilo. Dos contos
sobre temas universaes, a redacção da Bela Infanta, a de Sil-
vaninha, Bernal-Francês, Donzela- Varão.
Dos sacros, o de £anta Iria (2), de assunto local íSanl
tarem).
(i) É este que eu tencionava historiar como amostra, tornando provável que
a lição, conservada no Cancionero francês, fosse levada d'aqui em 1493, ou pouco
depois, por aquele Monsenhor de Loigny, a cuja capela me referi no parágrafo so-
bre a música dos romances. O ensaio ia-se-me tornando todavia tão extenso que
o pus de parte.
(2) Já ficou dito que o romance de Santa Iria (Ereia, de Erena, Irtne; e por
confusão ElenaJ, em versos de seis sílabas, passou sempre por exclusivamente
português. Vid. Leite de Vasconcellos, Romanceiro, p. 3-4. E também, que graças
a pesquisas novas se encontrou ha pouco em Cáceres, em Leão e na Galiza 'de
onde passaria para o Uruguay, com os emigrantes que continuamente embarcam
em Vigo e na Corunha) — achado feliz, que, a meu ver, confirma e não invalida
a ideia da origem portuguesa e exportação pela fronteira.
334 CAROLINA MICHAELIS DE VASCONCELLOS
O marítimo da Nau Caterineta, de difusão tamanha e ta-
unidade nas lições, isentas de castelhanismos que, embora o
carácter internacional de alguns, ou mesmo de todos os ele-
mentos que o constituem, seja certo (1), o conjunto poderá
passar por português (2") com o mesmo direito com que passam
por castelhanos textos como o da Infantina.
Dos líricos, o da Bela mal maridada; Mal de amores; Tiem-
po bueno; Eola-viuva; Prisioneiro; Fonte /'rida/ (3), todos eles de
afectividade intensa, mas meiga e doce, quasi feminina.
[§ 179] Concluo. Numa nesga da península, aberta, do
lado do mar, a todas as influências estrangeiras, e do lado
cia terra em contacto constante com reinos maiores (hoje uni-
ficados), dos quaes se desagregou no século xn, quando o
heroe nacional já existia, Portugal não tem originalidade,
nem génio criador, diverso do que se desenvolveu nc magní-
fico isolamento do centro castelhano. Colaborou todavia em
todos os ramos, populares e artísticos, esplendidamente em
alguns, tomando a dianteira nas manifestações sentimentaes.
As duas (ou três) literaturas completam-se mutuamente, e em
rigor formam uma só. As poesias de Alfonso X e as de D. Denis
de Portugal, o Amadis, o Palmeirim, a Diana falam claro. J\o
pórtico de entrada, que da idade-média conduz aos tempos
modernos, estão três vultos, igualmente ilustres: um de Tole-
do, outro de Barcelona, o terceiro de Coimbra. Tal qual o
Cancioneiro popular, o Romanceiro é um producto da penín-
sula inteira. As raizes, os cantares de gesta, e o tronco estão
no solo de Castela. Em Portugal ha apenas ramificações (al-
guns dos reflexos, democratizados por jograes). Como flor
e fruto, romances novelescos e líricos. Mas como mais alta
personificação do génio épico e lírico da Hispânia, temos Luis
de Camões. Disse.
(i) Vid. T. A. Coelho, em Revista Lusitana, I, 325.
(2) Isto é: emquanto não se encontrarem em Hespanha textos paralelos que
evidenceiem a existência de um protótipo castelhano.
(3) No vol XIII da Antologia, dedicado a Boscan, o autor expõe com admirá-
vel clareza que o benemérito reformador da poética castelhana não perdeu o cul-
to da pátria, ao prescindir da língua materna. E de passagem estabelece com re-
aç&o ás obras castelhanas de Portugueses que, se a letra é estrangeira, o espírito
é nacional -veredictum que registo, aplaudindo.
índice dos versos de romances
N." PW
1 Ayer fuiste rey de Espana, hoy no tienes un castillo 27
2 Mensajero eres amigo, no mereces culpa, no 32
3 Sobre el partir de las tierras 35
4 Buen Conde Fernan Gonzalez 36
5 Villas y castillos tengo, todos á mi mandar sone 37
<1 Mal me quieren en Castilla los que me habian de guardare 40
7 Los hijo3 de doiia Sancha 41
8 Rey que nom guarda justiça non habia de reinar 42
9 Que a pesar do! Rey de Francia los puertos de Aspa pasó 45
10 Com a candeia na mão [la candeia en la mano] 47
11 De nua parte a cerca o Douro, da outra penha-talhada 48
12 Todos dicen amen amen sino don Sancho que calla 49
13 Afuera, afuera Rodrigo 50
14 Rey don Sancho, rey don Sancho, no digas que no te lo digo 53
15 Riberas de Duero arriba cavalgaron zamoranos 53
16 Que se mataran con três y lo mismo haran con cuatro 54
17 Por aquel (el otro) que se le iba las barbas se está mesando 55
18 Hincado está de rodillas con un crucifixo hablando 56
19 Por aquel postigo viejo que nunca fuera cerrado 57
20 Vi venir pendon bermejo con trescientos de caballo 58
21 Mucho me plaze, el buen rey, de cumplir vuestro mandado 59
22 Helo helo por do viene el moro por la calzada 60
23 Una adarga ante los pechos y en la mano una azagaya C>1
24 Ai Iguai] Valença, guai Valença, de fogo sejas queimada 61 212
25 S'o barrete bem volava la hegoa mljor corria 64 213
26 Amphitrion esforzado bravo va por la batalla 64
27 Ricas aljubas vestidas y encima sus albornoces <i5
28 Yo me estaba em Coimbra, cidade bem assentada 66
29 Poios (pelos) campos de Mondego cavaleiros vi 'ssomar 72
30 Mirando la mar d' Espana como menguaba y crecia 74
31 La flor de la Berbéria 75
32 Caballeros de Alcalá (Moclin), no os alabareis d'aquesta 76
23
338 ÍNDICE
N."
38 Moro alcayde, moro aleayde, el de la barba vellida 77
34 Passeavasc el rey moro 79
35 Pola ve[i]ga de Granada [por la rega do Granada] Hl
36 Y el maestre la conoce y abaxara la cabeza 81
37 A las armas, Moriscote si [e]n ellas quereis entrar
38 Mis arreos son las armas, mi descauso el pelear 85
39 Mi cama las duras penas, mi dormir siemprc [es] velar 86
40 Muliana, Muhana 91
41 Mira, Zaida, que te aviso, quem te avisa, bem te quer 92 214
42 Que su padre era de Ronda y su madre de Antequera !>2
43 Amarrado qual forçado de Dragut 93
41 Vuelta, vuelta los franceses 94
45 Mais vale morrer com honra que demonrado bivir 96 214
46 Las vozes que iva dando ai cielo quieren subir 96
47 Arrenego de ti, MaFoma e de quantos crêem em ti 97
48 Mal ovistes [mala la vistes], los franceses, la caza de Ron-
[cesvalles 97
49 No siendo infante Guarinos peligrastes en la mar 98
50 En polvaredas de ausência perdido por Don Beltran 99
51 Os braços trago cansados [los bra , lleva cansados] 101
52 Em Paris estava DonAlda 102
58 Vamonos, dixo mi tio, a Paris essa ciudad 103
51 No en trajes de romero porque no os conozca Galvan 101
55 Su comer las carnes crudas, su beber la viva sangre 105
56 Caballeros, si a Francia ides, por Gaiferos preguntad 106
57 Dizei-lhe que já è tempo de me venir a sacar 108
58 Sospirastes, Valdovinos, amigo que yo mas queria 111
59 Veinte y dos heridas tengo que cada una es mortal 113
60 Donde estás que no te veo que no te duele mi mal 11 1
61 Ya cabalga Calainos a la sombra de una oliva 115
62 Calainos soy, seãora, Calainos el de Arábia 115
63 Por el tu amor, senora, passe yo la mar salada 116
61 Cata Francia, Montesinos, cata Paris la ciudad 117
65 Los ojos puestos nel cielo juramento iba echando 118
<',<; Durandarte, Durandarte, [Don Duarte, Don Duarte] 119 124
07 Ojos que las vieron ir 120 214
'18 .Salte presto de la cama que parezco un gavilan 127
69 Conde Claros con amores 128
7<» Mas euvidia he de vos, Conde, que mancilla ni pesar 128 216
71 Que los yerros por amores dignos son de perdonar 129 217
72 Nunca fuera caballero de damas tan bien servido 133
7:5 En el mes era de abril de maio antes da festa 136
71 < .Miando la hermosa infanta Florida ya se partia 136
75 Voyme á las tierras estranas adó ventura me guia 137
ÍNDICE 339
N.» PAgs.
76 Que contra la muerte y amor nadie no tiene valia 137
77 Camino dei Elesponto camina el triste Leandro 1 ~> t
78 Entran los Griegos en Trova três a três y quatro a quatro 156
79 Mira Nero de Tarpeya a Roma como se ardia lf><;
■SO (i ritos dan nifios y viejos y el de nada se dolia 156
Quando Roma conquistava 15'.)
80>> Oh fili mihi flli mihi 160
80° Qu'es de la tu hermosura 160
81 Retraída está la Infanta 163
82 Passeava-se Silvana por um corredor um dia 163
83 A cazar va el caballero, á cazar como solia 165
84 Pregonadas son las guerras de Francia contra Aragone 167
85 Tiempo es, el caballero, tiempo es de andar de aqui 169
86 Pêra que pariste, madre, un hijo tan desdichado 170
87 Pariome mi madre una noche escura 172
jue ni poso en ramo verde ni en prado que tenga ílor 174
88b Que si ell agua hallo clara turbia la bebia yo 171
89 Vete de ahi, enemigo, maio, falso enganador 174
90 Por Mayo era, por Mayo 177 218
91 Maldita seas, ventura que assí me hazes andar 182 218
92 Plazer no sabe de mi, cuidado no me fallesce 183
93 Quando más pienso alegrarme mayor pesar me recresce 183
91 El dia que ha de ser triste para mi solo amanece 183
95 Tiempo bueno, tiempo bueno quien te me llevó de mi? 184 218
96 La bella mal maridada de las más lindas que vi L88
97 Maldições de Salaya 199
98 Mi compadre Gomez Árias 201
99 Nunca viera xaboneros 202
100 A ellos, compadre, a ellos 202
101 A menudo sospirando, hablando de tarde en tarde 208
1C2 Los bordones que ellos llevan, lanças vos parecerane 204
103 Y que nuevas me traedes de mi amor que allá era 204
101 A que muerte condenado puedo ser que grave fuese 204
105 Si no muere este desejo moriré yo deseando 205
li >6 Que ya no es en mi mano el querer no ser querido 205
107 Naves de la tierra mia, venid ora y llevadme 205
108 Pues que sufrir y callar cohviene a mi pensamiento 205
109 Por los canos de Carmona 206
110 Saliendo de una monlana 206
111 Triste, sola, emparedada 206
112 Al tiempo que el sol salia 206
11.'. Media-noche con lunar 206
1 1 1 Las noches siempre acordadas 206
115 Yo le daria, bel conde, quanto darsele podia 206
340 ÍNDICE
N." PágS.
116 Olá olá! que tocan ai arma, Juana 207
117 El aspid anda en las Hores 208
118 Sobre mi vi guerra armar 2» >8
119 Eu me sam Dona Giralda 200
120 Os que me soem guardare [Los que me habiau de guardar] 209
121 Pelos campos de Salsete- 210
<&>-
índice alfabético dos romances citados
13
24
43
N.» P6ga.
A Calatrava la Vieja Vid. Los hijos— Mal me quiereu 39
83 A cazar va el caballero, à cazar como solia 165
100 A ellos, compadre, à ellos, que ellos xaboneros sou Vid. Mi
[compadre— Nunca viera i02
j A las armas, el buen Conde 83
37 ', A las armas, Moriscote 81 314
( A las armas, rey dei cielo 83
101 A menudo suspirando, hablando de tarde en tarde 203
104 A que muerte condenado pu[e]do ser que grave fuese 204
A Roma como se ardia Vid. Mira Nero de Tarpeya 156
i Afuera, af uera, pensamientos mios 50
] Afuera, afuera, Rodrigo, el soberbio castellano 51
j Afora, Afora Rodrigo, o soberbo castelhano 52 320
(Afuera, consejos vanos 51
Aguardando estaba Hero el amante que solia 155
\ Ai Alfama, minh'Alfama que mestavas mal guardada 62 79
(Ai Valença, guai Valença, de fogo sejas queimada 61
Al amor y á la fortuna no hay defension ninguna 184 14'J
Al pie de una verde haya estaba el moro Galvan 91
Al pie dei mar d'Elesponto estaba el fuerte Leandro 154
112 Al tiempo que el boi salia 206
Albuquerque, Albuquerque, merecias ser honrado 75
\ Alfaleme en la cabessa 61 7(i
| Alhaleme en su cabeza 70
(Amarrado ai duro banco de una galera turca 9 '•
(Amarrado ... qual forçado de Dragut 93
26 Amphitrion esforçado bravo va por la batalla li |
Angeles, si ai cielo ides Vid. Caballero 10',)
Ao longo de uma ribeira 123, 262 29S
Apesar de los franceses dentro eu la Francia entro 44
Apesar dei rey de Francia los puertos de Aspa pasó 1 1
47 Arrenego de ti, Mafoma e de quantos crêem em ti 97
Arriba, canes, arriba, que rabia mala os mate 88
As filhas de Dom Beltrane l< > 1
32
64
342 ÍNDICE
N.» !':■:' .
97 As maldições de Salaya 2<>o
A's pancadas, mo[u]riscote
Asentado está Gaiferos en el palácio real 101
Atan alta va Ia luna como el sol á médio dia 1 10
Atrás, atrás, los franceses !H
Ay de mi Alfama 73
Ayer era rey de Espana, hoy no lo soy de una villa 27
Ayer fuiste rey de Espana, Vid. Las huestes de don Rodrigo 27
Bem se passeia Moirito de calçada em calçada 212
Bravo vapor la batalla Vid. Amphitrion — Ese buen Cid 64
4 Buen Conde Fernan Gonzalez 36 37
56 Caballero, si á Francia ides por Gaiferos preguntad IQ6 -"II
Caballeros de Alcalá, no os alabareis de aquesta 76,77 310
Caballeros de Moclin 76
Cada dia que amanece veo quien mato à mi padre 42
62 Calainos soy, senora, Calainos el de Arábia 115
77 Camino dei Elesponto camina el triste Leandro 1 f> l
Castellanos y leoneses tienen grandes devisiones 35
Cata Francia, Montesinos, cata Paris la ciudad 11.7
Cata Francia, pensamiento. 1 17
Cativaron a Guarinos, almirante de las mares 93
Com lágrimas e soluços 271
Comiendo la carne crua, bebiendo la roja sangre 89 105
Con cartas y mensajeros Vid. Mensajero 32
Con el rostro entristecido y el semblante demudado 55
ICon la grande polvareda perderan á don Beltran 100
jCon la mucha polvareda perdimos á don Beltrane 99
Con pavor recordo el moro Vid. Mis arreos son las armas 90
80b Con rabia está el rey David rasgando su corazon 160
69 Conde Claros con amores no podia reposar 126 128
Guando yo naci Vid. Parióme mi madre 172
De Antequera sale el moro Vid. La flor de la Berbéria 76
De Francia salió la nina, de Francia la bien guarnida 166
De la luna tengo quexa Vid. Maldita seas, ventura 181
96b De las mas lindas que vi Vid. La bella mal-maridada 188
De los osos seas comido como Favila el nombrado 198
De Mantua salio el Marquês Vid. Donde estás— Veintey dos 113
De ti, casto Scipião 274
De Roma sahe Pompeo 274
De uma (nua) parte a cerca o Douro, da outra penha-talhada 19
/ De una parte la cerca el Duero, de otra pena tajada 49
Déjame, triste enemigo, maio, falso, mal-traidor 174
Descubrase el pensamiento Vid. Pára que pariste, madre 171
Despues que el rey don Rodrigo á Espana perdido habia 26
11
66
ÍNDICE 343
tf.* Paus.
Dezanove de Dezembro perto era do Natal 270
Dezidle que ya es tiempo de me venir á sacar 100 1 07
Dia era de los reyes Vid. Rey que non face justicia 42
Diante os muros de Troya 271
Dios dei cielo, Rey dei Mundo 271 312
57 Dizei-lhe que já é tempo Vid. Dezidle 108
Do la yegua pone el pie Babieca pone la pata 64
Doliente estaba, doliente Vid. La candeia en la mano 15
Dom Rodrigo, dom Rodrigo rei sem alma e sem palavra 26
Domingo era de ramos Vid. Las vozes— Mas vale— Renie-
[go— Vuelta !) I
Dona Isabel se pasea en su palácio real 73
60 Donde estás que no te veo Vid. De Mantua salió el mar-
[quês 83 111
\ Don Duarte, don Duarte, mal caballero probado 1 1!»
< Durandarte, Durandarte, buen caballero probado 119,121 8U
El afio de cuatrocisntos Vid. Ayer— Que ayer 28 76
117 El aspid anda en las flores alerta, alerta, zagales 208
El cielo estaba nublado, la luna su luz perdia 155
94 El dia que ha de ser triste para ml solo amanece 183
52 Em Paris estava don' Alda 1<»2
Em Vilafranca do Campo que de nobre procedia 275
En Burgos está el buen Rey Vid. Rey que non face justicia 12
En Ceuta está Don Rodrigo, en Ceuta la bien nombrada 27
73 En el mes era de abril, de maio antes da festa 1 !•',, 1 13 ss. 312
En el mes era de abril, de maio antes un dia 21, 136 271
En figura de romeios no nos conozca Galvan 103
En las salas de Paris Vid. Los ojos puestos nel cielo 116
En los campos de Al ventosa mataron á don Beltran 100
En Paris está dona Alda 102
50 En polvaredas de ausência perdido por don Beltran 99
En Saucta Gadea de Burgos Vid. Mucho me plaze, el buen
[rey 59
J8 En Trova entran los Griegos, três á três, y quatro á quatro 156
Encontrado se ha el buen Cid Vid- Bravo va por la batalla 64
Enfermo el rei de Castela em cama de prata estava 48
78 Entran los Griegos en Troya Vid. En Troya 15(5
Era uma quarta-feira quarta- feira, triste dia 152
Erros [por amores] que sam pêra perdoar 314
Use buen Cid Campeador bravo va por la batalla 64
Esperan/.a me despido Vid, El dia— Plazei — Quando mas
Estava a bela Infanta no seu jardim assentada 227
Eu me era moça menina por nome dona Inês 70, 209 298
119 Eu me sam Dona Giralda 71. K»2 209
344 ÍNDICE
N.° PàgM,
Falso, maio, enganador Vid. Ladrão- Maio 173
Fili rni Jesu, Jesu O mi Jesu fili mi 160
Fontefrida, fontefrida Vid. Deja-me— Maio- Que ni poso—
[Que ell agua 173 810
Gram-Bretanha desleal 271
Gritando va el caballero, publicando su gran mal 21, 220, 230 297
80 Gritos dan niiios y viejos Vid. Mira Nero 156 158
Guarte. guarte, rey don Sancho 52
24 Guay Valência, guay Valência, de mal fuego seas quema-
[da 61 287
Hablando estaba la reiua en cosas bien de notar 47
22 Helo helo por do viene Vid. Guay— Si el caballo— Una adar-
[ga 13, 15, 60, 75 333
18 Hincado está de rodillas con un crucifixo hablando 56
Hontem eu tinha coroa, e hoje não tenho nem meia 98
Hora es, el caballero, hora es de andar de aqui 170
96a La bella mal-maridada de las mas lindas que vi 1?8, 297, 310 333
La cosa que mas queria Vid. Sospirastes 111
31 La flor de la Berbéria Vid, De Antequera 75
Ladrão, perro, enganador Vid. Fontefrida 174
Las armas son mis arreos Vid. Mis arreos
Las huestes de don Rodrigo desmayaban y huian 27
114 Las noches siempre acordadas 206
46 Las vozes que iba dando ai cielo quieren subir 96
102 Los bordones que ellos llevan lanças vos pareceran 103 204
51 Los brazos lleva (trago- traigo) cansados Vid. En los cam-
[pos— Por la matanza 100, 101 311
7 Los hijos de dona Sancha Vid. A Calatrava 41
G5 Los ojos puestos nel cielo juramento iba echando 118
Los pies tiene cara oriente y la candeia en la mano 46
120 Los que me habian de guardar Vid. Mal me quieren— Yo
[me estaba en Barbadillo 40 209
45 Mais vale morrer com honra que deshonrado vivir 95 314
Majadero sois, amigo Vid. Mensajero 32
6 Mal me quieren en Castilla Vid. A Calatrava 40
IMal ovistes, los franceses, la caza de Rcncesvalles 98
Mala la hubistes Vid. Mala la vistes
Mala la vistes, franceses, la caza de Roncesvalles 97
97 Maldiciones de Salaya 200, 286 293
91 Maldita seas, ventura que asi me haces andar 181 182
IMalo, falso, enganador Vid. Fontefrida
ÍMalo, falso, mal-traidor Vid. Fontefrida
Mandadero sois, amigo Vid. Mensajero 34
Manhanas de S. João pelas manhans do alvor 218
ÍNDICE
70
113
2e4
79
11
80
B8
33
21
40
Más envidia he de vos, Conde, que mancilla ni pesar 126, 128
IMás vale raorir con honra que no vivir deshonrado
JMás vale morir por buenos que deshonrados vivir
Medianoehe con lunar
los gallos querian cantar
no mereceis culpa, no 32, 36
no mereceis culpa, no
no teneis que me culpar
Medianoehe era por filo
IMensajero eres, amigo,
Mensajera sois, amiga,
Meusajero soy, seuora,
39 Mi cama las (sou) duras penas, mi dormir siempre (es) ve-
[lar 85
98 Mi compadre Gomez Árias que mal-consejo me dió
42 Mi padre era de Ronda y mi madre de Antequera
Mi regoeijo es llorar
Minha Alfama Vid. Ai Alfama
Minhas galas são as arm.is meu descanso pelejar Vid. Mis arreos
Mira, Juana, que te digo que no baxes á la calle
1 Mira Nero de Tarpeya a Roma como se ardia 156,159
i Mira Nero da janela la nave como se hazia
\ Mira, Zaida, que te aviso; quem te avisa, bem te quer
I .Mira, Zaida, que te digo
Miraba de Campoviejo el rey de Aragon un dia
iMiraba la mar de Espana, como menguava y crescia
) Mirando la mar de Espana como menguava y crescia
Mirando va el crucifixo y d'esta manera hablando
I Mis arreos son las armas, mi descanso el pelear 81
iMis arreos sou muchos cuentos, mi descanso es el burlar
Mis letras son estalagens y pulgas mi estudiar
Mis vestidos son pesares
Montesinos, Montesinos, mal me aqueja esta lanzada
Moriana en un castillo juega con el moro Galvan
Moriana, Moriana, principio y fin de mi mal
Morir vos queredes, padre Vid. De una parte— Todos dicen
Moro alcaide, moro alcaide, el de la barba vellida
Mucho me place el buen rey de cumplir vuestro mandado
Muliana, Muliana
Naquela montanha Idea
107 Naves de la tierra mia, venid ora y llevadme
Nina era la Infanta
54 No en trajos de romero porque no os conozea Galvan
No murio por las tabernas
49 No siendo Infante Guariuos r eligrastes en la rnar
No templo de Apolo, Achlles
Nuestro comer es morir
72 Nunca fuera caballero de damas tan bien servido
91
270
297
202
93
87
79
86
214
221
157
92
92
74
75
75
55
86
S8
86
90
120
88
91
48
77
59
102
274
205
312
104
59
98
274
87
133
346 ÍNDICE
N." PAgw.
99 Nunca viera .vaboneros tan bien vender su xabou
0 caçador foi á caça, á caça como soia 227
Oh Bel erma, oh Belerma Vid. Ojos — Olhos 120
80*> Oh fili niihi, iili inihi oh fili mihi Absalon 160
Oh Valença, oh Valença de fogo sejas queimada 212
67 j Ojos que nos (la los) vieron ir, nunca nos veran en Fran-
[cia 120, 122, 215 2!>7
|Ojos que vos vieren ir nunca vos veran tornar 330
116 \0lha[i] que a vedes ir, não-na vereis cá voltar 122
Olhos que a viram ir não-na viram cá voltar 215
Olhos que me viram ir nunca me verào tornar 122, 314 330
Olhos que vos virom (viram) ir nunca me verào tornar 122, 31 1 330
( >lá olá, que tocan ai arma, Juana 207
51 Os braços trago cansados Vid. En los campos de Alventosa 101
Os presos contam os dias, mil anos por cada dia 265 268
120 Os que me soem guardare Vid. Los que 209
86 Para que pariste, madre, uu hijo tan desdichado 170
Para que venistes, hijo, á madre tan desdichada 172
87 Pariome mi madie una noche escura 172 173
Paseaba-se el rey moro por la ciudad de Granada 78 80
34 Passeava-se el rei mouro 79
82 Passeava-se Silvana por um corredor um dia 163 164
29 Pelos campos de Mondego cavaleiros vi [ajssomar 66, 72 73
121 Pelos campos de Salsete mouros mal-feridos vão 210 228
Pensando-vos estou, filha, vossa mãe me está lembrando 123, 263 298
Pêra que Vid. Para que 171
Perguntad allá en la corte, por la virtud y os diran 109
Pesa-me de vos, el Conde, porque asi os quieren matar 129 311
21 Pláceme, dijo el buen Cid pláceme, dijo, de grado 59
Pláceme, dijo, senor, ciímplase vuestro mandado 59
Pláceme, di jo, senor, por cumplir vuestro mandado 59 146
92 Plazer no sabe de mi, cuidado no me fallece 183
Pola ribeira de um rio que leva as aguas ao mar 123, 262 266
35 Pola veiga de Granada el rei mouro passeava 80
Poios campos de Mondego Vid. Pelos. 72 78
(i 1 Por amor de vós, senora, pasé yo la mar salada 116
19 Por aquel postigo viejo que nunca fuera cerrado 37, 57 289
17 Por aquel que se les iba las barbas se está mesando Vid. Ri-
[beras 54
Por el brazo d'Elesponto Leandro va navegando 151
Por el mes era de mayo Vid. Por mayo era 178
Por el otro que se le iva Vid. Por aquel 55
Por el tu amor Vid. Por amor de vós 116
Por Guadalquebir arriba cabalgan caminadores 05 75
ÍN0ICE 347
N.« Páps.
Por la matanza va el viejo 100
35 Por la vega de Granada un caballero pasea Vid. Y el
[maestre 80
Por los campos de Mondego Vid. Pelos— Poios 73
Por los campos de Monvela 73
109 Por los canos de Carmona por do va el agua a Sevilla 200
Por Mayo era por Mayo, ocho dias por andar 180, 271 312
!» ) Pot Mayo era por Mayo, quando los grandes calores 178, 170 310
Por tus amores, senora, vine de allende la mar 117
Por uno que se le iba Vid. Por aquel
Por un valle de tristura, de placer muy alejado 59
Pranto fazem em Lisboa 270
Postos estão frente a frente 27!)
84 Pregonadas son las guerras de Francia contra Aragon 167 16H
Preguntando está Florida Vid. Mi padre 93
Príncipes e emperadores 274
Pues que a Portugal partis, pensamiento, preguntad 109
108 Pues que sufrir y callar conviene á mi pensamiento 205
Quando de Francia partimos hecimos pleito-homenaje 99
7 1 Quando la hermosa infanta Flerida ya se partia 136
93 Quando más pienso alegrarme, mayor pesar me recresce 183
86a Quando Roma conquistava 159
Quando yo naci Vid. Cuando— Pariome 172
9 Que apesar dei rey de Francia los puertos de Aspa pasó 45
Que ayer era rey famoso y hoy no tengo cosa mia 28
Que contra fortuna e amor não ha torça nem poder 137
76 Que contra la muerte y amor nadie no tiene valia L84 137
Qu'e8 de ti desconsolado Vid. Reniega ya de Mahotna .".1 1
71 Que los yerros por amoreB dignos son de perdonar 129, 297 311
88 Que ni poso en ramo verde ni en prado que tenga flor 171
Que nunca vi xaboneros Vid. Nunca
\ Que os erros por amores são dignos de perdoar 129
' Que os erros por amores erros são de perdoar 217
„ \Qu'é de minha formosura 160
( Qu'es de la tu hermosura? tu estremada perfecion 160
Que por veros, mi senora, pase yo la mar salada 117
16 Que se mataran con três y lo mismo haran con quatro Vid.
[Riberas 55
88b Que si ell agua hallo clara turbia la bebia yo 174
42 Que su padre era de Ronda Vid. Mi padre 93
100 Que ya no es BB mi mano el querer no ser querido 205
Quietos, quietos, cavaleiros que el rei vos manda contar L00
Recordado habia el conde 90
Remando vão remadores 27<» 812
3*8 ÍNDICE
N.°
Páer*.
47
81
14
15
68
í Reniega ya de Mahoma ;x;
1 Reniego de ti, amor, y de quanto te servi %
jReniego de ti, Mahoma, y de quanto hice en ti 96
[Reniego de ti, Mahoma, y de tu secta malvada 96
í Retraída está la infanta bien asi como solía 161,162 168
(Retraida está la infanta que no está como solla 161
Rey don Sancho, r. d. s., cuando en Castilla reiuó 48 1 1
l Rey don Sancho, rey don Sancho, no digas que no te aviso 52
I Rey don Sancho, rey don Sancho, no digas que no te lo digo 52
iRey que non face justicia non debia de reinar 42 815
/Rey que nom guarda justiça nom había de reinar 42
vRiberas de Duero arriba cabálgan dos zamoranos 53
| Riberas de Duero arriba cabalgaron zamoranos 58
27 Ricas aljubas vestidas, encima sus albornozes 65
Saio, se a aljabebes ides, por dineros perguntad 107
110 Saliendo de una montaria 206
Salir quiere el mes de marzo 136
l Salte presto de la cama que parezco un gavilan 126
(Salto diera de la cama que parece un gavilan 126
ISe a Babeca corre muito, o meu cavalo voava 213
SI e 1 o barrete bem voiava, la hegoa mijor corria 61 319
Se o cavalo b< m corria, a egoa melhor voava 63
Sentado estava Galfeiro em taboleiro real 104
Ser des mesageyro, amigo, que nom tendes culpa, nom 32
Si d'amor pena sentis 106
25 Si el caballo bien corria la yegua mejor volaba 64,213 297
Si hábeis (has) de tomar amores 188
Si is a Francia, el cavallero, por Gaiferos perguntad 109
105 Si no muere este desejo (sic) moriré yo deseando 205
Soberbo está Portugal 275
3 Sobre el partir de las tierras Vid. Castellanos y Leoneses 35
118 Sobre mi vi guerra armar 208
Sospiraudo a menudo Vid. Amenudo 203
58 Sospirastes, Valdovinos Vid. Tan claro 111
Sospiros, que ai cielo ides Vid. Caballero 108
55 Su comer las carnes crudas, su beber la viva sangue 105
42 Su padre era de Ronda Vid. Mi padre -Que su padre 93
Sus adargas ante los pechos Vid. Una adarga
Sus arreos Vid. Mis arreos 86
Tan claro hacia la luna como el sol a medio-dia Vid. 110
Tanta Zaida y Adalifa tanta Draguta y Daraja 36
ITiempo bueno, tiempo bueno, quieu se te llevó de mi? 129
T219, 228, 298, 311 334
Tiempo bueno, tiempo bueno, mal me aproveché de ti 184 186
ÍNDICE 349
N." Paga.
95 Tiempo de plazer cumplido, quien te me ipartó de mi 187
85 Tiempo es, el caballero, tiempo es de andar de aqui 169 311
12 Todos dicen ainen, amen sino don Sancho que calla 49
111 Triste, sola, emparedada 206
23 Una adarga ante los pechos y en la (sa) mano una azagaya 61
Un gallardo paladin aunqnc invencible vencido Vid. En
[polvaredas 99
53 Vamonos, dixo mi tio, a Paris esa ciudad Vid. No nos— En
[figura 102 103
59 Veinte y dos heridas tengo que cada una es mortal 113
Venid, venid, amadores, quantos en el mundo son 2z9, 281,
217 297
89 Vete de ahi, enemigo maio, falso, enganador 174
20 Vi venir pendon vermejo con trecientos de caballo 58
iVillas y castillos tengo, todos á mi mandar sone 37
_ jVillas y castillos, Cide, me han dicho que hábeis ganado 37
iVillas y cibdades tengo y freires á mi mandado 37
Vi nas y castillos, Cide, me han dicho]que hábeis ganado 37
Vocês daban prisioneros 271 312
75 Voyme a (las) tierras estranas adó ventura me guia 137
44 Vuelta, vuelta, los franceses! 94
Y asi con la polvareda perdimos á don Beltrane 99
36 Y el maestre la conoce y abaxava la cabeça 81
10 Y la candeia en la mano Vid. Doliente— Los pies 46
103 Y que nuevas me traedes dei mi amor que allá era 76 204
Ya cabalga Calainos á la sombra de una oliva Vid Calainos 115
Ya piensa Don Bernaldino 264
Yerros por amores Vid. Que los yerros— Y los yerros
Yerros son solo en amores indignos de perdonar 129
Yo estando en Guadelupe, en silla de oro sentado 69
115 Yo le daria, bel conde, quanto darsele podia 906
28 Yo me estaba em Coimbra, cidade bem assentada 67 271
Yo me estaba en Barbadillo en esa mi heredad 39 68
Yo me estaba en Tordesillas 68
Yo me estando en Giromena 68 72
INDIGE DE NOMES E DE COISAS
Afonso (Gregório), 97, 260, 292,
295.
Africano (o Grande), 124, 229,
232, 247, 248, 289. Vid. Mene-
ses (D. João).
Agraz, 278.
Ali Pelayo! que desmayo, 107.
Alá tens meu coração, 207.
Al buen c aliar llaman sancho
(Sancho), 49.
Albuquerque (Afonso de), 282.
(Garcia de), 254,
282.
Alcacer-Quebir, 27, 279.
Aloalá Ben-Zaide, 78.
Alfama, Alhama, 02, 77, 78, 214.
Alfonso V de Aragão e Nápoles,
74.
Alfonso XI de Castilla, 331.
Almeida (Anrique de), 251, 291,
320.
Almeida (Gil Vicente de), 125,
137, 292.
Almeida (D. Pedro de), G4, 257.
Almeida-Garrett, 6, 7, 9, 11, 104,
135, 141, 162, 164, 166, 262.
Almela (Rodríguez de), 29.
Almourol, 277.
Alora la bien cercada, 49.
Alvares (Afonso), 261.
Álvaro (músico), 308.
Alvito (Barão de), 253.
Amaral (Carlos A. Monteiro do),
322.
Andrada (Miguel Leitão de), 56,
279, 294.
Andrade (Vid. Andrada).
Antologia de Menéndez y Pelayo,
286.
Antre Sintra a muy prezada, 265.
Apialid, 261.
Arbolancbe (Jerónimo de), 195.
Arrenego», 97, 261, 263, 286.
Ataíde (D. Luis), 156.
Aulegrapliia, 53, 84, 86, 94, 95
112, 125, 167,204, 272, 281.
auto da Ave Maria, 77, 119, 206.
da Barca da Gloria, 41, 95,
97.
da Barca do Inferno, 202.
da Cena policiana, í)7.
da Ciosa, tiO.
da Fragoa do Amor, 191,
25 1 .
da Lusitânia, 48, 61, 192,
287, 324.
da Romagem dos Agrava-
dos, 180, 206.
das Regateiras, 193.
de D. André, 125, 137.
de D. Duardos, 138, 137,
204,
de Filodem», 20, 30, 38, 85,
246.
352
ÍNDICE
Auto de Guiomar do Porto,
138, 292.
de Inês Pereira, 40.
de Quem tem fardos, 47,
180.
de Rodrigo e Mendo, 53, 60,
130, 133, 136, 192, 206.
<\e Kubena,dl, 97, 1U2, 164,
169, 192.
de Valdevinos, 111.
dei Rei Seleuco, 86,127, 130.
dei Triumpho dei Sacra-
mento, 185.
do Desembargador , 63, 84,
128,137, 158, 171.
do Duque de Florença, 79,
292.
do Fidalgo- Aprendiz, 164.
do Físico, 208.
do Juizo final, 160, 292.
do Marquês de Mántua, 112.
do Procurador, 103, 119, 130.
158, 171.
do Purgatório, 48, 312.
do Templo d' Apolo, 32, 315.
do Triumpho do Inverno,
307.
do Triumpho do Verão, 191.
do Velho da Horta, 241.
dos Almocreves, 68.
dos Amphitriões, 64, 116,
137, 174, 321.
dos Cantarinhos, 60, 63, 78,
107, 119, 137, 200.
dos Dois Irmaòs, 86, 119,
172.
Auto dos Físicos, 180, 206.
Autos de Afonso Alvarez, 290.
Fernão Mendez, 29o.
Francisco Vaz, 290.
Avisos para guardar, 97, 199,
261, 298.
Ayala (Bernardino de), 197.
Azamor, 242.
Azevedo (Luis de), 278. •
— (Rodríguez), 213.
Bahieca, 211.
Baist (G.), 327, 330, 331.
Badajoz (Garci Sánchez de), 229,
231, 248, 263, 293, 304.
Badajoz (João de), músico, 309.
Baena (Alfonso de), músico, 309.
— (António de), músico, 309.
— (Gonzalo de), músico, 309.
Barão (O), 253.
Vid. Alvito e Silveira.
Barata (A. F.), 280, 282.
Barcelor, 156.
Baroche. Vid. Meneses, 283.
Barreiros (Gaspar), 29, 236.
Barreto (Álvaro), 302, 303.
— (Francisco), 284.
Barros (João de), 140, 209, 223,
241, 246, 282, 295, 298.
Bayahona (Pêro), músico, 309.
Bela infanta, 207, 227, 275, 293.
Bela mal maridada. Vid. Bella.
Belerma, 119, 297.
Bella infanta, 227, 275.
Bella mal-maridada, 14, 188ss,
250, 252, 260, 270, 286, 289,
291.
O texto, publicado por Delbosc, tem o teor seguinte:
La bella mal maridada de las mas lindas que yo vi,
veote trist' enojada, la verdad dímela tu a mi.
Si has de tomar amores, vida non dexes a mi.
Bollermann (Ch. Fr.), 152, 153.
BeUrane (Beltrão), 99, 101, 113.
Berra urio (Juan), 311.
Bernardez (Diogo), 100, 172, 291,
294.
Bilinguismo dos Judeus peninsu-
lares, 62, 95.
Bilinguismo dos Portugueses (de
1450 a 1640), 256, 320.
Bonilla (y San Martin), 110, 133,
302, 318, 330.
Bom Conde. Vid. González (Fer-
não).
Boscan, 185, 262, 334.
Braamcamp-Freire (Anselmo),
236, 237, 241, 251, 312.
Braga (Teófilo), 5, 6, 7, 9, 11, 19,
41, 69, 70, 77, 90, 104, 105,
107, 112, 129, 138, 162, 166,
172, 188, 202, 222, 234, 249,
277, 289, 296, 300.
Bragança (Constantino de), 156.
Brandão (António Pereira), 120.
Brito (Álvaro de), 240r 278, 302.
— (Duarte de), 121, 246, 252.
292, 297.
Brito Rebello (J. I.;, 236, 239.
Brito-Aranha (Pedro W. de), 139.
Burgos (Diego de), 20.
Burguillos, 185, 195.
Cabral (Jorge), 282.
Calainos Copla* de), 115, 199.
Câmara. Vid. Padion.
Caminha (A. Lourenço), 69, 176.
— (Pedro de Andrade), 45,
50, 51, 59, 98, 154, 172, 186,
279, 294, 311.
Camões (Luis de), 30, 37, 38, 47,
50, 51, 53, 54, 74, 85, 105, 115,
127, 130, 137, 172, 174, 246,
287, 294, 321, 332, 384.
Çamora. Vid. Zamora.
ÍNDICE 353
Campo (Florian do), 17.
Cananor, 282.
Câncer y Velasco, 51, 122, 129,
L56.
Cancioneiro da Ajuda, 16, 216,
300.
Cancionero de Encina, 304.
Cancionero de Estuniga, 304.
Cancioneiro de Évora, <>, 51.
Cancioneiro de Luis Franco, 2»i3.
Cancioneiro de Modcna, lfj.
Cancioneiro de Paris, 185, 186,
197.
Cancioneiro de romances, 135,
137, 155, 166, 170, 171, 173,
178, 180, 190, 305, 306.
Cancionero de Valdivielso, 136.
Cancionero General, 173, 178,
181, 194, 230, 248, 303, 305,
306.
Cancioneiro Geral, publ. por A.
T. Barata, 280, 282.
Cancioneiro Geral, 28, 30, 48, 97,
121, 131, 134, 184, 18(í, 217,
248, 299, 303.
Cancionero Gallego-Castelhano ,
301 .
Cancionero Musical, 28, 75, 77,
125, 169, 174, 188, 194, 226,
239, 244, 304, 305, 309, 310,
313, 315.
Cancionero Rennert, 16, 51, 124,
173, 174, 181, 182, 231, 232,
304.
Cancioneiros (em geral), 296.
Candeia (Candeia) na mão dos
moribundos, 46 e 345.
Cfr. Gil Vicente III, 288.
Cantar guayado, 40, 62.
Cantares paralelístiscos, 208.
Cantares velhos, 324.
Canto» de romaria, 296, 299, 326.
24
354
ÍNDICE
(■anos (de Carmona), 110, 205.
— (de Sevilha), 110,206.
Capelas imperfeitas da Batalha,
239.
Carasa, 174.
Cardona (Alonso de), 180, 229.
Cardoso (Jorge), 275.
Carlos Magno, SI .
Carmona. Vid. Canos.
Carpio (Bernardo dei), 81, 100,
112.
Carta I da Africa (em trovas),
57, 74, 95, 128, 182,
183, 18G, 203, 245.
— 11 da Africa (em trovas),
57, 58, 61, 65, 74, 75,
76, 83, 96, 116, 203,
245.
— 1 da índia (em prosa), 83,
105, 130.
— II da índia (ou de Ceuta),
51.
— III (em prosa), 85.
Carta de Crisfal, 267.
Carta- Proémio do Marques de
Santilhana, 30.
Cartas de Egas Moniz (apócri-
fas), 47.
Cartagena (D. Alfonso), 301.
— (Pedro de), 238.
Carvajal (Diego dei, 197.
Carvajales (Miguel de), 20, 265,
304, 305, 329.
Casada sem piedade, vosso amor
me ha de matar, 239.
Castanheda, 282, 295.
Castélhanismos emromances tra-
dicionaes de Portugal, 153,
323 ss.
Castelhano, linguagem épica da
península, 11, 20, 21, 311 ss.
Castellvl (Coinmnlador), 221».
Castillejo, 41,170, 185, 1 «.)(,.
Castillo (Hernan dej, 303, 304.
Castro (António Serrfio dej, 92,
122, 159.
— (Inêa de), 66, 68, 114,132,
176, 209, 240, 259, 298.
Cataldo Sículo, 238, 257.
Captivo são de captiva, 246.
Cava, 29
Vid. Poema da Cava.
Cavalo que fala, 100.
Ila outro exemplo no Cancio-
neiro transmontano, N.° 47.
Cego (0), musico, 309.
Cegos (jograes), 293.
Cepeda ^Joaquin Homero de),
186.
Cervantes, 20, 51, 88, 114, 117,
125, 132, 199,265.
C ..ia (Grutierre dej, 245.
Chamisso (Adalbert von), 173.
Chiado Vid. Ribeiro (António).
Cid, 13, 18, 19,47,286.
Clemencín,. 10.
Coelho (F. A.), 6, 7.
Coitadinho de quem morre, 205,
220.
Coloma, 196.
Comedias:
Vid. Aulegrafia, 287.
Estrangeiros, 193.
Eufrosina, 287.
Clysipo, 287.
Vilhalpandos, 65, 201,
202.
Como dormirão meus olhos, 310.
Conde Claros, 125, 132, 287, 333.
— Dar os, 167.
— Nilo (Ninho), 139, 333.
Condestável (D. Pe^ro de Portu-
gal), 249, 301, 302, 30:;.
Contos populares, 164.
ÍNDICE
355
Coplas de Calainos, 199.
Coplas de Jorge Manrique, 239.
Coração de carne crua, 116.
Cornu (Jules\ 330.
Corral (Pedro de), 20.
Corrêa (Gaspar), 30, 282, 295.
— (Gonzalo), 129.
Cortesano. Vid. Milán.
Costa e Silva, 168.
Cotarelo, 309.
Couto (Diogo do), 43, 103, 120,
155, 157, 210, 282, 283, 295.
Crasto. Vid. Castro.
Crisfal. Vid. Falcão (Cristóvam).
Crónica de D. Fernando IV, 46.
de D. Francesillo, 41,
170, 197,309.
do Mouro Rasis, 29.
General, 17, 18, 29, 303.
Rimada, 18, 33.
Sarracena, 26, 27, 29.
Cruz (Frei Agostinho da), 294.
— (Frei Bernardo da), 27,
295.
Cueva (Juan de la), 273.
Cultura Espanola, 6, 117.
Cunha (Nuno da), 283.
Danaso (Cantor) (?), 40.
Delbosc (R. Foulché Delbosc),
286, 306.
Deça (Duarte), 12.
Descordo, 263.
Desfeita, 226, 227, 271.
Deshecha, 226, 227, 274.
Décadas da Ásia. Vid. Barres,
Couto.
Deslandes, 117.
Diablo Cojuelo, 101.
Diaz (Baltasar), 110, 112, 161,
162, 227, 228, 275, 293.
J)ido (Carta a Eneas), 258.
Disparates, 261.
Disparates da índia, 37, 54, 86,
92.
Donzela-varão (romance da), 166,
287. .
Duardos e Florida, 107, 133ss,
228, 270, 276, 287, 328.
Duarte (Rei D.), 302, 307.
Durandarte, 118, 217, 297.
Eparagógico, 89, 209, 319.
Egloga de Silvestre e Amador,
123, 304.
Eglogas, 293.
En toda la trasmontana, 247.
Encina (Juan dei), 125, 229, 230,
264.
Encyclopedia Republicana, 7.
Enriquez (Fadrique), 195.
Ensaladilla (publicada por F.
Wolf), 36, 39, 42, 53, ".0, 78,
83,98, 104, 118, 119, 128,155,
162, 166, 173, 178, 184, 230.
Entra mayo y sale abril, 136.
Epitáfios satíricos, 84, 281.
Escobar (Nicolás de), músico,
309.
Eatuniga, 304, 305.
Estana (Bartolomé Villalba y),
45.
Eufrosina, 36, 57, 81, 116, 120,
125, 171,202,273.
Falcão (Cristóvam), 120, 193, 268,
265, 289, 292, 310.
Farsa Vid. Auto.
Fernández (Álvaro), músico, 308.
— (Jorge), Vid. Frade
da Bainha.
Fernández (Lucas), 809.
Fernández-Thomas (Pedro), 7.
Ferreira (Dr. António), 291, 820.
Filodemo Vid. Auto.
Fita (Arcipreste de\ 225, 302.
Flerida. Vid. D. Duardos.
N»ICt
Floreêta de vários romances, 277.
Valhas volantes, 111, 162, 261,
262,279, 298,304.
Vid. Pliegos sueltos.
Folheto de Ambas Lisboas, 138.
Fonte (Fontes), cantor, 309, 31 1.
Frade da Rainha, 24G.
Francês (versos era fr. no Canc.
Ger.), 239, 308, 333.
Francisquilho (truão de Car-
los V), 309.
Frutuoso (P. Gaspar), 276.
Fuonllana, 82.
Fuensalida (Conde de), 243, 248.
Fuentes (Alonso de), 226.
— (Diego de), 197.
Furtado (Jorge), 279.
— (Margarida), 252.
Gabelo (Cavalo), 213.
Gabriel, o músico, 194, 195.
Gaiferos, 11, 48, 96, 102, 122,
287.
Galan (Un), 231.
Galvão (António), 283.
Gama (D. Joana da), 279.
— (Paulo da), 282, 283.
Games, 196.
Garcia t^Diego G. de Bragança),
200, 279, 293.
Garcilaso (de la Ves;a), 123.
Garci-sanchez Vid. Badajoz.
Gato (Juan Alvarez), 20, 248.
Gavião, 126.
fiasco (António Coolho), 47.
Genetes, 78.
Giraldez (Afonso), 331.
Glosas de romances abreviados,
106, 155, 287.
Goa, 282, 283.
G-odoy (Francisco), 100.
Góes (Damião rio), 243, 311.
Gomes (Alexandre; Flaviense, 32.
Gonzàlez Pernán), el Buen <
de, 19, 33, :;i.
Góngora, 170.
Goyri (D. Maria). Vid. Menéndez
Pidal.
Graal ( I Tema „da dõ)t 290, B27.
Grão Capitão Gonzalo IVinán-
dez), 38.
Grimm (Jakob), 175.
Grosar romances, 67.
Guevara (Luis Velez de), 73, I7<i,
305.
Guinéo (linguagem depretoj, 191,
270.
Guimarries(Delfim), 263, 266,292,
294.
Ilagadesle, hagadesle monumen-
to de amores, ;he!, 231.
H rdung (Victor), 6.
Vid. Cancioneiro de Évora.
Haiiaiias }7 la Rua, 245.
Hero e Leandro, 154.
Historia de Vespasiano, 33.
Homem (Pedro), 255, 292.
Hurtado de Mendoza (Diego),
196.
— de Toledo (Luis), 75, 155,
265.
lllustraçào Trasmontana, novís-
sima revista portuguesa (Por-
to, 1908), em que apareceram al-
guns romances tntdicionaes.
índices Expurgatorios, 139, 140.
Infanta, Infantina , Inft i n tinli a ,
227, 228, 287.
— de França, 169, 227.
— enfeitiçada, 165, 227.
— que finge de malata ,
165 s., 227.
Infantes de Lara, 17, 19, 35, 3!).
Jdvosjazed.es, peixes nas redes,
202, 325.
ÍNDICE
JHo Lourenço, el de los Criemos
de oro, 72, 333.
Jeanroy (Alfred), 5, 16.
Joilo Vid. Jao; Manuel; Meneses.
João (Rei D. João II.), 250.
Judeus, 7, 40, 62, 95.
Justa fuê mi perdición, 123, 237,
262.
Justa Rodríguez, 235, 237, 238.
Kelly (James Fitzmaurice), 302,
318, 330.
Koehler (Reinhold), 175.
Lacerda Mexia de), 73.
La [/'irra toma receio, 24(i, 252.
Lambra (D.), 39.
Lang (H. R.). Vid. Cancionero
Gallego-Castellano , 301.
Leite de Vasconcellos (Dr. José),
7, 9, 29, 175, 211, 316, 318,
321,324.
Lendas da índia, 30.
Libro de música de vihuela. Vid.
Milán.
Livraria do Povo, 35.
Livro de linhagens , 29, 34, 39.
Livros de Cordel. Vid. tolhas
Volantes.
Lobo (D. Diogo, Barfto de Alvi-
to), 253.
— (Fernão Rodríguez Lobo).
Vid. Soropita.
— Alvito, 254.
— (Francisco Rodríguez), 16,
49, 91, 188, 279, 295.
Loigny (Monsenhor de), 308, 333.
Lopo de Vega, 10U, 176, 186, 247.
López (Afonso), 140.
— (Anrique), 97.
— (António de Trancoso), 16,
135, 279, 29: i.
Lura (Francisco de), 14, 170.
Lucanor (Conde), 230, 234.
Lucena (João Rodríguez de\ 258.
Lusíadas (Os), 332.
Lusismos em textos castelhanos
de autores portugueses, 29,
152, 229, 245, 316, 328, 331.
Machado (Simão), 187.
Macias, 249, 250, 256, 305.
Madeira (Domingos), músico, 27.
Madrid (António de), 309.
— (Francisco de), 309.
Mal de amores, 14, 197, 218, 287.
Maldições, 97, 199, 200, 261, 298.
O título de Maldiciones, é dado
em algumas Folhas volantes ao
Claro-escuro de (larcisanchez
(El dia infeliz noturnó).
Maldições de Salaya, 199, 200,
286," 293.
Maldizer (Trovas de escarnho e),
281.
Manrique (Gómez), 159, 240, 301,
302.
Manrique (Jorge), 237.
Manuel (D. João), 16, 230, 231,
233, 246, 248, 265, 291, 297,
305.
Manuel (D. Juan), 230, 234.
Margarida de Sant' Ana. Vid.
Micaela.
Mariana (Soror), a Religiosa por-
tuguesa, 266.
Marín (Francisco Rodríguez),
102, 175, 188.
Marquei de Máutua, 110, 112,161.
Marquina (Francisco), 171, 185.
Mascarenhas (D. Leonor), 252.
Matantes, 84, 86, 168.
Melo (D. Diogo), 28:;.
Mello (1). Francisco Manuel de),
49, 53, 91, 93, 108, 121, 158,
162, 164, 191, 208, 217, 212,
275, 283, 295.
ÍNDICE
Mena (Juan de), 20, 49, 239, 249,
251, 252, 301, 302, 303, 305.
Mendes dos Remédios (Dr.), 105,
219.
Menéndezy Pelayo( Marcelino), 5,
6, 10, 17, 42,43, 112, 164,228,
238, 241, 244, 250, 286, 297,
300, 330.
Menéndez Pidal (Juàn), 5, 8, 13,
17, 22, 25.
Mméndez PHal (Raraón), 5, 7, 8,
16, 22, 41, 106, 108, 121, 281,
284,330, 331.
Menéndez (D. Maria O-oyri), 8,
22, 26, 135, 178, 284.
Meneses (D. João de), Cantanhe-
de, 124, 201, 229, 232, 239,
240ss, 252, 265, 272, 289, 291.
Meneses (D. João de), Conde de
Tarouca, 234, 240, 241, 292,
305, 311.
Meneses (D. João Rodríguez de
SáeMj, 32, 64, 131,258,292,
311.
Meneses (D. Jorge de), Baroche,
283.
Menina e moça, 293.
Merlim (Livro de), 327.
Mi tormento desigual, 245.
Micaela (Sor Micaela Margarida
de Sant' Ana), 108, 291.
Miehaélis (Carolina). Vid. Vas-
concellos.
Milá y Fontanals, 6, 7, 10, 11,
14, 15, 17, 20, 188, 327.
Milan (Luis), 83, 84, 90, 103, 109,
111, 117, 119, 128, 133, 173,
197,227, 311.
Minha alma, lembrai- vos d' ela,
177.
Miranda (Dr. Francisco de Sá de
M.), 65, 101, 193, 194, 201, 202,
234, 244, 247, 25!», 272, 294,
298, 311.
Mirandistas, 294.
Misanco, Misancho, Misauco, 199.
Kiscellánea e variedade de his-
torias, 38, 260, 309.
Vid. Resende (Clareia de).
Miscellánea ou Selada, 56, 81.
Vid. Andrada.
Moliana, 91.
Molina (Tirso de), 225, 290.
Momos, 255, 299.
Mondragón (Cristóbal Velázqaoz
de), 185, 195.
Moniz (Pêro), 254.
Montemayor {Leyenda dei Ahad
Don Juan de), 331.
Montemor (Jorge de), 16, 131,
173, 196, 245, 279, 294, 307,
308,311.
Montesino (Fr. Ambrósio de), 46
Montesinos, 117.
Moraes (Francisco de), 277.
Morrer de amores. Vid. Mal de
amores.
Munthe, 13, 168.
Música de romances, 10, 78, 82,
89, 90, 125, 142, 157, 162, 169,
174, 179, 180, 188. Vid. Enci-
na, Gabriel, Fuenllana, Millanj
Narvaez, Ocaiia, Pisador, Sali-
nas, Valderrábano, Vázijuez,
Vicente e Canciouero Musical,
306, 307.
Muy graciosa es la doncella, 311.
Não morreu de tabardilho , 285.
Nem morreu de garrotilho, 218.
Nem morreu pelas tabernas, 286.
Niaa, erguedme los ojos, 310.
No hallo á mis males cul pa, 233,
239, 245, 248.
No murio por las tabernas, 59.
Norabuena quedas, Menga, 310.
Noronha (D. Alfonso de), 283.
— (D. António de), 103.
Nunca cerraran los ojos, 245, 311.
Nunca fue pena mayor, 310.
Nuncas, 79, 199, 201,298.
O teneis miedo á los mo vos, ó en
Francia teneis amiga, 111.
Ocaiia, 197.
Oliveira (Athaide de), 7, 27.
(Cavaleiro de), 135, 153,
295.
(Fernão de), 140.
Olvide y aborreci, 248.
Ormuz, 283.
Os />resos contam os dias, 265.
OvHio (IleróYdas, trad. em por-
tuguês), 258.
Padilla (Pedro de), 196.
Padron (Juan Rodriguez dei Pa-
dron), 20, 231, 249, 250, 304,
305, 329.
Palavras moraes, 261.
Palmeirim de Inglaterra, 277.
Pareados dissonantes (ou discor-
dantes) 97, 261, 263, 265, 274,
298.
Pares (Doze p. de França) , 81 , 94.
Paris (G-aston), 5, 11.
Passando el mar Leandro el ani-
moso, 123.
Pedro (Infante D.), Regente de
Portugal, 278. 301,302,308.
Pedro (Infante D.), filho de D.
João V, 308.
Pensando vos estou, filha, 263,
298.
Peralta (Luis), 90.
Pereira (A. Gomez), 220.
Pereira (Francisco López), 28.
Pereira (Manuel P.), d'Os??eiii ou
de Santarém, 57, 71.
ÍNDICE 359
Pereira (Nuno), 190, 249, 291 .
Perez (Alonso), 196.
Pina (Ruy de), 48.
Pinar, 181, 182, 230, 231, 232,
304.
Pinto (Jorge), 53, 60.
Pires (Tomas), 7.
Pisador, 78, 82, 311.
Pliegos sueltos, 123, 262, 296,
298, 303, 306. Vid. Folhas Vo-
lantes.
Poema (apócrifo) da Cava, 26,
330.
Poema de Alexandre, 330.
de Alfonso XI, 33,35,301,
331.
de Bistoris, gram sabe-
dor, 331.
do Abade D. João de
Montemor, 331.
Poesia épica dos Peninsulares,
329 ss.
Polo (Gaspar Gil), 196;
Polvareda, polvaria, polvorinho,
100.
Porebowicz (Eduardo), 28.
Porquês, 97, 199, 261, 284, 298.
Porquês de Setúbal, 250, 254, 255,
257, 295.
Portalegre (Frei António de), 160,
279, 309, 310.
Portos de Aspa, 43, 82.
Portugal (D. Francisco de), 91,
98, 109. 118, 114, 117,119, 127,
129, 137, 295.
Portugal (D. Manuel de), 278,
279.
Portugália, 7.
Postos estão frente a frente, 27!>.
í'ranfo d,: Maria Parda, 16, 101.
Prestes (António), 35, 60, 63, 77,
78, 85, 103, 107, 119, 121, 130,
360 ÍNDICE
L36, 158, 16», 172, 173, 198, 200,
206, 245.
Priebsch Br. Joseph), 172.
./'/•/ maleon , 134.
Primavera y flor de romances,
28G.
Príncipe D. Afonso (filho de D.
João II), 46, 226, 231, 235, 239,
241, 242,243, 251, 252, 260,
274, 276, 278.
Príncipe D. João (II), 233, 250,
251.
Príncipe D. João (III), 243.
Príncipe I). João (alho de D. João
III), 55, 272, 273, 274, 275.
Príncipe D. Juan (filho dos Reis
Católicos), 45, 48, 272, 273, 274,
275.
Prisioneiros românticos, 178, 287.
Processo do Cuidar contra o Sus-
pirar, 190, 244, 249, 252, 291.
Provérbios, 35, 42, 95, 129, 137,
214, 215, 216a., 261, 290, 314.
Pungor, 283.
Quando Roma conquistava, 159.
Foi imitado por Gil Vicen-
te na Exhortação da
Guerra.
Que es de ti, desconsolado, 310.
Que haré yo sin ventura, 310.
Que no vivo porque vivo, 246.
Quem tem alma não tem vida,
246.
Quem tem farelos, 180. Vid.
Auto...
Quesada, 190, 195.
Quevedo, 34, 114, 116, 173.
Quini pone su afleion, 310.
Quixote (D.) 26, 33, 88, 119, 157,
199, 314. Vid. Cervantes.
Uapaz do Conde Dar os (O),
167.
Ratinhos (da Beira), 67, 125,818,
320.
Veja-sc Revista Lnsi
ta na. XI, p. 27.
Recuerde, el alma dormida, '■'>!,
303.
Regente (O.), Vid. D. Pedro In-
fante.
Regras de bem viver, 261, 298.
Rei D. Rodrigo, 25, 287.
Reinalte, Reinaldos, 99.
Reinosa (Rodrigo de), 170.
Reinoso (Alonso Núnez dei, 131,
166, 265 (Vid. Erratas).
Reis Dâmaso, 297.
Resende (André Falcão de), 207,
218, 279, 294, 299.
— (Garcia de), 38, 46, 71,
177, 190, 215, 229, 248, 251,
252, 259, 298, 305, 309, 311.
Revista de Guimarães, 7.
Revista do Minho, 7.
Revista Lusitana, 7.
Revue Hispanique, 7.
Riaiio (Pedro de), 161,
Ribera (Juan de), 188. ¥
Ribeirinha (Maria Paes Ribei-
ra), 87.
Ribeiro (António R., o Chiado),
125, 193, 261.
— {Bernardim), 16, 122,
123, 131, 261, 272, 281, 289,
292, 297, 298, 305, 320.
Rimance, 71, 221, 222, 223, 228,
296, 298.
Rocinante, Rocynam, 29.
Rodrigo (D.), Vid. Rei.
Rodríguez (Daniel), 9.
Rodríguez (D. João R. de Sá e
Meneses), A7id. Meneses.
— (José Maria, -jr>;».
— (Lucas), 56, 203.
ÍNDICE
Rodríguez de la Câmara, Vid. Pa-
drón).
Roland (Chanson de), 19, 94,
101.
Roldão, 94, 116, 118.
Romance, como designação de
cantaras narrativos, 222, 223.
Romances apócrifos, 22.
asturianos, 328.
artísticos, 304.
carolíngios, 19, 94.
históricos, 6G, 14., 305.
Romance da Bella mal-marida-
da, 188,287,297,310,
da Donzela-varão, 1G7,
1*58,287,333.
da lnfanti nha, 227,287.
d& Nau Cateri neta, 207,
334.
da Rola viuva, 73, 287,
334
das Senhas do marido,
106, 108, 207, 227.
de Avalor,2(\2,2i .5,298.
de Bernal- Francas, 333.
de Búrnardo dei Car
pio, 31 a 34, 286.
de 1). Duardos e Fle-
fida, 24, 107, 133hs,
228, 270, 276, 287,
328.
de Floresvento, 7.
de Fonte - frida, 173,
174, 334.
de Gai feros, 11,48,96,
102sa, 122, 204, 287.
de Oerinetdos, 838.
de h. Tnêt de (lastro,
204, 209.
de 1). Isabel de Liar,
204, 209.
861
Romance de Jão- Lourenço, 72,
333.
de Hero e Leandro, 164.
de Roncesvales, 11, 94,
98, 28(3.
de Santa Iria, 22, 333.
de Silvaninha (ou Sil-
varia), 12(>, 161, 163,
275, 287, 293.
de Tiempo-bueno, 129,
184, 186, 219, 228,
287, 298, 311, 334.
de Valdevinos, 109,2*6.
dei Cid, 41 a 65, 211,
286, 333.
do Cativo, 323.
do Conde Alarcos, 161,
285, 287.
do Conde Claros, 126,
128, 204, 207, 287,
333.
do Conde Nilo, 132, 333.
do Duque de Alba, 9.
do Mal de amores, 14,
218, 287, 334.
do Monte Medulio (apó-
crifo), 330.
do Penitente (Rei D.
Rodrigo), 20, 286.
do Príncipe D. Alfonso,
22, 239, 242, 243, 251 ,
252, 260, 278, 883. *
do Príncipe I). João,
21á, 275.
do Príncipe D. Juan,
15, -18, 272, 273,275.
do Priiioneiro, 218, 2K7,
834.
dos Figueiredos, 330.
* A análise do romance popular,
prometida a p. 2i'ó lieou de referva.
362 INDH
Romances doa Xaboncrub, 2o2,
286.
— contrafeitos, 219, 810.
— trovados, 58, 1G5, 310.
Romero (Silvio), (5.
Rouanet (Leo), 51, 59, 185, 197.
Sá e Meneses Vid. Meneses.
Sá de Miranda Vid. Miranda.
Sabugosa (Conde de), 292, 308.
Sagramor, 55, 138.
Vid. Segunda Tavola Re-
donda.
Said-Armesto (Victor), 7.
Salaya (Alonsode), 200.
Vid. Maldições.
Salcedo (músico), 309.
Salinas, 125, 162, 311.
Salsete, 210, 228.
Sande (Ruy de), 233, 237, 260.
Santa Teresa de Jesus. 246.
Santillana (Marquês de), 20, 30,
231, 247, 301,302, 303.
Sarzedo (Miguel de) músicc,
309.
Saravia (Gabriel de), 16.
Saudades da Terra, 275.
Saudade minha, 73.
Sebastião (Rei D.), 26, 273, 275.
Sedano (músico), 309.
Segral, 302.
Segunda Tavola Redonda, 55,
133, 273, 274.
Sentenças, 298.
Serrana de la Vera, 7.
Serranilhas, 247, 296, 320, 325.
Serrano y Sanz, 56.
Sibila, Sebila, Sybilla, Sevilla,
110, 115.
Silva (Feliciano de), 265.
— (D. Leonor da), 190, 249
251, 252,260, 291.
Silva (A. Rebollo da), 87.
Silveira (Fernão da), o de Toro,
225, 250, 25» i, 257, 259.
Silveira (Fernflo da), o Coudel-
mor, 252, 256, 257, 259, 292.
Silveira (Francisco dai, 250, 261 ,
252, 257.
Silveira (João da), 223, 225, 253,
292.
Silveira (Dr. João Fernández da)
225, 253 .
Silveira (Jorge da), 190, 249,250,
251, 252, 291, 292.
Silvestre (Gregório), 176, 192,
196, 197, 279, 294, 307, 311.
Soares (Jerónimo Ribeiro), 129,
208.
Solao 70, 263, 264, 298,312.
Soropita (Fernão Rodríguez Lobo),
39, 50, 282, 294.
Soto (Barahona de), 131, 174,
196, 288.
Sou3a (D. João de), 223, 254 s.
— (Frei Luis de Sousa), 265.
— (Ruy de), 224, 254 s.
Storck (Wilhelm), 16, 30, 37, 38,
83, 128, 136, 152.
Surrate, 103.
Tavares (Abade José Augusto),
7, 104, 211.
Tavoada do Cancioneiro, 254.
Teixeira (Tavares), 211.
Terremoto dos Açores, 275.
Torneio de Euxobregas (Xabre-
gas), 55, 274,275.
Toro (Batalha de), 225, 226, 305.
Torres (André de), músico, 309,
310.
Tradição (A), 7.
Tr agendo los pies descalzos, las
unas corriendo sangre, 105.
Tremiiio (Jerónimo T., de Gaiata
yud), 113.
ÍNDICE
Triste dei, triste, que muere, si ai
paraíso no va, 205.
Tristeza, quien d mi vos dio,
310.
Trovas, 70, 71.
Trovas de D. Inês, 259, 278, 289.
Vid. Castro; Resende.
IVovas de escárnio e maldizer,
273, 281.
Uhland (Ludwig), 173.
Ulysipo, 64, 111, 115, 120, 130,
159, 163, 167, 170, 186, 205,
206, 273.
Una donzella divina, 310.
Valderrábano, 115, 311.
Valdevieso (Nicolás de), 309.
Valdevinos, Valdovinos, 94, 99,
109, 115.
Valdivielso (Josef de), 108, 136.
Valera (Mossen Diego de), 301.
Vasco Goncellos (Jorge de), 271.
Vasconcellos (Jorge Ferreira de),
16, 36, 47, 52, 53, 55, 85, 98,
112, 125, 130, 133, 138, 140,
. 163, 167, 170, 193, 227,244, 264,
271, 275, 281, 287, 294, 321,
333.
Vasconcellos (Dr. José Leite de).
Vid. Leite.
Vasconcellos (D. Carolina Michaè-
lisde), 5, 7,13, 16, 21,27,29,
45,69,75,78, 8(5,94, 101,114,
363
123, 124, 172, 184, 188, 197,
199,229, 234, 239, 330.
Vega (Gabriel Laso do la), 70,
273.
Lope. Vid. Lope.
Veiga, Tangedor de harpa, 156.
— (Estacio da) 6, 9, 26, 27,
45, 48.
Vespasiano (Lioro de), 327.
Viana (A. R. Gonzálvez), 316,
318, 332.
Vicente (Gil), 16, 32, 40, 41, 46,
47,48, 61, 91, 95, 97,101, 102,
164, 169, 180, 191, 192, 194,
202, 206, 207. 244, 254, 270,
287, 292, 299, 307, 311, 312,
315,325.
Vicente de Almeida (^Gil) Vid.
Almeida.
— (Luis), 139.
— (Paula), 139.
Vilancete, Villancico por deshe-
cha, 226.
Vilhacastim, 311.
Villalobos (Dr.), 185.
Viterbo (Dr. Sousa), 294, 309, 311.
WolF (Ferdinand), 6, 11, 36, 72,
88, 91,286, 296.
Xahoneros Vid. Romance.
Ximenez (Licenciado), 196.
Zamora, 48, 53, 225.
— (Juan de), 190; 195.
Erratas essenciaes,
Correcções e Adições.
Pagina.
Linha.
12
Onde se lé:
Leia-se:
12
d'quell' outro
d'aquel'outro
13
7
una
uma
16
21
en
em
16
34
de Ajuda
da Ajuda
17
12
d'ora a vante
d'ora avante
23
13
donosso
do nosso
3G
23
1 567
i >><;:;
40
34
o Apêndice N° 12
P . 209
41
18
E
É
41
26
un
um
41
34
En
Em
42
2
queias
queixas
48
15
III 217 e 249
III 217 e I 249
49
22
Sancho
sancho
51
7
agra dou
agradou
53
22
o piniáo
opinião
54
23
Pr. 4) (3)
Pr. 43 (3)
55
13
mantedor
mantenedor
55
28
so
SÓ
57
27
XVIII
XVII
61
2
[y en su mano una aza-
çaya]
y en su mano una azagaya
62
34
m'stavas
m'estavas '
66
1
cabezas
caberás
70
33
a cora e fio
ao coraçno
73
4
pertencem em
pertencem a
73
5
acolhidos a
acolhidos em
73
IH
mudada
mudado
74
86
Eu me era
Eu me sam
80
16
á quelle
àquele
80
32
Granada (gic
Acrescente se: A formula
ocorre nas Trovas de
Nuno Pereira a Anrique
de Almeida, na sua-vin-
da de Castela, com o Du-
que.
366
ERRATAS
Pagina.
L Inha.
13
Onde ■
/ niu-se:
Kl
o caberá
a cabeça
82
21
romance original
romanoe
81)
21
flor
dor
90
11
con
i o m
93
4
sangro
Híingue
98
29
peado-
peado-
103
20
Surate
Surrate
105
38
acguns
alguns
107
25
aljabebes
[a] aljabebes
109
22
vagativus)
vagativus,
110
6
oje
hoje
110
12
ó
0
110
26
propiedade
propriedade
110
33
Depois de: Anules p,
31
devia, entrar o verso: Tan
claro
113
19
Baldovinos
Valdovinos
125
4
Portugal,
Portugal (1)
125
6
apaixonados» (1),
apaixonados,
127
32
galaeo
galeão
137
18
de
do
139
6
compilação .
compilação
141
36
siguintes
seguintes
152
33
romance
romance em
155
13
Conto
Couto
158
11
(não do fero — d'Achi
0
(nâo do fero) — d' Acha
1G5
28
caza
oazar
106
2
Rodrigo de Reinosa
Alonso Nunez de Reinoso
166
27
Louise Labé, a donzela de
Louise Labé; a donzela de
Lutzelburg ou a
Monja
Lutzelburg; a Monja -Al-
Alferez; Catalina
Erau-
ferez Catalina Erauso;
so, Antónia Rodri
guez
Antónia Rodríguez
172
8
[97]
[87]
173
11
geralmete
geralmente
174
25
pajarijas
pajarillas
182
8
Carta
Carta II
184
4
e
é
190
23
de Silveira
da Silveira
201
5
passo
posso
203
12
A menudo
[101] A menudo
206
11
(III 233)
(III 323)
208
28
orno
como
211
19
respeitivo
respectivo
217
20
de Marquís
do Marquês
219
1
êsceveu-a
escreveu-a
221
14
a existência
a nTío existência
221
25
Belema
Belerma
222
1
de Castela
de Castela
222
11
de justiça
de justiça
ERRATAS
367
Hayina.
L inha.
3
Onde se lê:
Lei ase:
223
1636
1540
230
33
da teatro
do teatro
231
24
Depois de endechera acres-
Encina tornou a empregá-
cente-se:
la na Egloga de Plácida
y Victoriano (p. 262 das
Obras)
233
1
versos (1)
versos
233
2
viviam
viviam (1)
236
26
Acrescente-se:
A sentença contra ele foi
impressa no Archivo His-
tórico II 71 . Ahi tem
sempre o distintivo 0
Moço.
240
21
Brasas
Brasões
241
25
Feyos
Feytos
245
9
pasafraseada
parafraseada
250
35
259
219
250
35
de Silveira
da Silveira
251
7
do cuidar
do Cuidar
252
3
persiguia
perseguia
253
21
Bocaccio
Boccaccio
259
17
[145]
[148]
264
24
de Encina
dei Encina
265
26
Jarhesbericht
Jahresbericht
270
13
em 1539
em fins de 1539 ou princí-
pios de 1 544 )
272
28
1515
1516
275
29
a 25 de Julho, dia de San-
a 15 de Agosto, e na o a 25
tiago; segundo outros a
de Julho, dia de Santia
5 de Agosto.
go, nem a 5 de Agosto,
como outros afirmam.
278
4
exemplares
exemplos
280
13
pró pio
próprio
283
12
de Gama
da Gama
285
1
IX
IV
288
4
Neles
Nelas
294
14
Bernardez, Frei Agostinho
Bernardez, e podia ter
da Cruz
acrescentado Frei Agos-
tinho da Cruz
295
9
Alonso
Afonso
297
32
Resande
Resende
298
39
e sas
essas
800
25
como
com o
301
22
Afonso
Alfonso
301
23
Alfonso
Afonso
308
21
as suas obras
as obras do monarca
310
8
Canciones
Canciones
310
22
deo
dio
Pagina. Linha.
ERRA TAS
Onde se lê:
Lei ase:
310 40 Qu' es de ti desconsolado
Nesie romance ha o \ ■
Reniego y<i de Mahoma
y tle. su safa malvada
312
34
Maio
Abril
313
4
dionaes
dicionaés
316
38
Stutgart
Stuttgart
318
34
Lecte
Leite
318
37
ido
tido
321
19
foi-
foi
321
29
dizere
dizeres
324
10
é
e
32()
84
Garrett e T.
Braga. Sobre-
Sobretudo Almeida- Garrett
tudo Almeida.
e T. Braga
331
33
Cog.
Cogi
331
36
morire
morir e
331
37
GrundricH
Grundriss
333
20
Sanl
San-
334
1
ta-
tal
334
8
frida? (3)
frida?
334
24
Barcelona
Barcelona (3)
334
32
T. A. Coelho
P. A. Coelho
A' discrição dos leitores deixo a emenda de outros erros de
fácil correcção, tanto na pontuação, nos acentos (incluindo hí-
fen, til e traços de suspensão) como no emprego de maiúscu-
las e tipo cursivo, e na numeração de páginas e parágrafos.
0 bilinguismo necessário do meu estudo, e os sistemas opostos
de ortografar, empregados em Portugal e Hespanha, fizeram
incorrer os tipógrafos e revisores em esses e outros defeitos,
apesar do escrúpulo inteligentíssimo com que me auxiliou na
revisão das provas meu bom amigo, o Excmo. Senhor Dr. J.
Leite de Vasconcellos.
C. M. de V.
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